terça-feira, 20 de maio de 2014

Confesso, eu sou machista

Tá bom, minhas caras feministas, eu reconheço: sou um machista!
“Mas logo você”, ouço alguns amigos e amigas me questionando, “você que sempre vi defendendo direitos iguais independente de sexo, identidade de gênero, etnia, crença ou filosofia?”
Sim, minhas amigas, meus amigos, me descobri um machista; simples assim, sou um machista, mea culpa, mea culpa, minha máxima culpa!
É bom esclarecer, entretanto, que você não deve usar, para me definir assim, o sentido do dicionário, de que machismo é o “comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem”1. Longe de mim! Eu defendo e luto por um mundo igualitário, com oportunidades, direitos e deveres iguais para ambos os sexos! Eu defendo o direito à mulher ser o que ela quiser ser, sem precisar se explicar por isso; a ter o emprego que desejar ter e não receber menos que qualquer homem com o mesmo emprego... Direito inalienável a votar e ser votada para qualquer cargo eletivo sem sofrer discriminação por isso (e sim, eu não só votaria como votei em mulheres para diversos cargos).
Não, tampouco sou daqueles contrários ao direito da mulher sobre o próprio corpo; não, longe de mim! Eu acho que a mulher é dona de seu próprio corpo, deve ter liberdade sexual na mesma medida que os homens; deve ter o direito a buscar a própria felicidade. Não sou contrário tampouco ao aborto, especialmente no começo da gravidez, e acho um absurdo pessoas quererem proibi-lo baseadas em seus próprios conceitos religiosos, uma vez que os conceitos dos outros não são os mesmos seus...
Oh, quanto à agressão? Sou contra, é claro! Para mim, lugar de cara que agride mulher é na cadeia e ponto final; mesmo lugar onde devem estar os estupradores e encoxadores!
Em resumo, eu sou favorável a que a mulher viva em um mundo igualitário, onde homens e mulheres disfrutem da igualdade perante a lei e à sociedade, sejam livres e felizes.

Utopia x realidade

“Sim, seu imbecil”, já escuto algum leitor mais indignado me falar, “então você não é machista!”. Ah, caro leitor, cara leitora, sou sim; pelo menos na concepção do feminismo!
Vamos definir aqui, em primeiro lugar, que eu não sou um “ferrenho antifeminista”; àquele feminismo utópico que realmente prega direitos equânimes e uma vivência humana sem opressão de gênero eu facilmente me aliaria, pois temos o mesmo objetivo, uma sociedade de iguais oportunidades e direitos.
Então por que me considero machista? Bom, vamos pensar um pouco sobre a origem da palavra “machista”; ela vem de “macho”3, ou seja do gênero masculino. Não consegui encontrar uma resposta satisfatória quanto ao surgimento do termo, mas desde o princípio do feminismo o mesmo tem sido usado para descrever a sociedade dita patriarcal, com o foco do poder no sexo masculino. Machistas são, para a chamada Primeira Onda do feminismo, os homens em geral, que buscam a manutenção do poder somente para seu sexo, esta primeira onda era mais centrada em questões como o sufrágio2 (pois mulheres não tinham direito sequer a voto à época do surgimento do feminismo) embora tenham lançado as bases para políticas, por exemplo, do direito ao próprio corpo; a chamada Segunda Onda, surgida nos anos 1960, “se preocupava principalmente com questões de igualdade e o fim da discriminação”2; para essa segunda onda, o machismo (também chamado de chauvinismo) segue sendo a expressão da sociedade dominadora masculina, que não deseja a igualdade feminina; não creio que para essas feministas eu fosse considerado um machista.
Entretanto, a partir principalmente dos anos 1980, tivemos o surgimento da chamada Terceira Onda, que sepulta aquele feminismo de igualdade de direitos; para essa terceira onda, o que interessa é o “empoderamento feminino”2, ou seja, tirar os homens do poder e nele colocar as mulheres. Nesse grupo há mesmo feministas radicais que argumentam que o mundo poderia ser muito melhor se houvesse poucos homens2! Para estas feministas, se você é homem, automaticamente você é machista; se você é mulher, muito provavelmente você é machista; se você for homossexual, quase certamente você é machista; por quê? Simples, porque para elas ou você concorda com tudo o que a visão de feminismo delas prega, ou você é machista; simples assim. Se você concorda com quase tudo, mas tem discordâncias de pontos como, por exemplo, que o cérebro masculino e o feminino são diferentes (isso é facilmente verificável em uma ressonância magnética, por exemplo, e não justifica a supremacia de um ou outro, mas apenas a constatação de que são diferentes) você é machista; se você vota em uma pessoa por acreditar em sua plataforma política, e não por que essa pessoa é mulher, você é machista; se você for homem e achar o corpo de uma mulher interessante, você é machista (inclusive, se você prefere mulheres voluptuosas, você é machista, mas se você prefere mulheres magras, você é machista também, não importa, é claro que mulheres tenham suas preferências em relações a homens, sejam elas físicas ou não, pois elas têm esse direito...); se você gostar de humor, você é machista; se você fizer uma piada, você é machista (a não ser, claro, que a piada chame um homem de corno, de burro ou algo do gênero, daí tá valendo); se você gostar de esportes diferentes de ginástica olímpica ou nado sincroniza, adivinha... você é machista...
Este grupo desgastou tanto a palavra machismo que, se eu morreria de vergonha e faria uma séria autocrítica se fosse chamado de machista por feministas da primeira ou da segunda ondas, não tenho qualquer problema em ser chamado de machista na atual definição, por que sim, eu discordo frontalmente com o feminismo da terceira onda em muitos pontos!
Em primeiro lugar, me desculpem-me as feministas, mas essa posição de “empoderamento” e de “extinção do masculino” é tão sexista quanto a definição original do machismo, apenas troca de gênero.
Em segundo lugar, eu acho um quebra-cabeças insolúvel as contradições do movimento; coisas como por exemplo, rotular as pessoas é coisa do patriarcalismo4; mas o que é que você está fazendo quando chama alguém de machista, sexista ou chauvinista, como por exemplo na página feminista do facebook “Moça, você é machista”?5 Isso não é rotular? Não é “v.t. Colocar rótulo em (nos sentidos próprio e figurado)”6, conforme nos ensina o dicionário? Ou tá valendo só por que foi uma feminista que fez?

Tábula rasa

Outro grande “duplipensar”7 do feminismo que me inquieta é sua relação frente ao empirismo. Se você falar em empirismo a uma feminista, ela vai recuar dois passos e lhe passar um sermão sobre a “ciência patriarcal” e seu desejo de que a ciência seja produzida somente a partir de evidências reproduzíveis; um absurdo, segundo as feministas, pois a ciência não passa de uma construção social, ligada ao patriarcado para manter o status quo8. Bom, nesse caso, temos dois “duplipensamentos”:
O primeiro, quando a ciência vai ao encontro do que prega o feminismo, como no caso de afirmar que fetos não têm sistema nervoso central nas primeiras semanas de gestação e, portanto, não têm como sentir o aborto, a ciência é exaltada, mas caso prove, como citei acima, que os cérebros diferem em gênero, a ciência é execrada; ou seja, senhores e senhoras cientistas, façam ciência, mas apenas nos limites estabelecidos pelo feminismo (só para dar um exemplo, uma professora feminista já me disse que a TPM é uma invenção da ciência sexista para chamar as mulheres de loucas...).
O segundo “duplipensamento” em relação ao empirismo é que, ao mesmo tempo em que dizem ser o empirismo o diabo encarnado, as feministas têm como base de sua teoria de que virtualmente tudo são construções sociais, a não existência de ideias inatas, de que o cérebro tenha estruturas físicas que nos fazem agir de determinadas maneiras (como por exemplo desejar uma mulher bonita), sendo todo conhecimento e comportamento baseado em dados da experiência empírica, ou seja, são construídos vida afora pela sociedade em que vivemos, ideia essa defendida por John Locke em seu Ensaio Acerca do Entendimento Humano10 e que recebe o nome de tábula rasa (a ideia também foi usada por Jean-Jacques Rousseau para afirmar que a guerra é uma construção social, não algo inato, e defender seu "bom selvagem"10 11). Claro, cientistas como Steven Pinker9 que põem por terra essa visão filosófica de que não possuímos comportamentos inatos com dados massivos cientificamente recolhidos (tais como o estudo de gêmeos criados separados ou o estudo de ideias comuns a todas as culturas), não passam de adeptos da ciência mainstream, essa ciência má que ousa discordar da boa doutrina feminista. Nesse último caso, inclusive, as feministas se associam aos religiosos fundamentalistas (a quem tanto criticam) ao descrever a ciência como “intolerante” por não aceitar afirmações sem evidências e basear seu conhecimento em provas.

Dois pesos, duas medidas

O terceiro ponto que tenho contrário a esse feminismo “empodeiramentista” (tá bom, eu criei a palavra, mas faz sentido, vai lá...) é essa noção de vitimização e de desforra.
Vamos ser francos, é claro que mulheres têm problemas sociais, e problemas sociais graves, que precisam ser resolvidos, mas adivinhem, os homens também os têm!
Homens também precisam de casa quando se separam e nem sempre têm melhores condições econômicas – mormente agora, quando mulheres trabalhando e com maiores níveis de escolaridade são cada vez mais comuns –, portanto é injusta a lei que determina que residências compradas pelo Minha Casa, Minha Vida, em caso de separação, fiquem automaticamente para a mulher, conforme determinado em medida provisória pela presidente Dilma.
Homem também é, às vezes, física ou moralmente agredido por sua companheira portanto é um absurdo a Maria da Penha discriminar somente mulheres agredidas (por sorte agora, para contrariedade das feministas, há jurisprudência que assegura a equanimidade nessa lei); mas ainda prossegue o caso de que, falsas denúncias de Maria da Penha – feitas em geral por vingança e que às vezes acabam na prisão do suposto agressor até que este prove ser inocente, em uma chocante afronta ao princípio da inocência – são virtualmente ignoradas pela lei.
Homens cada vez mais cumprem também dupla jornada ajudando no cuidado dos filhos e da casa (isso muito por trabalho das próprias feministas, e uma realidade justa, diga-se de passagem), enquanto que há muitas mulheres que não cumprem a dupla jornada pois preferem viver só e têm condições de pagar outras para fazê-lo; portanto a lei que assegura aposentadoria precoce universal às mulheres, e somente a elas, é injusta; deveria, no mínimo, ser analisado caso a caso (isso, é claro, sem levar em conta o fato de que os homens morrem, em média, de cinco a oito anos antes).
Há tantos casos de câncer de próstata (um câncer exclusivamente masculino) quanto de câncer de mama (um câncer quase exclusivamente feminino), mas as campanhas de prevenção do câncer de mama recebem infinitamente mais recursos para tratamento e campanhas de conscientização e prevenção.
Eu poderia me estender por dezenas de outros exemplos em que, apesar de ambos os sexos possuírem um determinado problema, apenas o sexo feminino é atendido (ou pelo menos é atendido preferencialmente); mas acredito que isso já deu um bom parâmetro do por que não concordo com essa doutrina de dois pesos, duas medidas.

Generalização?

“Ah”, dirão algumas, “mas isso não é todo o movimento feminista, você não pode generalizar”. Bom, talvez nem todas sejam tão radicais, talvez nem todas queiram pôr o gênero que tem cromossomos sexuais XY em risco de extinção ou achariam um mundo sem homens uma maravilha, mas estranhamente, se são contrárias essa visão, as feministas light não se manifestam contra, ao contrário, na hora de marchar, marcham lado a lado; nunca vi (se você dispuser de exemplos, por favor me envie), marchas, livros ou artigos feministas querendo que mulheres que agridem ou matem seus companheiros vão para a cadeia; ou contrárias à discriminação do programa no Minha Casa, Minha Vida na hora da separação do casal; ou favoráveis a que homens com dupla jornada se aposentem igualmente cedo; ou defendendo a divisão dos recursos para combate ao câncer de forma mais equânime, ou mesmo feministas revoltadas com uma piada contra o gênero masculino, como vemos várias manifestações contra piadas feitas contra o gênero feminino (já vi até o Rafinha Bastos ter sido comparado a Hitler por uma piada)... ao contrário, se alguém aparece defendendo essas causas é, na hora, rotulado de machista (muito embora rotular seja coisa da sociedade patriarcal).
E não me venha com essa de “justiça histórica”; sim, é verdade, meu avô provavelmente era sexista e minha avó provavelmente sofreu com isso, mas eu não sou meu avô, não sou responsável pelos atos dele, e da mesma forma você não é minha avó, e ela não vai receber os benefícios dessa suposta justiça histórica, uma vez que já está morta; que sentido tem compensação histórica para pessoas que já morreram? Ou que sentido faz você buscar a desforra em mim por algo que meu avô fez, sobre o que eu não tinha controle e com a qual eu n’ao concordaria se tivesse? Isso, claro, sem contar o fato de que minha própria avó concordava com o sistema em que vivia...
Portanto, senhoras feministas, se ser machista significa discordar de sua visão unilateral de mundo, dessa visão que deseja um mundo igualitário focando somente em um dos gêneros, que deseja esse “empoderamento”, sou machista sim; e digo mais, me orgulho disso; me orgulho de ser mal visto por sexistas, não importa o seu sexo, da mesma forma caras que acreditam na superioridade masculina não gostam do meu discurso, pois o mundo que busco é realmente igualitário, sem “empoderamento”, seja ele masculino ou feminino.

Trabalhos citados:

7 – George Orwell criou o neologismo em seu livro 1984 (1948. Martin Secker & Warburg Ltd, London, capítulo 3, p. 32), significando “o ato de aceitar simultaneamente duas crenças contraditórias, muitas vezes de distintos contexto sociais, como corretas ao mesmo tempo”.
8 - Chassot, Áttico, 2003. A Ciência é masculina? É sim, senhora! São Leopoldo: Editora UNISINOS.
9 – PINKER, Steven. 2004. Tabula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo, Companhia das Letras.
10 - http://en.wikipedia.org/wiki/Tabula_rasa
11 - ROUSSEAU, Jean-Jacques. 1978. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril Cultural.