sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Vingança dos Nerds

Quero começar este texto sobre o Dia do Orgulho Nerd com uma afirmação: Eu não sou nerd. Entretanto, como tenho vários amigos que o são, hoje vou falar um pouco desta data.
Em 25 de maio de 1977 estreou nos cinemas americanos Guerra nas Estrelas, primeiro filme de uma franquia que é um dos símbolos da cultura nerd e que rendeu bilhões para o igualmente CDF (como se chamava no meu tempo) George Lucas. Tive o privilégio de assistir à fita em 1977, com sete anos, junto com meu pai, no Cine Avenida, em Uruguaiana.
Em um outro canto da galáxia, uns anos depois, o inglês nerd e ateu Douglas Adams lançava O Guia do Mochileiro das Galáxias, série de cinco livros que trata com muito bom humor questões filosóficas profundas (embora às vezes não pareça na primeira leitura). O guia que dá título à série seria um manual para os viajantes interestelares, e um de seus conselhos é o de que sempre se deve portar uma toalha, pois esta seria imprescindível para o mochileiro nas mais diversas situações. Aliás esta é, seguramente uma de minhas séries de livros favoritos.
Da união da data com a toalha de dois dos maiores fenômenos pops nasceu o Dia do Orgulho Nerd, ou Dia da Toalha, data em que nerds de todo o mundo usam uma toalha (das mais diversas e criativas formas), simbolizando a afirmação de sua nerdice e seu orgulho por esta situação.
Situação bem diferente de quando eu era criança e os nerds eram aqueles sujeitos isolados socialmente, com poucos amigos, que dificilmente conseguiam uma namorada, que liam avidamente, que colecionavam quadrinhos, selos, insetos, figurinhas e o que mais viesse pela frente, que eram fãs de Isaac Asimov, que eram alvo de chacota e (às vezes) de surras dos outros colegas, situações todas muito minhas conhecidas na época, o que me levou às artes marciais (somente para defesa, Daniel-san, como diria o senhor Miyagi).
Mas o que mudou foram os nerds ou a sociedade? Segundo entrevista concedida pela especialista em comunicação e cultura Lia Amancio ao G1:
“O nerd não mudou. Ele continua sendo aquele cara completamente ligado e entendido sobre certos assuntos, como tecnologia e quadrinhos. O que mudou foi a cultural atual, que valoriza isso. Os nerds querem ser nerds e as pessoas querem ter nerds por perto”.
Ainda segundo a matéria, tal mudança teria vindo no rastro do sucesso de nerds notórios tais como Bill Gates e Steve Jobs, o que criou o lema “trate bem o nerd hoje, você pode estar trabalhando para ele amanhã”.
Brincadeiras à parte, a cultura desta tribo se espalhou e hoje é fácil ver Homem de Ferro, Thor, Homem Aranha, O Senhor dos Anéis ou a série The Big Bang Theory sendo citadas até mesmo por quem nunca foi tão CDF assim. Eu particularmente já gostava dos quadrinhos e adoro a obra de Tolkien, além de ser fã incondicional de Leonard, Sheldon, Raj e Wolowitz e achar a Penny um tezão. Não esqueçamos também da excelente e pouco conhecida (no Brasil) The IT Crowd, sobre nerds que trabalham no setor de Tecnologia da Informação de uma empresa, série da qual também sou fã.
Ser nerd virou “chic”, virou fenômeno de mídia, o que tem, pelo menos levado a uma maior socialização deste povo. Hoje eles têm seus blogs, seus programas na TV (vide o caso de PC Siqueira), estão na política e até mesmo já governaram a potência mais poderosa do mundo (Bill Clinton é nerd de carteirinha).
Outro fator que contribuiu sobremaneira para a ascensão social dos nerds foi a popularização dos microcomputadores, que antigamente eram coisas de CDFs, com basic, cobol, DOS, assembly (coisas com as quais eu me divertia nos anos ’80), e que hoje, graças a interfaces mais amigáveis, são acessados pela maioria das pessoas; entretanto, o ‘povo esquisito’ se tornou cada vez mais disputado para tarefas tais como instalação ou configuração, ou mesmo para aquele conselho amigo no novo software (às vezes até mesmo para compreender a diferença entre software e hardware). Sei destas coisas por que trabalhei como programador e em assistência técnica de hardware e software nos anos ’80 e ’90, além de auxiliar um amigo necessitado vez ou outra.
Entretanto, creio que o melhor subproduto desta aceitação seja, usando um termo mais darwinista, o favorecimento na seleção sexual; pois se antes os nerds eram motivo de piada, hoje são vistos como os ‘gatinhos’ da vez (o nerd de hoje é o  bom marido de amanhã, diz a banda nerd Seminovos), além de hoje ser bem mais comum ver-se garotas adotando o estilo e afirmando-se nerd.
Parabéns, pois, à tribo dos nerds por sua data comemorativa, recebam o abraço virtual deste vosso amigo e admirador, ainda que não pertencente ao ‘povo esquisito’.
Mas...
Espere um pouco... 
Fã de Star Wars, quadrinhos, Senhor dos Anéis, The Big Bang Theory, The IT Crowd... Colecionador de selos, quadrinhos e insetos... esquisito que era rejeitado e apanhava dos colegas na aula... Aquele que nunca soube jogar futebol... Ex-programador e viciado em computadores (desde o CP 400)... Leitor inveterado de Bernard Cornwell, de história, de ciências, de filosofia e até de bula de remédio... Blogueiro... Aspirante a escritor... Alguém que senta na frente da aula da faculdade e que ama estudar... Santo Darwin! Eu sou nerd! Rápido, alguém tem uma toalha pra me emprestar?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Macaquinhos muito bem remunerados

Ilustração: Mauro Souza e Chris Borges
Quem nunca pagou um mico na vida aí que levante a mão!
Situações embaraçosas acontecem com todo mundo. Sabe aquele lance de ver uma mulher que não avistava há tempos, constatar que ela está com uma barriga grande, perguntar se ela está grávida e ela responder que não, mas que vai fazer regime? Pois é, desse tipo de coisa que falo.
Mas se a situação, vez ou outra, acontece com todos, ela parece ter certa preferência por algumas pessoas, e uma destas pessoas é, certamente, minha mulher, a ponto de, nas reuniões de família, seus ‘micos’ serem pauta à exaustão.
Tem uma famosa vez, por exemplo, há muitos anos, quando nosso primeiro filho, hoje com 17 anos, ainda era bebê de colo e fomos a um casamento. Puseram-nos em uma mesa junto a outro casal (desconhecido) e minha mãe. A outra mulher, que também tinha um rebento no colo, passou a tagarelar com a minha e logo descobriram algo em comum: o nome das duas crianças era Gustavo.
Minha mulher ficou feliz, afinal, fora ela quem escolhera o nome (não consegui convencer de jeito nenhum a colocar Charles, em homenagem a Darwin, ou Carl, por causa do Sagan), e então lascou, tentando elogiar a própria prole e, por extensão, a prole da outra:
— Os Gustavos são todos uns gatinhos.
A mulher, ao contrário de sorrir, contraiu o cenho e lascou:
— Os meus são.
Encerrando o assunto, enquanto minha mãe, que já conversara com o marido da outra mulher, cochichou ao ouvido da minha: “Leila, o marido dela também é Gustavo”. Dali para frente foi uma noite tensa, em que a outra mulher não tornou a sorrir.
Tenho que reconhecer, minha mulher até que não é muito de falar, mas quando o faz é muito espontânea, sem pensar bem no que diz; às vezes eu opino a ela que ela pensa com a boca. Por isso, especialmente na rua, sempre cuido em volta para ver se não estamos entrando em uma situação embaraçosa.
Teve a vez, por exemplo, que andávamos na rua com meu filho do meio, o Arthur (deste fui eu quem escolheu o nome, pois recém tinha lido Cornwell); ele tinha uns três anos e recém tinha tomado uma coca, de cujos gases rapidamente lhe subiram à boca, emitindo um sonoro arroto.
— Porco! – exclamou minha mulher, para corrigi-lo, ensinar-lhe boas maneiras, olhando em seguida para a frente e dando de cara com um brigadiano lhe olhando atravessado, tentando avaliar se aquele ‘porco’ não era alguma alusão mal-intencionada a ele.
Outra vez, vínhamos com minha filha menor, a Grainné, e esta viu um objeto brilhante no chão, se abaixando, com sua curiosidade infantil, para pegá-lo. Nova reprimenda:
— Menina, só porco mexe no lixo!
Tive certeza antes de olhar; pouquinho atrás vinha uma família de catadores, e novamente tive que sorrir sem graça ante olhares desaprovadores.
Noutra vez, estávamos em uma confraternização de dia das crianças num salão. Meu sobrinho, que devia ter uns sete anos, criava um vira-latas que era grudadíssimo com ele; onde ele ia o tal cachorro ia atrás, a ponto de esperá-lo na frente da sala de aula.
Neste dia, com a festinha correndo solta, o cachorro toda hora entrava no salão e toda hora ela o corria, começando a ficar enfezada com o bicho.
Lá pelas tantas, ela correu o cachorro e viu um homem sentado, no saguão que dava acesso ao salão onde estavam as crianças.
— Moço – diz ela – tenha dó, só eu corro esse bicho, da próxima vez que ele entrar, vê se faz o favor de levantar e botar ele pra correr.
O tal moço a olhou sem dizer nada e ela voltou para o salão um pouco contrariada. Pouco depois, saiu novamente para correr o cachorro e qual não foi sua surpresa ao constatar que o rapaz com quem falara estava sendo colocado em uma cadeira de rodas; ele fazia pouco tinha se operado da coluna e não conseguia mexer nada além da cabeça...
Há dezenas de outros exemplos, tantos que poderia escrever um livro, não uma crônica, mas um dos meus preferidos foi uma vez que tínhamos assistido a um filme trash, onde o cara tinha um filho monstruoso. Vínhamos pela rua empolgados, comentando o tal filme e, quando passávamos pela frente de uma casa, onde uma menininha de uns três anos brincava, minha mulher lascou sobre o filme:
— Mas que criança feia!
Uma senhora idosa, possivelmente avó da criança que brincava, tendo pegado somente a frase solta se ofendeu muitíssimo e saiu xingando:
— Feia é tua bunda, f.d.p. – e outros impropérios que não me atrevo a reproduzir aqui...
Ainda assim, mesmo depois de 18 anos vivendo com esta pagadora de micos inveterada, ainda não me arrependi de estar casado com ela; talvez porque eu também não me escape e, de vez em quando, também tenha meus deslizes em micagens. O fato mais significativo ocorreu quando ainda era solteiro, uma vez que meus pais viajaram (eu devia ter uns 17 anos) e fiquei sozinho em casa.
Convidei uma garota da escola para ir lá em casa olhar um filme (naquela época nem todo mundo tinha vídeo-cassete), e a desculpa colou!
Fui então à locadora e me demorei uns bons 45 minutos escolhendo o filme, até optar por uma comédia romântica açucarada (teria levado algo no estilo O Exterminador do Futuro, mas achei que ela não iria gostar, e a intenção, afinal, era agradá-la). Em seguida, na maior das “más intenções”, fui ao setor de filmes adultos para escolher algo caso conseguisse o clima que desejava.
“Filme pornô é tudo igual”, foi o que pensei na hora, e peguei o primeiro da prateleira.
Sucesso! A noite começou romântica, bebemos um tinto chileno e assistimos a tal comédia romântica sentados no sofá, começando por pegar da mão e terminando em um beijo tórrido. Ao final do filme disse-lhe marotamente: “Agora vou colocar algo más caliente”; ela me respondeu com um sorriso de aprovação.
Pus então o filme no vídeo e, para minha surpresa, ele sequer tinha letreiros de introdução, já começava em uma academia com um cara sarado dando o maior amasso em uma guria que já estava com os seios de fora. “Começou bem”, pensei eu, já sentindo que a noite prometia.
O cara do filme, então, foi descendo com a boca, descendo, descendo, e tirou a calcinha da menina; surpresa!!! O pênis da ‘moça’ caiu próximo ao joelho, estragando de uma só tacada minha noite e minha reputação.
Mas o pior foi no outro dia, quando fui devolver o filme, uber-super-ultra-mega-constrangido e entreguei-o ao dono da locadora, um senhor de uns 50 anos que pegou a fita com um olhar sacana.
— Peguei o filme errado – tentei explicar.
— Sei – comentou ele, com um sorriso condescendente – muita gente leva este filme enganado...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Capelão do Diabo e as moscas sem asas

No último dia 19 desenvolvemos um trabalho sobre darwinismo na faculdade e pude constatar o quanto a Seleção Natural, postulada por Darwin-Wallace ainda agita os ânimos. Não vejo uma mesma exacerbação de posições, por exemplo, quanto à Teoria da Relatividade de Einstein. Se pensarmos um pouco, logo nos damos conta do óbvio: a Teoria da Evolução é tão controversa por tratar daquilo que mais nos é caro: a vida.
Mas essa polêmica não é nova. O próprio Darwin tinha pesadelos ao pensar sobre o quanto sua teoria afetava a visão religiosa de mundo, a ponto de ter afirmado que, por sua teoria, poderia ser considerado o Capelão do Diabo, no sentindo que sua proposição ‘matava’ o conceito de deus.
Ainda assim, às vezes ainda me surpreendo o quão pouco as pessoas compreendem a Teoria da Evolução das Espécies e o quanto, sem compreendê-la, se posicionam contra ou a favor.
Buscando colaborar na evolução da compreensão da Evolução (com o perdão do trocadilho) e, assim, subir o nível da discussão, exponho abaixo um resumo do trabalho que apresentamos.
É bom lembrar, porém, que isto é só um resumo superficial. Para quem quiser saber mais, é bom estudar. Uma boa dica para começar é o próprio livro de Darwin, que pode ser comprado por menos de R$ 20 em edição de bolso com texto integral.
Para começo de conversa, pense em um nazista clássico, aquele loiro alto de uniforme, ombros largos e um queixo duro. Em seguida, pense em um pigmeu, um bosquímano do Kalahari com seu um metro e pouco, e sua pele escura cobrindo uns parcos 40 kg.
Pensou? Então responda rápido: qual dos dois é fisicamente mais forte?
Ora, até aqui falamos do óbvio. Logicamente o homem com uniforme da Wehrmarcht é incomensuravelmente mais forte. Então, pela mesma lógica, o ariano, pela Teoria da Evolução é, também, o mais evoluído, certo?
Errado! E esse é um dos pontos mais incompreendidos: a teoria não postula a sobrevivência do mais forte, mas sim do mais adaptado.
A adaptação do homem loiro surgiu quando seus antepassados viviam em uma Europa ainda era coberta por florestas e animais selvagens e, naquele clima e habitat, ele seria indubitavelmente mais adaptado que o bosquímano.
Mas experimente largar o mesmo ser de olhos azuis no Kalahari...
Ele desenvolveria câncer de pele por falta de melanina, teria dificuldade de enxergar pelo brilho do sol em seus olhos claros e consumiria muito mais água e alimento do que a natureza poderia lhe fornecer; ou seja, estaria totalmente inadaptado para o ambiente, enquanto o pigmeu está literalmente ‘em casa’, com um corpo plenamente adaptado a tirar o máximo do habitat.
Para melhor compreensão, exponho um exemplo que li quando guri.
Imagine uma comunidade de moscas que vivem ‘felizes’ em um prado onde têm alimento e um ambiente para o qual estão adaptadas. Esses dípteros só têm um inimigo terrível: o passarinho, que sempre que pode as caça para alimentar-se.
Agora suponha que, por uma mutação no DNA, algumas dessas moscas nasçam, às vezes, sem asas. Quais destas moscas seriam mais facilmente caçadas pelo passarinho? Obviamente aquelas que não podem voar. Estas, então, não conseguem chegar à idade de reproduzir-se e passar aos descendentes seus genes.
Mas imagine, agora, que o prado fica à beira de uma praia e que nesta praia vente muito. As moscas e os passarinhos que experimentem se aventurar a voar na praia, rapidamente são pegas pelo vento e jogadas ao mar. As moscas sem asas, contudo, caminham do prado para a areia sem ser atingida pelo vento, que passa acima de suas cabeças e passam a levar uma nova vida na praia, longe de suas irmãs e de seus predadores.
Se dermos o tempo suficiente, uma nova comunidade de moscas surgirá na praia e, com o tempo, sua especiação aumentará a ponto de não mais conseguir cruzar com as moscas aladas.
Isso é a seleção natural; a sobrevivência do fenótipo mais adaptado ao habitat, não do mais forte ou sofisticado (a mosca alada, de certa maneira, pode ser considerada mais ‘sofisticada’, uma vez que voa).
Essa foi a ‘sacada’ de gênio de Darwin, uma idéia simples que mudou a forma como vemos o mundo.
Mas como ele chegou a ela?
Darwin era um naturalista e, como tal, empreendeu uma viagem pelo mundo a bordo do navio HMS Beagle, tendo coletado milhares de espécies animais nos lugares por onde passou. Alguns anos depois, já em casa, a análise destes animais o fez constatar um fato surpreendente: as espécies mudam conforme o ambiente em que vivem. O mais famoso exemplo disto são os tentilhões, espécie de pássaro que Darwin recolheu nas Galápagos e nos quais constatou que, conforme a ilha e o alimento disponível nela, mudava a forma do bico; forte nas ilhas onde era necessário quebrar nozes, fino e pontiagudo quando precisava comer insetos, etc.
Darwin juntou esta constatação aos estudos de fósseis (os quais provavam que existiram espécies diferentes das atuais que se extinguiram, além de indicarem que tais espécies tinham semelhanças com espécies atuais), com embriologia e anatomia comparadas e, sobretudo, com a teoria de Malthus sobre a quantidade de seres que a natureza produz versus o alimento disponível. As conclusões a que chegou, podem ser sintetizadas nas seguintes leis, constantes em seu livro:
1. SE há organismos que se reproduzem e...
2. SE os descendentes herdam as características de seus progenitores e...
3. SE há variação nas características e...
4. SE o ambiente não suporta todos os membros de uma população em crescimento,
5. ENTÃO aqueles membros da população com características menos adaptativas (de acordo com o ambiente) morrerão e...
6. ENTÃO aqueles membros com características mais adaptativas (de acordo com o ambiente) prosperarão.
O resultado é a evolução das espécies.
No Origem e Evolução das Espécies Darwin não tratou da ascendência do homem, deixando tal para outro livro, “A descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo”, publicado em 1871, no qual postula que as mesmas ‘leis’ valem para o homem, ou seja, evoluímos a partir de animais e não passamos de uma espécie que teve no desenvolvimento do cérebro uma adaptação ao ambiente, da mesma forma que o são as garras no leão ou as pernas compridas do cavalo.
Com essa idéia simples, porém ousada, o ‘Capelão do Diabo’ trouxe-nos muito mais do que a única explicação plausível para a origem das espécies, trouxe toda uma revolução científica (a biologia atual somente faz sentido com a Teoria da Evolução, além de importantes contribuições a ramos como a medicina, a antropologia...), filosófica (fortalecimento do ateísmo, enfraquecimento do antropocentrismo) e social (se a natureza não é estática, porque a sociedade deve sê-lo?), ou, como bem define Dawkins, a idéia de Darwin é boa demais para ser aplicada somente à biologia.

Dia Internacional de Desenhar Maomé


Hoje é o Dia Internacional de Desenhar Maomé, uma iniciativa vem seguindo um cartoon concebido por Molly Norris, o qual surgiu em reacção à censura do episódio do South Park em que Maomé era representado disfarçado de urso e das inevitáveis ameaças subsequentes à integridade física dos seus autores.

O objetivo da manifestação não é ofender, mas sim propiciar uma reflexão sobre a liberdade de expressão e dizer um não ao tolhimento da citada liberdade.
Nesse sentido, segue abaixo minha modesta contribuição:


* Segundo o Google Tradutor, no balão está escrito em árabe: "Viva Dawkins"

terça-feira, 17 de maio de 2011

A hostilidade do macaco nu

Na abertura da Semana Acadêmica das Licenciaturas da Unipampa de Uruguaiana tivemos um excelente debate sobre “as dores e as delícias de ser professor”. O tema, interessantíssimo para quem, como eu, está se preparando para, um dia, assumir uma classe, foi bem trabalhado por quem entende do assunto: professores.
Mas dentre tudo, o que mais me chamou a atenção foi um questionamento de um dos alunos sobre os recentes incidentes envolvendo violência em sala de aula.
Citaram-se desde casos de professores agredidos e bulling, até o caso do atirador da escola do Rio de Janeiro, tristemente famoso nacionalmente.
O debate surgido do tema proposto pelo discente fez-me pensar, e pensar faz-me querer escrever sobre o tema.
Vamos nos olhar de frente: nós somos macacos violentos.
É, leitor, você entendeu certo: macacos. Se você ainda não leu “O Macaco Nu”, de Desmond Morris, faça-o o mais breve possível e você vai entender do que falo.
E também sim, não só macacos, mas macacos violentos.
“Espera aí”, pensa o leitor pego de surpresa, “mas eu sou da paz”.
Sim, meu caro, minha cara, todos – ou ao menos a maioria de nós – somos ‘da paz’; todos – ou novamente o maior percentual – abomina a violência ou, pelo menos, assim pensamos que pensamos.
Mas, com o perdão da repetição do termo, pensemos um pouco; será que realmente somos ‘da paz’, ou será que somente desviamos – redirecionamos, como diria Freud – nossa própria violência, de forma a permitir que nossa própria bestialidade possa passar pelo filtro de nosso id?
É verdade, a maioria de nós não pega um osso e sai batendo na cabeça dos outros macacos nus, como no início de 2001-Uma Odisséia no Espaço (onde, inclusive, os macacos ainda não eram nus), ou, para ser mais atual, não entramos em uma escola cheia de adolescentes atirando.
É verdade, também, que a maioria de meus leitores não vai sair por aí com um 38 exigindo que um trabalhador lhe entregue seus caraminguados.
Tampouco acho provável que um de nós, Homo sapiens portadores do gene sexual XY, saiamos e estupremos a primeira fêmea voluptuosa que atice nossa libido (novamente, pelo menos a maioria de nós).
“Mas então”, pensa novamente o leitor, “aí está, não sou violento”.
Ocorre, meus caros, que vocês, assim como eu, estão olhando a violência somente em sua face de revolta do oprimido.
Brecht, certa vez, disse que “do rio que tudo arrasa dizemos violento, mas não se dizem violentas das margens que o oprimem”.
É verdade: não saímos atirando em crianças; mas quando crianças, não nos furtamos ao bulling (e muitos de nós nem mesmo depois de adultos), assim como muitas vezes preferimos tratar de um cão de rua a dar-lhe uma refeição decente a dá-la a outro macaco nu carente; para muitos, é mais chocante um Canis canis abandonado do que um Homo sapiens revirando o lixo...
É verdade: não assaltamos ou roubamos (acredito que meus leitores assim procedam); mas não nos importamos que outros não tenham oportunidades na vida e que alguns não tenham sequer uma refeição decente e, muitas vezes, sejam forçados à marginalidade do crime, do tráfico, do descaminho. Também não consideramos roubo quando o dinheiro fácil vem para nosso bolso, ou quando assaltamos ao erário ou subornamos um funcionário público.
Também é verdade que não estupramos as fêmeas (ao menos não a maioria de nós), mas não nos furtamos a discriminar outras pessoas por seu sexo ou sua opção sexual, de sermos canalhas ou cafajestes com o sexo oposto.
Somos, pois, perpetradores de violência: da violência da opressão, da submissão, do descaso, do preconceito.
Assombramo-nos com a violência brutal e ruidosa do assaltante, do assassino, do estuprador, mas sentimo-nos tranqüilos em nossos ninhos de conforto com nossa própria violência silenciosa, que também faz sofrer, que também alija, que também rouba, que também violenta, que também mata.
E então, caríssimo leitor, qual a solução?
Bom, tenho más notícias. Penso que não há soluções a curto prazo e sem grandes custos, embora sejam necessárias soluções paliativas imediatas.
Considero que é necessária uma transformação social a médio e longo prazo, grandes investimentos em educação – básica, média, universitária e técnica –, em infraestrutura, em distribuição de renda, em maior dureza a criminosos de colarinho branco – que geralmente ficam impunes, embora nos roubem e prejudiquem muito mais do que o ladrão ‘pé-de-chinelo’ –, é preciso que se faça ecologia combatendo a grande empresa que polui, que desmata, que envenena cursos d’água, não somente deixando de usar sacolas plásticas que tem um efeito mínimo sobre o impacto ecológico, tendo um efeito muito maior sobre a tranquilização de nossa consciência (se está tudo assim não é culpa minha...)
Mas o que podemos fazer de imediato para que toda esta transformação possa vir a acontecer no futuro, é não perdermos nossas capacidades de indignação e de busca de autoaprimoramento.
Indignação com tudo o que está aí, não somente com aquilo que nos prejudica pessoalmente, não apenas com a violência que nos causa pânico por mexer com nossa própria tanatofobia, mas com todos os tipos de violência.
É necessário que esta indignação se estenda a nossas ações diárias e se transforme no autoaprimoramento. Que não só cobremos honestidade de nossos políticos ou de nossos funcionários públicos, mas que também, quando tivermos oportunidade, não corrompamos estes mesmos políticos e funcionários e, quando for a nossa vez de ocupar um cargo, não nos deixemos corromper.
É preciso que comecemos a ver a vida como um direito de todos, e que percebamos que sem uma mínima dignidade, a vida pode ser pior do que a morte, uma verdadeira morte-em-vida.
É, pois, urgente que nos tornemos novos homens e mulheres, sabedores de nossa responsabilidade social e militantes pela causa da mudança consciente.
Não nos iludamos, soluções não cairão do céu – o máximo que cai do céu, dizia meu avô, é raio-guaxo –; sem nossa efetiva participação, somente podemos esperar que a espiral de violência ruidosa cresça em nível equivalente ao do crescimento da violência silenciosa, até que o esfacelamento iminente de nossa estrutura social acabe por tornar a violência que vivemos uma realidade desejável frente à nova realidade que se descortinará neste remoto ponto azul habitado por macacos nus violentos. 

domingo, 15 de maio de 2011

Lição de tolerância

Quando a professora chegou à aula naquele dia estávamos em ebulição. Bulling, embora não tivesse esse nome naquela época, era um fato muito mais corriqueiro do que agora, uma vez que tinha a aceitação do fato consumado, de “o mundo é assim mesmo”.
Ela nos olhou contraindo o cenho, indicando que não estava para brincadeiras, colocando-nos em nosso lugar de aluno, seres inferiores a serem conduzidos como tropa pela professora que não permitia contestação, mormente naqueles tempos de ditadura militar.
Olhei-a nos olhos sem desafio, tentando compreender o que ela queria nos passar com aquele semblante carregado, ela me olhou como se não me enxergasse e explicou-nos:
— Como a professora de vocês está doente, de laudo, eu sou a nova professora de religião.
A turma ficou em suspenso. A antiga professora, pelo menos, demonstrava-se simpática em seus ensinamentos inúteis sobre céu e inferno; a nova, apresentava-se como Tomás de Torquemada pronto para a guerra pela fé.
— Sobre o que vocês falavam? – questionou-nos, querendo saber onde a antiga professora tinha parado.
— Na última aula – informou um colega – a professora falava sobre a bondade de Deus.
— Bom. – aprovou sinteticamente a nova docente, passando então a discorrer sobre o mesmo tema de como Deus é bom, como é justo e essas coisas de professora de religião. Em dado momento, logo após ter comentado sobre as maravilhas do céu, perguntou-nos se todos eram católicos, pedindo para que os que fossem levantassem a mão. Mais de dois terços da aula o fizeram.
Ela, então, passou a explicar-nos que não importava se éramos católicos ou não, pois Deus é um só, podendo ser adorado das mais diversas formas.
Então a Samira, minha colega de origem árabe, decidiu se manifestar:
— Mas professora, se Deus é um só e pode ser adorado de diferentes formas, por que é que eu tenho que agüentar a gozação dos colegas por ser muçulmana?
— O quê? – quis saber a mestra indignada, passando novamente seu olhar de inquisidor-mor pela turma – Vocês estão criticando alguém por não ter a mesma fé de vocês? Vocês sabem como se chama isso? Não? Se chama discriminação, preconceito, algo muito, muito feio; algo que deveria envergonhar vocês! Sabiam que Deus tem um lugar especial no inferno pra pessoas que discriminam?
Apesar da incoerência lógica de Deus-é-o-melhor-cara-do-mundo x Deus-tem-um-cantinho-no-inferno-pra-você, a professora subiu consideravelmente em meu conceito, afinal, ela estava se manifestando contra o preconceito religioso! Quanto tempo já fazia que eu, então com 15 anos, batia contra isso? Uns dois anos talvez.
Com a mais pura inocência da juventude disse-me: “ah, que se lixe, ela pode ser religiosa mas parece ser uma pessoa acima dessas questões de posicionamento filosófico”. Ergui a mão para falar (no meu tempo se fazia isso, não se atropelava quem estava falando ou, como diziam-nos, “quando um burrinho fala o outro escuta”).
Ela virou para mim os olhos de inquisidora, ainda irritada com o preconceito contra a Samira:
— Professora – disse-lhe, quando me autorizou – também tenho esse problema, os colegas pegam no meu pé por não ser da religião deles.
Vi seu olhar se abrandar, até mesmo um fundo de pena por essa pobre alma atormentada que, embora não seguisse a mesma religião que ela, ainda tinha esperança de salvação:
— E qual a religião que você pratica, meu filho?
— Sou ateu.
O olhar de Torquemada voltou com força, parecendo querer furar meus olhos e, desta vez, acompanhado do avermelhamento do pescoço onde uma artéria começou a latejar:
— Ateu? Somente alguém muito burro, muito estúpido não acredita em Deus! Sabia, turma, que no inferno tem um caldeirão especial pros ateus?
A risada e o escárnio da turma foi geral. Sim, eu tinha me enganado, a tolerância dela tinha limite e esse limite era a descrença.
Um tempo depois, analisando o episódio, aprendi uma dura lição que levei pro resto da vida: nunca posso esperar que alguém que crê, não importando sua religião ou o quanto é esclarecido, vá defender meu direito ao livre pensamento, devo eu mesmo fazê-lo.
Naquele momento, porém, tive somente uma certeza: aquele seria um loooongo ano...

sábado, 14 de maio de 2011

Meu credo

(Produção textual “Concepções Pessoais sobre Origem e Evolução da Vida na Terra”, da cadeira Universo em Evolução e Evolução da Vida na Terra, Curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, Unipampa, Campus Uruguaiana)



Minha professora de Universo em Evolução e Evolução da Vida na Terra, Diana Salomão de Freitas, em uma aula citou-nos o livro “Escrever é Preciso”, um alfarrábio aparentemente interessante (ainda não o li), que tem seu título parodiado de uma famosa frase de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, dando-nos (a professora) sua acepção sobre a frase famosa, de que o ‘preciso’ teria o sentido de exatidão, e não de necessidade.
Bom, a frase, que nos remete aos Luzíadas, cabe bem em minha concepção sobre a vida na terra, apenas pensando no ‘preciso’ enquanto ‘necessário’ mesmo: Somos um barco carregando genes, que são os reais comandantes, e como tal, é forçoso que naveguemos pela vida, cumprindo nossa faina de nascer, crescer e passar adiante os ditos genes. Quanto ao viver? Não é biologicamente mais necessário do que o ato de repassar nossa carga genética adiante.
Experiências com mais de 50 anos conseguiram reproduzir em laboratório, a partir dos gases que teoricamente compunham nossa atmosfera primitiva e descargas elétricas, pequenas cadeias de aminoácidos, o que pode indicar uma real possibilidade de que a origem das primeiras cadeias de moléculas biológicas ter-se dado de uma forma semelhante, a partir de reações químicas precipitadas por descargas de raios em nossa atmosfera ainda jovem e isenta de oxigênio (já que ainda não existiam plantas para liberá-lo), o que teria oxidado os ditos aminoácidos. Segundo Dawkins (1976)[1], sob a influência posterior de energia, como a luz ultravioleta do Sol, elas se combinaram em moléculas maiores. Em algum momento nessa formação aleatória de moléculas, formou-se uma molécula notável que auto-replicou-se, passando às suas cópias a mesma capacidade.  
Em minha concepção, tais moléculas já são vida. Seguindo esta linha de raciocínio, inclusive, Stephen Hawking afirma que a primeira forma de vida criada inteiramente por seres humanos são os vírus de computador, que possuem as características acima descritas[2].
A partir daí, se seguirmos o raciocínio darwinista (baseado principalmente em Malthus) amplamente aceito pela ciência, vemos cadeias auto-replicantes que pouco a pouco invadem a terra a ponto de, em algum momento, faltar o alimento para todos, e enquanto milhares destas cadeias voltam a seu estado de estruturas químicas originais, alguma delas tiveram um pequeno erro em sua cópia, que lhe possibilitou, por alguma razão, ter vantagens na hora de conseguir alimento e, assim, prevalecendo sobre as demais.
Eis nossa história: somos frutos basicamente de erros sucessivos das cópias, através de bilhões de anos, destas cadeias genéticas que, com o tempo, se aglomeraram, viraram células e depois organismos cada vez mais complexificados, sempre prevalecendo a lei da sobrevivência do genótipo que possibilita um fenótipo mais adaptado ao meio, não necessariamente o mais forte ou mesmo ‘sofisticado’ como o pensa o senso comum, uma vez que as bactérias, com seus bilhões de anos sem grandes transformações fenotípicas, por exemplo, podem ser consideradas, evolutivamente, um sucesso muito maior do que as poucas centenas de milhares de anos dos homnídeos.
Como nossa própria estrutura geológica é instável, com constantes mudanças climáticas e espaciais, e como os erros de cópia de aminoácidos são constantes, gerando os mais diversos efeitos fenotípicos – a grande maioria desvantajosa, mas em alguns casos vantajosa –, os seres seguem se adaptando e readaptando, sendo que uma mesma característica pode ser positiva ou negativa, dependendo do caso.
Um bom exemplo disso é a anemia falciforme, característica de algumas populações africanas, que causa grandes problemas de fraqueza física, sendo teoricamente uma desvantagem mas que, na suposição de uma infestação mundial de malária, se nossa ciência médica não fosse desenvolvida o suficiente, poderia ser a única população humana a sobreviver, uma vez que a malária não consegue fixar-se nas hemácias com forma de foice, característica fenotípica que define o mal.
E assim prosseguimos em nossa faina de meras máquinas de replicação de genes, em um continuum que, creio, durará enquanto durar a vida nesse nosso pequeno e perdido planeta à borda de uma galáxia solta em uma imensidão cósmica.
Desta forma, embora alguns tentem derrubar a Teoria da Seleção Natural das Espécies, de Darwin, está é, em sua base, amplamente aceita no meio científico, e se hoje há embates entre cientistas que baseiam suas concepções em evidências, estes embates são mais sobre detalhes do que propriamente sobre a Teoria da Evolução, são ‘sub-ramos’ ou ‘sub-classes’ desta, revendo principalmente fatos aos quais era impossível chegar-se com a tecnologia da Era Vitoriana em que viveu o naturalista inglês.
Ao contrário de derrubá-la, as mais recentes pesquisas em genética – ponta-de-lança da modernidade científica – têm corroborado as principais conclusões de Darwin e fortalecido, ainda mais, este que, a meu ver, foi um dos maiores passos na história do conhecimento humano.
Quanto ao criacionismo, vertente principal de oposição ao darwinismo, não passa de uma tentativa desesperada de manter a fé religiosa frente à avalanche de descobertas científicas que, se não provam a inexistência de Deus (algo desnecessário, uma vez que, segundo uma das regras da lógica, o ônus da prova recai sobre quem faz a afirmação), ao menos tiram a necessidade de sua existência para explicar a vida. O darwinismo é, com certeza, uma das maiores ameaças à fé, não é à toa que a esmagadora maioria dos biólogos, em pesquisa recente citada por Dawkins[3], se declararam ateus.
Ora, a concepção científica sobre a origem da vida aponta uma explicação – se não definitiva, até pela natureza da ciência em si – ao menos satisfatória para o problema da origem da vida.
A visão religiosa, ao contrário, se não é propriamente algo negativo em si – especialmente em sua origem, já que, com os meios de que a humanidade dispunha então para sua pesquisa, era uma forma satisfatória de explicar, de ver e de buscar compreender o mundo que nos cerca –, não faz mais sentido no mundo atual, pois não resiste ao impacto de uma pesquisa científica bem estruturada, bem como não consegue passar pelo crivo da lógica.
Apesar do respeito que devemos ter para com quem crê em tais teorias (contanto que também sejamos respeitados), não podemos levá-las a sério cientificamente falando e, apesar de toda a carga moral com que as histórias religiosas possam nos agraciar, elas não são mais do que um conjunto de lendas, por vezes belos, mas totalmente mitológicos, especialmente no que tange a origem da vida, a ponto de vários dos maiores líderes religiosos do mundo, hoje, aceitarem amplamente a teoria evolucionista, apenas ressalvando o ‘dedo de Deus’ no processo. 
Assim, se não vejo a religião como mal em si, compreendendo que cada um deve ser livre para cultuar a sua, não vejo como positivo quando esta tenta se imiscuir ou vetar, tanto a pesquisa, quanto a divulgação de fatos ou teorias científicas, ao mesmo tempo em que não sou contrário a linhas de pesquisa científica que possam embasar as teorias religiosas, desde que estas se baseiem em fatos, não em textos religiosos ou, como a charge abaixo bem aponta:




[1] DAWKINS, Richard, O Gene Egoísta, tradução de Rejane Rubino, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[2] A frase de Hawking foi: “Acho que vírus de computador deve contar como vida. Creio que dizem algo sobre a natureza humana que a única forma de vida que criamos até agora é puramente destrutiva. Nós criamos vida à nossa própria imagem.”
[3] http://ateus.net/videos/ateismo/sobre-o-ateismo-militante/

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Chico Xavier e os tupinambás

Sabe, é interessante conseguir definir uma palavra, conseguir compreendê-la realmente.
Neste final de semana consegui, depois de 40 anos falando, compreender em toda sua extensão o sentido da palavra Tédio (com um T bem grande pra você, como diria o Renato Russo).
Bom, começo a história com um ditado que diz que o casamento é uma instituição onde um dos dois está sempre com a razão e o outro é o marido...
Olha, não sei se é bem assim, mas o fato de minha mulher ter me convencido a assistir “As Mães de Chico Xavier” no cinema, somente para levá-la, me fez, no mínimo, cético quanto à existência do livre arbítrio marital; some-se a isto o fato de ela estar toda emotiva com o dia das mães e temos a receita explosiva para que o ato de negar-se ir a um evento desses possa resultar em uma noite dormindo no sofá (com toda a dor nas costas que tal repreensão possa representar prum gordinho como eu).
Tá certo que eu arrastei ela para assistir “Os Mercenários” e “Criação”, mas vamos concordar: os dois, pelo menos, dentro de seus respectivos públicos-alvo, eram filmes bem feitos.
Olha, não é preconceito não. Eu assisti o trailer de “Chico Xavier” e conversei com quem assistiu (inclusive meu amigo Finkler, que é agnóstico e não simpatiza tanto assim com o maior médium brasileiro, mas é doente por cinema nacional) e, pelo que parece, é um filme bem feito, bem montado, com um roteiro razoável e atuações boas, além de ter ficado muito interessante a caracterização de Nelson Xavier como o personagem título.
Claro, para mim ainda assim seria chatíssimo assisti-lo, creio que o tempo passaria mais veloz em um tratamento de canal sem anestesia, mas tenho que admitir que, para seu target, o filme parece ser bom.
E quanto a este? Bom, eu o detesto, em primeiro lugar, por tê-lo assistido, e o fiz junto a uma platéia que, embevecida, enchia os olhos d’água com a pieguice do roteiro fraquíssimo.
Em segundo, mesmo para seu público, só com muita boa vontade (ou muita fé) ele pode passar de um filme passável (com o perdão do trocadilho).
O filme tem um roteiro arrastado, no melhor (ou pior, vá lá) estilo romance espírita (como leitor compulsivo, leio até bula de remédio). As atuações podem ser classificadas, usando de muito boa vontade, como sofríveis, algumas beirando o “Prêmio Cigano Igor de Atuação” (quem não lembra da fantástica atuação de Ricardo Macchi repetindo ‘Dara... Dara...’ que levante a mão). Até mesmo a atuação do Lampião, ops, quer dizer, do Nelson Xavier não passou de razoável.
Mas o que melhor define o filme, fora a sentimentalidade excessiva exalando de cada fotograma, é a trilha musical de Flávio Venturini, uma mistura de MPB com música clássica tocada com chatíssimos ‘bom-bom-bom-bom-borom-bom-bom’ vocais, que conseguiram estragar até mesmo Bach (e olha que eu gosto de MPB, música clássica e especialmente de Bach).
Em suma, se você não for espírita ou, como bom brasileiro, ‘chegado’ num sincretismo (o que, certamente, deve garantir uma bilheteria recorde para o abacaxi), desaconselho a película (como se meu conselho valesse alguma coisa), excluindo-se, é claro, os seguintes casos:
  • Insônia,
  • Desejo de, como eu, ter a experiência de conhecer a fundo o significado da palavra tédio,
  • Inveja da minha desgraça,
  • Ser tupinambá e, portanto, chegado num ‘programa de índio’, ou
  • Ter uma esposa espírita que te bota no sofá se você não lhe fizer um agrado.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Supremo refaz as contas: XX+XY=XX+XX=XY+XY


Na última quinta (5/5), tive um dia cheio. 7h da manhã estava no ônibus pro trabalho, 19h, discutia o significado biológico da vida na faculdade e, na uma hora de intervalo entre os dois, reunião do Grupo de Estudos em Origem e Evolução da Vida.
Cheguei em casa ‘quebrado’, louco por uma cama confortável, mas enquanto comia uma torrada para manter a forma (esfera é uma forma, certo?), passava os olhos pelo e-mail em busca de algo que não pudesse ser deixado para o dia seguinte.
Surpresa! Uma mensagem da Liga Humanista Secular (por sinal, muito bem redigida, adoro um texto bem escrito) dava conta do dia histórico: O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovara, por unanimidade, o reconhecimento das uniões homoafetivas como união estável.
“Já não era sem tempo!”, expresso sorrindo para o monitor, enquanto meu filho mais velho espera impaciente que eu libere o computador e minha mulher pergunta se quero outra rodada de pão, queijo e presunto aquecidos.
Sim, caro leitor, cara leitora, já não era sem tempo. Já havia passado da hora de nossa casa legislativa máxima passasse a fazer valer os Títulos I e II da Constituição Federal, que garantem direitos iguais a todos os cidadãos, bem como já passava da hora de fazer-se valer o Artigo 19 (Título III), incisos I e III, que garantem a laicidade do Estado brasileiro.
É, meus car@s, laicidade (ou seja, a separação do Estado das igrejas e comunidades religiosas, assim como a neutralidade do Estado em matérias de fé ou falta desta), esta que foi uma das maiores conquistas das revoluções burguesas e que, somente agora, com mais de 200 anos de atraso, sai do papel em nosso país.
Para quem duvida que esta batalha de direitos de quem entende como legítimas as relações entre portadores de cromossomos XY e XX mas desaprova as relações entre os portadores de cromossomos sexuais iguais e aqueles que compreendem que opções de foro íntimo são de foro íntimo era, em última instância, uma batalha do laicismo versus interferência religiosa no Estado, basta ver quem se manifestou no começo da sessão contra a aprovação do reconhecimento da união homoafetiva: um advogado da CNBB e outros grupos religiosos, que seguem a mesma lenga-lenga de que a pluralidade vai contra a religião, tentando impor sua visão de mundo, sem importar-se com o que pensam ou sentem outros brasileiros com os mesmos direitos frente à Carta Magna.
Segundo o texto da LHS, o representante da CNBB chegou a apelar “para a falácia do espantalho, dizendo que daqui a pouco será proibido o porte de bíblia”, em clara alusão de que o desejo de veto aos direitos dos homossexuais tem foro na doutrina religiosa, não no Direito laico ou em uma lógica diferente da que “é deus quem não quer”. Em geral, os grupos contrários à aprovação apenas bradam que “se deus fosse favorável ao homossexualismo teria criado Adão e Ivo”, ou outras falácias e piadinhas de mau gosto, não apresentando quaisquer argumentos racionais para suas afirmações.
Ora! Basta! Já é mais do que hora do Estado, como preceitua a Constituição, respeitar a liberdade de consciência, a igualdade entre cidadãos em matéria religiosa, e a origem humana e democraticamente estabelecida das leis do Estado.
E quando falo em cidadãos, me refiro também a homossexuais, pois eles são tão cidadãos quanto o pastor que brada “deus odeia gays” e, se é assim, por que o segundo deve ter sua opinião respeitada, enquanto o primeiro não?
Por que aqueles que seguem um livro de fábulas escrito há mais de dois mil anos (já que os preceitos contra o homossexualismo estão no velho, não no novo testamento) devem ter mais voz frente ao Estado do que qualquer outro cidadão? Como pode um Estado laico favorecer a visão de parte da população em detrimento de outra, baseando-se em visões de mitologia?
Afinal, somos ou não um Estado laico? Se somos, então o reconhecimento de direitos como o feito pelo STF não deveriam ser novidade, se não somos, então joguemos logo a Constituição fora, peguemos a bíblia e a utilizemos literalmente, o que, pelo menos, nos permitirá usar argentinos como escravos, conforme preceitua Levítico 25:44 (Podeis possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas), nos permitindo, finalmente, a vingança contra a eliminação da Copa de 1990 e do gol de Caniggia contra Taffarel.
Muito justa, pois, a nova matemática do Supremo, igualando as relações XY+XX às XX+XX e XY+XY. O primeiro passo já foi dado, espero outras surpresas em noites cansadas de frio gaúcho, tais como a retirada dos símbolos religiosos das instituições públicas (inclusive do STF) e das escolas estatais, legislação que puna a discriminação homoafetiva ou o fim da isenção de impostos sobre a atividade religiosa, ou será que sou só um baixinho sonhando alto demais?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Gaúcho Dentes de Sabre

    Pessoal, para quem ainda não conhece, recomendo o podcast Fronteiras da Ciência, do Departamento de Física da UFRGS: http:\\frontdaciencia.ufrgs.br
    O desta semana está imperdível, fala sobre os fósseis gaúchos.
    O da semana passada também está MUITO bom, fala sobre ateísmo. Para quem se interessa ou apenas quer compreender melhor o tema, não deixe de acessar. Recomendo que acompanhem semanalmente.