sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beatriz vai às compras

Luiz Fernando observa cuidadosamente os pisos que por tantas vezes pisara naquela casa, sentindo cada passo seu como mais um dobre do sino da morte, lembrando vagamente de um filme que assistira com Beatriz, onde um cavaleiro decidia sua sorte jogando xadrez com a morte.

“Não deixa de ser irônico”, pensa, enquanto passa para a cozinha, “lembrar disto justamente neste momento”. Enquanto raciocina, nota que o piso de azulejos escuros é o ideal para causar o mínimo estrago: fácil de limpar, certamente não mancharia quando seu sangue por ele escorresse.

Pega uma das cadeiras de madeira, mas, quando vai sentar-se, percebe que ela seria fatalmente danificada, talvez ficando manchada perenemente com seu cérebro, pensamento que lhe causou certa agonia, não pela lembrança de que sua massa cinzenta, dali a pouco, estaria espalhada pelo chão e pela cadeira, mas pelo fato de que pudesse, em seu momento derradeiro, macular àquela cadeira de madeira desenhada pela escola alemã Bohaus na década de 1930, e que tanto lhe agradava por seu design simétrico e moderno.

Não, Luiz Fernando não podia se permitir a mais este pecado; macular a cadeira, naquele momento, pareceu-lhe mais grave do que mesmo do que perder a própria vida. Soltando o revólver cromado sobre a cadeira, buscou nas gavetas da pia os sacos de lixo, encontrando-os na penúltima. Pegando um dos sacos, cobriu com ele o alto encosto da cadeira, enquanto com outro forrou-lhe o assento, atando o saco na parte de baixo para não ter risco de que este, nos estertores da morte que poderiam se seguir ao tiro, escorregasse e permitisse que seu cérebro e seu sangue acabassem no fino estofado. Olhando com paciência e de vários ângulos, concluiu que havia, afinal, ficado um bom trabalho; os sacos não se moveriam do lugar e a cadeira estaria a salvo.

Sentou-se, então, sentindo certo conforto no barulho do saco plástico, e ficou observando o revólver contrabandeado que comprara de um traficante especificamente para esta ocasião e este lhe pareceu, novamente, medíocre para compartilhar com ele seus últimos momentos; em sua confusão, lembrou-se novamente da Glock negra que há tanto era-lhe a mais fiel companheira, sua confidente mais íntima, ‘alguém’ que, em alguns momentos, lhe era mais cara até mesmo que Beatriz. A arma cara e de respeitosa tradição, seria uma companheira muito mais digna para sua derradeira viagem, mas logo se lembrou dos porquês de tê-la preterido por este revólver plebeu: armas usadas em crimes (ou suicídios), fatalmente acabariam nas mãos da polícia a fim de que fossem realizadas perícias, e sua valiosa Glock, acabaria em uma prateleira de delegacia, coberta de pó e de esquecimento, como tantas outras armas que viu em seus anos como policial ou, pior, poderia acabar nas mãos de algum meliante através de algum colega corrupto, como também não era tão incomum.

Abriu novamente o tambor da arma e conferiu os cinco cartuchos intactos que lhe preenchiam as câmaras, os quais comprara novos, apesar de já possuir cartuchos do mesmo calibre pois não queria correr o risco de falhar no derradeiro momento.

Fechou o tambor com cuidado e passou, então, à tarefa de pensar sobre onde colocaria a arma – se na boca ou no ouvido – antes de puxar o gatilho. Após meditar um pouco, do fundo de seu subconsciente lembrou-se de um caso de tentativa de suicídio que atendera, no qual o suicida encostara a arma no ouvido, mas no derradeiro momento o coice da arma fizera com que a bala desviasse e o atingisse somente de raspão; sorrindo, lembra-se, então, de um general – russo, alemão ou americano, não conseguia se lembrar direito – que se matara frente às câmeras de TV colocando a arma na boca, terminando com a própria vida da forma eficiente e rápida que Luiz Fernando tanto prezara por toda sua vida.

Levantando-se e pegando um pano para limpar o cano da arma – já que, naquele momento, não poderia permitir-se por na boca aquele cano sujo, engatilhou o revólver sentindo um leve alívio pelo fim que chegava.

— Lufe!

A inconfundível voz sonora de Beatriz soou às suas costas, chamando-o pelo apelido usado somente pelas pessoas mais íntimas. A voz da mulher com quem dividia a vida há cinco anos poderia ter sido uma alucinação auditiva, quiçá causada pelo estresse de estar tão próximo à morte, mas não só Luiz Fernando nunca antes tivera uma alucinação quanto o fato de a voz da mulher estar misturada ao barulho de coisas caindo não lhe pareciam casar com uma alucinação.

Lentamente, ele tira o revólver da própria boca, o qual sai com um fio de baba que se mantém grudado a seu lábio inferior mesmo enquanto ele se vira e vê Beatriz, em choque, com as duas mãos ao rosto, linda entre as compras de mercado que deixara cair e que agora se espalhavam pelo piso de azulejos escuros.

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