sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

CAMAZOTZ: Uma ferramenta auxiliar para o estudo de Chiroptera (Mammalia)

Apresentando o trabalho, em Montevideo, RO



Trabalho apresentado no II Congresso Uruguaio de Zoologia, em Montevideo, 13/12/2012. 


A fim de facilitar o estudo e a catalogação de espécimes da ordem Chiroptera (Mammalia), está em fase de finalização um software, o CAMAZOTZ. Este tem por objetivo auxiliar na identificação taxonômica e no tombamento de espécimes de morcegos, permitindo o registro de outros aspectos pertinentes. O CAMAZOTZ permite que o pesquisador percorra uma chave de identificação virtual, a qual conta com ilustrações de caracteres apomórficos, possibilitando que, a partir de links nessas ilustrações, a chave seja percorrida, chegando-se à classificação do espécime analisado até o nível de espécie, e, consequentemente, cadastrando-o. Para isso, confeccionaram-se chaves de identificação digital a partir da bibliografia disponível e atualizada quanto aos referenciais teóricos. O outro item, o tombamento de espécimes coletados, permite que se faça toda a catalogação após a identificação, com dados morfológicos, biométricos, de coleta e cariotípicos, possibilitando a organização dos dados segundo diversos parâmetros, a fim de facilitar o acesso e a organização a esses dados.  Outro fator importante é que o software permitirá acesso remoto a partir de cadastro pré-feito, facilitando o acesso e a troca de informações entre pesquisadores. Assim, o CAMAZOTZ possibilitará o acesso a informações de classificação em campo, com o auxílio de um netbook/notebook, sem a necessidade de transporte de livros específicos, além de realizar um cadastro completo da coleção, gerando o número específico de tombamento de cada exemplar estudado. Salienta-se, dessa forma, o impacto do uso das tecnologias de informação e comunição (TIC´s) como ferramentas interativas que ampliam e instrumentalizam a maneira de operacionalizar o conhecimento, possibilitando ao estudante/pesquisador uma auto-aprendizagem mediada por um recurso de fácil acessibilidade.

Para referenciar este trabalho:
Melo, C.A.R.;  Bica, M.S.N; Franco, R.M. & Perazzo, G. Camazotz: Uma ferramenta auxiliar para o estudo de Chiroptera (Mammalia). In II Congreso Uruguayo de Zoología, 2012, Montevideo. Anais... Montevideo: SZU, 2012, p. 84.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Apresenta-se o Grupo de Estudos em Quirópteros da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul: Biologia, Ecologia e Evolução


Trabalho apresentado no IV SIEPE – Unipampa Bagé, em 27/11/2012.

MELO, C.A.R; BICA, M.S.N.; FRANCO, R.M; PERAZZO, G.

O Grupo de Estudos em Morcegos da Fronteira Oeste do RS: Biologia, Ecologia e Evolução (GEMor) prevê, dentre outras atividades, a identificação dos quirópteros reunidos na Coleção Zoológica da Unipampa, Campus Uruguaiana. Os exemplares desta coleção foram doados à instituição e muitos deles não apresentam identificação e/ou classificação taxonômica errôneas. Sendo assim, este trabalho apresenta as espécies de quirópteros catalogadas na Coleção Zoológica da Unipampa, campus Uruguaiana. Para a execução do trabalho, foram utilizadas referências bibliográficas e chaves de identificação da área.  Deu-se preferência, em um primeiro momento, para a análise de caracteres externos, tais como folha nasal ou características da cauda, que permitiram a separação dos espécimes em famílias. Após esse primeiro estágio, passou-se a categorização de subfamílias, tribos, gêneros e espécies, utilizando também a técnica de análise dentária e cranial, através de retirada do crânio de diversos espécimes.  A partir deste trabalho, identificamos a existência de 11 espécies pertencentes a três famílias. Família Molossidae (cauda livre do uropatágio): Eumops bonariensis, E. patagoniensis, Molossus molossusM. ruffusTadarida brasiliensis. Família Phyllostomidae (com folha nasal): Desmodus rotundus, Micronycteris megalotis, Sturnira lilium, Chrotopterus auritus. Família Vespertilionidae (cauda contida no uropatágio e pólex bem desenvolvido, livre da membrana do propatágio): Histiotus montanus, H. velatus.  No decorrer do processo, foram observados diversos espécimes catalogados equivocadamente, talvez por falta de literatura apropriada, pois os estudos sobre quirópteros brasileiros eram escassos até pouco tempo. Além disso, alguns exemplares foram inicialmente catalogados a mais de 40 anos, tempo considerável para alterações na classificação taxonômica. Dessa forma, o trabalho realizado até o momento, contribuiu tanto no treinamento para o futuro trabalho envolvendo espécimes vivos (objetivo do GEMor), como de base inicial para a Coleção Zoológica da Unipampa, além de gerar conhecimento acerca da quiropterofauna regional.


sábado, 27 de outubro de 2012

Sobre amigos, ciência e descrença

Palestra proferida na Especialização em Educação em Ciências, Universidade Federal do Pampa - Unipampa, em 26/10/2012.


Boa noite a todas e a todos!
Antes de tudo, quero começar falando dos amigos, essas pessoas que são os irmãos que a gente escolhe. Bom, para mim, uma dessas pessoas é o professor Edi e, ao que parece, ele me tem a mesma consideração. Aliás, diria mais, que sua visão distorcida de amigo o faz ter uma consideração exagerada a meu respeito, a ponto de me convidar para falar a vocês hoje, como se eu não fosse um mero acadêmico de ciências da natureza. Ele inclusive me sugeriu que minha fala fosse por uma hora, mas, como tenho certeza de que ninguém aqui precisa de sonífero, vou ser bem mais breve (prometo não me estender por mais do que 59 minutos). Mas o máximo que posso fazer por meu amigo é dar todo o meu empenho e tentar merecer essa acolhida bondosa de vocês, enquanto tento lhes falar de ciência e de uma forma de ver o mundo que é, ainda, incomum em nosso país, pedindo antecipadamente escusas por minhas eventuais falhas.
Mas eu falava de amigos; nesse campo me considero um homem de sorte; aqui, por exemplo, posso ter a prova disso. Em um espaço exíguo como esse tenho dois de meus melhores amigos. Um, como já citei, é o professor Edi; a outra, essa pessoa linda com quem vocês também têm o privilégio de conviver que é a Lica. (só não contem pra ela que eu falei assim se não ela vai ficar se achando ainda mais do que o normal).
Bom, agora em outubro estávamos, a Lica, eu e outros colegas, em Rio Grande a fim de participar do Seminário Internacional de Educação em Ciências, o Sintec. Em um momento de folga, tivemos o prazer de assistir a um espetáculo da natureza: um pôr de sol numa praia de nuvens coloridas e águas enfeitadas por golfinhos. Pois essa amiga que divido com vocês me olhou com seus profundos olhos azuis e questionou: “Guto, como você pode não acreditar em uma força maior frente a toda essa beleza? Não passamos de grãozinhos de poeira frente a toda essa imensidão!”
Meus caros, minhas caras, é bom esclarecer “de cara”, eu sou ateu. Eu não acredito em deuses (nenhum), eu não tenho espiritualidade, eu não recorro a forças sobrenaturais quando estou com problemas, e quando morrer, acredito que serei apenas repasto para os vermes e micro-organismos que decomporão minha matéria, e esta, nas palavras de Raul Seixas, alimentará a erva, e esta erva alimentará outro homem, e eu continuarei nesse homem, e nos meus filhos, na palavra rude que eu disse para alguém que eu não gostava, e até no whisky que eu não terminei de beber aquele dia.
Sempre que eu falo que sou ateu a alguém pela primeira vez, eu me lembro de um texto do dr. Drázio Varella (aquele careca que aparecia no Fantástico falando sobre saúde). O dr. Dráuzio é um médico respeitadíssimo, epidemiologista e com largo histórico de ações sociais. Bom, diz ele que é comum, quando as pessoas descobrem seu ateísmo lhe perguntarem: Dr. Dráuzio, o senhor não acredita em Deus? Mas o senhor parece um homem tão bom!
Para mim nunca ninguém disse isso, talvez porque eu não seja tão bom quanto o dr. Dráuzio. Mas geralmente as primeiras reações são: “Ah, não existe ninguém realmente ateu”; “Por que você é revoltado contra Deus?”; “Se você não é de Deus, então é do Diabo”; ou, minha preferida, “coitado! O que aconteceu de tão ruim na tua vida?”.
É, é essa mais ou menos a visão que a maioria tem do ateísmo! Nós, ateus, somos ou as ‘pessoas más’, como define o apresentador Datena, o qual disse que quem comete crimes hediondos é, na verdade, ateu, ignorando que as cadeias estão cheias de pessoas religiosas, ou aqueles que são rebeldes e querem contrariar o próprio Deus, ou são pessoas que passaram por tanto problema que chegaram à conclusão que Deus não existe.
Bom, meus caros, minhas caras, eu já cometi crimes. Por exemplo, em 1984, eu participei de um comício pró Diretas Já, algo que estava proibido pelo governo militar e que, portanto, na época era crime, tanto que acabei recebendo uns “carinhos” da Brigada. Também já ajudei na ocupação de terras abandonadas pelo Estado, aqui mesmo, em Uruguaiana, por um grupo de famílias sem-terra que hoje estão assentadas lá; isso também, se vocês observarem a Lei, poderá ser definido como crime. Mas não é por esses ou outros crimes que sou ateu.
Quem me conhece sabe que sou um eterno rebelde, que não gosto das respostas prontas, que sempre questiono, até mesmo aquilo que penso, que não tenho certezas, mas que adoro as dúvidas que tenho; mas não é essa rebeldia que me fez ateu.
Eu não desacredito somente de Deus, também não acredito em alma, duendes e na Mãe Diná. O Diabo, para mim, é tão mitológico quanto o fato de o governo não ter dinheiro para pagar melhor os professores; portanto não foi, também, a crença no chifrudo, no cramunhão, no sete-peles, que me fez ateu (aliás, graças a deus!).
E sobretudo, pessoas, eu tive e tenho problemas. Problemas de dinheiro, problemas de doença e de morte na família, problemas judiciais, problemas emocionais, eu tenho asma, sou feio, sou baixinho, gordo e branco como um papel, mas nenhum desses ou de quaisquer outros problemas me tornaram ateu.
“Então, por que cargas d’água”, já escuto alguns pensarem, “você se tornou ateu, seu besta?”
Vou dizer-lhes em uma frase: porque não acredito em Deus! Simples assim! Eu me tornei ateu porque, depois de ler, de analisar, de conversar, de observar, cheguei à conclusão de que não havia necessidade de uma força superior para explicar ou entender o mundo!
“Ah”, talvez alguns estejam pensando, “então você não acredita no amor, na beleza, na paz?”
Surpresa, pessoas, é bem ao contrário. Eu adoro estar em paz, e propiciar a paz e a alegria aos que me cercam. Me emociona a beleza de um pôr de sol, de um animalzinho, de uma flor, do rosto dos meus filhos, da verdadeira coragem, de uma sinfonia ou de um bom rock, de um filme de Almodóvar, de um livro de Hemingway ou dos olhos da mulher por quem sou apaixonado mesmo sem saber se sou correspondido... Aliás, sobre amor, sobretudo eu amo! Eu amo a meus filhos, eu amo meus amigos, eu amo viver, amo respirar, amo poder estar aqui, com vocês hoje! Talvez a diferença em nossos sentimentos em relação a tudo isso não esteja na intensidade, como muitos pensam. Embora eu não possa saber se o amarelo que vocês veem é o mesmo que eu vejo, não acho possível que vocês se emocionem mais do que eu quando enxergam um canário, embora eu não possa medir o amor de vocês, não creio sinceramente que vocês amem mais a seus filhos do que eu amo os meus, ou mesmo, como já citei, que vocês se sintam mais apaixonados por seus respectivos interesses amorosos do que eu pelo meu. Não penso que vocês curtam mais seus momentos bons do que eu aos meus.
Então qual a diferença? Talvez a única diferença, nesse ponto, entre nós, seja o maravilhamento frente ao que se vê. Se vocês Se maravilham com algo que acreditam ser uma dádiva divina eu, além me maravilhar com a natureza ou de uma beldade que passa, também me maravilho com uma fórmula matemática que tenta explicar como o Universo se comporta, também me maravilho quando descubro um pouco mais sobre as leis do Cosmo, e também me maravilho, acreditem, eu amo saber como funciona a vida!
Diferente? Talvez, mas talvez não tanto; não estou sozinho nessa opinião. Charles Darwin, por exemplo, afirmou que existe beleza nessa visão de vida, embora ele não fosse ateu no sentido de negar a divindade, mas agnóstico pois, embora não acreditasse, dizia não ter elementos suficientes para negar a existência de Deus.
Já Huxley, conhecido como “o buldogue de Darwin” por ser o principal defensor público da Teoria da Evolução, afirmava que “o maior pecado contra a mente humana é acreditar em coisas sem evidências. A ciência é somente o supra sumo do bom senso – isto é, rigidamente precisa em sua observação e inimiga da lógica falaciosa.
Além desses, podemos citar Einstein, Chaplin, Dawkins, Daniel Redcliff (o Harry Potter do cinema), Woody Allan, Luiz Fernando Veríssimo, PC Siqueira, Steve Jobs, Antônio Banderas, Allan Turing, Bill Gates, Angelina Jolie e Brad Pitt, Renato Russo, Stálin, Hugh Laurie (o Dr. House), Bruce Lee, Pol Pot, José Saramago, Alfred Hitchcock,Fernando Henrique Cardoso, Bruce Willis, Caetano Veloso, Chico Buarque, Che Guevara, Freud, Herbert de Souza (o Betinho da campanha contra a fome), Jorge Amado, Karl Marx, o ator Matheus Nachtergaele, Faucoult, Monteiro Lobato, Oscar Niemeyer, Pablo Picasso, Ziraldo, Neruda, Umberto Eco, Aline Moraes, John Lennon e o seu Martinho, o bolicheiro da esquina da minha casa.
São atores, políticos, diretores, escritores, ditadores, cientistas, pessoas comuns... Alguns, como Pol Pot ou Stálin, eu considero assassinos, parte da escória da humanidade e me envergonha pertencer à mesma espécie biológica que eles, outros, como Umberto Eco, Dawkins, Saramago, Neruda ou Lennon, eu admiro muito. Mas se os admiro ou abomino, não é pelo fato de serem ou não ateus; da mesma forma execro religiosos como Tomás de Torquemada e sou admirador de religiosos como Gandhi ou Frei Betto.
Mas é uma lista imensa, de todos os matizes. E o que todos têm em comum? Apenas o fato de não acreditarem em uma divindade!
Entretanto, se não acreditamos em divindades, no que acreditam os que não acreditam? Bom, o ateísmo não é uma doutrina unida no que acretida, mas no que não acredita. Há ateus, como Freud, que acreditam no sexo, há ateus como Marx que acreditam em luta social, há ateus como Picasso que acreditam na arte. Eu, particularmente, embora acredite em todas essas coisas, sou adepto da ciência, mas não posso definir isso como fé. Talvez minha única fé irracional, aliás, seja de que o Grêmio ainda possa ser o campeão brasileiro desse ano.
Para a ciência eu não preciso de fé, eu preciso de análise de evidências. Não bastou, por exemplo, que Darwin tivesse escrito a Evolução das Espécies para que acreditássemos em sua teoria; se hoje nela acretamos, 153 anos depois de sua publicação, é porque nesse século e meio acumulamos evidência sobre evidência de sua plausabilidade. Mas e se, por exemplo, um dia, encontrarmos um fóssil de coelho e o datarmos do Cambriano, uns 500 milhões de anos antes do que ele deveria estar? Bem, então a Teoria da Evolução cairá e uma nova hipótese terá que ser formulada, com evidências que a apoiem. Simples assim, não somos casados com ideias, apenas aceitamos àquelas que são apoiadas pelas evidências.
A isso, Karl Popper, meu teórico favorito sobre filosofia da ciência chama de falseabilidade, ou seja, a possibilidade de se provar, através de evidenciação, que uma teoria é falsa é que a torna cientificamente aceitável. Assim, por exemplo, a Teoria da Relatividade, de Einstein, quando foi testada em 1919, através de um eclipse observado no Brasil, constatando-se que a mesma era plausível com a observação, da mesma forma teria sido derrubada se o experimento tivesse demonstrado ao contrário.
Já, por exemplo, a astrologia não pode ser provada errada, se você propuser um teste, jamais conseguirá prová-la equivocada, pois sempre haverá um “outro astro que influencia de forma diferente”; se você nasceu em 20 de junho, é de gêmeos, e portanto um sonhador. Se você nasceu em 20 de junho e não é um sonhador, então é pela influência de um signo que estava ascendendo, ou de um outro astro que estiver regendo sua vida, ou de um milhão de outras possibilidades, ou seja, você nunca poderá provar que tal afirmativa está incorreta.
Uma experiência famosa, por exemplo, realizada por James Randy, entregou a diversas pessoas em uma sala um mapa astral dizendo que era individual de cada um; após a leitura, constatou-se que o mapa estava certo na maioria de suas afirmações. Então veio a surpresa: era o mesmo mapa entregue a todos, e o mapa era do ex-presidente americando George Bush. Mas isso fez cair por terra a astrologia? Não, ela segue firme e forte diariamente em nossos jornais.
Com isso eu estou afirmando que devemos exterminar coisas como a astrologia? Não, estou dizendo apenas que não podemos chamá-la de ciência.
Thomas Khun nos diz que a Ciência é uma espécie de quebra-cabeças, com diversas peças faltando; eu não gosto da famosa metáfora de Khun, para mim ela deixa parecer que, por exemplo, a Teoria da Evolução é uma peça que já foi encontrada e que não poderá, sob hipótese alguma, estar errada. Prefiro a visão da filósofa Susan Haack, que nos fala das palavras cruzadas da ciência.
Imaginem, por um momento, diz Haack, uma palavra cruzada imensa, infinita. Bom, o grau de acerto de uma palavra em um jogo de palavras cruzadas depende do quanto esta é apoiada corretamente pela definição e por quaisquer palavras já preenchidas que venham a interceptá-la; do grau de razoabilidade independente das outras palavras, isto é, independentemente da que está em questão; e de quantas palavras cruzadas foram já preenchidas. Da mesma forma, o grau de justificação de uma convicção depende da forma como está bem sustentada pela prova experimental e pelas razões, isto é, pelas convicções anteriores; do grau de justificação independente destas convicções anteriores, isto é, independentemente da convicção em questão; e do número de provas relevantes que a prova inclui. A qualidade da prova para uma asserção é objetiva, dependendo do quanto esta sustenta a asserção em questão, de quão abrangente e de quão independentemente certa ela é.
O quê? Alguém entendeu algo? Bom, vamos tentar simplificar o que quer dizer tudo isso pegando um pedaço minúsculo dessa palavra cruzada matafórica. No final do século XVIII, naturalistas, dentre os quais o avô de Charles, Erasmus Darwin, descobriram que, ao contrário do que se pensava, as espécies não são estáticas, elas se alteram. Então, no começo do século XIX, Jean Batiste Lamarck lança a teoria do transformismo, aquela que diz que a girafa espicho o pescoço para pegar as folhas mais altas e, por isso, seu filho nasceu com um pescoço mais longo. Uma teoria não atrapalhava a outra, estavam confortavelmente instaladas no jogo. Mas então, em 1959, Darwin lança “A Origem das Espécies” e sua Seleção Natural, obra muito bem embasada em evidências e experiências. A mudança das espécies segue se encaixando, mas a teoria de Lamarck não se encaixa à de Darwin, e como esta última é muito mais condizente com as evidências e apoiada por experimentos, acaba por derrubar a teoria de Lamarck, deixando o espaço livre, até que as teorias de um monge chamado Mendel se encaixem, reforçando a Seleção Natural ainda mais, da mesma forma que reforça a si mesma.
Dessa forma, a ciência é uma eterna busca pela verdade, embora ela possa nunca ser encontrada por inteiro. Ainda assim, como nos diz o biólogo e escritor de ficção científica Isaac Asimov, mesmo que as verdades não sejam absolutas, ou que existam erros na visão que temos, ainda assim algumas visões erradas estão mais próximas da verdade que outras. Por exemplo, antes acreditava-se que a Terra era o centro do Universo e tudo mais girava em torno dela. Depois, por observação, concluiu-se que uma explicação muito melhor seria pôr o sol no centro do Universo, girando a Terra e os outros astros ao seu redor em órbitas circulares. Kepler nos deu as órbitas elípticas. Hoje, sabemos que nenhuma dessas visões é exata, mas a segunda era ‘menos errada’ que a primeira, que era mais errada que a terceira.
Mas então a Verdade (com V maíusculo) não existe? Acho que não é bem assim. Talvez apenas não a consigamos ver. Imaginem que estejamos fora dessa sala (na verdade que nunca tenhamos entrado nela) e nos surja um questionamento: existem cadeiras nessa sala? E se sim, quantas? Bom, talvez, como nossos antepassados, começássemos tateando. Alguém poderia até afirmar que Deus jamais teria criado uma sala imensa como essa, que vemos pelo lado de fora, sem ter posto cadeiras nela, já que Deus não faz nada que não seja sábio. Outros chutarão. Alguns poucos tentarão, talvez ver pelas janelas ou usar equipamentos. Não importa. Podemos até nunca descobrir exatamente quantas cadeiras existem exatamente na sala, mas a verdade desse número existe, quer o conheçamos quer não.
Inclusive, sobre o deduzir sobre não estar presente para ver, coisa muito criticada pelos detratores da ciência que atacam, por exemplo, a já citada Teoria da Evolução afirmando que ninguém estava lá quando os homens se separaram dos outros primatas, e portanto não há como afirmar que tal ocorreu, lembro-me de outra metáfora. Imagine um cano. Por esse cano entra um rato em um lado. Pelo outro lado entra um gato. Não vemos o que ocorre dentro do cano, mas o gato sai pelo lado contrário ao que entrou, enquanto o rato não sai nunca mais e, se verificarmos o cano, veremos que ele tampouco está lá dentro. Ninguém viu o que aconteceu, ninguém presenciou, mas a lógica nos diz que o gato comeu o rato. Pois é mais ou menos assim que funciona o processo. Você realmente não pode estar na origem do homem, ou na explosão de uma supernova, ou no instante do big bang, mas seus ecos podem ser observados e, a partir desses ecos, formula-se hipóteses e estas hipóteses, quando devidamente comprovadas por evidencias, tornam-se teorias, ou seja, modelos para explicar àquele fenômeno.
Em suma, esse é meu “credo cético” baseado em evidências. E o que quero, hoje? Convencer vocês de que isso é o correto, de que essa é a única forma verdadeiramente efetiva de ver o mundo? Não. Apenas tento mostrar a forma que pessoas como eu pensam para que sejamos vistos, não como as ‘pessoas más’, ou os rebeldes que querem contrariar o próprio Deus, ou as pessoas que passaram por tanto problema que chegaram à conclusão que Deus não existe; ou, quem sabe, apenas para que, na próxima vez em que eu for à praia com uma loira linda, não seja mais questionado sobre como posso não apreciar um pôr de sol apenas por ver nele a grandiosidade da energia solar gerada por fusão nuclear a oito minutos-luz daqui, cujos fótons se chocam com a atmosfera terrestre em ângulos inclinados, causando a refração da luz a qual, refletida em poucas nuvens podem matizar o céu de várias cores, refletidas pelo oceano onde nadam cetáceos, tornando aquele pôr de sol enfeitado por madeixas cor de trigo maduro um dos mais belos que já vi, mas não por causa do dedo de deus.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

O uso do podcast na construção e divulgação do conhecimento


Trabalho apresentado no XI Encontro sobre Investigação na Escola, Bagé/RS, dias 13 e 14 de julho de 2012


1 CONTEXTO DO RELATO
O sociólogo e filósofo Frei Betto nos diz que uma das principais razões do capitalismo ter vencido a queda de braço contra o chamado socialismo real está no fato de que este último sempre se preocupou em matar a fome de pão, enquanto o sistema capitalista busca, mesmo mantendo a fome de pão, saciar nossa fome de beleza. Betto prega que o ideal seria um sistema que unisse o melhor dos dois mundos: que matasse a fome de pão e ao mesmo tempo saciasse a fome de beleza.
Freire (1970), nos diz que a educação contribui para o aprimoramento da vocação ontológica dos seres humanos. Meditando sobre a aplicabilidade do conceito em educação, principalmente face às cada vez mais onipresentes tecnologias da informação e comunicação (TICs), foi que desenvolveu-se o presente relato. A fim de repensar o uso das TICs, mais especificamente sobre a divulgação e construção de informações, através do uso de podcasts, aproveitando o atrativo da tecnologia para “matar” a fome de beleza, enquanto seu uso nos auxilia a saciar a fome pelo pão do conhecimento. Vivemos num contexto em que tudo  precisa ser aprendido com muita rapidez, pois com a mesma intensidade mudam as informações. A denominada Geração Z, que nasceu em meio a esta revolução, vê-a com naturalidade, ao contrário da geração de seus pais e educadores, o que torna, por vezes, os aprendentes menos suscetíveis ao respeito pela autoridade, enquanto os professores se espantam com os padrões educacionais que se deterioram. Nesse mundo em transição, tanto os estudantes quanto os professores precisam ensinar a si mesmos uma habilidade essencial – precisam aprender a aprender (SAGAN, 2006).

2 DETALHAMENTO DAS ATIVIDADES
Há mais de 25 anos sou usuário de informática. Utilizo a ferramenta no dia-a-dia para muitas tarefas, incluindo o lazer. Neste sentido, semanalmente, ouço diversos podcasts, termo que, segundo Barros (2007), vem do laço criado entre Ipod – aparelho produzido pela Apple que reproduz arquivos eletrônicos de audio – e broadcast (transmissão), podendo defini-lo como sendo um programa de rádio personalizado, gravado em formatos digitais e disponibilizados na Internet.
Bottentuit Júnior (2007) salienta a importância dessa mídia afirmando que entre suas vantagens para a educação encontram-se: o maior interesse na aprendizagem dos conteúdos, devido a uma nova modalidade de ensino introduzida na sala de aula; o fato de ser um recurso que ajuda nos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos, visto que os mesmos podem escutar inúmeras vezes um mesmo episódio a fim de melhor compreenderem o conteúdo abordado; e a possibilidade da aprendizagem tanto dentro como fora da escola.
Ocorre que, a partir do estudo de alguns dos programas que escuto com regularidade, chamou minha atenção à disparidade na quantidade de downloads em programas que tratam do mesmo tema. Para este caso de estudo, utilizarei como exemplo programas sobre evolucionismo divulgado por três sites diferentes: o NerdCast[1], realizado pelos empresários David Pazos e Alexandre Ottoni, e os podcasts institucionais  Rock com Ciência[2] , realizado pelo Departamento de Biologia da Universidade Federal de Viçosa-MG, e Fronteiras da Ciência[3], concretizado pelo Departamento de Física da Ufrgs.
Os três programas, lançados com pouco mais de um ano de diferença, trazem especialistas na área, discutem evolução, em minha opinião, de forma competente, que permite ao ouvinte, se não tornar-se um especialista – até porque não é o intuito de nenhum dos podcasts –, ao menos aguçarem a curiosidade para o tema, ao final indicando possibilidades de aprofundamento do mesmo. A única diferença está na quantidade de acessos, pois enquanto o primeiro teve mais de 200 mil downloads, o segundo ficou com aproximadamente 2 mil e o terceiro com pouco mais de 2,4 mil.

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DO RELATO
De onde nasce esta disparidade nos acessos se a qualidade informativa dos três programas é tão próxima? Em minha opinião, nasce da ideia proposta por Frei Betto, pois dos três, somente o primeiro “mata” a fome de beleza, além da fome de conhecimento.
Basicamente, o Fronteiras da Ciência e o Rock com Ciência, realizados por professores universitários, são aulas virtuais sobre o tema, apresentando-o de forma competentíssima, mas – na opinião deste autor– pouco atrativa para o público leigo, especialmente para a chamada ‘geração Z’, que cresceu em um mundo de informação fácil e superficial, desabituada da leitura e do acompanhamento de documentários ou programas educativos.
O Nerdcast, por outro lado, apresenta o tema em meio a brincadeiras, com uma conversa descontraída, no estilo ‘papo de bar’, que atrai o público leigo, possibilitando levar a informação a um público que, de outra forma, não se interessaria, mas que, a partir da audição do programa pode, ao menos, ter o conhecimento mais básico, podendo desta forma vir a se interessar pelo tema.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concordamos com Shitsuka (2007), para quem o uso das tecnologias na área educacional possibilitará cada vez mais o acesso a múltiplas fontes de informação, propiciando um enriquecimento no processo formativo dos envolvidos. Pensamos, porém, que tal somente se dará se as ditas tecnologias forem utilizadas de forma a gerar interesse, além de disponibilizar boa informação, pois a concorrência pela atenção na dita blogsfera é imensa, sendo que a maioria dos sites não tem qualquer intencionalidade educacional. Caso as ferramentas educacionais não se adaptem para a competição, pensamos que estarão fadadas a perder o espaço para quem “matar” a fome de beleza, ainda que não a de conhecimento, o que seria realmente lamentável tendo em vista as possibilidades que as TICs abrem para a divulgação e construção de conhecimento a um público amplo, tanto dentro quanto fora da sala de aula.
Tal opinião baseio tanto no conhecimento que adquiri pela escuta semanal dos programas supracitados (além de outros), como pelo uso que já fizemos dos mesmos na Universidade; pois em diversas ocasiões, por sugestão minha, professores usaram programas, sobre temas como biologia, geologia, evolucionismo (inclusive os aqui apresentados), genética, microbiologia e outros, tendo estes boa aceitação por parte dos demais aprendentes, sendo que alguns passaram, igualmente, a acessar os casts semanalmente.

5 REFERÊNCIAS
BARROS, Gílian C; MENTA, Eziquiel. Podcast: produções de áudio para educação de forma crítica, criativa e cidadã. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación, vol. IX, n. 1, ene. – abr. /2007
BETTO, Frei. Fome de Pão e de Beleza. São Paulo: Editora Siciliano, [199--?]
BOTTENTUIT JUNIOR, João Batista; COUTINHO Clara Pereira. Podcast em educação: um contributo para o estado da arte. Disponível em . Acesso em 16 de junho de 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
MORAN, José Manuel. As mídias na educação. Disponível em . Acesso em 16 de junho de 2011.
SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios. São Paulo: Companha das Letras, 2006.
SHITSUKA, Ricardo, et al. Tecnologia de informação em educação. Revista científica FAMEC/FAAC/FMI/FABRASP. Ano 6 - Número 06, páginas 112-121, 2007.


[1] http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast
[2] http://www.rockcomciencia.com.br
[3] http://frontdaciencia.ufrgs.br

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Inquisição, os jabutis e os nazistas: Memes seguem padrões de Rainha Vermelha?


A descrição da cena, ocorrida em 17 de fevereiro de 1600, é atormentadora:
“Vestido em trapos, amarrado com força a uma estaca, o homem espera. Sua língua está atravessada por um prego e presa a uma estrutura de mental para que grite uma última ofensa à Santa Igreja. Sob seus pés, a pilha de lenha começa a arder. A cena terrível contrasta com o lugar de nome poético – Praça das Flores, no centro de Roma.” (SUPERINTERESSANTE, 01/2000, pg 43)
O homem condenado pela Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal ao tormento máximo é Giordano Bruno, padre e herege que ousou desafiar a doutrina da igreja, afirmando não só que era a terra que girava em torno do sol – e não ao contrário –, mas ainda ousou dizer que o sol era somente mais uma estrela, em um universo infinito com um número infinito de outras estrelas, cada qual com seus próprios mundos, muitos deles – afirmava o clérigo executado – com vida.
Fevereiro de 2012. A Igreja é comandada pelo papa Bento XVI – ex cardeal Joseph Alois Ratzinger – que foi prefeito da Congregatio pro Doctrina Fidei, a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão que substituiu a Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal – entre os anos de 1981 a 2005.
Apesar de ser considerado membro de uma das alas mais conservadoras da Igreja – que dentre outras coisas condena o homossexualismo, o uso de preservativos e pesquisas com células tronco –, Bento XVI não só não nega como não vê contradições entre os ensinamentos católicos e a possibilidade de o Universo ser infinito, de ter surgido há 13,9 bilhões de anos ou de que o surgimento das espécies tenha se dado seguido os padrões propostos por Charles Darwin (2004).
Mas então, o que mudou nestes últimos 412 anos? Mudou a fé ou as verdades da Igreja – embora sejam apresentadas como infalíveis e imutáveis – são relativas a tempo e espaço? O que pode explicar tamanha mudança havida entre o julgamento de Bruno e a chegada de Ratzinger ao pontificado?
Para buscarmos compreender esta verdadeira revolução de ideias, vamos primeiro analisar o mundo das ideias em si – sem, entretanto, qualquer conotação platônica.

Memes

O que são, afinal, as ideias? O que são estes fragmentos de cultura que aprendemos e passamos adiante?
Dawkins, em seu clássico O Gene Egoísta (2010, pg 325), afirma que “A transmissão cultural é análoga à transmissão genética, no sentido de que, apesar de ser essencialmente conservadora, pode dar origem a uma forma de evolução”.
“Se o gene é uma unidade de informação biológica, precisaríamos de uma unidade equivalente no campo cultural. Dawkins propôs a palavra ‘meme’ para designar essa nova entidade. O termo vem do grego mimeme (imitação), reduzido a duas sílabas para que soasse parecido com ‘gene’ ”. (SUPERINTERESSANTE, 2003, pg 69)
Mas o que seriam estas ideias que seguiriam padrões darwinistas de transmissão? Seria quaisquer ideias que pudéssemos engendrar? Conforme Blackmore (2000) não, não são quaisquer idéias. Experiências subjetivas, tais como as emoções, não figurariam como memes. De fato, no artigo a psicóloga apresenta o quadro reproduzido abaixo, com exemplos do que seriam ou não memes (tradução do autor):

Memes e complexos de memes
Histórias, lendas urbanas, mitos, roupas, penteados, piercing, cozinha, tabagismo, aplausos, idioma, acentos, bordões, canções, músicas, danças
A crença em OVNIs, fantasmas, Papai Noel, slogans racistas, piadas sexistas, religiões, invenções, as teorias da ciência, os sistemas judiciais, a democracia, história de Proust do bolo Madeleine

Não memes
Experiências subjetivas, complexo emocional, percepções sensoriais, comer, respirar, ter relações sexuais, comportamentos inatos, mesmo que contagiosos: bocejar, tossir, rir
Respostas condicionadas: o medo do som de uma broca de dentista, os mapas cognitivos: Conhecer as formas em torno do seu bairro, associações com sons e cheiros

Nota: Muitos comportamentos humanos são misturas complexas de congenitudes, aprendizagem e imitação, por exemplo, andar de bicicleta.

Ainda conforme a hipótese de Dawkins (2010), os memes teriam maior ou menor capacidade de replicar-se conforme sua adaptação à mente humana, tal qual os genes têm maior ou menor capacidade de replicação conforme a adaptação do fenótipo que o mesmo expressa.
O importante na analogia é a replicação comum a genes e memes, a replicação mais perfeita possível. Neste sentido, Dawkins faz uma analogia entre a cópia dos aminoácidos à função de um escriba que copia um texto, embora:
“A idéia de que copiar repetidamente retém a exatidão total é apenas teórica. Na prática, os escribas são falíveis e não são imunes a desvirtuar sua cópia para fazê-la dizer coisas que eles (sem dúvida sinceramente) pensam que o documento original deveria ter dito. O mais célebre exemplo disso, meticulosamente documentado por teólogos alemães do século XIX, é a adulteração da história do Novo Testamento para adequá-la a profecias do Antigo Testamento” (DAWKINS, 2004)
Desta forma, a cópia tanto de éxons e introns quanto de memes está sujeita a erros de cópias, denominados mutações, que em geral (principalmente nos genes) é desvantajosa mas que, em alguns casos, se mostra vantajosa e possibilita uma maior adaptação ao meio, uma vantagem evolutiva que pode ser decisiva para sua sobrevivência frente a outros organismos da mesma espécie, o que Darwin (2004) denominou seleção natural. Segundo a teoria de Dawkins (2010), os memes seguiriam os mesmos padrões de adaptação para continuar a serem replicados.
Conforme Blackmore (2000):
“A natureza humana pode ser explicada pela teoria evolucionista, mas apenas quando consideramos a evolução dos memes evolução bem como dos genes. É tentador considerar como memes simplesmente "idéias", mas mais propriamente memes são uma forma de informação. Genes, também, são informações: instruções, escrito em DNA, para construir proteínas.”
Embora controversa, a hipótese tem ganhado muitos adeptos em ramos tão distintos quanto a biologia, a neurociência e a tecnologia da informação.

Memeplexos

O conceito de que a Terra é o centro do Universo, que se adapta bem ao pregado na Bíblia, um livro escrito na Idade do Bronze, uma vez que permite ‘espaço’ suficiente para situar-se o paraíso e o inferno fora da esfera de estrelas que circularia o universo geocêntrico. E eis aí outro ponto importante da teoria memética: o de que memes independentes podem se unir e formar complexos de memes (denominados memeplexos) que atuam em conjunto, da mesma forma que acontece com os genes. Os genes que determinam, por exemplo, que devemos ter duas pernas não teriam sentido sem o gene que define a coluna vertebral.
Da mesma forma, os memeplexos, embora formado por ideias que, em princípio são independentes, operam em conjunto para fortalecer sua possibilidade de transmissão.
Assim, no exemplo citado, no modelo astronômico defendido pela Inquisição no Século XVII, a noção de que a Terra era o centro do Universo era um meme, a de que o universo era envolvido por uma esfera de cristal bordada de estrelas era outro, e o conceito de que o Paraíso e o Inferno estavam além desta esfera uma terceira ideia; três memes isolados. Entretanto, ao mesmo tempo, eram ideias que agiam em conjunto, fortalecendo e auxiliando uma à outra, como se fossem os dedos de uma mão (uma mão de três dedos no caso).
Da mesma forma, se analisarmos os escritos de Saulo de Tarsos, também conhecido como São Paulo, veremos que o mesmo não se refere ao nascimento de uma virgem, da chegada triunfal de Jesus a Jerusalém, da traição de Judas e de muitas outras passagens conhecidíssimas da Paixão de Cristo. A inexistência de citações de passagens dos evangélicos nas Epístolas é vista, por alguns estudiosos, como prova de que a história que envolve a vida de Cristo teria sido criada a posteriori pelos evangelistas, baseando-se em mitos mais antigos. O fato é que embora possa haver até mesmo uma certa discrepância entre o Cristo apresentado por Saulo e o Cristo dos quatro evangélicos canônicos, o ‘conjunto da obra’ forma um memeplexo poderoso, que tem mantido a fé, o poder e mesmo tem guiado decisões científicas e políticas nos últimos 2 mil anos.
Ocorre, porém, que por mais poder que a Igreja tenha tido para manter o meme geocêntrico, que formava um memeplexo poderoso com o conceito de localização física dos espaços de castigo e recompensa eternas, o surgimento de outros memes concorrentes através dos escritos de Kepler, Copérnico, Bruno, Galileu e outros tantos, apresentando um modelo mais próximo do que pode ser empiricamente verificado com análises criteriosas.
Mas se memeplexo geocêntrico não é o cerne da doutrina cristã, ele ainda assim foi importante na fixação do memeplexo cristão, pois se o Universo é infinito, como queria o herege Bruno, onde situar o Éden ou o Sheol?
Estaria aí o fim do memeplexo conhecido como cristianismo?
Aí entra o questionamento que deu origem a este artigo.

Rainha Vermelha

"É preciso correr o máximo possível, para permanecermos no mesmo local.", diz a Rainha Vermelha a Alice, quando esta constata – na obra de Lewis Carroll Alice no País do Espelho – que apesar do muito que correram, não parecem ter se movido.
Por analogia, o termo Rainha Vermelha (ou Rainha de Copas) foi dado pelo biólogo van Valen "para um sistema evolutivo, é preciso haver um desenvolvimento contínuo para manter a aptidão relativamente aos sistemas com o qual estão a co-evoluir." (HEYLIGHEN, 2000).
Embora possa também explicar as vantagens da reprodução sexuada, o componente que nos interessa analisar aqui é o que explica a ‘corrida armamentista’ entre espécies que competem por nichos ou que têm relações de predador-presa ou de parasita-hospedeiro.
A hipótese surgiu para tentar explicar por que a probabilidade de extinção de uma espécie não é reduzida com o passar do tempo, como seria de se esperar, uma vez que a mesma estaria, teoricamente, cada vez mais adaptada ao nicho que ocupa. A conclusão de Van Valen é que:
“já que cada melhoria em uma espécie resulta em uma vantagem seletiva para ela, a variação irá resultar no aumento do valor adaptativo na espécie. Entretanto, já que em geral, diferentes espécies estão co-evoluindo, melhorias em uma espécie representam vantagem competitiva em relação às demais. Isso significa que o aumento do valor adaptativo em um sistema evolutivo, deve promover a diminuição do valor adaptativo em outro. A única forma de uma espécie sujeita a competição por recursos manter sua aptidão em relação a espécies competidoras é pelo aumento da aptidão da espécie” (HEYLIGHEN, 2000)
Exemplos deste tipo de evolução podem ser facilmente encontrados até mesmo em Darwin (2004), e têm muito a ver com a própria Seleção Natural, com o adendo de que não é apenas uma espécie que está se adaptando ao nicho, mas sim que está competindo pelo nicho com outra, seus interesses se chocam e, para quem nenhuma das duas acabe sendo extinta, é necessário que co-evoluam.
Dawkins (2009, pg 249) nos cita um exemplo das Galápagos que pode ilustrar o conceito:
“Os jabutis (...) adquirem pela evolução diferentes formas de carapaça nas diferentes ilhas. As espécies das ilhas maiores têm carapaças mais altas. As das ilhas menores têm carapaças em forma de sela, com uma abertura dianteira dotada de uma dobra alta para a cabeça. A razão disso parece ser que as ilhas maiores são úmidas o suficiente para que nelas cresça grama, da qual se alimentam os jabutis que lá habitam. As ilhas menores são em geral demasiado secas para ter grama, e nelas os jabutis comem cactos. A carapaça com a dobra alta permite que o pescoço se erga e alcance os cactos, os quais, em uma corrida armamentista evolucionária, crescem cada vez mais alto para livrar-se dos jabutis devoradores.”
Ora, a hipótese memética nos diz que a evolução e a replicação dos memes segue o mesmo algoritmo da replicação genética. Então cabe a pergunta: a hipótese da Rainha de Copas caberia também na co-evolução de memes e memeplexos em competição?
Em minha opinião a resposta é SIM.
Analisando o caso do geocentrismo, que condenou Bruno à pena capital em praça pública e forçou Galileu a abjurar – embora, segundo a lenda, tenha dito baixinho: eppur si muove – e cumprir prisão domiciliar perpétua, vimos que estes eram os últimos estertores do apoio do geocentrismo a uma noção de um deus pessoal que pune e mandou seu filho unigênito para purgar os pecados humanos.
Como no caso dos cactos das Galápagos, o cristianismo precisava se adaptar, crescer para não ser devorado pelas novas ideias. Desta forma, foi vagarosamente permitindo que a nova teoria heliocentrista fosse considerada; a posteriori, adaptou-se às novas concepções surgidas do conhecimento empírico científico acumulado.
Primeiro buscaram-se outros possíveis lugares onde situar céu e inferno; hoje, muitos teóricos católicos admitem que as mensagens bíblicas são metafóricas, não podem ser levadas ao pé da letra.
Se antes o Vaticano negava veementemente o big-bang, hoje Ratzinger afirma que Deus foi o gatilho deste; se antes se negava que as espécies evoluíam, hoje o pontificado diz que tal ocorreu pela vontade do Criador. Ou seja, cada vez mais a Santa Sé busca demonstrar que religião e ciência não são incompatíveis, pois Deus estará sempre no invisível e na força geradora do cosmos.
Mas e o fundamentalismo religioso? Eles seguem negando as evidências científicas da evolução e a corrente da Terra Jovem afirma que o Universo tem pouco menos de 10 mil anos; estaria aí um ponto contrário à hipótese adaptativa aqui apresentada?
Penso que não, mas que, ao contrário, mais uma vez temos aí a adaptação na ‘corrida armamentista evolucionária’ dos memeplexos.
Novamente pensando nos cactos x jabutis, uma outra estratégia que poderia ter sido selecionada nos cactos poderiam ter adotado seria uma maior espinificação, ou tornar sua casca mais grossa, ou ainda ter desenvolvido uma toxina, a ponto de ser impossível para os jabutis deles se alimentarem sem uma nova co-adaptação.
O fundamentalismo religioso é o cacto seguindo uma via alternativa de corrida armamentista: não provar que ciência e religião podem conviver, mas sim tentando se apropriar da ciência, criando pseudociências – quando usamos como delimitador o amplamente aceito falseamento de Popper (2008) – que tentam provar que homens e dinossauros conviveram, que as espécies são imutáveis e que as extinções em massa foram, na verdade, animais que não conseguiram chegar à Arca de Noé quando do Dilúvio, que datações radioativas são equivocadas...
Mas mais importante, o meme que tem sustentado o memeplexo do fundamentalismo cristão é o de que é errado duvidar, que a fé no que diz um livro da idade do bronze é a maior virtude de um bom cristão, e que qualquer dúvida racional foi plantada pelo demônio como forma de conduzir a alma à perdição, sem dúvida um meme poderoso na mente que infecta, pois elimina qualquer possibilidade de contágio por memes concorrentes.
Tal meme não é, entretanto, exclusividade cristã. Fundamentalismos mundo afora o utilizam como suporte a seus memeplexos.
A mesma base do “não racionalizar é santo” pode ser vista nos islâmicos que atiraram aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ou em judeus que invadem terras palestinas pois são “terras a eles dadas por Deus”, ou mesmo em neonazistas que se recusam a ver judeus, negros e homossexuais (ou nordestinos, como no caso brasileiro) como integrantes da mesma espécie a que pertencem.
Neste último caso, é interessante notar que os neonazistas brasileiros, em sua maioria, são miscigenados de europeus, nativo-americanos e mesmo africanos e judeus convertidos no período inquisitorial, e não ‘arianos’ como apregoados pelos fundadores da doutrina, em um novo exemplo de memeplexo que se co adaptou para seguir atuando fora do ambiente no qual inicialmente surgira (a Alemanha do período inter guerras), seguindo a corrida armamentista na disputa de nichos cerebrais com memeplexos contrários aos seus.
Mas é interessante notar que os memes e memeplexos mais modernos têm uma capacidade infecciosa maior do que suas versões mais antigas.
Tentar, por exemplo, mobilizar grandes massas com o cristianismo primitivo provavelmente não será bem sucedido (poucos são os dispostos a largar tudo e viver em uma comunidade isolada do mundo como os primeiros cristãos). Muito melhor sucedido você será se tentar o neopentecostalismo e seu meme de que riqueza, ao contrário de ser pecado. Neste sentido, há até uma explicação alternativa para o ensinamento de que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu”, que teria sido proferidas por Jesus, segundo Lucas 18, 24-27, de que:
“Essa corda grossa, (chamada) camelo, vinha utilizada principalmente nos tempos de guerra, onde através desse buraco (na muralha), chamado de agulha, podia-se fazer o transporte de armas e comida. Essas agulhas são muito presentes ainda hoje nas muralhas da cidade antiga de Jerusalém” (COELHO)
Ou seja, adaptando em palavras modernas, é mais fácil passar uma corda por um buraco feito especialmente para ela do que um rico entrar no reino dos céus.
Da mesma forma, se você apresentar a teoria ‘nem-lá-nem-cá’ apresentada pelo Vaticano nos dias de hoje conquistará fiéis, se tentar através do método de provar que a Terra é imóvel e fica no centro do Universo, a coisa ficará bem mais difícil.
Tudo isso me faz recordar novamente a Rainha Vermelha e os resultados de um experimento relatado por van Valen (1973, apud IAMARINO), sobre um crustáceo de água doce chamado Daphnia magna, ou pulga-de-água. Segundo o relato:
Ellen Decaester e colaboradores em um artigo da Nature, coletaram amostras de sedimento no fundo de um lago onde se encontravam várias camadas de deposição, cada camada correspondendo a um intervalo de tempo, totalizando 24cm de sedimento e 39 anos de registro. Nas camadas de sedimento se encontravam ovos de Daphnia e esporos de um parasita que a ataca, a bactéria Pasteuria ramosa. A ideia, muito elegante por sinal, foi expor a pulga-de-água de cada ano a bactérias de todos os anos, passados, presente e futuros, para determinar o sucesso de infecção da bactéria. Eis o resultado: bactérias do passado (da camada anterior de sedimento), não infectam tão bem quanto bactérias do presente (da mesma camada de sedimento), pois a geração de Daphnia presente já foi selecionada para resistir à infecção, e as bactérias do futuro (da camada seguinte de sedimento) também não infectam tão bem, pois já foram selecionadas para infectar as futuras pulgas-de-água. No total, a taxa de infecção das bactérias do presente se manteve constante, em torno de 60%, ou seja, ambos parasita e hospedeiro, mudaram a cada camada de sedimento para permanecer no mesmo lugar.”
Seguindo a mesma linha de pensamento, se você afirmar para um jovem brasileiro a quem queira converter em skinhead que a Alemanha deve ser a líder das nações da Terra e que mestiços como ele são raças inferiores, terá imensamente menos chances de obter sucesso do que se apresentar a versão nova do memeplexo, onde a raça inferior é o nordestino (ainda que este tenha mais ‘sangue’ ariano) que vem e conquista sua vaga de trabalho, em um claro exemplo de que estamos mais resistentes à cepa antiga do memeplexo, mas que a sua infecciosidade permanece graças ao desenvolvimento contínuo para manter a aptidão relativamente aos sistemas com o qual estão a co-evoluir ou, em outras palavras, graças ao memeplexo ter corrido o máximo possível e, assim, ter conseguido permanecer no mesmo lugar.

Bibliografia

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DARWIN, Charles. A Origem das Espécies. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda, 2004.
DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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