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Mostrando postagens com o rótulo contos

Um prego no caixão

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Comemorando o Halloween, essa semana temos que contar, na aula de inglês, um conto de terror. Eu escolhi uma história folclórica gaúcha, que meu avô me contava. Abaixo estão a versão em português e a tradução para o inglês, ambas escritas por mim. *** Essa era uma história que meu avô me contava, sempre salientando que era um “causo verídico acontecido”. Não que ele tivesse conhecido o personagem principal, mas segundo ele, conhecera um dos apostadores. Pois contava meu avô que Tibúrcio era um homem valente, veterano da guerra de 1835. Era respeitado, mas era também um fanfarrão. Alto e forte, dizia a quem quisesse ouvir que não tinha medo de nada nem de ninguém, por qualquer coisa brigava e dizia que já tinha montado em boitatá e capado lobisomem. Os amigos só ouviam, raramente retrucavam, pois tinham medo do temperamento explosivo de Tibúrcio. Era um dia de inverno, em que o minuano, um vento que vem do polo sul e sopra gelado, assoviando sua canção uuuuuuuuuuuuuu, que...

Palhaços

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Ele era realmente, com o perdão da palavra, um pentelho. Pense em um cara chato, daqueles bem chatos; pensou? Bem, agora multiplique esse seu chato por cinco e você, talvez, tenha uma pálida idéia deste meu conhecido. Ele é aquele tipo de cara que não pede, implora, que não conversa, discursa, que não dialoga, monologa, que quando você pergunta “e daí, como vai?”, explica como vai e acrescenta, ainda, como vai a família... Pra te dar uma idéia, seu pai, que é maçom, consegue que ele entrasse para a Ordem DeMolay. No primeiro desfile, em um 7 de setembro, como não podia falar para chatear alguém, raspou a cabeça e ficou a noite inteira acordado bebendo para, no desfile, com a capa preta da Ordem, ficar a cara do Nosferatu. Com tanta chatice, até hoje é um mistério, tanto para mim quanto para meus amigos, como ele podia estar sempre no grupo, conversando, bebendo, chateando, chateando, chateando... Foi numa dessas oportunidades, em que estávamos numa sorveteria, junto com algumas menina...

O Díptero

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Seu nome, na verdade, poucos sabiam; quiçá apenas seus amigos mais chegados, seus ‘confirmados’, como costumava dizer. O apelido, ganhara em uma das inúmeras aulas sem que o vi ‘voando’, pensando no último artigo científico que lera, no último projeto eletrônico ou no filme de sempre (um besteirol chamado A Vida de Brian, do Monty Python). Foi assim: o professor era um tremendo sacana e fez, a um dos alunos, uma pergunta daquelas bem babacas, do tipo: “se você seguir por essa rua, onde você vai dar?” Meu amigo, nesse momento, despertando do devaneio, saltou rápido com as palavras: — Vou dar no quartel. O que fez com que todos ríssemos com gosto. — Pô, moscão, e a pergunta nem era pra ti... As risadas, então, se transformaram em gargalhadas, e dali pra frente todos (com exceção, quiçá, dos ‘confirmados’) passaram a chamá-lo de Moscão. No princípio, ele odiou o apelido maldoso; mais de uma vez eu o vi atirar pedras em quem o chamasse desta forma, mas com o tempo, foi se afeiçoando e, qu...

Pequeno dicionário prisional

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Todos os grupos humanos têm uma linguagem própria, seja ela formada de termos técnicos, de gírias ou de ambos. Por exemplo, é quase impossível ver um médico dizendo que o paciente está com problemas “na buchada”, ou um militar chamando um projétil de ‘bala’, ou um político falando ‘mentira’ ao invés de ‘inverdade’; da mesma forma, você não ouvirá um traficante falando em cocaína, mas em ‘farinha’ ou ‘açúcar’; um marinheiro sempre irá se referir a bombordo e estibordo e não ao lado esquerdo e direito do navio, e um economista geralmente pronunciará  ‘valores monetários’ e não ‘dinheiro’. O sistema prisional não foge à regra. Temos aqui gírias e termos para muitas coisas, nomes esses totalmente estranhos ao restante da população. Vou aqui expor brevemente esses termos, tanto a título de curiosidade quanto pelo fato de que, para manter o colorido do mundo cinza da carceragem, muitos deles serão usados em meus textos sobre o assunto. Formado principalmente por uma aglutinação de termo...

Pesadelo

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Telmo sente-se desconfortável no divã, apesar de todo o esforço do jovem médico para deixá-lo à vontade. — Se você preferir – diz-lhe o psiquiatra – pode sentar na cadeira; o importante é que você se sinta confortável. — Não, aqui mesmo está bom – responde Telmo, embora sentisse que o corpo doía, como se os sonhos repetitivos que o levaram à consulta estivessem vagarosamente se apossando de seu corpo. — Mas você me falava de sonhos... Antes de responder, Telmo passa os olhos castanhos pelo ambiente decorado com bom gosto, detendo o olhar sobre a mesa onde observa, ao lado do busto de Freud, que o médico esquecera de mudar o mês do calendário, o qual ainda está em junho de 1973. — Sonhos não, doutor – diz, por fim –, pesadelos! — Pesadelos... Sei... – diz o médico, anotando algo em um caderninho, o que deixa Telmo ainda mais desconfortável – E sobre o que são esses pesadelos? “O que será que esse sujeito tanto anota?”, pensa o paciente, sempre sentindo o desconforto físico...

Daniel San e a sincronicidade

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Naquele dia ela chegou atrasada, emoldurada por uma neblina triste, com aparência de fog londrino, linda em sua aura de preocupação com a prova de matemática, enquanto em algum lugar Lulu Santos cantava Apenas Mais Uma de Amor, o que me pareceu estranhamento apropriado, lembrei – mas logo afastei da cabeça – da teoria da sincronicidade de Jung. “Estudei a tarde inteira”, disse-me com um sorrisinho lindo nos lábios carnudos, que destacou suas covinhas no rosto, apesar da eterna tristeza de seus olhos negros. “Sei”, disse-lhe eu, “mas acho que não vai ser difícil”. Começamos uma conversa amena e fomos comprar uma coca, que dividimos usando o mesmo canudo. Lembrei-me que os colegas logo chegariam e não ficaríamos mais sozinhos, e convidei-a para uma volta pela quadra da escola. “Somente você”, disse-me ela, “para me convencer a caminhar nesse frio”. “Preciso do conselho de uma amiga”, disse-lhe. “Sou toda ouvidos”. “É que...” e puxei o fôlego, “é que... estou a fim de alg...

Vivendo de cultura

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Eu estava no terceiro whisky quando ele chegou. “Cara, quanto tempo! E os bacurizinhos como vão?” Sempre ri intimamente de seu jeito acariocado de falar, afinal, ele o adquiriu nos poucos meses em que serviu em um quartel no Rio... Apesar de, naquele momento, estar disposto a ficar só com minhas conexões neurais, não pude me furtar a ser gentil: “Aguirre, há quanto tempo! Como vai o Fernando Pessoa de Uruguaiana?” “Que é isso, cara”, diz ele, tentando fingir modéstia, “é bondade sua...” “Senta aí e vamos tomar um ‘goró’. “Tá, mas é só um, tenho que seguir trabalhando...” “E o que tem feito da vida?” Para que fui perguntar? Seus olhos brilharam e marejaram: “Tenho tentado viver de cultura nesta cidade ingrata e inculta.” “Viver de cultura? E como é isso? Vai dizer que tá sendo sustentado por uma professora?” “Antes fosse”, responde ele, limpando o suor da careca precoce, enquanto tenho uma vontade quase incontrolável de rir de seus olhos esbugalhados atrás dos grandes óculos, “antes fos...

Contos do Universo Paralelo

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Não falha nunca. Cada vez que, nos últimos anos, fui apresentado a uma pessoa e relatei-lhe minha profissão ela invariavelmente dispara uma das três perguntas básicas, todas elas versões de um mesmo questionamento: Você não tem medo? O que você fez para merecer um emprego destes? Não é um lugar horrível? Esta é sempre a introdução para o verdadeiro interrogatório que vem a seguir: É verdade que lá é o lugar onde o homem chora e a mãe não escuta? Você já bateu em alguém? Alguém já tentou te matar? É muito perigoso? O que é que vocês comem? Os presos são muito perigosos? Como funciona isso ou aquilo? É um ritual repetitivo e, com o tempo, cansativo, mas mesmo assim não posso culpá-los. Eu mesmo, por muito tempo tive essa espécie de curiosidade mórbida acerca da realidade do mundo atrás das grades, deste verdadeiro universo paralelo, com sua própria realidade, suas próprias leis, seus códigos não escritos, sua própria linguagem, seus personagens únicos e ímpares. Lembro-me que há alguns a...