terça-feira, 29 de junho de 2010

Vivendo de cultura


Eu estava no terceiro whisky quando ele chegou.
“Cara, quanto tempo! E os bacurizinhos como vão?”
Sempre ri intimamente de seu jeito acariocado de falar, afinal, ele o adquiriu nos poucos meses em que serviu em um quartel no Rio...
Apesar de, naquele momento, estar disposto a ficar só com minhas conexões neurais, não pude me furtar a ser gentil:
“Aguirre, há quanto tempo! Como vai o Fernando Pessoa de Uruguaiana?”
“Que é isso, cara”, diz ele, tentando fingir modéstia, “é bondade sua...”
“Senta aí e vamos tomar um ‘goró’.
“Tá, mas é só um, tenho que seguir trabalhando...”
“E o que tem feito da vida?”
Para que fui perguntar? Seus olhos brilharam e marejaram:
“Tenho tentado viver de cultura nesta cidade ingrata e inculta.”
“Viver de cultura? E como é isso? Vai dizer que tá sendo sustentado por uma professora?”
“Antes fosse”, responde ele, limpando o suor da careca precoce, enquanto tenho uma vontade quase incontrolável de rir de seus olhos esbugalhados atrás dos grandes óculos, “antes fosse... estou tentando viver dos meus livros.”
“De teus livros? Não sabia que escrevias!”
“Livros de poesia, mané!”, diz ele, tirando da bolsa finos volumes impressos em jato-de-tinta e colados com tenaz, “veja, já escrevi quatro”.
E abre um, aleatoriamente, lendo um de seus poemas pós-modernos-anarco-punk-nacionalista-românticos, mas só consigo prestar atenção à saliva que salta de sua boca a cada estrofe, enquanto os olhos verdes se abrem ainda mais.
“E então, o que achou?”, questiona por fim.
“Belíssimo!”, minto, “és um incompreendido”.
“Então me compra um?”
“Quanto é?”
“Quinze pila.”
“Ih, se tivesses chegado uns dois whiskys antes eu comprava.”
“Então me paga um lanche?”, pergunta, salivando pelo meu prato de batatas fritas frias.
“Claro. Garçon!”, chamei, “uma torrada, por favor.”
Por fim, ‘doou-me’ um de seus livros:
“Este ficou mal impresso”, disse com desdém, e partiu, pois já avistara, em outro bar, outro amigo para quem vender um volume e, quem sabe, viver de cultura por mais um dia.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Contos do Universo Paralelo



Não falha nunca. Cada vez que, nos últimos anos, fui apresentado a uma pessoa e relatei-lhe minha profissão ela invariavelmente dispara uma das três perguntas básicas, todas elas versões de um mesmo questionamento: Você não tem medo? O que você fez para merecer um emprego destes? Não é um lugar horrível?
Esta é sempre a introdução para o verdadeiro interrogatório que vem a seguir: É verdade que lá é o lugar onde o homem chora e a mãe não escuta? Você já bateu em alguém? Alguém já tentou te matar? É muito perigoso? O que é que vocês comem? Os presos são muito perigosos? Como funciona isso ou aquilo?
É um ritual repetitivo e, com o tempo, cansativo, mas mesmo assim não posso culpá-los.
Eu mesmo, por muito tempo tive essa espécie de curiosidade mórbida acerca da realidade do mundo atrás das grades, deste verdadeiro universo paralelo, com sua própria realidade, suas próprias leis, seus códigos não escritos, sua própria linguagem, seus personagens únicos e ímpares.
Lembro-me que há alguns anos li em algum lugar que a guerra e a cadeia são os únicos dois lugares onde o homem mostra sua real face e eu, um romântico inveterado (muito mais no sentido ideológico do que no sentimental), sempre quis conhecer essa face. Não lutamos uma guerra desde 1945 (não contando, é claro, as guerras internas tipo ditadura militar x subversivos ou a guerra diária que se vê nos bairros mais afastados das grandes cidades). Assim, sempre me restou a cadeia, aquele lugar onde o homem, pensava eu, vira animal; o famoso homo lupus homarum, dos antigos romanos.
Assim, sempre fui fiel consumidor de materiais que versassem sobre o tema, tais como o ótimo “Estação Carandiru”, do Dr. Varella, ou Na Cadeia, um mangá escrito por um ex-presidiário, ou ainda filmes como “À Espera de Um Milagre”, “Um Sonho de Liberdade” ou séries como “Oz”. Porém, além de todas essas obras versarem sobre realidades distantes da minha (Rio de Janeiro, EUA, Japão...) não respondem à pergunta básica que, eu próprio, nunca me havia feito (e que também nunca me fizeram), mas que, hoje, creio fundamental para que se compreenda a vida (tanto dos reclusos quanto dos funcionários): como definir a cadeia em uma palavra?
É, como você definiria em uma palavra a vida atrás das grades? Seria VIOLÊNCIA, como nos mostram os filmes holliwoodianos? Seria SOLIDARIEDADE, como nos mostra o Dr. Dráuzio? Seria CONFLITO? Seria SOBREVIVÊNCIA?
Neste pouco mais de meia década em que trabalho no sistema prisional gaúcho, minha realidade me mostrou que não, que embora essas palavras possam ser usadas a uma situação ou outra, a palavra que melhor define a vida da carceragem é TÉDIO.
É, caro leitor, creia-me, Tédio (com um T bem grande pra você, como diria o Renato Russo). O tédio infindável de um dia igual ao outro, de uma rotina de hábitos imutáveis e esmagadores, tanto para um lado da grade quanto para o outro.
“Mas nunca acontece nada nesse lugar?”, pergunta o leitor mais ansioso, já prestes a largar o texto, “e as rebeliões? E as mortes que escutamos no Jornal Nacional?”
Sim, caro leitor, esclareço-te: existem sim rebeliões, existem sim assassinatos frios, existem sim batidas e lutas, demonstrações de bravura e de covardia, violência sexual, drogas, injustiça, luta pela sobrevivência, amores impossíveis e tudo o mais que você já tenha ouvido falar; mas esse todo, juntado e rejuntado, quando comparado à realidade do dia-a-dia, segundo meus cálculos, não chega a 1% da realidade do ambiente prisional.
O resto, os outros 99%, são compostos basicamente de um infindável abrir e fechar de portas, conferências, revistas que não dão em nada, relatórios, relatórios e mais relatórios, como de resto o gera todo o burocrático sistema judicial romano.
É, pois, nessa mesmice de trabalho e de cumprimento de pena que tenho vivido há quase dez anos, tanto na cadeia onde estou lotado, quanto nas diversas cadeias onde prestei reforço mediante diárias, conseguindo garantir um reforço ao minguado salário que o governo nos paga.
E foi neste feijão-com-arroz do dia-a-dia que nasceu o desejo de escrever sobre o assunto. É, ele nasceu dentro da cadeia, pois ele é apenas uma extensão de um velho costume vigente no cárcere (novamente tanto do servidor quanto do preso): o de contar histórias. O de relatar e dar saborosas pitadas de inverdade a histórias acontecidas, a maioria delas dentro do próprio ambiente prisional.
Assim, as histórias que aqui passo a narrar, são fatos que vivi, vi ou que me foram relatados em longas tardes de pouco serviço, em extensas noites de folga em diárias, em compridas viagens, entre chopes ou vinhos em algum bar, comendo pinhão na serra, tomando mate na fronteira, no momento de relaxar após longas horas de serviço...
Apesar de baseados em fatos reais, porém, os textos que ora passo a postar devem ser entendidos como ficcionais, já que todos os cenários, fatos e personagens foram alterados, recombinados e tiveram seus nomes trocados, a fim de que as pessoas envolvidas não se sintam nem sejam prejudicadas ou vejam expostas ao público histórias que deveriam ficar guardadas apenas nas lembranças das enfadonhas horas do cárcere.
Como, porém, diria o Luiz Fernando Veríssimo, “uma mentira é uma verdade que deixou de acontecer”. Assim, embora ficcionais, os relatos escritos por esse humilde narrador podem (e devem) dar ao leitor uma idéia mais clara e realista da vida atrás dos muros, cercas e grades que retém homens e mulheres que, ou ousaram desafiar à lei, ou ousaram tentar cumpri-la.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Me explica que eu não entendi...

Quer dizer que o Irã, por estar trabalhando em um programa nuclear que, até se prove o contrário, tem fins pacíficos, merece sanções da ONU e o ataque da imprensa mundial, enquanto Israel, que comprovadamente atacou um navio de ajuda humanitária em águas internacionais não merece nem um 'puxão de orelhas'?
Quer dizer que a ONU, que deve representar e intermediar as relações entre as nações serve, apenas, para justificar um lado, coincidentemente o lado que interessa aos norte-americanos?
Por favor, se alguém entendeu me explique...

domingo, 6 de junho de 2010

Cuidado, ler pode ser perigoso


O texto não é meu, faz parte de uma campanha de incentivo à leitura, idealizada e produzida por: Deborah Toniolo, Marina Xavier, Julia Brasileiro, Igor Melo, Jader Félix, João Paulo Moura, Luciano Midlej, Marcos Diniz, Paulo Diniz, Filipe Bezerra. (Alunos do 2ºano - turma pp02/2003 - do curso de Publicidade e Propaganda da UNIFACS - Universidade Salvador), mas seu conteúdo é tão bom que eu assino embaixo (como se eu assinar embaixo significasse alguma coisa...)
O vídeo está no youtube e também vale à pena: http://www.youtube.com/watch?v=iRDoRN8wJ_w&feature=related.


Ler pode ser perigoso

Pensando a respeito, eu acho que ler devia ser proibido.
Nada contra quem lê, mas de certas coisas não se duvida e ler não é nada bom.
A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade.
A leitura tira o homem de sua vida pacata e o transporta a lugares nada convencionais.
Pra uma criança o perigo é ainda maior, por que ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo e querer até mudá-lo; dá pra imaginar?
E tem outra coisa: ler pode estimular a criatividade, e você não vai querer uma criança bancando o geniozinho por aí, quer?
Além disso, a leitura pode tornar o homem mais consciente, e ia ser uma confusão se todo mundo começasse a exigir o que merece!
Nada de vagar pelos caminhos da imaginação simplesmente por que leu um bom livro.
Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer.
Quer um conselho? Silêncio.
Ler só serve aos sonhadores, e a vida não é uma brincadeira.
Cuidado, ler pode tornar as pessoas perigosamente mais humanas...

Dancem macacos, dancem

Video do youtube, imperdível.
http://www.youtube.com/watch?v=MUVVYYxhV2U

Cegueira


“É dessa massa que somos feitos, metade indiferença e metade ruindade”.
A frase, do genial Saramago (foto), define o livro (estou lendo Ensaio Sobre a Cegueira).
O alfarrábio é ótimo e um pouco mais fácil de folhar do que as demais obras do mestre português.
Para quem ainda tem fé nos bípedes (como nos definiria Schoppenhauer), é um verdadeiro soco no estômago; para quem é realista, um espelho da humanidade.
Se você assistiu ao filme de Fernando Meirelles e gostou, não pode perder a obra; caso não tenha apreciado, dê uma chance ao original, que é bem melhor que sua adaptação à 7ª arte.
Em minha opinião é o segundo melhor livro do único escritor de língua portuguesa detentor do Nobel de Literatura, ficando atrás somente do Evangelho Segundo Jesus Cristo.
É ler pra crer...