sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Palhaços


Ele era realmente, com o perdão da palavra, um pentelho. Pense em um cara chato, daqueles bem chatos; pensou? Bem, agora multiplique esse seu chato por cinco e você, talvez, tenha uma pálida idéia deste meu conhecido.
Ele é aquele tipo de cara que não pede, implora, que não conversa, discursa, que não dialoga, monologa, que quando você pergunta “e daí, como vai?”, explica como vai e acrescenta, ainda, como vai a família...
Pra te dar uma idéia, seu pai, que é maçom, consegue que ele entrasse para a Ordem DeMolay. No primeiro desfile, em um 7 de setembro, como não podia falar para chatear alguém, raspou a cabeça e ficou a noite inteira acordado bebendo para, no desfile, com a capa preta da Ordem, ficar a cara do Nosferatu.
Com tanta chatice, até hoje é um mistério, tanto para mim quanto para meus amigos, como ele podia estar sempre no grupo, conversando, bebendo, chateando, chateando, chateando...
Foi numa dessas oportunidades, em que estávamos numa sorveteria, junto com algumas meninas, que ele resolveu dar em cima da Glorinha.
Ah, a Glorinha... Uma finura de pessoa, alguém de quem todos gostávamos e com quem, a maioria de nós, sonhava em namorar (mas tudo se resumia a sonhos, ela não dava bola pra ninguém do grupo).
Pois estávamos nós sentados na sorveteria, um grupo tão grande que foi preciso juntar várias mesas; eu fiquei em uma das cabeceiras, junto a um latão de lixo em forma de palhaço. No outro extremo, a Glorinha, musa de meus sonhos molhados, junto àquele chato de quem vos falei. E o chato chateava, e falava, e monopolizava a Glorinha, que agüentava estoicamente enquanto nós, do grupo, sentíamos compaixão por tudo que ela estava agüentando.
Tanto foi, tanto fez, que a Glorinha decidiu agir:
— Querem ver eu, daqui, acertar a boca do palhaço?
Olhei para a lixeira ao meu lado, deveria estar a uns cinco metros dela, e ela pretendia atirar um guardanapo amassado, que não tem a mínima estabilidade... ah, essa eu precisava ver, além disso, não poderia deixar de aparecer pra Glorinha:
— Pago tudo que consumistes hoje se acertares.
Ela, então, mirou, mirou e atirou a bolinha de papel na boca do chato!
Todos rimos com gosto e maldade, afinal, nos considerávamos vingados; ela não só tinha desmascarado o palhaço como, ainda, lavou nossa alma por ele ter ousado dar em cima de nossa musa.
Ele, por sua vez, baixou a crista, riu amarelo e se manteve, pela primeira vez desde que me lembro, em silêncio. Então, foi a vez dela começar a falar-lhe, em voz baixa mas gesticulando muito.
O final da história? A Glorinha e o chato acabaram trocando um beijo daqueles cinematográficos e estão juntos até hoje; ela diz que são muito apaixonados e que ele, quando não está falando ou chateando, é um cara sensacional.
Quanto a mim, paguei a conta da Glorinha naquele dia, até hoje tendo entender as mulheres e a única certeza que tenho é que o palhaço, naquele dia, era eu...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Díptero


Seu nome, na verdade, poucos sabiam; quiçá apenas seus amigos mais chegados, seus ‘confirmados’, como costumava dizer. O apelido, ganhara em uma das inúmeras aulas sem que o vi ‘voando’, pensando no último artigo científico que lera, no último projeto eletrônico ou no filme de sempre (um besteirol chamado A Vida de Brian, do Monty Python).
Foi assim: o professor era um tremendo sacana e fez, a um dos alunos, uma pergunta daquelas bem babacas, do tipo: “se você seguir por essa rua, onde você vai dar?”
Meu amigo, nesse momento, despertando do devaneio, saltou rápido com as palavras:
— Vou dar no quartel.
O que fez com que todos ríssemos com gosto.
— Pô, moscão, e a pergunta nem era pra ti...
As risadas, então, se transformaram em gargalhadas, e dali pra frente todos (com exceção, quiçá, dos ‘confirmados’) passaram a chamá-lo de Moscão.
No princípio, ele odiou o apelido maldoso; mais de uma vez eu o vi atirar pedras em quem o chamasse desta forma, mas com o tempo, foi se afeiçoando e, quando tínhamos uns 17 anos, era assim que assinava nossos grafites (acrescentando, às vezes, a frase “isca para brigadiano”).
Eu o considerava mais do que um amigo; talvez o irmão que nunca tive; mas às vezes não podia me furtar de usar o apelido, geralmente acrescentando: “é por essas e outras que te chamam de Moscão”...
Uma dessas não raras ocasiões ocorreu em uma noite fria de inverno, quando voltávamos para casa, do colégio, após termos deixado as respectivas namoradas em suas casas – devo acrescentar que, para cúmulo das coincidências, namorávamos duas Cláudias que, ainda por cima, eram vizinhas.
Mas como ia dizendo antes de devanear, seguíamos pela 15 de Novembro e, pouco depois de passar pela 14 de Julho, a luz se foi e a cidade ficou totalmente às escuras, exceto pelo brilho da lua cheia.
Até aí tudo bem, seguimos caminhando e conversando, até que ouvi um barulho às nossas costas. Olhei e, a uns cinco metros, se aproximava um pequeno grupo que, mesmo à distância e com pouca iluminação, pareceu-me mal intencionado.
Como sempre fazia, usei de psicologia, já que minhas pernas curtas e o fôlego de asmático não me permitiriam correr; pus a mão dentro da jaqueta como se estivesse armado e virei para trás; o teatro surtiu efeito, o bando parou e começou a cochichar entre si.
Moscão, recém se dando conta de que havia mais alguém na rua, se virou e viu o bando:
— Cara, e nós sem uma arma! – expressou, fazendo com que os larápios pulassem na mesma hora e nos largassem só de cuecas (até meu botton do Lula levaram).
Depois da ação, entre o tristes e o eufóricos com a adrenalina, sentados no meio-fio, não pude resistir:
— Pô, cara, é por essas e outras que te chamam de Moscão...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Justiça austriaca autoriza ateu usar escorredor de macarrão na cabeça em foto de carteira de motorista por motivo religioso

Depois de um período afastado por motivos pessoais (final de semestre na Universidade, seminário em Rio Grande, esposa com emprego novo e eu transformado em ‘rainha do lar’...), estou de volta com uma notícia sensacional:

Um ateu ganhou na Justiça da Áustria o direito de aparecer na foto da carteira de motorista usando um escorredor de macarrão na cabeça como um “símbolo religioso”.
Niko Alm fez o pedido depois de tomar conhecimento que a cobertura na cabeça em fotografias só é permitida em caso de necessidade religiosa. Então, ele disse ser seguidor da “religião” massafari (uma mistura de massa com rastafari – em inglês funciona melhor: pastafari)
O austríaco, que teve que comprovar ser psicologicamente apto para dirigir, afirma frequentar a Igreja do Monstro de Espaguete Voador.
O pedido demorou três anos para ser aprovado, informou o “Huffington Post”.
Agora, Niko quer que as autoridades austríacas reconheçam oficialmente o massafarianismo como uma religião.
A “seita” macarrônica nasceu nos EUA como uma resposta ao governo Bush, que proibia o ensino da teoria da evolução das espécies nas escolas públicas. Então, um sujeito criou o monstro, que dá origem à Terra e a todos os seus habitantes irracionais e racionais – incluindo os anões.
Fiquei tão empolgado com a iniciativa que em breve vou mudar minha foto, acrescentando um escorredor, também por motivos religosos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poderia Adão não ter comido a maçã?


Duvido que alguém no ocidente não conheça a história do pecado original, aquela que conta como Jeová, tendo posto o ex-boneco-de-barro Adão e sua ex-costela Eva no paraíso apenas lhes exigiu que não comessem da árvore do conhecimento. Mas a serpente tentou Eva, e esta a Adão, enfurecendo o locatário do Éden que os expulsou sem ao menos dar notificação de despejo ou permitir que consultassem um advogado (apesar de que alguns maldosos dizem que os advogados nessa época, ainda não tinham sido inventados por Lúcifer).
Mas afora o fato de serpentes falarem, da dúvida sobre se os primeiros humanos tinham umbigo e de como o primeiro casal, tendo três filhos varões (Caim, Abel e Sete), conseguiu ter netos, a grande questão que me intriga nesta história toda é se Adão e Eva tiveram escolha ou se o consumo de pomos proibidos fazia parte de sua carga genética.
Em outras palavras, existe mesmo o livre arbítrio? Podemos escolher entre o bem e o mal (supondo-se que o bem e o mal existam e não sejam convenções sociais)? Até que ponto nossa personalidade e nossas ações são frutos do meio e da criação e até que ponto estão prescritas em nosso DNA?
Crescemos educados para acreditar que a escolha é nossa; que somos “fadados à liberdade”, como o quer Sartre, ou que um deus benevolente colocou a livre escolha como forma de nos sacanear e possibilitar que o inferno não feche as portas por falta de clientes.
Entretanto, em primeiro lugar, se eu tenho a liberdade total de opção, quem é esse ‘eu’ que escolhe? Freud nos ensina que esse ‘eu’ é pelo menos uma trindade: o id e o ego (ou nosso ‘anjinho’ e nosso ‘capetinha’), e o superego.
Richard Dawkins, entretanto, vai mais longe, e define nosso ‘eu’ como um conjunto de idéias infectantes chamadas memes, que batalham pela própria reprodução e perpetuação, usando nossa massa cinzenta como máquina de sobrevivência, ou seja, o ‘eu’, como já dizia o príncipe Sidarda, é uma ilusão tão grande quanto comprar uma TV esperando uma programação decente no final de semana.
De toda essa discussão, Steven Pinker afirma não ter dúvidas: o principal componente são os genes; eles é que decidem nossa personalidade, nossas inclinações pessoais, nosso ‘eu’ mais íntimo.
Sou sinceramente cético quanto ao livre-arbítrio. Além de ser um simpatizante das teorias de Dawkins, de Susan Blackmore e de Daniel Dennett, hipóteses que de per si matariam a teoria religiosa do livre arbítrio, estou encontrando muita lenha pro debate no livro Tábula Rasa, de Pinker.
Mas mesmo que eles (e por conseqüência eu) estejam equivocados e que o ambiente seja a principal influência, novamente entramos em um estágio em que o livre-abítrio bíblico vai, no mínimo, para a UTI.
Embora sejamos construídos pelo ambiente, ainda assim somos moldados, pois nesse caso, nossas sinapses se formam, desde a tenra infância, a partir da informação que nos é repassada, e nossas decisões futuras serão baseadas nas ligações neurais já estabelecidas, aprendidas.
Acho dúbia essa hipótese, até mesmo porque Adão e Eva, em princípio, viviam em um lar que era um paraíso, com um pai amoroso e que lhes assegurou boa educação moral. Nem a má companhia poderia ser culpada, pois eles tinham colegas que eram verdadeiros anjos. Tá certo que a falta da mãe pode ter influenciado na destemperança, e que ao menos o pecado de Adão possa ser explicado pelo complexo de édipo, ou de que Eva não estaria preparada para resistir a um símbolo fálico lhe dizendo para comer uma maçã, mas ainda assim me mantenho descrente.
De qualquer forma, pouco importa se o filho de um pai violento terá tendência a ser violento por que herdou os genes de seu pai (como quer Pinker) ou porque o ambiente paterno lhe ensinou a ser assim (como o quer, por exemplo, Craig Venter); o fato é que o sujeito que assim está formado tenderá naturalmente a reagir violentamente contanto que certas circunstâncias desencadeantes se apresentem. Em alguns momentos, talvez seu id consiga bloquear o impulso, em outros, o ego nocauteará o senso social.
Não que tal seja desculpa para uma conduta socialmente imprópria; mesmo que nossos impulsos sejam predeterminados, ainda assim somos primatas sociais e, como tal, sujeitos a regras de conduta no bando, sob pena de ser impossível a vida em sociedade, o que discuto é apenas o nível de decisão consciente que realmente podemos nos atribuir, e considero isso de fundamental importância, não só porque a teoria do pecado original cai por terra, mas também por que baluartes civilizatórios tais como a reeducação social (por exemplo as penitenciárias) deve seguir um rumo ou outro, dependendo de qual teoria está correta.
Mas o assunto é muito complexo, as dúvidas profundas e persistentes, e o espaço de que disponho é exíguo. A única coisa que tenho como certa é que não existe livre-arbítrio no casamento.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Memética

Como é formada nossa consciência? Será que as idéias também seguem a evolução darwinista? Como surgiu a teoria dos memes? Quais seus principais defensores?
Tudo isso e muito mais em um papo alegre e recheado de muito rock'n'roll, este é o Rock com Ciência, programa do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Viçosa, vale à pena conferir (não fique só neste, eu sou fã de carteirinha).
Acesse http://www.rockcomciencia.com.br/?p=937, baixe ou escute no próprio site e saiba um pouco mais sobre este assunto.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Aleluia, Ataxerxes!


Dia desses uma conhecida minha, evangélica, que vez por outra lembra de ter a sagrada missão de tentar converter esse descrente, lançou-me uma frase: Jesus é meu melhor amigo.
Explicou-me, também, que é a Jesus que recorre quando está triste, quando tem problemas, quando tem dúvidas.
Primeiro cogitei entrar pela enésima vez no campo da razão x fé, mostrando-lhe novamente que o que ela diz é absurdo, que o fato de crer-se ou de sentir-se algo não torna esse ‘algo’ verdadeiro, que o fato de um livro ter sido escrito há muito tempo não o torna detentor de uma confiabilidade maior do que qualquer outro texto, que a Aposta de Pascal (de que se você não crê e os crentes estão com a razão você está perdido, mas que se você crê e está errado você não perde nada) é um absurdo lógico, e centenas de outros argumentos que já apresentei a ela, infrutiferamente, milhares de vezes, atirando, como diz o ditado bíblico, pérolas aos porcos.
Depois desisti, ela é uma pessoa cega à racionalidade, dei-me conta de que ela vive em seu mundo de faz-de-conta e nada do que eu argumente vai mudar isso. Talvez, até, ela se sinta feliz com isso.
Mas o fato é que cansei! Desta vez decidi ser mais firme, embora deteste ser rude, e respondi-lhe:
— Jesus é seu melhor amigo? Mas você não está velha demais para ter amigos imaginários?
Pela cara que fez acho que faltou pouco para me saltar ao pescoço e mostrar o quão contundente pode ser o amor de deus, mas conteve-se e encerrou o assunto.
Se o assunto morreu ali, porém, meu pensamento viajou longe nos dias que se seguiram.
Imagine só eu, que tenho uma vida corrida e cheia de incertezas, e que desde 1992 não tenho mais a figura paterna para recorrer – para me colocar ‘na linha’, para me socorrer nos momentos de crise –, eu que tantas vezes tenho que superar minhas tristezas sozinho ou tomar minhas próprias decisões, o quanto talvez uma figura como a dela pode estar faltando para preencher o buraco de minha existência (até então eu sequer tinha me dado conta de que existia um buraco em minha existência!). Quem sabe nesta ausência de racionalismo possa estar a chave da felicidade?
E eu, que até então me achava tão feliz!
Assim, caro leitor, estou decidido: A partir de hoje também vou adotar uma crença que não pode ser explicada racionalmente.
Entretanto, como essa é uma decisão importante, fiz mais algumas ponderações.
Primeiro, lembrei que não sou chegado em histórias de zumbi – tá, até que o Fome Animal, do Peter Jackson, e o Planeta Terror, do Robert Rodrigues são legais, mas no geral é só um sangue-tripas indigesto e sem graça (ou sem susto) –, então não acho que histórias de seres sobrenaturais que levantaram do túmulo vão me fazer sentir melhor.
Depois, considerei que, como bipolar, já tenho uma vida econômica relativamente difícil de controlar e, portanto, não acho que dar dinheiro para sustentar o pastor possa me fazer sentir mais feliz, mesmo sabendo o quanto ele ficaria feliz com isso (talvez seja só egoísmo meu não querer fazer um pastor feliz, mas se até mesmo meus genes são egoístas, então acho que isso pode ser desculpável).
Por último, lembrei que meus amigos sempre formam um grupo seleto (ao menos seleto para mim). Não que eu seja elitista mas, até por timidez, chamar alguém de amigo é algo que não faço com freqüência. Tenho centenas de conhecidos, dezenas de pessoas que me são simpáticas, sujeitos por quem tenho grande estima, mas amigos mesmo são poucos.
Amigos para mim são, como diz o ditado popular, os irmãos que a gente escolhe.
Face a isto, pareceu-me indigesta a idéia de ter como melhor amigo alguém que já é o melhor amigo de tanta gente (olha o egoísmo falando alto novamente).
Por todas essas avaliações, logo descartei a figura do judeu crucificado, proposta por minha conhecida, como melhor amigo. Mas, então, o que fazer?
Seguir o judaísmo ou o islamismo? Não, a circuncisão seria dolorosa demais, além do que na segunda opção teria que largar outro bom amigo chamado cerveja, e meus amigos, por mais que me sejam queridos, não podem determinar com quem eu me relaciono.
Cheguei a pensar no candomblé, mas lembrei que não sei dançar.
Kardecismo? Bah, eu já sou espirituoso o suficiente.
Depois de muito pensar só me restou uma solução; a única que pode ser encaixada em todos os quesitos: criei meu próprio amigo imaginário.
O nome dele é Ataxerxes (nenhuma relação com o rei persa, mas vai dizer que não é um nome sonoro?).
Tá, até pode parecer estranho, quem sabe alguns pensem que estou louco, mas como nerd já sou considerado esquisito mesmo; além disso, é bom lembrar que fé a gente não discute.
Já até pedi, noite passada, que o Ataxerxes me apresente a uma loira gostosa e ninfomaníaca, que tenha tara por CDFs baixinhos – com o adendo de que minha mulher nunca fique sabendo...
Se vou ser atendido? Realmente ainda não sei, mas tenho esperança, afinal, imaginário por imaginário, tenho tanta chance de ser agraciado quanto qualquer religioso que ore para sua divindade.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Egoísmo de Dawkins I

Richard Dawkins




A partir de hoje, “estarei postando” (com gerundismo, como faria o pessoal do telemarketing) artigos objetivando explicar a teoria evolucionista do Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Como o assunto é muito extenso, não a farei em um único post.

Para começo de conversa, hoje, falaremos sobre o que são genes.

Vivemos em uma era de informação. Neste momento, por exemplo, você está acessando informação na tela de seu micro. A informação que você vê, entretanto, é uma tradução do que está circulando nos chips de sua máquina, que não passam de sinais de ligado e desligado (ou 1 e 0, respectivamente). Toda a imensa diversidade de informações – jogos, homepages, vídeos, fotos, arquivos de texto, vírus...) não passam de combinações destes sinais interpretados pelo processador.
Como é possível? Bom. Analise o primeiro parágrafo do presente texto. Quantos sinais diferentes temos no excerto destacado? 22 (abcdefghijklmnoprstuvx) se contarmos somente as letras (ignorando pontuação, espaçamento e acentuação).
Agora experimente pegar todos os textos deste blog e conte novamente o número de sinais, descontando outra vez os sinais gráficos que não as letras. Quanto você achou? No máximo 26.
Mas espere; usei 22 sinais gráficos para escrever um único parágrafo e 26 para escrever todos os textos do blog? Exatamente! A combinação e recombinação destes sinais, a quem previamente foi associado um valor semiótico permite que sua variabilidade seja praticamente infinita.
No caso do computador, peguemos a primeira letra deste texto.
Nos primórdios da informática, os sinais de ligado e desligado foram reunidos em grupos de oito, possibilitando 256 combinações diferentes indo de 00000000 (0 em numeração decimal) a 11111111 (255). Cada sinal de ligado e desligado é denominado bit. Um grupo de oito sinais é denominado byte. Os caracteres associados aos 256 bytes possíveis estão relacionados em uma tabela chamada código ASCII.
No caso da primeira letra do presente texto (um A maiúsculo), em texto puro, recebe a numeração ASCII 65, ou seja, 01000001. Caso estivesse escrevendo este artigo em um processador de texto como o ‘bloco de notas’ do windows, seria este valor que o ‘cérebro’ do computador interpretaria para me dar um A (como estou usando um processador de texto com formatação, ele também usa outros sinais para indicar o tipo de fonte, tamanho, cor, posição...). As primeiras duas palavras do texto (incluindo o espaço) em ASCII ficariam: 065 032 112 097 114 116 105 114, ou 01000001 00100000 01110000 01100001 01110010 01110100 01101001 01110010 em binários.
“Tudo bem”, pensa o leitor, “mas não íamos falar de genes”? Eis aqui o fator surpreendente: assim como na informática, a vida também é baseada em informação! E mais ainda, também aí de poucos ‘sinais’, obtém-se a complexidade.
Você já ouviu falar em DNA, certo? É aquela longa molécula – longa mesmo, o DNA de uma célula individual humana contém em torno de 3x109 (o número três seguido de nove zeros) unidades nucleotídicas (RIDLEY, 2001) – formada por fosfatos, pentoses e bases nitrogenadas ligadas por pontes de hidrogênio. As bases nitrogenadas do DNA são de quatro tipos: adenina, timina, citosina e guanina, sendo que os dois primeiros sempre estão ligados entre si, assim como os dois segundos, não sendo possível a ligação adenina-citosina ou adenina-guanina, bem como a ligação timina-citosina ou timina-guanina. Das combinações destas quatro ‘letras da vida’ (ATCG), sai toda a combinação do ‘livro de receitas’ da vida. Quanto à questão da comparação com a informática, que exemplifiquei principalmente para mostrar como a complexidade pode vir de algo simples, você poderia pensar nos bits como os átomos que formam a molécula e nos bytes como cada base nitrogenada.
Mas e o gene? Bom, se o DNA é o ‘livro de receitas’ para formar você, e cada base nitrogenada é uma ‘letra’ deste livro, então cada gene poderia ser entendido como uma ‘frase’, uma frase mínima para existir compreensão, tal como “cabelos castanho escuros” ou “cabelo liso” ou ainda “calvice precoce”.
Entretanto, para compreender-se uma frase nem todas as palavras utilizadas nela são necessárias.
O parágrafo anterior, por exemplo, poderia ser simplificado para: “Para entender uma frase, nem todas as palavras são necessárias”, sem que com isso se perdesse o sentido original.
Da mesma forma, cada gene tem partes codificantes, chamadas éxons e partes não codificantes, chamadas íntrons, sendo que o tamanho dos íntrons geralmente supera em muito o dos éxons:
© Fabiana Santos Gonçalves
Para a síntese das proteínas, as partes codificantes são transcritas para uma molécula chamada mRNA (ácido ribonucléico mensageiro), em um processo chamado transcrição. O RNA é, ao contrário do DNA, uma fita simples e, também diferente do DNA, utiliza uma base chamada uracila em vez de timina. A transcrição ocorre no núcleo celular. Depois a molécula de mRNA deixa o núcleo e viaja até uma das estruturas do citoplasma chamadas de ribossomos que são formadas por outro tipo de RNA, o RNA ribossômico (rRNA). É aí que a seqüência de aminoácidos é lida a partir da seqüência de mRNA e as proteínas são montadas, em um processo chamado de tradução. Na realidade, a tradução é feita por um outro tipo de RNA, o RNA de transferência (tRNA) (RIDLEY, 2004). As proteínas assim formadas são os reguladores da expressão dos fenótipos.
PÁRA!!! O QUE QUER DIZER TUDO ISSO?
Quer dizer, grosso modo, que cada molécula de DNA se abre e é copiada de forma negativa (em cada adenina é adicionada uma uracila, em cada citosina uma guanina e vice versa), molécula esta chamada mRNA, que por sua vez é copiada por uma molécula chamada rRNA, a partir da qual são sintetizadas as proteínas, os ‘tijolos’ de que você é feito; pode-se dizer que nossos corpos são construídos, regulados, mantidos e defendidos por proteínas.
© Mark Ridley

No vídeo abaixo você tem uma explicação animada do processo:
 Quando ocorre alguma mutação em um gene, o seu produto polipeptídico pode ser alterado ou até mesmo não ser produzido, modificando seu papel no organismo. Mas isso é assunto para outra semana.
Se você gostou do assunto, nada melhor do que se aprofundar e, para isso, recomendo a bibliografia que usei.

Bibliografia:
DAWKINS, Richard, O Gene Egoísta, São Paulo : Companhia das Letras, 2004.
FILHO, Dorival, DNA-Estrutura – Vídeo - .
GONÇALVES, Fabiana Santos, Gene, .
LIMA, Cleiva Aguiar de / SALOMÃO DE FREITAS, Diana Paula, Do Bolo a Fabricação de Proteínas: relato de experiência de oficina realizada por professoras em formação permanente.
RIDLEY, Mark, Evolução, Porto Alegre : Artmed, 2004.
RIDLEY, Mark, Evolution, .
SALOMÃO DE FREITAS, Diana Paula, Replicação do DNA e Síntese Protéica, Slides para aula, Universidade Federal do Pampa - Unipampa, Agosto 2010.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pet’sRapture, uma nova proposta empresarial

Estou abrindo uma empresa para atender um nicho de mercado inexplorado, pretendo atender bichinhos de estimação para o público evangélico. O nome da empresa será Pet’sRapture.
Tudo começou com minha ignorância confessa em alguns temas religiosos. Sabe, tenho que confessar: passo tanto tempo lendo ciência, HQ, filosofia, história e outras bobagens, que raramente dedico um tempo à religião.
Quando jovem cheguei a ler a bíblia, o alcorão, o bhagavad gita, os livros dos mortos egípcio e tibetano e o outros textos sagrados, mas a velhice vai chegando e começamos a deixar essas coisas sérias de lado e partimos para as bobagens. Atualmente, em vez da bíblia estou lendo Steven Pinker.
Graças a esta ignorância religiosa, desconhecia uma das mais interessantes teorias do cristianismo: o arrebatamento.
Confesso (esse blog, hoje, está virado num confessionário) que me despertava curiosidade quando via adesivos “em caso de arrebatamento este carro ficará desgovernado” colados em automóveis, mas não tinha a menor idéia do que tratava o tema até que um conhecido meu apareceu com o dito adesivo e não resisti perguntar-lhe do que se tratava.
Para quem não sabe, o arrebatamento seria um momento no qual Jesus resgataria os salvos para o reino dos céus, deixando na Terra os demais seres humanos que não o aceitaram como salvador.
“É mais ou menos assim”, me explicou esse conhecido, “eu posso estar aqui conversando com você e, de repente, fica somente você conversando. Eu, e todos os outros que têm Jesus em seu coração, desaparecerão, iremos direto para Nova Jerusalém, na presença do Altíssimo”.
Devo admitir que fiquei surpreso de início. E também um pouco chateado, pois ele pensou que, já que tinha perguntado sobre o tema, estava aberto à conversão e passou umas semanas tentando me fazer visitar sua igreja; só desistiu quando lhe expliquei o que significava o “deus=√-1” na minha camiseta.
Mas se com o tempo sumiu a surpresa, não sumiu o fascínio. Imaginei os carros desgovernados, atropelando filhos de deus que não aceitaram a salvação, enquanto Seus escolhidos subiam aos céus. Imaginei também aviões caindo, já que o piloto agora morava em Nova Jerusalém. Mas o que são, para Jeová, alguns milhões de mortes perto do salvamento de uma alma de seus escolhidos? Para quem duvidar, basta lembrar que para salvar seu rebanho, não hesitou em matar o primogênito de cada família egípcia. Bom, deve ser por isso que ele é deus e nós não.
Conversei sobre o assunto com um amigo meu, o Finkler, que já citei em outros textos. Ele primeiro riu do conceito. Depois eu percebi que ficou sério, pensativo, contemplativo.
Dias depois, ele me apareceu com a idéia:
“Isso não é um absurdo”, disse-me ele, “é um novo nicho de mercado ainda inexplorado”. Foi então que decidimos fundar a Pet’sRapture.
Explico: Se você está na Terra, vivendo neste começo de Século XXI, não importando qual sua crença ou doutrina política; a possibilidade de você ter um bichinho de estimação é imensa.
Se você tem um bichinho de estimação (ainda não consegui me acostumar com o termo pet), você certamente o ama, gasta com ele dinheiro para ração, petshop, essas coisas. Agora imagine se você for arrebatado; como vai ficar seu bichinho de estimação? Quem vai cuidar dele, alimentá-lo, levá-lo ao salão de beleza?
Pois é para isso que estamos abrindo Pet’sRapture. Você assina um contrato conosco e, pela módica quantia de mil reais (uma pequenina parcela do que você dá pro pastor ao longo da vida), nos assinamos um contrato garantindo que, caso você seja arrebatado, cuidaremos de todas as necessidades de seu gatinho, seu cachorrinho, seu peixinho, sua tartaruguinha, sua iguana ou seja lá qual o bicho que você esteja criando; afinal, podemos garantir: em caso de arrebatamento, nós somos mais dois descrentes que ficarão no planeta, recepcionando os cavaleiros do apocalipse.
É claro que ainda falta encaminhar a papelada, estou pensando em conversar com um contador, ainda mais que estou cogitando transformar em franquia, mas estou com grande expectativa de lucro, principalmente depois que tive a idéia (brilhante, confessa...) de dar descontos especiais para quem não acredita em arrebatamento mas sim em abdução alienígena.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Vingança dos Nerds

Quero começar este texto sobre o Dia do Orgulho Nerd com uma afirmação: Eu não sou nerd. Entretanto, como tenho vários amigos que o são, hoje vou falar um pouco desta data.
Em 25 de maio de 1977 estreou nos cinemas americanos Guerra nas Estrelas, primeiro filme de uma franquia que é um dos símbolos da cultura nerd e que rendeu bilhões para o igualmente CDF (como se chamava no meu tempo) George Lucas. Tive o privilégio de assistir à fita em 1977, com sete anos, junto com meu pai, no Cine Avenida, em Uruguaiana.
Em um outro canto da galáxia, uns anos depois, o inglês nerd e ateu Douglas Adams lançava O Guia do Mochileiro das Galáxias, série de cinco livros que trata com muito bom humor questões filosóficas profundas (embora às vezes não pareça na primeira leitura). O guia que dá título à série seria um manual para os viajantes interestelares, e um de seus conselhos é o de que sempre se deve portar uma toalha, pois esta seria imprescindível para o mochileiro nas mais diversas situações. Aliás esta é, seguramente uma de minhas séries de livros favoritos.
Da união da data com a toalha de dois dos maiores fenômenos pops nasceu o Dia do Orgulho Nerd, ou Dia da Toalha, data em que nerds de todo o mundo usam uma toalha (das mais diversas e criativas formas), simbolizando a afirmação de sua nerdice e seu orgulho por esta situação.
Situação bem diferente de quando eu era criança e os nerds eram aqueles sujeitos isolados socialmente, com poucos amigos, que dificilmente conseguiam uma namorada, que liam avidamente, que colecionavam quadrinhos, selos, insetos, figurinhas e o que mais viesse pela frente, que eram fãs de Isaac Asimov, que eram alvo de chacota e (às vezes) de surras dos outros colegas, situações todas muito minhas conhecidas na época, o que me levou às artes marciais (somente para defesa, Daniel-san, como diria o senhor Miyagi).
Mas o que mudou foram os nerds ou a sociedade? Segundo entrevista concedida pela especialista em comunicação e cultura Lia Amancio ao G1:
“O nerd não mudou. Ele continua sendo aquele cara completamente ligado e entendido sobre certos assuntos, como tecnologia e quadrinhos. O que mudou foi a cultural atual, que valoriza isso. Os nerds querem ser nerds e as pessoas querem ter nerds por perto”.
Ainda segundo a matéria, tal mudança teria vindo no rastro do sucesso de nerds notórios tais como Bill Gates e Steve Jobs, o que criou o lema “trate bem o nerd hoje, você pode estar trabalhando para ele amanhã”.
Brincadeiras à parte, a cultura desta tribo se espalhou e hoje é fácil ver Homem de Ferro, Thor, Homem Aranha, O Senhor dos Anéis ou a série The Big Bang Theory sendo citadas até mesmo por quem nunca foi tão CDF assim. Eu particularmente já gostava dos quadrinhos e adoro a obra de Tolkien, além de ser fã incondicional de Leonard, Sheldon, Raj e Wolowitz e achar a Penny um tezão. Não esqueçamos também da excelente e pouco conhecida (no Brasil) The IT Crowd, sobre nerds que trabalham no setor de Tecnologia da Informação de uma empresa, série da qual também sou fã.
Ser nerd virou “chic”, virou fenômeno de mídia, o que tem, pelo menos levado a uma maior socialização deste povo. Hoje eles têm seus blogs, seus programas na TV (vide o caso de PC Siqueira), estão na política e até mesmo já governaram a potência mais poderosa do mundo (Bill Clinton é nerd de carteirinha).
Outro fator que contribuiu sobremaneira para a ascensão social dos nerds foi a popularização dos microcomputadores, que antigamente eram coisas de CDFs, com basic, cobol, DOS, assembly (coisas com as quais eu me divertia nos anos ’80), e que hoje, graças a interfaces mais amigáveis, são acessados pela maioria das pessoas; entretanto, o ‘povo esquisito’ se tornou cada vez mais disputado para tarefas tais como instalação ou configuração, ou mesmo para aquele conselho amigo no novo software (às vezes até mesmo para compreender a diferença entre software e hardware). Sei destas coisas por que trabalhei como programador e em assistência técnica de hardware e software nos anos ’80 e ’90, além de auxiliar um amigo necessitado vez ou outra.
Entretanto, creio que o melhor subproduto desta aceitação seja, usando um termo mais darwinista, o favorecimento na seleção sexual; pois se antes os nerds eram motivo de piada, hoje são vistos como os ‘gatinhos’ da vez (o nerd de hoje é o  bom marido de amanhã, diz a banda nerd Seminovos), além de hoje ser bem mais comum ver-se garotas adotando o estilo e afirmando-se nerd.
Parabéns, pois, à tribo dos nerds por sua data comemorativa, recebam o abraço virtual deste vosso amigo e admirador, ainda que não pertencente ao ‘povo esquisito’.
Mas...
Espere um pouco... 
Fã de Star Wars, quadrinhos, Senhor dos Anéis, The Big Bang Theory, The IT Crowd... Colecionador de selos, quadrinhos e insetos... esquisito que era rejeitado e apanhava dos colegas na aula... Aquele que nunca soube jogar futebol... Ex-programador e viciado em computadores (desde o CP 400)... Leitor inveterado de Bernard Cornwell, de história, de ciências, de filosofia e até de bula de remédio... Blogueiro... Aspirante a escritor... Alguém que senta na frente da aula da faculdade e que ama estudar... Santo Darwin! Eu sou nerd! Rápido, alguém tem uma toalha pra me emprestar?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Macaquinhos muito bem remunerados

Ilustração: Mauro Souza e Chris Borges
Quem nunca pagou um mico na vida aí que levante a mão!
Situações embaraçosas acontecem com todo mundo. Sabe aquele lance de ver uma mulher que não avistava há tempos, constatar que ela está com uma barriga grande, perguntar se ela está grávida e ela responder que não, mas que vai fazer regime? Pois é, desse tipo de coisa que falo.
Mas se a situação, vez ou outra, acontece com todos, ela parece ter certa preferência por algumas pessoas, e uma destas pessoas é, certamente, minha mulher, a ponto de, nas reuniões de família, seus ‘micos’ serem pauta à exaustão.
Tem uma famosa vez, por exemplo, há muitos anos, quando nosso primeiro filho, hoje com 17 anos, ainda era bebê de colo e fomos a um casamento. Puseram-nos em uma mesa junto a outro casal (desconhecido) e minha mãe. A outra mulher, que também tinha um rebento no colo, passou a tagarelar com a minha e logo descobriram algo em comum: o nome das duas crianças era Gustavo.
Minha mulher ficou feliz, afinal, fora ela quem escolhera o nome (não consegui convencer de jeito nenhum a colocar Charles, em homenagem a Darwin, ou Carl, por causa do Sagan), e então lascou, tentando elogiar a própria prole e, por extensão, a prole da outra:
— Os Gustavos são todos uns gatinhos.
A mulher, ao contrário de sorrir, contraiu o cenho e lascou:
— Os meus são.
Encerrando o assunto, enquanto minha mãe, que já conversara com o marido da outra mulher, cochichou ao ouvido da minha: “Leila, o marido dela também é Gustavo”. Dali para frente foi uma noite tensa, em que a outra mulher não tornou a sorrir.
Tenho que reconhecer, minha mulher até que não é muito de falar, mas quando o faz é muito espontânea, sem pensar bem no que diz; às vezes eu opino a ela que ela pensa com a boca. Por isso, especialmente na rua, sempre cuido em volta para ver se não estamos entrando em uma situação embaraçosa.
Teve a vez, por exemplo, que andávamos na rua com meu filho do meio, o Arthur (deste fui eu quem escolheu o nome, pois recém tinha lido Cornwell); ele tinha uns três anos e recém tinha tomado uma coca, de cujos gases rapidamente lhe subiram à boca, emitindo um sonoro arroto.
— Porco! – exclamou minha mulher, para corrigi-lo, ensinar-lhe boas maneiras, olhando em seguida para a frente e dando de cara com um brigadiano lhe olhando atravessado, tentando avaliar se aquele ‘porco’ não era alguma alusão mal-intencionada a ele.
Outra vez, vínhamos com minha filha menor, a Grainné, e esta viu um objeto brilhante no chão, se abaixando, com sua curiosidade infantil, para pegá-lo. Nova reprimenda:
— Menina, só porco mexe no lixo!
Tive certeza antes de olhar; pouquinho atrás vinha uma família de catadores, e novamente tive que sorrir sem graça ante olhares desaprovadores.
Noutra vez, estávamos em uma confraternização de dia das crianças num salão. Meu sobrinho, que devia ter uns sete anos, criava um vira-latas que era grudadíssimo com ele; onde ele ia o tal cachorro ia atrás, a ponto de esperá-lo na frente da sala de aula.
Neste dia, com a festinha correndo solta, o cachorro toda hora entrava no salão e toda hora ela o corria, começando a ficar enfezada com o bicho.
Lá pelas tantas, ela correu o cachorro e viu um homem sentado, no saguão que dava acesso ao salão onde estavam as crianças.
— Moço – diz ela – tenha dó, só eu corro esse bicho, da próxima vez que ele entrar, vê se faz o favor de levantar e botar ele pra correr.
O tal moço a olhou sem dizer nada e ela voltou para o salão um pouco contrariada. Pouco depois, saiu novamente para correr o cachorro e qual não foi sua surpresa ao constatar que o rapaz com quem falara estava sendo colocado em uma cadeira de rodas; ele fazia pouco tinha se operado da coluna e não conseguia mexer nada além da cabeça...
Há dezenas de outros exemplos, tantos que poderia escrever um livro, não uma crônica, mas um dos meus preferidos foi uma vez que tínhamos assistido a um filme trash, onde o cara tinha um filho monstruoso. Vínhamos pela rua empolgados, comentando o tal filme e, quando passávamos pela frente de uma casa, onde uma menininha de uns três anos brincava, minha mulher lascou sobre o filme:
— Mas que criança feia!
Uma senhora idosa, possivelmente avó da criança que brincava, tendo pegado somente a frase solta se ofendeu muitíssimo e saiu xingando:
— Feia é tua bunda, f.d.p. – e outros impropérios que não me atrevo a reproduzir aqui...
Ainda assim, mesmo depois de 18 anos vivendo com esta pagadora de micos inveterada, ainda não me arrependi de estar casado com ela; talvez porque eu também não me escape e, de vez em quando, também tenha meus deslizes em micagens. O fato mais significativo ocorreu quando ainda era solteiro, uma vez que meus pais viajaram (eu devia ter uns 17 anos) e fiquei sozinho em casa.
Convidei uma garota da escola para ir lá em casa olhar um filme (naquela época nem todo mundo tinha vídeo-cassete), e a desculpa colou!
Fui então à locadora e me demorei uns bons 45 minutos escolhendo o filme, até optar por uma comédia romântica açucarada (teria levado algo no estilo O Exterminador do Futuro, mas achei que ela não iria gostar, e a intenção, afinal, era agradá-la). Em seguida, na maior das “más intenções”, fui ao setor de filmes adultos para escolher algo caso conseguisse o clima que desejava.
“Filme pornô é tudo igual”, foi o que pensei na hora, e peguei o primeiro da prateleira.
Sucesso! A noite começou romântica, bebemos um tinto chileno e assistimos a tal comédia romântica sentados no sofá, começando por pegar da mão e terminando em um beijo tórrido. Ao final do filme disse-lhe marotamente: “Agora vou colocar algo más caliente”; ela me respondeu com um sorriso de aprovação.
Pus então o filme no vídeo e, para minha surpresa, ele sequer tinha letreiros de introdução, já começava em uma academia com um cara sarado dando o maior amasso em uma guria que já estava com os seios de fora. “Começou bem”, pensei eu, já sentindo que a noite prometia.
O cara do filme, então, foi descendo com a boca, descendo, descendo, e tirou a calcinha da menina; surpresa!!! O pênis da ‘moça’ caiu próximo ao joelho, estragando de uma só tacada minha noite e minha reputação.
Mas o pior foi no outro dia, quando fui devolver o filme, uber-super-ultra-mega-constrangido e entreguei-o ao dono da locadora, um senhor de uns 50 anos que pegou a fita com um olhar sacana.
— Peguei o filme errado – tentei explicar.
— Sei – comentou ele, com um sorriso condescendente – muita gente leva este filme enganado...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Capelão do Diabo e as moscas sem asas

No último dia 19 desenvolvemos um trabalho sobre darwinismo na faculdade e pude constatar o quanto a Seleção Natural, postulada por Darwin-Wallace ainda agita os ânimos. Não vejo uma mesma exacerbação de posições, por exemplo, quanto à Teoria da Relatividade de Einstein. Se pensarmos um pouco, logo nos damos conta do óbvio: a Teoria da Evolução é tão controversa por tratar daquilo que mais nos é caro: a vida.
Mas essa polêmica não é nova. O próprio Darwin tinha pesadelos ao pensar sobre o quanto sua teoria afetava a visão religiosa de mundo, a ponto de ter afirmado que, por sua teoria, poderia ser considerado o Capelão do Diabo, no sentindo que sua proposição ‘matava’ o conceito de deus.
Ainda assim, às vezes ainda me surpreendo o quão pouco as pessoas compreendem a Teoria da Evolução das Espécies e o quanto, sem compreendê-la, se posicionam contra ou a favor.
Buscando colaborar na evolução da compreensão da Evolução (com o perdão do trocadilho) e, assim, subir o nível da discussão, exponho abaixo um resumo do trabalho que apresentamos.
É bom lembrar, porém, que isto é só um resumo superficial. Para quem quiser saber mais, é bom estudar. Uma boa dica para começar é o próprio livro de Darwin, que pode ser comprado por menos de R$ 20 em edição de bolso com texto integral.
Para começo de conversa, pense em um nazista clássico, aquele loiro alto de uniforme, ombros largos e um queixo duro. Em seguida, pense em um pigmeu, um bosquímano do Kalahari com seu um metro e pouco, e sua pele escura cobrindo uns parcos 40 kg.
Pensou? Então responda rápido: qual dos dois é fisicamente mais forte?
Ora, até aqui falamos do óbvio. Logicamente o homem com uniforme da Wehrmarcht é incomensuravelmente mais forte. Então, pela mesma lógica, o ariano, pela Teoria da Evolução é, também, o mais evoluído, certo?
Errado! E esse é um dos pontos mais incompreendidos: a teoria não postula a sobrevivência do mais forte, mas sim do mais adaptado.
A adaptação do homem loiro surgiu quando seus antepassados viviam em uma Europa ainda era coberta por florestas e animais selvagens e, naquele clima e habitat, ele seria indubitavelmente mais adaptado que o bosquímano.
Mas experimente largar o mesmo ser de olhos azuis no Kalahari...
Ele desenvolveria câncer de pele por falta de melanina, teria dificuldade de enxergar pelo brilho do sol em seus olhos claros e consumiria muito mais água e alimento do que a natureza poderia lhe fornecer; ou seja, estaria totalmente inadaptado para o ambiente, enquanto o pigmeu está literalmente ‘em casa’, com um corpo plenamente adaptado a tirar o máximo do habitat.
Para melhor compreensão, exponho um exemplo que li quando guri.
Imagine uma comunidade de moscas que vivem ‘felizes’ em um prado onde têm alimento e um ambiente para o qual estão adaptadas. Esses dípteros só têm um inimigo terrível: o passarinho, que sempre que pode as caça para alimentar-se.
Agora suponha que, por uma mutação no DNA, algumas dessas moscas nasçam, às vezes, sem asas. Quais destas moscas seriam mais facilmente caçadas pelo passarinho? Obviamente aquelas que não podem voar. Estas, então, não conseguem chegar à idade de reproduzir-se e passar aos descendentes seus genes.
Mas imagine, agora, que o prado fica à beira de uma praia e que nesta praia vente muito. As moscas e os passarinhos que experimentem se aventurar a voar na praia, rapidamente são pegas pelo vento e jogadas ao mar. As moscas sem asas, contudo, caminham do prado para a areia sem ser atingida pelo vento, que passa acima de suas cabeças e passam a levar uma nova vida na praia, longe de suas irmãs e de seus predadores.
Se dermos o tempo suficiente, uma nova comunidade de moscas surgirá na praia e, com o tempo, sua especiação aumentará a ponto de não mais conseguir cruzar com as moscas aladas.
Isso é a seleção natural; a sobrevivência do fenótipo mais adaptado ao habitat, não do mais forte ou sofisticado (a mosca alada, de certa maneira, pode ser considerada mais ‘sofisticada’, uma vez que voa).
Essa foi a ‘sacada’ de gênio de Darwin, uma idéia simples que mudou a forma como vemos o mundo.
Mas como ele chegou a ela?
Darwin era um naturalista e, como tal, empreendeu uma viagem pelo mundo a bordo do navio HMS Beagle, tendo coletado milhares de espécies animais nos lugares por onde passou. Alguns anos depois, já em casa, a análise destes animais o fez constatar um fato surpreendente: as espécies mudam conforme o ambiente em que vivem. O mais famoso exemplo disto são os tentilhões, espécie de pássaro que Darwin recolheu nas Galápagos e nos quais constatou que, conforme a ilha e o alimento disponível nela, mudava a forma do bico; forte nas ilhas onde era necessário quebrar nozes, fino e pontiagudo quando precisava comer insetos, etc.
Darwin juntou esta constatação aos estudos de fósseis (os quais provavam que existiram espécies diferentes das atuais que se extinguiram, além de indicarem que tais espécies tinham semelhanças com espécies atuais), com embriologia e anatomia comparadas e, sobretudo, com a teoria de Malthus sobre a quantidade de seres que a natureza produz versus o alimento disponível. As conclusões a que chegou, podem ser sintetizadas nas seguintes leis, constantes em seu livro:
1. SE há organismos que se reproduzem e...
2. SE os descendentes herdam as características de seus progenitores e...
3. SE há variação nas características e...
4. SE o ambiente não suporta todos os membros de uma população em crescimento,
5. ENTÃO aqueles membros da população com características menos adaptativas (de acordo com o ambiente) morrerão e...
6. ENTÃO aqueles membros com características mais adaptativas (de acordo com o ambiente) prosperarão.
O resultado é a evolução das espécies.
No Origem e Evolução das Espécies Darwin não tratou da ascendência do homem, deixando tal para outro livro, “A descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo”, publicado em 1871, no qual postula que as mesmas ‘leis’ valem para o homem, ou seja, evoluímos a partir de animais e não passamos de uma espécie que teve no desenvolvimento do cérebro uma adaptação ao ambiente, da mesma forma que o são as garras no leão ou as pernas compridas do cavalo.
Com essa idéia simples, porém ousada, o ‘Capelão do Diabo’ trouxe-nos muito mais do que a única explicação plausível para a origem das espécies, trouxe toda uma revolução científica (a biologia atual somente faz sentido com a Teoria da Evolução, além de importantes contribuições a ramos como a medicina, a antropologia...), filosófica (fortalecimento do ateísmo, enfraquecimento do antropocentrismo) e social (se a natureza não é estática, porque a sociedade deve sê-lo?), ou, como bem define Dawkins, a idéia de Darwin é boa demais para ser aplicada somente à biologia.

Dia Internacional de Desenhar Maomé


Hoje é o Dia Internacional de Desenhar Maomé, uma iniciativa vem seguindo um cartoon concebido por Molly Norris, o qual surgiu em reacção à censura do episódio do South Park em que Maomé era representado disfarçado de urso e das inevitáveis ameaças subsequentes à integridade física dos seus autores.

O objetivo da manifestação não é ofender, mas sim propiciar uma reflexão sobre a liberdade de expressão e dizer um não ao tolhimento da citada liberdade.
Nesse sentido, segue abaixo minha modesta contribuição:


* Segundo o Google Tradutor, no balão está escrito em árabe: "Viva Dawkins"

terça-feira, 17 de maio de 2011

A hostilidade do macaco nu

Na abertura da Semana Acadêmica das Licenciaturas da Unipampa de Uruguaiana tivemos um excelente debate sobre “as dores e as delícias de ser professor”. O tema, interessantíssimo para quem, como eu, está se preparando para, um dia, assumir uma classe, foi bem trabalhado por quem entende do assunto: professores.
Mas dentre tudo, o que mais me chamou a atenção foi um questionamento de um dos alunos sobre os recentes incidentes envolvendo violência em sala de aula.
Citaram-se desde casos de professores agredidos e bulling, até o caso do atirador da escola do Rio de Janeiro, tristemente famoso nacionalmente.
O debate surgido do tema proposto pelo discente fez-me pensar, e pensar faz-me querer escrever sobre o tema.
Vamos nos olhar de frente: nós somos macacos violentos.
É, leitor, você entendeu certo: macacos. Se você ainda não leu “O Macaco Nu”, de Desmond Morris, faça-o o mais breve possível e você vai entender do que falo.
E também sim, não só macacos, mas macacos violentos.
“Espera aí”, pensa o leitor pego de surpresa, “mas eu sou da paz”.
Sim, meu caro, minha cara, todos – ou ao menos a maioria de nós – somos ‘da paz’; todos – ou novamente o maior percentual – abomina a violência ou, pelo menos, assim pensamos que pensamos.
Mas, com o perdão da repetição do termo, pensemos um pouco; será que realmente somos ‘da paz’, ou será que somente desviamos – redirecionamos, como diria Freud – nossa própria violência, de forma a permitir que nossa própria bestialidade possa passar pelo filtro de nosso id?
É verdade, a maioria de nós não pega um osso e sai batendo na cabeça dos outros macacos nus, como no início de 2001-Uma Odisséia no Espaço (onde, inclusive, os macacos ainda não eram nus), ou, para ser mais atual, não entramos em uma escola cheia de adolescentes atirando.
É verdade, também, que a maioria de meus leitores não vai sair por aí com um 38 exigindo que um trabalhador lhe entregue seus caraminguados.
Tampouco acho provável que um de nós, Homo sapiens portadores do gene sexual XY, saiamos e estupremos a primeira fêmea voluptuosa que atice nossa libido (novamente, pelo menos a maioria de nós).
“Mas então”, pensa novamente o leitor, “aí está, não sou violento”.
Ocorre, meus caros, que vocês, assim como eu, estão olhando a violência somente em sua face de revolta do oprimido.
Brecht, certa vez, disse que “do rio que tudo arrasa dizemos violento, mas não se dizem violentas das margens que o oprimem”.
É verdade: não saímos atirando em crianças; mas quando crianças, não nos furtamos ao bulling (e muitos de nós nem mesmo depois de adultos), assim como muitas vezes preferimos tratar de um cão de rua a dar-lhe uma refeição decente a dá-la a outro macaco nu carente; para muitos, é mais chocante um Canis canis abandonado do que um Homo sapiens revirando o lixo...
É verdade: não assaltamos ou roubamos (acredito que meus leitores assim procedam); mas não nos importamos que outros não tenham oportunidades na vida e que alguns não tenham sequer uma refeição decente e, muitas vezes, sejam forçados à marginalidade do crime, do tráfico, do descaminho. Também não consideramos roubo quando o dinheiro fácil vem para nosso bolso, ou quando assaltamos ao erário ou subornamos um funcionário público.
Também é verdade que não estupramos as fêmeas (ao menos não a maioria de nós), mas não nos furtamos a discriminar outras pessoas por seu sexo ou sua opção sexual, de sermos canalhas ou cafajestes com o sexo oposto.
Somos, pois, perpetradores de violência: da violência da opressão, da submissão, do descaso, do preconceito.
Assombramo-nos com a violência brutal e ruidosa do assaltante, do assassino, do estuprador, mas sentimo-nos tranqüilos em nossos ninhos de conforto com nossa própria violência silenciosa, que também faz sofrer, que também alija, que também rouba, que também violenta, que também mata.
E então, caríssimo leitor, qual a solução?
Bom, tenho más notícias. Penso que não há soluções a curto prazo e sem grandes custos, embora sejam necessárias soluções paliativas imediatas.
Considero que é necessária uma transformação social a médio e longo prazo, grandes investimentos em educação – básica, média, universitária e técnica –, em infraestrutura, em distribuição de renda, em maior dureza a criminosos de colarinho branco – que geralmente ficam impunes, embora nos roubem e prejudiquem muito mais do que o ladrão ‘pé-de-chinelo’ –, é preciso que se faça ecologia combatendo a grande empresa que polui, que desmata, que envenena cursos d’água, não somente deixando de usar sacolas plásticas que tem um efeito mínimo sobre o impacto ecológico, tendo um efeito muito maior sobre a tranquilização de nossa consciência (se está tudo assim não é culpa minha...)
Mas o que podemos fazer de imediato para que toda esta transformação possa vir a acontecer no futuro, é não perdermos nossas capacidades de indignação e de busca de autoaprimoramento.
Indignação com tudo o que está aí, não somente com aquilo que nos prejudica pessoalmente, não apenas com a violência que nos causa pânico por mexer com nossa própria tanatofobia, mas com todos os tipos de violência.
É necessário que esta indignação se estenda a nossas ações diárias e se transforme no autoaprimoramento. Que não só cobremos honestidade de nossos políticos ou de nossos funcionários públicos, mas que também, quando tivermos oportunidade, não corrompamos estes mesmos políticos e funcionários e, quando for a nossa vez de ocupar um cargo, não nos deixemos corromper.
É preciso que comecemos a ver a vida como um direito de todos, e que percebamos que sem uma mínima dignidade, a vida pode ser pior do que a morte, uma verdadeira morte-em-vida.
É, pois, urgente que nos tornemos novos homens e mulheres, sabedores de nossa responsabilidade social e militantes pela causa da mudança consciente.
Não nos iludamos, soluções não cairão do céu – o máximo que cai do céu, dizia meu avô, é raio-guaxo –; sem nossa efetiva participação, somente podemos esperar que a espiral de violência ruidosa cresça em nível equivalente ao do crescimento da violência silenciosa, até que o esfacelamento iminente de nossa estrutura social acabe por tornar a violência que vivemos uma realidade desejável frente à nova realidade que se descortinará neste remoto ponto azul habitado por macacos nus violentos. 

domingo, 15 de maio de 2011

Lição de tolerância

Quando a professora chegou à aula naquele dia estávamos em ebulição. Bulling, embora não tivesse esse nome naquela época, era um fato muito mais corriqueiro do que agora, uma vez que tinha a aceitação do fato consumado, de “o mundo é assim mesmo”.
Ela nos olhou contraindo o cenho, indicando que não estava para brincadeiras, colocando-nos em nosso lugar de aluno, seres inferiores a serem conduzidos como tropa pela professora que não permitia contestação, mormente naqueles tempos de ditadura militar.
Olhei-a nos olhos sem desafio, tentando compreender o que ela queria nos passar com aquele semblante carregado, ela me olhou como se não me enxergasse e explicou-nos:
— Como a professora de vocês está doente, de laudo, eu sou a nova professora de religião.
A turma ficou em suspenso. A antiga professora, pelo menos, demonstrava-se simpática em seus ensinamentos inúteis sobre céu e inferno; a nova, apresentava-se como Tomás de Torquemada pronto para a guerra pela fé.
— Sobre o que vocês falavam? – questionou-nos, querendo saber onde a antiga professora tinha parado.
— Na última aula – informou um colega – a professora falava sobre a bondade de Deus.
— Bom. – aprovou sinteticamente a nova docente, passando então a discorrer sobre o mesmo tema de como Deus é bom, como é justo e essas coisas de professora de religião. Em dado momento, logo após ter comentado sobre as maravilhas do céu, perguntou-nos se todos eram católicos, pedindo para que os que fossem levantassem a mão. Mais de dois terços da aula o fizeram.
Ela, então, passou a explicar-nos que não importava se éramos católicos ou não, pois Deus é um só, podendo ser adorado das mais diversas formas.
Então a Samira, minha colega de origem árabe, decidiu se manifestar:
— Mas professora, se Deus é um só e pode ser adorado de diferentes formas, por que é que eu tenho que agüentar a gozação dos colegas por ser muçulmana?
— O quê? – quis saber a mestra indignada, passando novamente seu olhar de inquisidor-mor pela turma – Vocês estão criticando alguém por não ter a mesma fé de vocês? Vocês sabem como se chama isso? Não? Se chama discriminação, preconceito, algo muito, muito feio; algo que deveria envergonhar vocês! Sabiam que Deus tem um lugar especial no inferno pra pessoas que discriminam?
Apesar da incoerência lógica de Deus-é-o-melhor-cara-do-mundo x Deus-tem-um-cantinho-no-inferno-pra-você, a professora subiu consideravelmente em meu conceito, afinal, ela estava se manifestando contra o preconceito religioso! Quanto tempo já fazia que eu, então com 15 anos, batia contra isso? Uns dois anos talvez.
Com a mais pura inocência da juventude disse-me: “ah, que se lixe, ela pode ser religiosa mas parece ser uma pessoa acima dessas questões de posicionamento filosófico”. Ergui a mão para falar (no meu tempo se fazia isso, não se atropelava quem estava falando ou, como diziam-nos, “quando um burrinho fala o outro escuta”).
Ela virou para mim os olhos de inquisidora, ainda irritada com o preconceito contra a Samira:
— Professora – disse-lhe, quando me autorizou – também tenho esse problema, os colegas pegam no meu pé por não ser da religião deles.
Vi seu olhar se abrandar, até mesmo um fundo de pena por essa pobre alma atormentada que, embora não seguisse a mesma religião que ela, ainda tinha esperança de salvação:
— E qual a religião que você pratica, meu filho?
— Sou ateu.
O olhar de Torquemada voltou com força, parecendo querer furar meus olhos e, desta vez, acompanhado do avermelhamento do pescoço onde uma artéria começou a latejar:
— Ateu? Somente alguém muito burro, muito estúpido não acredita em Deus! Sabia, turma, que no inferno tem um caldeirão especial pros ateus?
A risada e o escárnio da turma foi geral. Sim, eu tinha me enganado, a tolerância dela tinha limite e esse limite era a descrença.
Um tempo depois, analisando o episódio, aprendi uma dura lição que levei pro resto da vida: nunca posso esperar que alguém que crê, não importando sua religião ou o quanto é esclarecido, vá defender meu direito ao livre pensamento, devo eu mesmo fazê-lo.
Naquele momento, porém, tive somente uma certeza: aquele seria um loooongo ano...