terça-feira, 27 de agosto de 2013

Conhecendo a comida e uma boa samaritana

Oshkosh: Lindas casas de madeira...
Oshkosh é uma cidade linda.
Parece realmente as cidadezinhas de filmes americanos, com casas de madeira de dois andares, muitas com a bandeira americana à frente, gramados muito bem cortados, ruas bem cuidadas, sem qualquer lixo na via pública.
A universidade é igualmente limpa, bem estruturada, bem equipada. É enorme, tem 136 acres e nela estudam mais de 13 mil graduandos e pós-graduandos nas mais diversas áreas.
Tive sorte novamente, os dormitórios, em geral, são para duas pessoas, ganhei um individual, acarpetado e com direito a guarda-roupas, escrivaninha, estantes para livros, cadeira confortável, camiseiro, cama macia, forno micro-ondas e frigobar; tudo, como sempre, impecavelmente limpo e arrumado.
...em ruas largas, bem cuidadas e muito limpas

Estou estranhando um pouco a comida, não tanto por sua qualidade, mas por sua distribuição... Não sou acostumado a comer muito pela manhã (em geral uma xícara de café e um pãozinho de 50g com manteiga são o suficiente), mas aqui, como é sabido, o brekfast é consumido com muito ovo mexido, hambúrguer, cereais...
Ao meio-dia, quando realmente estou com fome, tenho que me contentar com um sanduíche e salada...
Mas à noite... Bah, nessa dá gosto! Ontem mesmo, comi arroz branco, frango com molho, uma ‘papa’ de trigo salgado (não sei o nome e a aparência é nada convidativa, mas é simplesmente delicioso!), acompanhado de ervilhas frescas, feijões verdes, grão de bico, milho, azeitonas pretas, cogumelos fatiados, vagens... Tinha também pizza e outras guloseimas, mas eu ansiava sinceramente por comida de verdade! E o melhor, deliciosa e farta; como me explicou minha guia, quando viu que eu tinha enchido o prato pensando que era uma única servida: você pode chegar aqui quando abrir o RU (restaurante universitário), pagar uma única vez e ficar se servindo indefinidamente até o restaurante fechar! Novamente dei mancada... É às vezes difícil compreender de cara novas culturas, e minhas referências de RUs no Brasil são bem distintas: uma única servida, parca e de comida não tão apetitosa... Mas na próxima eu prometo que vou ter mais parcimônia por servida, afinal, não quero passar a impressão que no Brasil somos uns esfomeados... Em minha defesa, argumento que no fim-de-semana eu tive que me contentar com lanches, pois o RU estava fechado, já que a Universidade ainda está no período de férias; e eu até gosto de lanche (pizza principalmente), mas lá uma vez por semana e apenas em uma refeição...
Vista do prédio onde estou residindo na universidade
No fim de semana estivemos, também, no mercado que, como tudo nessa cidade pequena (pouco mais de 66 mil habitantes) fica incrivelmente distante; isso se explica, em parte, por que os terrenos são todos espaçosos, e em uma área grande moram poucas pessoas, fazendo a cidade se expandir.
Vista do Rio Fox; ao fundo dá pra ver o prédio onde resido.
No domingo – quando aqui não circulam ônibus – fomos conhecer um centro de alimentação, distante uns 40 minutos de caminhada sob um sol de 35ºC. Enchi meus pés de bolhas e minha colega estava quase desmaiando de calor. Como retornar sem coletivo? Ou pior, como ir ao mercado, que fica no outro extremo da cidade, com a Universidade entre ambos? Optamos por dividir um taxi e, com um inglês precaríssimo, tentamos chamar um... parece que não deu muito certo, esperamos por quase 40 minutos em uma sombra precária e ele não apareceu.
Enquanto aguardávamos, começamos a conversar – em um inglês igualmente duvidoso – com duas senhoras simpáticas. Ao fim do tempo de espera, quando acabamos por desistir, uma das senhoras, incrivelmente, se ofereceu para nos dar carona!
Resultado: nos levou ao mercado, esperou pacientemente que fizéssemos as compras e, ao fim, nos levou à Universidade; o tempo todo sorrindo e tentando se comunicar!


Na despedida, nossa “boa samaritana” ainda nos deixou seu endereço e telefone, e no inglês mais simples que pode, para que conseguíssemos entender, nos explicou: em qualquer emergência me procurem. Sorte de principiante!

domingo, 25 de agosto de 2013

Apenas um rapaz latino-americano

A partir dessa postagem, passarei a descrever algumas idas e vindas de minha vida como bolsista em Oshkosh, Wisconsin, EUA, pelo programa Ciências sem Fronteiras, do governo brasileiro. Espero que gostem.

Aeroporto O’Hare, Chicago,
05h24min, hora local (07h24min, hora de Brasília)
Amazônia vista do voo
Tudo certo. Cheguei sem maiores contratempos, afora o sono.
Cheguei em Chicago às 00:05, horário local (duas horas a menos do que o horário de Brasília), e estou acordado desde então.
Some-se a isso o fato de não ter dormido desde que embarquei no Brasil e de ter passado uma noite agitada antes do embarque (saudades prévias, agitação com a viagem, jantar gostoso na casa dos sogros...), e temos um zumbi escrevendo um texto.
Devo estar com uma cara de desorientado tremenda... Tanto que, no check da mochila, há pouco mais de uma hora, me levaram para fazer exame de consumo de entorpecentes... “Ok, sr, it’s all right”.
A Cidade do Panamá foi mais tranquila; só esperei uma hora pela conexão e zarpei rumo aos States.
Apesar do contratempo das drogas, a chegada foi ainda mais tranquila do que esperava, haviam nos orientado de que haveria um formulário para preencher na chegada... Ninguém sequer tocou nesse assunto, fiquei menos de um minuto na imigração e a única coisa que declarei foi estar trazendo produtos de origem vegetal.
“What product, sir?”
“Ilex paraguariensis, the herb from mate.”
“What?”
“Mate, a drink from the gauchos…”
“What?”
Fiz um sinal de que estava com uma cuia e sugando a bomba. O guarda riu e lascou:
“Ah! I stand... It’s ok”
E lascou um ‘ok’ no meu formulário de declaração alfandegária e um carimbo no meu passaporte.
O aeroporto é simplesmente imenso, creio que maior do que a Barra do Quaraí...
Na chegada, não conseguia encontrar onde ficaria meu embarque dali a oito horas.
Normalmente até que consigo me comunicar em inglês, mas zumbis, em geral, têm dificuldade tanto para compreender quanto para falar a língua de Hemingway...
“¿Habas español?” perguntei a todos os funcionários do aeroporto que encontrei, mas todos foram unânimes na negativa simpática. Resolvi atracar meu inglês...
Muitas idas e vindas, desentendidos e mal-entendidos depois, compreendi que deveria subir a escada rolante e pegar o trem (sim, tem um trem dentro do aeroporto para levar aos diversos pontos...).
No trem, torcendo para ter entendido certo, escutei um palavreado que consegui reconhecer:
“Aqui só é muito frio no inverno”, dizia o rapaz à senhora, com um sotaque carioca carregadíssimo.
“Desculpe, você é brasileiro?”
“Sim.”
“Cara, eu estou tentando encontrar os locais de embarque, meu voo sai daqui há algumas horas.”
Perguntas de praxe: pra onde cê vai? De onde cê é? Primeira vez nos USA?
Logo ele lascou: “Vai até a última parada e desce lá; teu embarque provavelmente é lá”
Obedeci; não tinha outra opção, mas tinha tempo de sobra... Não era uma da manhã (hora local) e meu voo saía às oito.
Quando cheguei, os guichês estavam fechados. Aguardei uma hora, lendo Inferno, a mais nova aventura de Robert “Código DaVinci” Langdon.
Logo levantei e comecei a me preparar para as infindáveis conversas cheias de desinformação e de enganos graças à minha pouca compreensão do idioma local, aliada à síndrome de The Walking Dead que me assolava.
“Excuse-me”, lasquei para uma loira de meia idade simpática em uniforme de segurança, “where is the check in?”
Ela me explicou rapidamente. Lasquei:
“Excuse-me, my english is no good... Do you speak Spanish?”
“No, I’m not… where you are from?”
“I’m from Brazil”
Primeira refeição em solo americano: decepcionante
“Ah, mas eu falo português, morei dez anos em São Paulo”, responde-me ela na língua de Camões.
Dizem que a sorte acompanha os loucos... Talvez acompanhe também os zumbis...
Ela me levou ao guichê, em outro andar do aeroporto, me informando que deveria passar no portão dois e se despediu.
Mas, espere! O portão dois estava fechado!
Tentei me informar novamente com outros seguranças; nada... afinal nenhum falava zumbilês... novamente as perguntas: “você fala espanhol? No, sorry.”
Amanhecer no aeroporto de Chicago, após 7 horas de espera
Até que um outro passageiro, americano, condoeu-se desse cucaracha e me ajudou com intérprete. Ufa!
Entrei para o setor de embarque moído, sedento, faminto...
Lasquei uma mineral por três dólares!!!!!!!
E depois fiz meu primeiro lanche em solo americano  um Mac: hambúrguer com bacon e muffin, acompanhado de café... O bacon tinha gosto de nada, o muffin era doce, o hambúrguer era grotescamente gorduroso e o café aguado... Que saudades do “xis” do João Pedro...

Bom, hora de me dirigir a meu portão; novas aventuras e desventuras me esperam em Appleton e Oshkosh... Mas com certeza o pior já passou (ou pelo menos espero...).