terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Veganismo, o novo fundamentalismo

Vou ser sincero, tenho um sentimento dúbio em relação aos veganos; por um lado, eles me divertem muito, por outro, eles me entristecem.
Para quem não sabe, veganos são uma espécie de “vegetarianos radiciais”, que não só não consomem carne como um vegetariano ‘normal’, mas também não consome nada que use produtos animais, tais como ovos, leite, lã, etc. Alguns, mais radicais, chegam a se recusar a matar uma planta para comê-la; se vão comer alface, por exemplo, arrancam apenas algumas folhas do pé sem, contudo, arrancar o pé inteiro.
Mas dizia eu que os veganos me divertem, e não é por sua recusa em consumir produtos animais; acho que eles têm sim o direito de não consumir produtos animais se isso lhes afeta a consciência, ou mesmo se acreditam que isso vá lhes beneficiar a saúde (embora não haja nenhum estudo científico conclusivo indicando que uma dieta vegetariana ou vegana seja melhor para a saúde). Acho que ninguém tem o direito de obriga-los a pensar ou agir diferente, obriga-los a consumir carne ou outro produto que não queiram.
Eles me divertem, em primeiro lugar, por que embora cobrem o respeito por sua visão de mundo não acham que têm qualquer obrigação de respeitar quem tenha outra visão. A nós, que insistimos em apreciar bacon, chamam de “carnistas” e, por incrível que pareça, esse termo pretende ser ofensivo!! Como não se divertir com isso? No próprio facebook já tive alguns debates acalorados com integrantes desses grupos, em que me chamaram de “carnista” e publiquei uma foto de churrasco com o dístico “carnista com orgulho” para comemorar o fato; concluímos esse debate com a vegana desistindo e se despedindo com um “bay” – assim mesmo, baía em inglês, onde ela provavelmente estava querendo dizer bye, o que me leva a pensar que talvez leituras não fossem muito o forte dela.
Agora há pouco, um cara criou um dos muitos “eventos fake” no facebook denominado “Passeata das pessoas que estão de bacon a vida”, usando um trocadilho inteligente. O objetivo do grupo, é claro, não era fazer nenhuma passeata em prol do consumo do bacon; era somente dar risada, tal como grupos como “Comemoração de anos do Chorão longe das drogas” faz ironia com o segundo aniversário de falecimento do cantor do Charlie Brown Jr. por overdose de cocaína sem, contudo, que alguém vá realmente comemorar o trágico incidente, ou como o evento “Aula de dominação da galáxia com Darth Vader” não vai trazer Anakin Skywalker para para uma palestra. Apesar de divertido, o evento iria passar em brancas nuvens, com algumas confirmações igualmente fakes, algumas risadas e nada mais, até a invasão por vegans xingando, apontando o dedo e indignados com a realização da marcha... Sério mesmo? Não compreenderam que a tal “marcha” não existe? Nossa, esse pessoal me diverte tanto!
Ah, mas tem mais! Além de invadirem o evento e xingarem os participantes com epítetos ‘terríveis’; além do já citado “carnista”, também fomos chamados de ‘especistas’ e, claro, de ‘assassinos’ (muito embora assassino seja sinônimo de homicida); o organizador do grupo comentou que recebeu em inbox 28 mensagens xingando-o de tais epítetos. Além dos xingamentos, tivemos os tradicionais “você vai pegar câncer”... é interessante como isso me lembra a pregação de fanáticos religiosos: “se você não segue minha religião você é satanista”; “se você não acredita no mesmo que eu você é mau”; “assassinos são pessoas que não têm meu deus no coração”; “se você não acredita no mesmo que eu meu deus vai te dar câncer”...
Espero realmente estar errado, mas acho que se a coisa seguir desse jeito, não muito longe veremos veganos invadindo churrascarias com fuzis e gritando “vamos vingar as vacas, bakarahu akbar!”; duvida??? Bom, o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo foi exatamente isso, uma tentativa de calar quem pensa diferente.

Liberdade só quando eu concordo

Mas, como já disse, não são apenas risadas que os veganos provocam em mim; eles igualmente me provocam um sentimento de reflexão triste, e não é uma reflexão pelo fato de eu consumir carne, mas sim uma triste reflexão sobre o quanto o ser humano é insignificante para esse pessoal; o quão longe do humanismo eles estão e o quanto liberdade de expressão não significa nada se contrariar o que eles pensam. Conforme expressei em outra crônica aqui neste blog, liberdade de expressão não é somente a liberdade de que se expressem aqueles com quem concordo, mas sim a liberdade de se expressarem aqueles de quem discordo ou, nas palavras atribuídas a Voltaire: “não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-las”.
Destarte, não me oponho de modo algum que veganos façam uma comunidade do tipo “viva a alface”, ou mesmo “comer carne é errado”; o que me oponho é que eles não queiram permitir que os ‘carnistas’ se manifestem, que queiram calar quem pensa diferente.
No outro aspecto citado, o de falta de humanismo, vi o absurdo de uma vegana que, no próprio grupo “de bacon a vida” postou “vou matar uma criança e postar uma foto para ver se vocês acham bonito”; não, não acho que ela vai levar às últimas consequências e matar uma criança (ao menos espero que não), mas tal indica o quão pouco valor eles dão à vida humana em comparação a outros animais. Outro fato que me choca é quando veganos se dizem ‘abolicionistas’, comparando animais de consumo aos escravos que sustentavam a economia brasileira até 1888. Mesmo não sendo afrodescendente (vá lá, todos os seres humanos são afrodescendentes, já que nossa espécie surgiu na África, mas me refiro a que meus antepassados não vieram para a América acorrentados em navios negreiros) eu considero que tal comparação é tremendamente ofensiva para esta minoria tão sofrida pois é, de certa forma, um retorno aos argumentos de desumanização usado pelos escravistas, em que um escravo era comparado a uma vaca ou um porco...
Em suma, o que não aceito é que, por melhores intenções que tenham, que tais grupos se avoquem o direito de “bússolas morais” para quem não concorda com eles e, destarte, se sintam no direito de calar quem pensa diferente ou, nas palavras da Martha Medeiros (Zero Hora 09/01/2013, p. 2):
“O politicamente correto tem um pé na boa intenção e outro pé na repressão de liberdade. Costumo ser defensora acirrada da ética, mas não contem comigo para dar trela aos excessivamente bonzinhos, que pretendem higienizar o universo com medidas estapafúrdias que, espero, nunca serão levadas a sério. Se começarem a restringir a arte e a livre expressão, zzzzzzzzzz, o tédio dominará o mundo e colocará todos para dormir mais cedo.”