terça-feira, 15 de setembro de 2015

Feminismo, machismo e a falsa dicotomia

É comum ouvir-se a afirmação de que o feminismo é o contrário do machismo1. Quero argumentar, em primeiro lugar, que concordo e ao mesmo tempo discordo frontalmente desta afirmação.
Mas para argumentar é preciso, primeiro, definirmos machismo. O termo originalmente tem o sentido de “virilidade”, “valentia”, conforme o Vocabulario Portuguez e Latino, de autoria do padre Raphael Bluteau, em dez volumes publicados entre 1712 e 1728, em Coimbra, Portugal, sendo considerado este o primeiro dicionário já feito da língua portuguesa. No século XX, entretanto, com o crescimento do movimento pela libertação feminina, o termo foi apropriado e passou a designar, segundo o Aurélio2:
Atitude ou comportamento de quem não aceita a igualdade de direitos para o homem e a mulher, sendo contrário, pois, ao feminismo.
Aí está o ponto onde concordo. Machismo e feminismo são contrários no ponto em que um não acredita e o outro defende a igualdade.
O ponto onde discordo é quando se diz que o feminismo é o contrário do machismo por também ser uma doutrina sexista. O feminismo em si não é uma doutrina sexista, mas sim uma doutrina que busca a igualdade entre homens e mulheres. Que igualdade é essa? Ora, igualdade de direitos, deveres e oportunidades.
Bom, nesse sentido eu não sou machista. Acredito também em igualdade de gênero; não vejo nenhum problema em ver mulheres em cargos de chefia, na política (mesmo na presidência), ganhando mais que um homem (como é o caso de minha esposa em relação a mim), em divisão de tarefas domésticas, etc.
Isso então significa que eu sou um feminista, certo? Errado!
Mas... como assim? – Ouço meu leitor e minha leitora questionando – Você acaba de dizer que acredita na igualdade de gêneros! Então você é machista?
Não, e é sobre essa “pegadinha” que quero falar hoje, ela consiste em uma falácia chamada falso dilema ou falsa dicotomia.
Mas como o Estripador (que por sinal pode ser acusado de misógino sem dramas de consciência) vamos por partes.
O que eu quis dizer com “falácia” em primeiro lugar? Bom, segundo a Internet Encyclopedia of Philosophy (IEP)3, o termo designa um erro, sendo que este pode ser na argumentação, no raciocínio, em uma falsa crença ou causado por um erro anterior, muito embora os filósofos que estudam o assunto preferem usar a primeira definição. Em suma, usando uma frase do Clarion de Laffalot5, falácias são “argumentos de mentirinha”, que parecem verdade mas não são. Para melhor compreensão de onde está o erro, as falácias são divididas em categorias, sendo que o IEP cita 209 delas.
Uma destas categorias é a citada falsa dicotomia, na qual o erro consiste em apresentar duas escolhas e implicar na obrigatoriedade da escolha de uma. O exemplo citado na IEP4 é:
Eu quero ir de Londres para a Escócia. Eu McTaggart dizer que há dois caminhos para a Escócia a partir de Londres: a estrada alta e a estrada baixa. Eu acho que a estrada estrada alta é mais arriscada por que ela passa através de colinas, e isso significa curvas perigosas. Mas está chovendo agora, então ambas as estradas provavelmente estão escorregadias. Eu não gosto de uma ou outra escolha, mas penso que deveria tomar a estrada de baixo e estar mais seguro.
Ok; onde está o erro argumentativo? No fato de que há muitas outros caminhos para ir à Escócia, você não precisa se limitar às duas escolhas apresentadas! Você pode, por exemplo, pegar outras estradas, ir de trem, ou barco, ou quem sabe avião. Ao analisar outras opções além daquelas no menu injustamente limitado, você pode “segurar o dilema pelos chifres”, ao invés de ser chifrado por ele.
Outro exemplo citado é se alguém te disser: “Bom, é a hora de você se decidir. Voucê contribuirá com 20 dólares para nosso fundo de preservação, ou você está do lado da destruição do meio-ambiente?” 4
Percebe a pegadinha? Você pode perfeitamente ser totalmente contrário à destruição do meio ambiente, mas ainda assim não colaborar com os 20 dólares, seja por que você não tem o dinheiro, por que você considera que pode colaborar com outros fundos com uma atuação mais dentro do que você pensa ser o melhor, ou mesmo por discordar frontalmente da forma de atuação dos ambientalistas, mesmo também sendo contrário à destruição do meio-ambiente!
Pois é exatamente assim que eu percebo a luta do feminismo x machismo. Não concordo com o machismo, acho deplorável considerar alguém inferior seja por que razão seja, considero que somos todos seres humanos e que devemos ter os mesmos direitos, mas, ao mesmo tempo, discordo frontalmente da atuação do feminismo, em especial o feminismo denominado “terceira onda”.
Discordo, por exemplo, quando o feminismo coloca todas as mulheres como oprimidas e todos os homens como opressores, muito embora compreenda que há muito mais mulheres oprimidas. Muito embora pense sim que homem que agride mulher tem que estar na cadeia, discordo quando o feminismo diz que o problema da violência doméstica é um problema exclusivamente voltado contra a mulher, pois quando se olham as estatísticas do próprio governo federal se constata que em números absolutos isso não é verdade; ou seja, acho que homem que agride mulher tem que estar na cadeia, mas considero que mulher que agride homem também deve.
Discordo quando o feminismo faz uma seleção das teorias científicas que devem e que não devem ser divulgadas, que pesquisas devem e não devem ser feitas mas, principalmente, quando negam frontalmente à ciência por esta não se adequar em sua visão de mundo docotômica, isso sem apresentar nenhuma evidência de que as teorias atacadas não são a melhor explicação existente para os fenômenos tratados.
Discordo quando o feminismo defende a igualdade entre os gêneros mas foca apenas nos problemas do gênero feminino, gerando distorções. No Canadá, por exemplo, as feministas foram à luta por melhores condições de trabalho para mulheres com empregos perigosos; tal luta se baseou na evidência de que o percentual de mulheres entre as pessoas que sofreram acidentes de trabalho dobrou em cinco anos. Mas quando você vai ver os dados, observa que não houve um aumento no número de mulheres acidentadas, e sim uma redução no número de homens. Ou seja, vamos supor (por que não disponho aqui dos números corretos) que houvessem mil acidentes de trabalho por ano, sendo que destes 50 era de mulheres; então tinha-se um percentual de 5% de mulheres nos números de acidentes de trabalho. Agora vamos supor que o número de acidentes de trabalho tenha caído para 500 em cinco anos, sendo que o número de mulheres acidentadas manteve-se fixo em 50. Agora tem-se um percentual de 10% de mulheres sofrendo acidentes de trabalho, e isso gerou a revolta das feministas que passaram a exigir leis especiais para as mulheres, mesmo com a realidade de que os números de acidentadas não aumentou e que o número de homens que sofrem acidentes ainda é imensamente maior.
Discordo quando o feminismo apresenta a falsa dicotomia de que se você não é feminista então você automaticamente concorda com o machismo, que você é opressor, que você não quer que homens e mulheres tenham os mesmos direitos.
Em fim, discordo do feminismo em boa parte de suas teorias, considero-as tiradas de uma cartola mágica, sem evidências o suficiente para sustenta-las, mas ao mesmo tempo discordo frontalmente do machismo e de suas teorias de inferioridade sexual. O que faço? Busco sim a igualdade de gêneros, mas sem me filiar ao movimento feminista, ou seja, não pego nenhuma das duas estradas; ou escolho outro caminho, ou ir de trem, ou de barco, ou quem sabe de avião...

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1 - Não gosto do termo “machismo”, considero o termo em si sexista por dar a entender que o macho, ou seja, o homem, é sempre o sexista e o culpado pelo sexismo. Prefiro usar sexismo mesmo, como o fazem os falantes de inglês. Mas neste texto usarei o termo machismo por ficar mais simples de explicar.
2 – OLANDA, A. B. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª. edição, 1ª. Impressão. Curitiba: Editora Positivo, 2004.
3 - Internet Encyclopedia of Philosophy. Fallacy. Disponível em <http://www.iep.utm.edu/fallacy/>. Acesso em 15 set 2015
4 - Internet Encyclopedia of Philosophy. False Dichotomy. Disponível em <http://www.iep.utm.edu/fallacy/#FalseDichotomy>. Acesso em 15 set 2015.
5 - Clarion de Laffalot. Falácias. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=9U2457cS_rU&index=1&list=PL7298E65F62E9A957>. Acesso em 15 set 2015.
Agradecimentos a meu amigo Marcelo Pierri Chiarello pelas dicas de bibliografia

sábado, 5 de setembro de 2015

Homossexual ISMO ou IDADE??

Essa semana tive uma discussão acirrada na faculdade; fui usar um argumento sobre a importância da biologia e usei o termo homossexualismo. Pronto, foi a deixa para ser patrulhado! Insinuações de homofobia e de machismo, além de me chamarem de retrógrado quando afirmei que as palavras são sinônimos.
O debate não é novo para mim; na verdade já o tive diversas vezes mas em geral com o outro lado, em geral religiosos fundamentalistas que defendem que o correto é homossexualismo, jamais homossexualidade. Para estes afirmo a mesma coisa: os termos são sinônimos e não, nenhum dos dois indica que a pessoa está doente.
Mas afinal, o correto sou eu, os militantes LGBT ou os fundamentalistas religiosos? Decidi me aprofundar no tema. Primeiro consultei o Aurelião1:

Homossexualidade (cs) [De homossexual + -(i)dade.] Substantivo feminino.
1.Caráter de homossexual; homossexualismo, inversão. [Antôn.: heterossexualidade.]

Homossexualismo (cs) [De homossexual + -ismo.] Substantivo masculino.
1.Prática do comportamento homossexual.
2.V. homossexualidade.

Sei que tais termos, entretanto, geram muita polêmica, daí decidi seguir procurando, desta vez usando o google, onde digitei “homossexualismo ou homossexualidade gramática”. Logo achei o blog Sobre Palavras2, onde o autor, jornalista e escritor consagrado, é categórico sem defender qualquer um dos lados: o debate é político, “o fato é que as duas palavras estão no dicionário. O resto é com você.”
Logo me dei conta de que o blog é abrigado pela Veja, veículo de comunicação visto com grande reserva (para dizer o mínimo) pelos movimentos sociais, então decidi continuar procurando; achei o Recanto das Letras3.
Este esclarece que não existem bases linguísticas que deem mais lógica a um dos usos. Tanto homossexualismo como homossexualidade, à luz das “regras” gramaticais, são equivalentes, embora ao final aconselhe o uso do segundo termo por respeito à militância.
Em seguida, o mesmo google me direcionou para o blog do professor Naziazeno (de Letras), voltado à redação e gramática. Para minha surpresa, o blogueiro, no texto acessado, se declara homossexual, batendo fortemente (e justificadamente em minha opinião) nos que se opõem à prática do homossexualismo, mas, pasmem! Usa igualmente os termos homossexualismo e homossexualidade como sinônimos, a exemplo do trecho:

Ser homossexual não é crime. Nenhuma lei no Brasil condena o homossexualismo. Crime é discriminar os gays, lésbicas e travestis. Homossexualidade não é doença e todas as Ciências garantem que é normal ser homossexual.

Ponto para o professor, e ponto duplo em minha opinião, combateu o preconceito sem a necessidade de recorrer a subterfúgios ou ao patrulhamento, ainda de quebra usando a ciência para provar seu ponto!
Qual a lições tiro disso tudo? Em primeiro lugar que a militância fanática de ambos os lados está errada e tentando fazer valer seu ponto de vista “na marra”; depois, que o patrulhamento ideológico somente afasta as pessoas, não passei a ser homofóbico depois do patrulhamento, mas com certeza junto a pessoas com uma tolerância tão baixa à discordância jamais irei me unir para tentar mudar a situação; vou seguir lutando para que esta mude e os homossexuais sejam plenamente aceitos em nossa sociedade, mas bem longe desse tipo de militante! Por último, que homossexualismo e homossexualidade são ambos gramaticalmente corretos e que você pode usar qualquer um dos termos sem medo de errar o português; só não esqueça que ISMO ou DADE se você considerar qualquer um dos dois doença, além de não entender nada de ciência ou medicina, você ainda é um completo imbecil.

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1 - Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 3ª. edição, 1ª. impressão da Editora Positivo, revista e atualizada do Aurélio Século XXI, O Dicionário da Língua Portuguesa, contendo 435 mil verbetes, locuções e definições. ©2004 by Regis Ltda.
2 - http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/homossexualismo-ou-homossexualidade/
3 - http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/4408012

4 - http://blogdotionaza.blogspot.com.br/2011/11/ser-homessexual-nao-e-crime.html

domingo, 12 de abril de 2015

O esvaziamento do movimento pró-impeachment

É claro em todo o país o esvaziamento do movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff.
São Paulo, por exemplo, continuou com o maior ato, reunindo 250 mil pessoas (dados da Folha de São Paulo), quase 1 milhão a menos do que reuniu há um mês atrás, quando os números chegaram a 1 milhão e 200 mil.
Porto Alegre seguiu a mesma média, passou de 100 mil para perto de 30 mil, segundo informações do Correio do Povo​.
Já no Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país, o número não chegou a 13 mil pessoas (segundo o site G1), público menor do que a média dos jogos do Campeonato Brasileiro em 2014 e infinitamente menor do que o público de 100 mil pessoas divulgado pelos organizadores do evento no mês passado.
O recorde de esvaziamento, entretanto, ocorreu no Amazonas, onde o movimento passou de 50 mil (segundo o site amazonasatual.com.br), para 15 pessoas (informação do site www.netcina.com.br/); os organizadores colocaram a culpa do esvaziamento recorde na chuva que caiu em Manaus nesse domingo (15/4).
Muitas diferentes causas podem explicar o esvaziamento: o fato de que a paixão antipetista, que vinha crescendo entre o segundo turno da eleição de 2014 e a manifestação de 15 de março decaiu tremendamente, fruto do esfriamento dos ânimos, o que fez muita gente começa a alisar o quadro mais racionalmente; o imediatismo do brasileiro, que achava que o governo iria cair no dia seguinte à primeira manifestação; o fato de os manifestantes seguirem divididos entre os que querem o PT fora do governo pela via democrática (embora tal seja quase impossível sem que primeiro haja evidências da participação direta da presidente nos esquemas de corrupção) e os que querem a volta do regime militar... Mas se eu tivesse que apostar em uma causa para o claro esvaziamento, colocaria minhas fichas na PL 4330, que dispõe sobre o contrato de prestação de serviço a terceiros e as relações de trabalho dele decorrentes, a famosa terceirização, que visa enfraquecer os direitos trabalhistas.
Tremendamente impopular entre a população assalariada, a PL 4330 foi aprovada com facilidade na Câmara, onde a oposição tem maioria, sendo que o partido do governo perdeu mesmo votando unanimemente contrário. 
A vitória da oposição, entretanto, foi o que se chama de “vitória de pirro” – ou mais popularmente de “tiro no pé” –, pois a mesma oposição que até então podia criticar livremente os desmandos da presidente e acusa-la (não sem razão) de ter agido contra o assalariado, agora demonstra que não está contra o fato de a presidente ter agido contra o assalariado, mas sim de ser ela a ter o poder para tanto, ou seja, a oposição deixou claro que não está preocupada com o assalariado, mas sim em reconquistar o poder; isso sem considerar os escândalos de corrupção que têm envolvido tanto um lado quanto outro do espectro político. Para piorar, o mesmo trabalhador que estava lutando pelo impeachment da presidente agora precisa do veto dela para a manutenção de seus direitos trabalhistas.
Se novos fatos não surgirem, o destino do movimento pró impeachment é o de se esvaziar cada vez mais, como um balão furado e, enquanto isso, as reformas políticas necessárias à moralização da política brasileira seguem engavetadas por falta de vontade política (quer do governo, quer da oposição) para leva-las adiante; ou seja, assim como não havia razões para comemorar o movimento pró-impeachment, não há razões para comemorar seu esvaziamento.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A ciência deve imitar os homossexuais?

Os movimentos sociais não aceitam que se usem certas palavras, muito embora tais palavras tenham um sentido dicionarizado e não estejam incorretas.
Um exemplo é homossexualismo, que segundo o dicionário Michaelis1 é:
ho.mos.se.xu.a.lis.mo - (cs) sm (der de homossexual+ismo, como ingl homosexualism) 1 Prática de atos homossexuais. 2 V homossexualidade. Antôn: heterossexualismo.
Ou seja, segundo o dicionário, homossexualismo e homossexualidade são sinônimos; ainda assim, o movimento LGBTTT (Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) não aceita o primeiro e incentiva o segundo; por quê? Por que o primeiro, embora sinônimo, carrega a má interpretação por alguns de que, pelo sufixo “ismo”, a relação afetiva e amorosa entre pessoas do mesmo sexo seria uma doença, assim como botulismo, bruxismo ou alcoolismo. Ou seja, embora dicionarizado não como doença, pois o sufixo possui inúmeras outras aplicações, inclusive na palavra heterossexualismo (s.m. Propensão a se sentir atraído sexualmente e/ou emocionalmente por pessoas do sexo oposto, conforme o dicionário); ou seja, o uso preconceituoso da palavra homossexualismo não passa disso, de preconceito, mas ainda assim seu uso, por vezes, acarreta más interpretações ou interpretações de má fé.
Às vezes me questiono se a ciência não deveria seguir o exemplo dos movimentos sociais e cunhar termos próprios para fugir das más interpretações e interpretações de má fé causadas pelo uso indiscriminado de palavras da ciência que são semelhantes ou iguais a palavras do dia-a-dia.

Especulação?

Um bom exemplo é o uso dos termos hipótese, teoria e lei. Os dois primeiros, hipótese e teoria, no sentido vulgar têm praticamente o mesmo significado, algo aproximado a suposição ou conjectura; ou seja, quando você fala para um amigo “tenho uma teoria” ou “tenho uma hipótese sobre tal assunto”, tal ‘hipótese’ ou ‘teoria’ pode ser uma suposição que você acaba de ter, sentado em uma mesa de bar, consumindo alguns chopes e salgadinhos; não é algo necessariamente verificável ou mesmo baseado em evidências, é somente uma ideia concebida sobre algo.
Os mesmos termos, em ciência, têm um significado profundamente diferente; hipótese é sim uma conjectura, mas criada para tentar explicar um fenômeno observado e sustentada no fato de ser falseável, ou seja, de que se possa criar um experimento para provar que tal hipótese é falsa. Já teoria é uma hipótese que foi submetida a um número suficiente de experimentações e não se mostrou falsa, teoria é, pois, o nível máximo que uma ideia pode ter em ciência, e não especulação vazia.
Eu várias vezes me deparei com pessoas, por exemplo, afirmando que a Teoria Sintética da Evolução é “somente uma teoria”, e que se fosse algo mais que uma ideia, então seria uma lei; não sabem estes que lei é somente uma teoria científica que pode fazer previsões testáveis para o futuro; por exemplo, se você jogar uma pedra para cima, sabendo a força usada, o vetor, a gravidade, a resistência do ar e outros dados, pode prever com exatidão como a pedra se comportará antes mesmo que ela tenha sido lançada, por isso falamos em Lei da Gravidade; você não pode, entretanto, dizer que uma espécie vai evoluir desta ou daquela forma, pois as mutações são aleatórias e selecionadas somente depois de ocorrerem, muito embora a Evolução tenha sobrevivido há mais de 150 anos de testes; por isso se fala em Teoria da Evolução, e não em Lei da Evolução.
O próprio termo ‘falsear’2, que é uma das bases para uma hipótese ou teoria poder ser
considerada científica é sujeito a más interpretações, e não é para menos, já que no dicionário falsear pode significar tanto atraiçoar e enganar quanto torcer o pé ou dar falsa interpretação a alguma coisa; significados estes muito diferentes de seu uso em ciência, que é o de, através de um experimento, poder demonstrar-se que uma hipótese ou teoria é falsa e, quanto mais testes deste tipo uma ideia científica é sujeita, mais forte se torna a teoria, enquanto que se fracassar nestes testes, uma hipótese ou teoria será, ou adaptada (se somente uma parte da ideia foi falseada) ou totalmente derrubada (se a ideia como um todo foi falseada).
Em biologia também são comuns concepções erradas sobre o termo ‘evolução’, que significa mudança das características hereditárias de uma população de uma geração para outra, fazendo com que as populações de organismos mudem e se diversifiquem ao longo do tempo. Mas novamente o dicionário trai a ciência, e são comuns as acepções de sofisticação ou aprimoramento, como se a evolução produzisse seres obrigatoriamente cada vez mais sofisticados; ou a confusão de evolução biológica com evolução moral; ou mesmo de direcionamento, como se o ser humano fosse o ápice da evolução quando, na verdade, para a biologia não somos mais evoluídos, por exemplo, que uma bactéria, pois se ambos estamos vivos e ocupando nosso nicho, então estamos ambos igualmente evoluídos.

Ciência?

Reconheço que a mudança de tais termos seria bastante complexa, e cheguei a pensar em propor uma alternativa de apor a palavra “científico/a” ao termo usado; assim, ao invés de utilizar-se ‘hipótese’, falar-se-ia em ‘hipótese científica’; ‘teoria científica’ e não somente ‘teoria’ e ‘falseabilidade científica’ ao invés de somente ‘falseabilidade’; isso sem falar em ‘lei científica’, dentre outros termos...
Mas então lembrei que a própria palavra ciência é fruto de muitos enganos por parte até mesmo de acadêmicos, pois a palavra, que vem do latim scientia (conhecimento), pode se referir a qualquer conhecimento ou prática sistemáticos, sendo usada tanto para ciências no sentido popperiano2 (ciência biológica, ciência da física...) quanto para assuntos que não têm qualquer relação com o método científico, tal como as ciências exotéricas, ou mesmo as teorias científicas pós-modernas que não seguem o método científico de falseabilidade, precisando não mais comprovação do que afirmações sem evidências, como demonstrou Alan Sokal 3, que publicou como artigo em uma respeitada revista pós-moderna “um pasticho de jargões esquerdistas, referências aduladoras, citações pomposas e completo nonsense (...) estruturado em torno das citações mais tolas que se pode encontrar sobre matemática e física” e depois publicou a denúncia da farsa.
Ao contrário do que parece, este não é um assunto vazio ou mero pedantismo acadêmico, pois junto com o problema da demarcação2, o problema da nomenclatura em ciência, aqui exposto, causa não só confusão entre os leigos, o que é problemático, nas palavras de Carl Sagan por que “vivemos em uma sociedade profundamente dependente de ciência e tecnologia na qual ninguém sabe nada sobre esses temas, e isso constitui uma fórmula perfeita para o desastre”; como também faz diferença, por exemplo, na hora em que são decididas as verbas a serem aplicadas em ciência e tecnologia que, ao contrário de serem investidas, por exemplo, na pesquisa da cura do câncer ou da doença de chagas, acabam sendo destinadas, em parte, a pesquisas “científicas” tais como cromoterapia, ou para provar que a gravidade é uma construção social, ou ainda para defender a ‘ciência’ marxista ou capitalista.
Claro que, neste espaço, não foi meu escopo encerrar o assunto ou trazer soluções definitivas, mas sim trazer à tona o debate para que outras pessoas, mais qualificadas que eu, possam nele trabalhar e, quem sabe, apresentar uma solução viável.

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1 – Dicionário Michaelis on line: http://michaelis.uol.com.br/.
2 – Para uma melhor compreensão do falseamento popperiano e do problema da demarcação o mais indicado seria a leitura de A Lógica da Pesquisa Científica (popper, Karl. São Paulo, Cultrix, 1993). Para um entendimento básico, consultar o excelente artigo do professor Fernando Lang da Silveira em https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/7046/6522; ou ainda http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_demarca%C3%A7%C3%A3o.
3 – Para informações sobre o Escândalo Sokal, o ideal é ler Imposturas Intelectuales (sokal, Alan; bricmont, Jean. Barcelona: Editora Paidós, 1999). Para um conhecimento básico sugiro o excelente podcast Fronteiras da Ciência, do Departamento de Física da ufrgs, no endereço http://podbay.fm/show/480542677/e/1310392805.


quarta-feira, 4 de março de 2015

Panaceias, ou seu direito acaba onde começa o meu

Panaceia, filha de Asclépio
Na mitologia grega Panaceia, filha de Asclépio, era a deusa da cura; seu próprio nome deriva de pan (tudo) e akos (remédio), indicando que a deusa era capaz de curar todas as enfermidades. Em tempos modernos, onde o número dos que ainda acreditam nas divindades gregas é bem restrito, o termo passou a designar uma cura, um remédio que cure todos os males.
E daí? Questiona o atento leitor; e daí que o conceito de panaceia, na minha opinião, é um dos grandes males que assolam nossa pátria amada.
Veja, por exemplo, a questão do livre mercado. Tenho um amigo que estuda filosofia para quem não há solução para o Brasil se não existir livre mercado total; a liberação total do mercado e sua autorregulação são, segundo ele, a solução para todos nossos males, da miséria à corrupção. Mas o interessante é que tenho outro amigo, sindicalista, para quem o mercado deve ser totalmente atrelado ao Estado; “nossos males”, nos explica ele, “derivam da liberdade de mercado”. Deu para entender? Ambos têm uma visão diametralmente oposta do tema, mas ambos propõem uma panaceia.
Mas nem só de mercado vive essa neta de Apolo. Nas recentes discussões que acompanhei, de onívoros versus veganos, não foram poucas as vezes em que vi a proposição de panaceias. Os veganos afirmam que bastaria que deixássemos de comer carne e não mais adoeceríamos, não teríamos mas problemas ambientais e viveríamos em um mundo de paz e amor, enquanto vários dos onívoros praticantes (por que onívoro fisiologicamente todo o ser humano é) afirmavam que era impossível ter uma boa saúde sem o consumo de carne.
Nas últimas eleições, tivemos um grande embate panaceico, onde um lado afirmava que se não vencesse o PT, o Brasil estaria perdido, enquanto o outro afirmava categoricamente que vencendo o PT o Brasil estaria perdido.
Agora, passadas as eleições, mas não arrefecidos os ânimos das duas torcidas pró e contra PT, temos aqueles que admitem que o Brasil tem corrupção, mas que o PT é o único partido inocente, e temos outros que propõem a derrubada do PT do poder por que o PT é o responsável por toda a corrupção nestes 500 anos de Brasil.
E quanto à Petrobras? A solução, é lógico, é privatiza-la por completo e, de quebra, todas as outras estatais, ou talvez seja fecha-la ainda mais ao capital especulativo? Existe as duas vertentes, ambas consideram sua posição a única capaz de salvar a estatal.

To funk or not to funk

Mesmo na religião o conceito é bem comum, e não é volta ao culto grego não! Veja, por
Dois lados da mesma moeda...
exemplo, o número de cristãos que afirmam que a única solução para os males do mundo é que, adivinhe... todos se tornem cristãos! Mas eles não são únicos, já vi diversos ateus pregando a extinção de todas as religiões como a única forma de termos um mundo decente.
Ainda em política, chega a ser engraçado ver o embate entre os eleitores do Jair Bolsonaro, que pregam a extinção dos partidos de esquerda e um estado policialesco contra os eleitores do Jean Wyllys, que pregam a extinção dos partidos de direita e um estado policialesco. Já vi eleitor do Bolsonaro afirmar, por exemplo, que estamos em uma ditadura comunista (embora não expliquem onde estão os presos políticos, o partido único ou a censura prévia) e defenderem a ditadura militar de 1964; enquanto vejo eleitores do Wyllys afirmarem que estamos em um governo de direita e preguem a ditadura do proletariado (trazendo presos políticos, o partido único e censura prévia).
Ah, tem também a panaceia sexual! Não são poucos os que vejo afirmar que homossexualismo é “uma pouca vergonha”, que gay se cura na porrada ou que querem proibir a adoção por casais homossexuais ou a união estável; por outro lado, já fui em palestra em que um homossexual pregava que todo o homem deveria ter, pelo menos, uma experiência homossexual passiva na vida.
Tem ainda a questão do politicamente correto; há quem queira o abolir por completo! Piadas racistas, sexistas ou homofóbicas em horário nobre? Qual o problema? Já há outros que querem proibir por completo o humor, a não ser que o humor seja engajado pois, dizem eles, quando você faz uma piada você quer afirmar aquilo que conta como humor.
Mas não para por aí, temos também o funk! De um lado temos os funkeiros em transporte público, sem fones de ouvidos, em uma atitude fascista de que “se eu gosto desse tipo de música você tem que escutar”; e temos aqueles que querem proibir o funk por que funk não é cultura (como se consumíssemos somente coisas cultas, seja musicalmente ou não).

Cordiais

Em suma, o Brasil confirma a hipótese sociológica de Sérgio Buarque de Holanda (vide imagem abaixo), para quem somos um povo cordial. Esta cordialidade, entretanto, é diferente do que muitos pensam ao ouvir o termo, ela não se refere ao fato de sermos bons anfitriões (olha a mitologia grega aí de novo...), ou de expressarmos carinho, afeto, amizade... Ela significa, isto sim, que pensamos não usando a racionalidade, mas sim de pensarmos emocionalmente e de buscarmos soluções “com o coração” e não com a razão; em outras palavras, somos cordiais por que temos este espírito de torcida, de que meu time está sempre certo e o time adversário sempre errado, mesmo que meu time esteja errado e o outro correto.
Quando analisamos mais profundamente e paramos para pensar (com a razão e não com a emoção) vemos o quanto os fundamentalistas liberais e socialistas, veganos e onívoros, petistas e antipetistas, privativistas e antiprivativistas, cristãos e ateus, bolsonaristas e wyllystas, homofóbicos e homofílicos, politicamente corretos e politicamente incorretos, funkeiros e antifunkeiros são parecidos; muito mais do que antagônicos, eles são simplesmente dois lados de uma mesma moeda de pensamento apaixonado e muito pouco lógico.
Talvez uma das saídas fosse adotar uma nova mitologia; ao invés dos gregos, ficar com os orientais e cultuar um pouco da doutrina budista do caminho do meio, ou seja, um ponto equidistante entre os extremos; você dá um passo em minha direção e eu dou um passo na sua. Compreender que o mercado precisa de certa regulação, mas que muita regulação sufoca a liberdade; que pessoas têm liberdade para consumir carne, ainda que isso não seja legal para você, mas que também o consumo excessivo de carne não faz mal só para a saúde como também para o ambiente; que há sim corruptos no PT, mas que buscar somente um cristo é favorecer que os corruptos de outros partidos se safem; compreender que você pode sim seguir sua religião (ou a falta dela), mas que isso não lhe dá direito de querer proibir que outros tenham as deles; compreender que você pode sim se identificar com um político, mas que outrem tem igual direito de se identificar com outro; compreender que o fato de você ser heterossexual não significa que todos precisem se-lo, ou que se você é homossexual outros têm direito de não querer experimentar; compreender que o humor pode sim machucar outras pessoas, mas que você não pode querer permitir somente aquilo que concorda com sua ideologia; compreender que você pode sim ter um gosto musical, mas que outros podem ter os deles, e que ambos merecem respeito.

Em suma, o que me parece mais acertado nisso tudo é que busquemos soluções conciliatórias e deixemos o espírito cordial de torcida; creio que isso colaboraria sobremaneira com nossa evolução econômica e social; só não podemos pensar que isso é a solução de todos nossos males, pois de panaceias já estamos lotados!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Veganismo é religião?

Sou ateu há mais de 30 anos, e nesse período não foram poucas as vezes em que fiquei abismado com as religiões. Claro que não são todas, há sim exceções, mas boa parte das religiões têm um pé na boa vontade, outro no autoritarismo. Coisas como “se você pensa diferente, então você está errado” ou “se você não acredita em minha religião você é mau”, por exemplo, são bastante comuns no discurso religioso fundamentalista.
Faz pouco, entretanto, que me deparei com uma religião relativamente nova, o veganismo, especialmente no grupo “passeata de pessoas que estão de bacon a vida” (https://www.facebook.com/events/1519510675003361), evento fake criado no facebook.
Religião? Talvez questione o leitor; sim, religião, e fundamentalista, terei que lhe responder, uma religião sem deuses ou politeísta, dependendo de como você quiser encarar, mas uma religião, como inclusive o demonstra a imagem que ilustra este texto, uma camiseta vegana vendida aqui mesmo no Brasil.
Mas nem só de camisetas vive a religiosidade vegana, diria até que os pontos de contato com religiões fundamentalistas são muitos; vamos a alguns exemplos:
Na internet é bastante comum a invasão de páginas atéias por religiosos fundamentalistas para pregar o arrependimento e a conversão à religião; se você argumentar que este não é um espaço para religiosos, eles não se importarão, seguirão pregando e te etiquetarão com termos depreciativos, de idiota a demoníaco. Bom, basta dar uma olhada na comunidade “de bacon a vida” para nos depararmos com uma verdadeira ‘invasão’ de veganos pregando, não se importando se você diz que esta foi uma comunidade criada para consumidores de carne e te chamando de idiota ou de demoníaco se você pensa diferente...
O uso e abuso por parte dos religiosos fundamentalistas de frases tais como “você não acredita em deus, depois não sabe por que tem uma doença grave ou câncer” é perfeitamente espelhado pelos veganos em sua pregação de que “você não é vegano, depois não sabe por que tem uma doença grave ou câncer”.
A um religioso fundamentalista não basta que você não combata sua religião, que o deixe livre para segui-la; você tem, obrigatoriamente na opinião dele, que seguir esta religião, e é comum o pensamento de que “quem age diferente dos preceitos de minha religião é imoral”. Basta uma passada rápida de olhos pela comunidade “de bacon...” para ver os veganos fazendo o mesmo; não basta que você os deixe livre para serem veganos, você tem, obrigatoriamente na opinião deles, que seguir o veganismo, e é comum o pensamento de que “quem age diferente dos preceitos do veganismo é imoral”; ou seja, ambos se guiam pela máxima de que não, você não tem liberdade de pensar e agir como você quer ou como você acha correto, você TEM que agir como EU quero e acho certo! Também seguem o pensamento autoritário de que “não há possibilidade de eu estar errado ou de você estar certo”, ou mesmo de que seus valores morais possam ser relativos.
Até mesmo o mesmo tipo de argumentos falaciosos os veganos e os religiosos fundamentalistas
usam. Um bom exemplo é o da inversão do ônus da prova (para quem não conhece, consulte https://www.youtube.com/watch?v=86vUvWOvf3A&list=PL7298E65F62E9A957&index=4). É bastante comum, por exemplo, ver religiosos fundamentalistas dizerem que “você não pode provar que deus não existe, portanto ele existe”, trazendo total inversão do ônus da prova, pois este recai sobre quem faz a afirmação, não sobre quem duvida dela. Dia destes, quando uma vegana na comunidade supracitada apresentou argumentos favoráveis ao veganismo, pedi evidências dos mesmos e, adivinhe... a resposta foi “você não pode provar que o que estou dizendo não é verdade, portanto é verdade”...


Moralidade aboluta

Também é comum nos fundamentalistas religiosos, quando afirmam a moralidade da religião e se mostra um religioso que não segue esta moralidade, afirmar que “se um religioso age assim como você está dizendo, então ele não é um religioso de verdade”, utilizando-se de outra conhecida falácia denominada falácia do escocês de verdade (para quem não conhece, consulte https://www.youtube.com/watch?v=JfldV9HOPHs&index=8&list=PL7298E65F62E9A957) . Dia destes, em um dos debates no “de bacon...”, falando com uma vegana disse que conhecia veganos que não eram tão fundamentalistas, que eles aceitavam que outros pensassem diferente (sim, também há veganos que não são fundamentalistas) e a resposta dela? Adivinha... “Se um vegano age assim como você está dizendo, então ele não é um vegano  de verdade”!
Mas o fator em comum que considero mais interessante entre fundamentalistas religiosos e veganos é a máxima “se a ciência apoia o que digo, divulgo e vanglorio; se a ciência pensa diferente, quando não consigo esconder, denigro”. Em religiosos fundamentalistas é bastante comum quando você apresenta, por exemplo, as evidências da evolução, a falta de evidências de um dilúvio, que diversas pesquisas arqueológicas contrariam o texto de seu livro sagrado... ao mesmo tempo, eles se vangloriam ao afirmar que o big-bang seria o “faça-se a luz”, dizendo que “evolução é só uma teoria” ou nas vezes em que pesquisas arqueológicas coincidem com o texto de seu livro sagrado.
Em veganos, sempre que há uma pesquisa que afirma “consumo de carne vermelha pode causar câncer”, eles não só divulgam como ainda fazem sua interpretação fatalista: “se você consumir carne inevitavelmente terá câncer”; entretanto, se uma pesquisa diz que o consumo de carne é benéfico, se não podem esconder a pesquisa, então a pesquisa é “patrocinada pela indústria da carne” (prova disso? Pra quê???).
Da mesma forma, é comum veganos afirmarem coisas como “é claro que não somos carnívoros, mas sim herbívoros, pois não temos garras, não temos caninos imensos, temos dentes chatos e intestino longo como as vacas.”, ignorando não só o fato de que, segundo a biologia, não somos nem um nem outro, mas onívoros, como que chimpanzés e canídeos tampouco têm dentes como os dos felinos, ambos têm molares chatos como os nossos, mas ainda assim consomem carne, como também que intestino longo não define dieta; ursos polares, exclusivamente carnívoros, os têm, enquanto pandas, exclusivamente herbívoros, têm um intestino curto.


Fenótipo extendido
Ferramentas de caça: fenótipo extendido
Também é comum a afirmação de que “você não consegue caçar um javali com as mãos nuas, portanto não é um carnívoro”, ignorando não só que as ferramentas são consideradas pela biologia como fenótipo extendido (https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=vsIZAgAAQBAJ&oi=fnd&pg=PP2&dq=dawkins+extended+phenotype&ots=IzpBQYIAzq&sig=6xNbYNiPlrDV0NVKCyyAgS1ZP40#v=onepage&q=dawkins%20extended%20phenotype&f=false), ou seja, ferramentas são para nós o que grandes caninos e garras são para felinos, ou o que cascos e pernas longas são para herbívoros de savana. Também é falho neste argumento o conceito de que somente caçadores se alimentam de carne; segundo as pesquisas mais recentes, os hominídeos realmente não eram originalmente grandes caçadores, mas sim necrófagos, ou seja, aproveitávamos os restos da caça de outros animais até desenvolvermos nossas ferramentas (FOLEY, Robert; Apenas Mais Uma Espécie Única: Padrões da Ecologia Evolutiva Humana; São Paulo: Edusp, 1987). Mas há ainda outra falha neste argumento, já que a partir do final da última glaciação, há uns 10 mil anos, desenvolvemos o pastoreio também como fenótipo extendido, da mesma forma que este fenótipo se desenvolveu, por exemplo em diversas espécies de formiga; ou seja, nossa sociedade há uns 10 mil anos não consome majoritariamente carne de caça, mas de pastoreio, e com uma sociedade complexa como a nossa não é possível que todos produzam seu próprio alimento; da mesma forma que os consumidores de carne não caçam seu alimento, veganos não passam o dia coletando frutas e raízes na natureza, e pela mesma razão: isso seria improdutivo.
Outra boa evidência de que não somos herbívoros, mas onívoros, é que conseguimos consumir alguns vegetais; entretanto diversas substâncias vegetais (tais como a celulose) não conseguimos digerir (coisa que herbívoros como a vaca tiram de bandeja), enquanto produzimos pepsina, enzima que permite a digestão da carne, presente apenas em animais que consomem carne, quer carnívoros, quer onívoros, mas não em herbívoros, ou o fato de que nossos parentes próximos, chimpanzés, orangotangos e bonobos são igualmente herbívoros; neste grupo a única exceção é o gorila o que, pelo princípio da parcimônia em filogenética (Mark, R. Evolução. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006), indica que nossos ancestrais comuns seguiam uma dieta que incluía carne, sendo que após a especiação os gorilas perderam esta capacidade.
         Destarte, parece-nos evidenciado que veganos são sim uma religião fundamentalista, ao menos em suas práticas, e não se surpreenda se, em um domingo qualquer, no futuro, baterem à sua porta às 7h30min da manhã e, quando você abrir, der de cara com um par de veganos com panfletos e um livro preto questionando: você tem um tempo para ouvir a palavra da salvação?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Veganismo, o novo fundamentalismo

Vou ser sincero, tenho um sentimento dúbio em relação aos veganos; por um lado, eles me divertem muito, por outro, eles me entristecem.
Para quem não sabe, veganos são uma espécie de “vegetarianos radiciais”, que não só não consomem carne como um vegetariano ‘normal’, mas também não consome nada que use produtos animais, tais como ovos, leite, lã, etc. Alguns, mais radicais, chegam a se recusar a matar uma planta para comê-la; se vão comer alface, por exemplo, arrancam apenas algumas folhas do pé sem, contudo, arrancar o pé inteiro.
Mas dizia eu que os veganos me divertem, e não é por sua recusa em consumir produtos animais; acho que eles têm sim o direito de não consumir produtos animais se isso lhes afeta a consciência, ou mesmo se acreditam que isso vá lhes beneficiar a saúde (embora não haja nenhum estudo científico conclusivo indicando que uma dieta vegetariana ou vegana seja melhor para a saúde). Acho que ninguém tem o direito de obriga-los a pensar ou agir diferente, obriga-los a consumir carne ou outro produto que não queiram.
Eles me divertem, em primeiro lugar, por que embora cobrem o respeito por sua visão de mundo não acham que têm qualquer obrigação de respeitar quem tenha outra visão. A nós, que insistimos em apreciar bacon, chamam de “carnistas” e, por incrível que pareça, esse termo pretende ser ofensivo!! Como não se divertir com isso? No próprio facebook já tive alguns debates acalorados com integrantes desses grupos, em que me chamaram de “carnista” e publiquei uma foto de churrasco com o dístico “carnista com orgulho” para comemorar o fato; concluímos esse debate com a vegana desistindo e se despedindo com um “bay” – assim mesmo, baía em inglês, onde ela provavelmente estava querendo dizer bye, o que me leva a pensar que talvez leituras não fossem muito o forte dela.
Agora há pouco, um cara criou um dos muitos “eventos fake” no facebook denominado “Passeata das pessoas que estão de bacon a vida”, usando um trocadilho inteligente. O objetivo do grupo, é claro, não era fazer nenhuma passeata em prol do consumo do bacon; era somente dar risada, tal como grupos como “Comemoração de anos do Chorão longe das drogas” faz ironia com o segundo aniversário de falecimento do cantor do Charlie Brown Jr. por overdose de cocaína sem, contudo, que alguém vá realmente comemorar o trágico incidente, ou como o evento “Aula de dominação da galáxia com Darth Vader” não vai trazer Anakin Skywalker para para uma palestra. Apesar de divertido, o evento iria passar em brancas nuvens, com algumas confirmações igualmente fakes, algumas risadas e nada mais, até a invasão por vegans xingando, apontando o dedo e indignados com a realização da marcha... Sério mesmo? Não compreenderam que a tal “marcha” não existe? Nossa, esse pessoal me diverte tanto!
Ah, mas tem mais! Além de invadirem o evento e xingarem os participantes com epítetos ‘terríveis’; além do já citado “carnista”, também fomos chamados de ‘especistas’ e, claro, de ‘assassinos’ (muito embora assassino seja sinônimo de homicida); o organizador do grupo comentou que recebeu em inbox 28 mensagens xingando-o de tais epítetos. Além dos xingamentos, tivemos os tradicionais “você vai pegar câncer”... é interessante como isso me lembra a pregação de fanáticos religiosos: “se você não segue minha religião você é satanista”; “se você não acredita no mesmo que eu você é mau”; “assassinos são pessoas que não têm meu deus no coração”; “se você não acredita no mesmo que eu meu deus vai te dar câncer”...
Espero realmente estar errado, mas acho que se a coisa seguir desse jeito, não muito longe veremos veganos invadindo churrascarias com fuzis e gritando “vamos vingar as vacas, bakarahu akbar!”; duvida??? Bom, o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo foi exatamente isso, uma tentativa de calar quem pensa diferente.

Liberdade só quando eu concordo

Mas, como já disse, não são apenas risadas que os veganos provocam em mim; eles igualmente me provocam um sentimento de reflexão triste, e não é uma reflexão pelo fato de eu consumir carne, mas sim uma triste reflexão sobre o quanto o ser humano é insignificante para esse pessoal; o quão longe do humanismo eles estão e o quanto liberdade de expressão não significa nada se contrariar o que eles pensam. Conforme expressei em outra crônica aqui neste blog, liberdade de expressão não é somente a liberdade de que se expressem aqueles com quem concordo, mas sim a liberdade de se expressarem aqueles de quem discordo ou, nas palavras atribuídas a Voltaire: “não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-las”.
Destarte, não me oponho de modo algum que veganos façam uma comunidade do tipo “viva a alface”, ou mesmo “comer carne é errado”; o que me oponho é que eles não queiram permitir que os ‘carnistas’ se manifestem, que queiram calar quem pensa diferente.
No outro aspecto citado, o de falta de humanismo, vi o absurdo de uma vegana que, no próprio grupo “de bacon a vida” postou “vou matar uma criança e postar uma foto para ver se vocês acham bonito”; não, não acho que ela vai levar às últimas consequências e matar uma criança (ao menos espero que não), mas tal indica o quão pouco valor eles dão à vida humana em comparação a outros animais. Outro fato que me choca é quando veganos se dizem ‘abolicionistas’, comparando animais de consumo aos escravos que sustentavam a economia brasileira até 1888. Mesmo não sendo afrodescendente (vá lá, todos os seres humanos são afrodescendentes, já que nossa espécie surgiu na África, mas me refiro a que meus antepassados não vieram para a América acorrentados em navios negreiros) eu considero que tal comparação é tremendamente ofensiva para esta minoria tão sofrida pois é, de certa forma, um retorno aos argumentos de desumanização usado pelos escravistas, em que um escravo era comparado a uma vaca ou um porco...
Em suma, o que não aceito é que, por melhores intenções que tenham, que tais grupos se avoquem o direito de “bússolas morais” para quem não concorda com eles e, destarte, se sintam no direito de calar quem pensa diferente ou, nas palavras da Martha Medeiros (Zero Hora 09/01/2013, p. 2):
“O politicamente correto tem um pé na boa intenção e outro pé na repressão de liberdade. Costumo ser defensora acirrada da ética, mas não contem comigo para dar trela aos excessivamente bonzinhos, que pretendem higienizar o universo com medidas estapafúrdias que, espero, nunca serão levadas a sério. Se começarem a restringir a arte e a livre expressão, zzzzzzzzzz, o tédio dominará o mundo e colocará todos para dormir mais cedo.”