sábado, 29 de abril de 2017

Porque liberdade de expressão é fundamental¹

Steven Pinker 2 3


Mais de dois séculos após a liberdade de expressão ter sido consagrada na Primeira Emenda da Constituição4, esse direito está constantemente nas notícias. Códigos de discurso de universidades, desconvite de palestrantes de formatura, prisão de artistas performáticos, exílio de leakers5, um blogueiro condenado a centenas de chibatadas por um de nossos mais próximos aliados e o massacre de cartunistas franceses forçaram o mundo democrático a examinar as raízes de seu compromisso com a liberdade de expressão.
Será a liberdade de expressão meramente um talismã simbólico, como uma bandeira nacional ou um lema? É somente um de muitos valores que usamos uns contra os outros? O Papa Francisco estava certo quando disse que “você não pode fazer piada da fé de outros”? Universidades podem amordaçar alguns estudantes para proteger à sensibilidade de outros? Os cartunistas do Cherlie Hebdo “cruzaram a linha que separa a liberdade de expressão do discurso tóxico6”, como o reitor de uma faculdade de jornalismo recentemente opinou? Ou liberdade de expressão é fundamental – um direito o qual é, se não absoluto, deveria ser desconsiderado somente em casos cuidadosamente circunstritos?
A resposta é que a liberdade de expressão é de fato fundamental. É importante lembrarmo-nos porque, e ter as razões na ponta da língua quando esse direito for questionado.
A primeira razão é que muita coisa que o que realmente estamos fazendo quando questionamos alguém sobre liberdade de expressão é fundamental – expressando e valorando ideias – pressupõe que temos o direito de expor e valorar ideias. Em um discurso sobre liberdade de expressão (ou qualquer outro assunto), estamos expressando. Não estamos estabelecendo nossa discordância com uma queda-de-braço ou um belo duelo de pistolas. A menos que você esteja disposto a desacreditar a si mesmo declarando, nas palavras de Nat Hentoff, “liberdade de expressão para mim, mas não para ti”, tão logo você traga a debate seu argumento contra a liberdade de expressão, você perdeu o debate.
Àqueles que não se importam com este argumento lógico pode-se convence-los com base na experiência humana. Pode-se imaginar um mundo no qual oráculos, adivinhos, profetas, papas, visionários, imans ou gurus apresentem-nos a verdade que somente eles possuem, e o resto de nós teria que ser insensato, de fato criminoso, para questionar. A história nos mostra que esse não é o mundo em que vivemos. Auto-proclamados detentores da verdade repetidamente têm se mostrado errados – frequentemente de forma cômica – pela história, ciência e senso comum.
Talvez a grande descoberta na história da humanidade – a precede outras descobertas – é a de que nossas tradicionais fontes tradicionais de crença são, de fato, geradoras de erros e deveriam ser desconsideradas como fundamento para conhecimento. Isso inclui a fé, a revelação, o dogma, a autoridade, carisma, augúrio, profecia, intuição, clarividência, sabedoria popular e certeza subjetiva.
Como, então, podemos saber? Para além de provar teoremas matemáticos, os quais não tratam do mundo real, a resposta é o processo que o filósofo Karl Popper chamou de conjectura e refutação. Começamos com ideias sobre a natureza da realidade e testamo-las diante da realidade, permitindo ao mundo falsear nossos erros. A parte da “conjectura” desta fórmula, é claro, depende do exercício de liberdade de expressão. Apresentamos essas conjecturas sem qualquer certeza prévia de que estão certas. São apenas ideias expressas e ver quais resistem às tentativas de refutação adquirimos o conhecimento.
Uma vez que essa realização surgiu durante a revolução científica e o iluminismo, o conhecimento tradicional do mundo foi transformado. Todos sabem que a descoberta de que a terra gira em torno do sol e não o contrário teve que superar a resistência da autoridade clerical. Mas a revolução copernicana foi somente o primeiro evento em um cataclismo que faria nosso atual conhecimento do mundo irreconhecível por nossos ancestrais. Tudo que sabemos do mundo – a idade de nossa civilização, espécies, planeta e universo; a matéria de que somos feitos; as leis que governam matéria e energia; o funcionamento do corpo e cérebro – chegaram como insultos ao dogma sagrado do dia. Sabemos agora que as convicções amadas de qualquer tempo e cultura talvez seja decisivamente falseada, incluindo algumas que temos hoje.
Uma terceira razão pela qual a liberdade de expressão  é fundacional para o florescimento humano é esta é essencial para a democracia, e um baluarte contra a tirania. Como os monstruosos regimes do século XX conquistaram e mantiveram o poder? A resposta é que esses grupos de fanáticos armados silenciaram seus críticos e adversários. (A eleição de 1933 que deu aos Nazistas uma pluralidade foi precedida por anos de intimidação, morte e caos violento). E uma vez no poder, os totalitários criminalizam qualquer crítica a seus regimes. Isso também é verdade nos menos genocidas mas igualmente brutais regimes de nossos dias, como os da China, Russia, estados africanos ditatoriais e muito do mundo islâmico7.
Por que ditadores não têm opositores? Pode-se imaginar autocratas que forram seus ninhos e prendem ou matam somente àqueles que diretamente tentam usurpar seus privilégios, enquanto permitem seus impotentes submetidos a contemplar tudo o que fazem. Há uma boa razão por que ditadores não o fazem. Os submetidos a um regime tirânico não são iludidos de que são felizes, e se dezenas de milhões de cidadãos descontentes agirem juntos, nenhum regime tem a força bruta para resisti-los. A razão pela qual os cidadãos não resistem a seus senhores em massa é que eles perdem o conhecimento comum – a consciência de que todos compartilham seus conhecimentos e sabem que compartilham. As pessoas vão expor-se a riscos de represálias por um regime despótico somente se elas souberem que outros estão expondo a si mesmos ao risco ao mesmo tempo.
O conhecimento comum é criado pela informação pública, tal como uma declaração transmitida. A história da “roupa nova do imperador” ilustra essa lógica. Quando um pequeno garoto gritou que o imperador estava nu, ele não estava dizendo nada que eles não soubessem com antecedência, que não pudessem ver com seus próprios olhos. Mas ele mudou seu conhecimento, não obstante, porque agora todo mundo soube que todo mundo sabia que o imperador estava nu. E o conhecimento comum encorajou-os a desafiar à autoridade do imperador com seus risos.
A história nos relembra por que humor não é motivo para rir – porque sátira e o ridículo, mesmo quando pueril e insípido, aterroriza aos autocratas e é protegido pelas democracias. A sátira pode furtivamente desafiar as assumpções que são a segunda natureza de uma audiência, forçando-as a ver que suas assumpções trazem consequências que qualquer um reconhece como absurdas.
Por isso é que o humor tão frequentemente serve como um acelerante do progresso social. No século XVII caras espertos como Voltaire, Swift e Johnson ridicularizaram às guerras, opressões e práticas cruéis de seus dias. Nos anos 1960 comediantes e artistas mostraram racistas como broncos neandertais e as guerras do Vietnã e Fria como psicopatias imorais. A União Soviética e seus estados-satélite tinham uma rica corrente subterrânea de sátira, como na definição comum das duas ideologias da Guerra Fria: “Capitalismo é a exploração do homem pelo
homem; Comunismo é seu exato oposto”.
Usamos discursos com farpas para minar não somente ditadores políticos, mas os opressores mesquinhos do dia a dia: o chefe tirânico, o pregador santarrão, o valentão do bar, o vizinho de normas sufocantes.
É verdade que a liberdade de expressão tem limites. Eliminamos exceções de fraude, difamação, extorsão, divulgação de segredos militares e incitamento a ações ilegais. Mas essa exceções devem ser estritamente delineadas e individualmente justificadas; não uma desculpa para tratar a fala como um bem descartável entre muitos outros. Déspotas em autoproclamadas “repúblicas democráticas” rotineiramente prendem seus opositores sob acusação de traição, difamação e incitamento à ilegalidade. As leis de difamação da Grã-Bretanha têm sido usadas para silenciar críticas às figuras públicas, oligarcas, negadores do holocausto e médicos charlatões. Mesmo a famosa exceção de Oliver Wendell Holemes à liberdade de expressão – falsamente gritar “Fogo!” em um teatro lotado – é facilmente abusada, não menos pelo próprio Holmes. Ele cunhou o meme em um caso da Suprema Corte de 1919 o qual sustentava a condenação de um homem que estava distribuindo panfletos encorajando homens a resistir à convocação durante a I Guerra Mundial, uma clara expressão de opinião em uma democracia.
E se você discorda destes argumentos – se você quer expor uma falha em minha lógica um lapso em minha acurácia – é a liberdade de expressão que vai lhe permitir faze-lo.

___________________________
1 Publicado em 27/01/2015, no Boston Globe (artigo original em https://www.bostonglobe.com/opinion/2015/01/26/why-free-speech-fundamental/aaAWVYFscrhFCC4ye9FVjN/story.html).
2 Psicólogo e linguista canadense naturalizado estadunidense; atualmente leciona na Universidade Harvard e escreve livros de divulgação científica, dentre os quais se destacam A Tábula Rasa e The Sense of Style.
3 Traduzido por Guto Riella.
4 Constituição dos Estados Unidos da América (http://corvobranco.tripod.com/dwnl/constEUA.pdf)
5 Leaker: nesse contexto vazador de informações, referindo-se ao caso Julian Assange, do WikiLeaks
6 Nosso equivalente a “discurso de ódio”

7 Também se aplica a Cuba e à nossa própria ditadura militar (1964-1985) (NT)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Feminismo, machismo e a falsa dicotomia

É comum ouvir-se a afirmação de que o feminismo é o contrário do machismo1. Quero argumentar, em primeiro lugar, que concordo e ao mesmo tempo discordo frontalmente desta afirmação.
Mas para argumentar é preciso, primeiro, definirmos machismo. O termo originalmente tem o sentido de “virilidade”, “valentia”, conforme o Vocabulario Portuguez e Latino, de autoria do padre Raphael Bluteau, em dez volumes publicados entre 1712 e 1728, em Coimbra, Portugal, sendo considerado este o primeiro dicionário já feito da língua portuguesa. No século XX, entretanto, com o crescimento do movimento pela libertação feminina, o termo foi apropriado e passou a designar, segundo o Aurélio2:
Atitude ou comportamento de quem não aceita a igualdade de direitos para o homem e a mulher, sendo contrário, pois, ao feminismo.
Aí está o ponto onde concordo. Machismo e feminismo são contrários no ponto em que um não acredita e o outro defende a igualdade.
O ponto onde discordo é quando se diz que o feminismo é o contrário do machismo por também ser uma doutrina sexista. O feminismo em si não é uma doutrina sexista, mas sim uma doutrina que busca a igualdade entre homens e mulheres. Que igualdade é essa? Ora, igualdade de direitos, deveres e oportunidades.
Bom, nesse sentido eu não sou machista. Acredito também em igualdade de gênero; não vejo nenhum problema em ver mulheres em cargos de chefia, na política (mesmo na presidência), ganhando mais que um homem (como é o caso de minha esposa em relação a mim), em divisão de tarefas domésticas, etc.
Isso então significa que eu sou um feminista, certo? Errado!
Mas... como assim? – Ouço meu leitor e minha leitora questionando – Você acaba de dizer que acredita na igualdade de gêneros! Então você é machista?
Não, e é sobre essa “pegadinha” que quero falar hoje, ela consiste em uma falácia chamada falso dilema ou falsa dicotomia.
Mas como o Estripador (que por sinal pode ser acusado de misógino sem dramas de consciência) vamos por partes.
O que eu quis dizer com “falácia” em primeiro lugar? Bom, segundo a Internet Encyclopedia of Philosophy (IEP)3, o termo designa um erro, sendo que este pode ser na argumentação, no raciocínio, em uma falsa crença ou causado por um erro anterior, muito embora os filósofos que estudam o assunto preferem usar a primeira definição. Em suma, usando uma frase do Clarion de Laffalot5, falácias são “argumentos de mentirinha”, que parecem verdade mas não são. Para melhor compreensão de onde está o erro, as falácias são divididas em categorias, sendo que o IEP cita 209 delas.
Uma destas categorias é a citada falsa dicotomia, na qual o erro consiste em apresentar duas escolhas e implicar na obrigatoriedade da escolha de uma. O exemplo citado na IEP4 é:
Eu quero ir de Londres para a Escócia. Eu McTaggart dizer que há dois caminhos para a Escócia a partir de Londres: a estrada alta e a estrada baixa. Eu acho que a estrada estrada alta é mais arriscada por que ela passa através de colinas, e isso significa curvas perigosas. Mas está chovendo agora, então ambas as estradas provavelmente estão escorregadias. Eu não gosto de uma ou outra escolha, mas penso que deveria tomar a estrada de baixo e estar mais seguro.
Ok; onde está o erro argumentativo? No fato de que há muitas outros caminhos para ir à Escócia, você não precisa se limitar às duas escolhas apresentadas! Você pode, por exemplo, pegar outras estradas, ir de trem, ou barco, ou quem sabe avião. Ao analisar outras opções além daquelas no menu injustamente limitado, você pode “segurar o dilema pelos chifres”, ao invés de ser chifrado por ele.
Outro exemplo citado é se alguém te disser: “Bom, é a hora de você se decidir. Voucê contribuirá com 20 dólares para nosso fundo de preservação, ou você está do lado da destruição do meio-ambiente?” 4
Percebe a pegadinha? Você pode perfeitamente ser totalmente contrário à destruição do meio ambiente, mas ainda assim não colaborar com os 20 dólares, seja por que você não tem o dinheiro, por que você considera que pode colaborar com outros fundos com uma atuação mais dentro do que você pensa ser o melhor, ou mesmo por discordar frontalmente da forma de atuação dos ambientalistas, mesmo também sendo contrário à destruição do meio-ambiente!
Pois é exatamente assim que eu percebo a luta do feminismo x machismo. Não concordo com o machismo, acho deplorável considerar alguém inferior seja por que razão seja, considero que somos todos seres humanos e que devemos ter os mesmos direitos, mas, ao mesmo tempo, discordo frontalmente da atuação do feminismo, em especial o feminismo denominado “terceira onda”.
Discordo, por exemplo, quando o feminismo coloca todas as mulheres como oprimidas e todos os homens como opressores, muito embora compreenda que há muito mais mulheres oprimidas. Muito embora pense sim que homem que agride mulher tem que estar na cadeia, discordo quando o feminismo diz que o problema da violência doméstica é um problema exclusivamente voltado contra a mulher, pois quando se olham as estatísticas do próprio governo federal se constata que em números absolutos isso não é verdade; ou seja, acho que homem que agride mulher tem que estar na cadeia, mas considero que mulher que agride homem também deve.
Discordo quando o feminismo faz uma seleção das teorias científicas que devem e que não devem ser divulgadas, que pesquisas devem e não devem ser feitas mas, principalmente, quando negam frontalmente à ciência por esta não se adequar em sua visão de mundo docotômica, isso sem apresentar nenhuma evidência de que as teorias atacadas não são a melhor explicação existente para os fenômenos tratados.
Discordo quando o feminismo defende a igualdade entre os gêneros mas foca apenas nos problemas do gênero feminino, gerando distorções. No Canadá, por exemplo, as feministas foram à luta por melhores condições de trabalho para mulheres com empregos perigosos; tal luta se baseou na evidência de que o percentual de mulheres entre as pessoas que sofreram acidentes de trabalho dobrou em cinco anos. Mas quando você vai ver os dados, observa que não houve um aumento no número de mulheres acidentadas, e sim uma redução no número de homens. Ou seja, vamos supor (por que não disponho aqui dos números corretos) que houvessem mil acidentes de trabalho por ano, sendo que destes 50 era de mulheres; então tinha-se um percentual de 5% de mulheres nos números de acidentes de trabalho. Agora vamos supor que o número de acidentes de trabalho tenha caído para 500 em cinco anos, sendo que o número de mulheres acidentadas manteve-se fixo em 50. Agora tem-se um percentual de 10% de mulheres sofrendo acidentes de trabalho, e isso gerou a revolta das feministas que passaram a exigir leis especiais para as mulheres, mesmo com a realidade de que os números de acidentadas não aumentou e que o número de homens que sofrem acidentes ainda é imensamente maior.
Discordo quando o feminismo apresenta a falsa dicotomia de que se você não é feminista então você automaticamente concorda com o machismo, que você é opressor, que você não quer que homens e mulheres tenham os mesmos direitos.
Em fim, discordo do feminismo em boa parte de suas teorias, considero-as tiradas de uma cartola mágica, sem evidências o suficiente para sustenta-las, mas ao mesmo tempo discordo frontalmente do machismo e de suas teorias de inferioridade sexual. O que faço? Busco sim a igualdade de gêneros, mas sem me filiar ao movimento feminista, ou seja, não pego nenhuma das duas estradas; ou escolho outro caminho, ou ir de trem, ou de barco, ou quem sabe de avião...

----------------------------------
1 - Não gosto do termo “machismo”, considero o termo em si sexista por dar a entender que o macho, ou seja, o homem, é sempre o sexista e o culpado pelo sexismo. Prefiro usar sexismo mesmo, como o fazem os falantes de inglês. Mas neste texto usarei o termo machismo por ficar mais simples de explicar.
2 – OLANDA, A. B. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª. edição, 1ª. Impressão. Curitiba: Editora Positivo, 2004.
3 - Internet Encyclopedia of Philosophy. Fallacy. Disponível em <http://www.iep.utm.edu/fallacy/>. Acesso em 15 set 2015
4 - Internet Encyclopedia of Philosophy. False Dichotomy. Disponível em <http://www.iep.utm.edu/fallacy/#FalseDichotomy>. Acesso em 15 set 2015.
5 - Clarion de Laffalot. Falácias. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=9U2457cS_rU&index=1&list=PL7298E65F62E9A957>. Acesso em 15 set 2015.
Agradecimentos a meu amigo Marcelo Pierri Chiarello pelas dicas de bibliografia

sábado, 5 de setembro de 2015

Homossexual ISMO ou IDADE??

Essa semana tive uma discussão acirrada na faculdade; fui usar um argumento sobre a importância da biologia e usei o termo homossexualismo. Pronto, foi a deixa para ser patrulhado! Insinuações de homofobia e de machismo, além de me chamarem de retrógrado quando afirmei que as palavras são sinônimos.
O debate não é novo para mim; na verdade já o tive diversas vezes mas em geral com o outro lado, em geral religiosos fundamentalistas que defendem que o correto é homossexualismo, jamais homossexualidade. Para estes afirmo a mesma coisa: os termos são sinônimos e não, nenhum dos dois indica que a pessoa está doente.
Mas afinal, o correto sou eu, os militantes LGBT ou os fundamentalistas religiosos? Decidi me aprofundar no tema. Primeiro consultei o Aurelião1:

Homossexualidade (cs) [De homossexual + -(i)dade.] Substantivo feminino.
1.Caráter de homossexual; homossexualismo, inversão. [Antôn.: heterossexualidade.]

Homossexualismo (cs) [De homossexual + -ismo.] Substantivo masculino.
1.Prática do comportamento homossexual.
2.V. homossexualidade.

Sei que tais termos, entretanto, geram muita polêmica, daí decidi seguir procurando, desta vez usando o google, onde digitei “homossexualismo ou homossexualidade gramática”. Logo achei o blog Sobre Palavras2, onde o autor, jornalista e escritor consagrado, é categórico sem defender qualquer um dos lados: o debate é político, “o fato é que as duas palavras estão no dicionário. O resto é com você.”
Logo me dei conta de que o blog é abrigado pela Veja, veículo de comunicação visto com grande reserva (para dizer o mínimo) pelos movimentos sociais, então decidi continuar procurando; achei o Recanto das Letras3.
Este esclarece que não existem bases linguísticas que deem mais lógica a um dos usos. Tanto homossexualismo como homossexualidade, à luz das “regras” gramaticais, são equivalentes, embora ao final aconselhe o uso do segundo termo por respeito à militância.
Em seguida, o mesmo google me direcionou para o blog do professor Naziazeno (de Letras), voltado à redação e gramática. Para minha surpresa, o blogueiro, no texto acessado, se declara homossexual, batendo fortemente (e justificadamente em minha opinião) nos que se opõem à prática do homossexualismo, mas, pasmem! Usa igualmente os termos homossexualismo e homossexualidade como sinônimos, a exemplo do trecho:

Ser homossexual não é crime. Nenhuma lei no Brasil condena o homossexualismo. Crime é discriminar os gays, lésbicas e travestis. Homossexualidade não é doença e todas as Ciências garantem que é normal ser homossexual.

Ponto para o professor, e ponto duplo em minha opinião, combateu o preconceito sem a necessidade de recorrer a subterfúgios ou ao patrulhamento, ainda de quebra usando a ciência para provar seu ponto!
Qual a lições tiro disso tudo? Em primeiro lugar que a militância fanática de ambos os lados está errada e tentando fazer valer seu ponto de vista “na marra”; depois, que o patrulhamento ideológico somente afasta as pessoas, não passei a ser homofóbico depois do patrulhamento, mas com certeza junto a pessoas com uma tolerância tão baixa à discordância jamais irei me unir para tentar mudar a situação; vou seguir lutando para que esta mude e os homossexuais sejam plenamente aceitos em nossa sociedade, mas bem longe desse tipo de militante! Por último, que homossexualismo e homossexualidade são ambos gramaticalmente corretos e que você pode usar qualquer um dos termos sem medo de errar o português; só não esqueça que ISMO ou DADE se você considerar qualquer um dos dois doença, além de não entender nada de ciência ou medicina, você ainda é um completo imbecil.

__________________________
1 - Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 3ª. edição, 1ª. impressão da Editora Positivo, revista e atualizada do Aurélio Século XXI, O Dicionário da Língua Portuguesa, contendo 435 mil verbetes, locuções e definições. ©2004 by Regis Ltda.
2 - http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/homossexualismo-ou-homossexualidade/
3 - http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/4408012

4 - http://blogdotionaza.blogspot.com.br/2011/11/ser-homessexual-nao-e-crime.html

domingo, 12 de abril de 2015

O esvaziamento do movimento pró-impeachment

É claro em todo o país o esvaziamento do movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff.
São Paulo, por exemplo, continuou com o maior ato, reunindo 250 mil pessoas (dados da Folha de São Paulo), quase 1 milhão a menos do que reuniu há um mês atrás, quando os números chegaram a 1 milhão e 200 mil.
Porto Alegre seguiu a mesma média, passou de 100 mil para perto de 30 mil, segundo informações do Correio do Povo​.
Já no Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país, o número não chegou a 13 mil pessoas (segundo o site G1), público menor do que a média dos jogos do Campeonato Brasileiro em 2014 e infinitamente menor do que o público de 100 mil pessoas divulgado pelos organizadores do evento no mês passado.
O recorde de esvaziamento, entretanto, ocorreu no Amazonas, onde o movimento passou de 50 mil (segundo o site amazonasatual.com.br), para 15 pessoas (informação do site www.netcina.com.br/); os organizadores colocaram a culpa do esvaziamento recorde na chuva que caiu em Manaus nesse domingo (15/4).
Muitas diferentes causas podem explicar o esvaziamento: o fato de que a paixão antipetista, que vinha crescendo entre o segundo turno da eleição de 2014 e a manifestação de 15 de março decaiu tremendamente, fruto do esfriamento dos ânimos, o que fez muita gente começa a alisar o quadro mais racionalmente; o imediatismo do brasileiro, que achava que o governo iria cair no dia seguinte à primeira manifestação; o fato de os manifestantes seguirem divididos entre os que querem o PT fora do governo pela via democrática (embora tal seja quase impossível sem que primeiro haja evidências da participação direta da presidente nos esquemas de corrupção) e os que querem a volta do regime militar... Mas se eu tivesse que apostar em uma causa para o claro esvaziamento, colocaria minhas fichas na PL 4330, que dispõe sobre o contrato de prestação de serviço a terceiros e as relações de trabalho dele decorrentes, a famosa terceirização, que visa enfraquecer os direitos trabalhistas.
Tremendamente impopular entre a população assalariada, a PL 4330 foi aprovada com facilidade na Câmara, onde a oposição tem maioria, sendo que o partido do governo perdeu mesmo votando unanimemente contrário. 
A vitória da oposição, entretanto, foi o que se chama de “vitória de pirro” – ou mais popularmente de “tiro no pé” –, pois a mesma oposição que até então podia criticar livremente os desmandos da presidente e acusa-la (não sem razão) de ter agido contra o assalariado, agora demonstra que não está contra o fato de a presidente ter agido contra o assalariado, mas sim de ser ela a ter o poder para tanto, ou seja, a oposição deixou claro que não está preocupada com o assalariado, mas sim em reconquistar o poder; isso sem considerar os escândalos de corrupção que têm envolvido tanto um lado quanto outro do espectro político. Para piorar, o mesmo trabalhador que estava lutando pelo impeachment da presidente agora precisa do veto dela para a manutenção de seus direitos trabalhistas.
Se novos fatos não surgirem, o destino do movimento pró impeachment é o de se esvaziar cada vez mais, como um balão furado e, enquanto isso, as reformas políticas necessárias à moralização da política brasileira seguem engavetadas por falta de vontade política (quer do governo, quer da oposição) para leva-las adiante; ou seja, assim como não havia razões para comemorar o movimento pró-impeachment, não há razões para comemorar seu esvaziamento.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A ciência deve imitar os homossexuais?

Os movimentos sociais não aceitam que se usem certas palavras, muito embora tais palavras tenham um sentido dicionarizado e não estejam incorretas.
Um exemplo é homossexualismo, que segundo o dicionário Michaelis1 é:
ho.mos.se.xu.a.lis.mo - (cs) sm (der de homossexual+ismo, como ingl homosexualism) 1 Prática de atos homossexuais. 2 V homossexualidade. Antôn: heterossexualismo.
Ou seja, segundo o dicionário, homossexualismo e homossexualidade são sinônimos; ainda assim, o movimento LGBTTT (Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) não aceita o primeiro e incentiva o segundo; por quê? Por que o primeiro, embora sinônimo, carrega a má interpretação por alguns de que, pelo sufixo “ismo”, a relação afetiva e amorosa entre pessoas do mesmo sexo seria uma doença, assim como botulismo, bruxismo ou alcoolismo. Ou seja, embora dicionarizado não como doença, pois o sufixo possui inúmeras outras aplicações, inclusive na palavra heterossexualismo (s.m. Propensão a se sentir atraído sexualmente e/ou emocionalmente por pessoas do sexo oposto, conforme o dicionário); ou seja, o uso preconceituoso da palavra homossexualismo não passa disso, de preconceito, mas ainda assim seu uso, por vezes, acarreta más interpretações ou interpretações de má fé.
Às vezes me questiono se a ciência não deveria seguir o exemplo dos movimentos sociais e cunhar termos próprios para fugir das más interpretações e interpretações de má fé causadas pelo uso indiscriminado de palavras da ciência que são semelhantes ou iguais a palavras do dia-a-dia.

Especulação?

Um bom exemplo é o uso dos termos hipótese, teoria e lei. Os dois primeiros, hipótese e teoria, no sentido vulgar têm praticamente o mesmo significado, algo aproximado a suposição ou conjectura; ou seja, quando você fala para um amigo “tenho uma teoria” ou “tenho uma hipótese sobre tal assunto”, tal ‘hipótese’ ou ‘teoria’ pode ser uma suposição que você acaba de ter, sentado em uma mesa de bar, consumindo alguns chopes e salgadinhos; não é algo necessariamente verificável ou mesmo baseado em evidências, é somente uma ideia concebida sobre algo.
Os mesmos termos, em ciência, têm um significado profundamente diferente; hipótese é sim uma conjectura, mas criada para tentar explicar um fenômeno observado e sustentada no fato de ser falseável, ou seja, de que se possa criar um experimento para provar que tal hipótese é falsa. Já teoria é uma hipótese que foi submetida a um número suficiente de experimentações e não se mostrou falsa, teoria é, pois, o nível máximo que uma ideia pode ter em ciência, e não especulação vazia.
Eu várias vezes me deparei com pessoas, por exemplo, afirmando que a Teoria Sintética da Evolução é “somente uma teoria”, e que se fosse algo mais que uma ideia, então seria uma lei; não sabem estes que lei é somente uma teoria científica que pode fazer previsões testáveis para o futuro; por exemplo, se você jogar uma pedra para cima, sabendo a força usada, o vetor, a gravidade, a resistência do ar e outros dados, pode prever com exatidão como a pedra se comportará antes mesmo que ela tenha sido lançada, por isso falamos em Lei da Gravidade; você não pode, entretanto, dizer que uma espécie vai evoluir desta ou daquela forma, pois as mutações são aleatórias e selecionadas somente depois de ocorrerem, muito embora a Evolução tenha sobrevivido há mais de 150 anos de testes; por isso se fala em Teoria da Evolução, e não em Lei da Evolução.
O próprio termo ‘falsear’2, que é uma das bases para uma hipótese ou teoria poder ser
considerada científica é sujeito a más interpretações, e não é para menos, já que no dicionário falsear pode significar tanto atraiçoar e enganar quanto torcer o pé ou dar falsa interpretação a alguma coisa; significados estes muito diferentes de seu uso em ciência, que é o de, através de um experimento, poder demonstrar-se que uma hipótese ou teoria é falsa e, quanto mais testes deste tipo uma ideia científica é sujeita, mais forte se torna a teoria, enquanto que se fracassar nestes testes, uma hipótese ou teoria será, ou adaptada (se somente uma parte da ideia foi falseada) ou totalmente derrubada (se a ideia como um todo foi falseada).
Em biologia também são comuns concepções erradas sobre o termo ‘evolução’, que significa mudança das características hereditárias de uma população de uma geração para outra, fazendo com que as populações de organismos mudem e se diversifiquem ao longo do tempo. Mas novamente o dicionário trai a ciência, e são comuns as acepções de sofisticação ou aprimoramento, como se a evolução produzisse seres obrigatoriamente cada vez mais sofisticados; ou a confusão de evolução biológica com evolução moral; ou mesmo de direcionamento, como se o ser humano fosse o ápice da evolução quando, na verdade, para a biologia não somos mais evoluídos, por exemplo, que uma bactéria, pois se ambos estamos vivos e ocupando nosso nicho, então estamos ambos igualmente evoluídos.

Ciência?

Reconheço que a mudança de tais termos seria bastante complexa, e cheguei a pensar em propor uma alternativa de apor a palavra “científico/a” ao termo usado; assim, ao invés de utilizar-se ‘hipótese’, falar-se-ia em ‘hipótese científica’; ‘teoria científica’ e não somente ‘teoria’ e ‘falseabilidade científica’ ao invés de somente ‘falseabilidade’; isso sem falar em ‘lei científica’, dentre outros termos...
Mas então lembrei que a própria palavra ciência é fruto de muitos enganos por parte até mesmo de acadêmicos, pois a palavra, que vem do latim scientia (conhecimento), pode se referir a qualquer conhecimento ou prática sistemáticos, sendo usada tanto para ciências no sentido popperiano2 (ciência biológica, ciência da física...) quanto para assuntos que não têm qualquer relação com o método científico, tal como as ciências exotéricas, ou mesmo as teorias científicas pós-modernas que não seguem o método científico de falseabilidade, precisando não mais comprovação do que afirmações sem evidências, como demonstrou Alan Sokal 3, que publicou como artigo em uma respeitada revista pós-moderna “um pasticho de jargões esquerdistas, referências aduladoras, citações pomposas e completo nonsense (...) estruturado em torno das citações mais tolas que se pode encontrar sobre matemática e física” e depois publicou a denúncia da farsa.
Ao contrário do que parece, este não é um assunto vazio ou mero pedantismo acadêmico, pois junto com o problema da demarcação2, o problema da nomenclatura em ciência, aqui exposto, causa não só confusão entre os leigos, o que é problemático, nas palavras de Carl Sagan por que “vivemos em uma sociedade profundamente dependente de ciência e tecnologia na qual ninguém sabe nada sobre esses temas, e isso constitui uma fórmula perfeita para o desastre”; como também faz diferença, por exemplo, na hora em que são decididas as verbas a serem aplicadas em ciência e tecnologia que, ao contrário de serem investidas, por exemplo, na pesquisa da cura do câncer ou da doença de chagas, acabam sendo destinadas, em parte, a pesquisas “científicas” tais como cromoterapia, ou para provar que a gravidade é uma construção social, ou ainda para defender a ‘ciência’ marxista ou capitalista.
Claro que, neste espaço, não foi meu escopo encerrar o assunto ou trazer soluções definitivas, mas sim trazer à tona o debate para que outras pessoas, mais qualificadas que eu, possam nele trabalhar e, quem sabe, apresentar uma solução viável.

--------------------------
1 – Dicionário Michaelis on line: http://michaelis.uol.com.br/.
2 – Para uma melhor compreensão do falseamento popperiano e do problema da demarcação o mais indicado seria a leitura de A Lógica da Pesquisa Científica (popper, Karl. São Paulo, Cultrix, 1993). Para um entendimento básico, consultar o excelente artigo do professor Fernando Lang da Silveira em https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/7046/6522; ou ainda http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_demarca%C3%A7%C3%A3o.
3 – Para informações sobre o Escândalo Sokal, o ideal é ler Imposturas Intelectuales (sokal, Alan; bricmont, Jean. Barcelona: Editora Paidós, 1999). Para um conhecimento básico sugiro o excelente podcast Fronteiras da Ciência, do Departamento de Física da ufrgs, no endereço http://podbay.fm/show/480542677/e/1310392805.


quarta-feira, 4 de março de 2015

Panaceias, ou seu direito acaba onde começa o meu

Panaceia, filha de Asclépio
Na mitologia grega Panaceia, filha de Asclépio, era a deusa da cura; seu próprio nome deriva de pan (tudo) e akos (remédio), indicando que a deusa era capaz de curar todas as enfermidades. Em tempos modernos, onde o número dos que ainda acreditam nas divindades gregas é bem restrito, o termo passou a designar uma cura, um remédio que cure todos os males.
E daí? Questiona o atento leitor; e daí que o conceito de panaceia, na minha opinião, é um dos grandes males que assolam nossa pátria amada.
Veja, por exemplo, a questão do livre mercado. Tenho um amigo que estuda filosofia para quem não há solução para o Brasil se não existir livre mercado total; a liberação total do mercado e sua autorregulação são, segundo ele, a solução para todos nossos males, da miséria à corrupção. Mas o interessante é que tenho outro amigo, sindicalista, para quem o mercado deve ser totalmente atrelado ao Estado; “nossos males”, nos explica ele, “derivam da liberdade de mercado”. Deu para entender? Ambos têm uma visão diametralmente oposta do tema, mas ambos propõem uma panaceia.
Mas nem só de mercado vive essa neta de Apolo. Nas recentes discussões que acompanhei, de onívoros versus veganos, não foram poucas as vezes em que vi a proposição de panaceias. Os veganos afirmam que bastaria que deixássemos de comer carne e não mais adoeceríamos, não teríamos mas problemas ambientais e viveríamos em um mundo de paz e amor, enquanto vários dos onívoros praticantes (por que onívoro fisiologicamente todo o ser humano é) afirmavam que era impossível ter uma boa saúde sem o consumo de carne.
Nas últimas eleições, tivemos um grande embate panaceico, onde um lado afirmava que se não vencesse o PT, o Brasil estaria perdido, enquanto o outro afirmava categoricamente que vencendo o PT o Brasil estaria perdido.
Agora, passadas as eleições, mas não arrefecidos os ânimos das duas torcidas pró e contra PT, temos aqueles que admitem que o Brasil tem corrupção, mas que o PT é o único partido inocente, e temos outros que propõem a derrubada do PT do poder por que o PT é o responsável por toda a corrupção nestes 500 anos de Brasil.
E quanto à Petrobras? A solução, é lógico, é privatiza-la por completo e, de quebra, todas as outras estatais, ou talvez seja fecha-la ainda mais ao capital especulativo? Existe as duas vertentes, ambas consideram sua posição a única capaz de salvar a estatal.

To funk or not to funk

Mesmo na religião o conceito é bem comum, e não é volta ao culto grego não! Veja, por
Dois lados da mesma moeda...
exemplo, o número de cristãos que afirmam que a única solução para os males do mundo é que, adivinhe... todos se tornem cristãos! Mas eles não são únicos, já vi diversos ateus pregando a extinção de todas as religiões como a única forma de termos um mundo decente.
Ainda em política, chega a ser engraçado ver o embate entre os eleitores do Jair Bolsonaro, que pregam a extinção dos partidos de esquerda e um estado policialesco contra os eleitores do Jean Wyllys, que pregam a extinção dos partidos de direita e um estado policialesco. Já vi eleitor do Bolsonaro afirmar, por exemplo, que estamos em uma ditadura comunista (embora não expliquem onde estão os presos políticos, o partido único ou a censura prévia) e defenderem a ditadura militar de 1964; enquanto vejo eleitores do Wyllys afirmarem que estamos em um governo de direita e preguem a ditadura do proletariado (trazendo presos políticos, o partido único e censura prévia).
Ah, tem também a panaceia sexual! Não são poucos os que vejo afirmar que homossexualismo é “uma pouca vergonha”, que gay se cura na porrada ou que querem proibir a adoção por casais homossexuais ou a união estável; por outro lado, já fui em palestra em que um homossexual pregava que todo o homem deveria ter, pelo menos, uma experiência homossexual passiva na vida.
Tem ainda a questão do politicamente correto; há quem queira o abolir por completo! Piadas racistas, sexistas ou homofóbicas em horário nobre? Qual o problema? Já há outros que querem proibir por completo o humor, a não ser que o humor seja engajado pois, dizem eles, quando você faz uma piada você quer afirmar aquilo que conta como humor.
Mas não para por aí, temos também o funk! De um lado temos os funkeiros em transporte público, sem fones de ouvidos, em uma atitude fascista de que “se eu gosto desse tipo de música você tem que escutar”; e temos aqueles que querem proibir o funk por que funk não é cultura (como se consumíssemos somente coisas cultas, seja musicalmente ou não).

Cordiais

Em suma, o Brasil confirma a hipótese sociológica de Sérgio Buarque de Holanda (vide imagem abaixo), para quem somos um povo cordial. Esta cordialidade, entretanto, é diferente do que muitos pensam ao ouvir o termo, ela não se refere ao fato de sermos bons anfitriões (olha a mitologia grega aí de novo...), ou de expressarmos carinho, afeto, amizade... Ela significa, isto sim, que pensamos não usando a racionalidade, mas sim de pensarmos emocionalmente e de buscarmos soluções “com o coração” e não com a razão; em outras palavras, somos cordiais por que temos este espírito de torcida, de que meu time está sempre certo e o time adversário sempre errado, mesmo que meu time esteja errado e o outro correto.
Quando analisamos mais profundamente e paramos para pensar (com a razão e não com a emoção) vemos o quanto os fundamentalistas liberais e socialistas, veganos e onívoros, petistas e antipetistas, privativistas e antiprivativistas, cristãos e ateus, bolsonaristas e wyllystas, homofóbicos e homofílicos, politicamente corretos e politicamente incorretos, funkeiros e antifunkeiros são parecidos; muito mais do que antagônicos, eles são simplesmente dois lados de uma mesma moeda de pensamento apaixonado e muito pouco lógico.
Talvez uma das saídas fosse adotar uma nova mitologia; ao invés dos gregos, ficar com os orientais e cultuar um pouco da doutrina budista do caminho do meio, ou seja, um ponto equidistante entre os extremos; você dá um passo em minha direção e eu dou um passo na sua. Compreender que o mercado precisa de certa regulação, mas que muita regulação sufoca a liberdade; que pessoas têm liberdade para consumir carne, ainda que isso não seja legal para você, mas que também o consumo excessivo de carne não faz mal só para a saúde como também para o ambiente; que há sim corruptos no PT, mas que buscar somente um cristo é favorecer que os corruptos de outros partidos se safem; compreender que você pode sim seguir sua religião (ou a falta dela), mas que isso não lhe dá direito de querer proibir que outros tenham as deles; compreender que você pode sim se identificar com um político, mas que outrem tem igual direito de se identificar com outro; compreender que o fato de você ser heterossexual não significa que todos precisem se-lo, ou que se você é homossexual outros têm direito de não querer experimentar; compreender que o humor pode sim machucar outras pessoas, mas que você não pode querer permitir somente aquilo que concorda com sua ideologia; compreender que você pode sim ter um gosto musical, mas que outros podem ter os deles, e que ambos merecem respeito.

Em suma, o que me parece mais acertado nisso tudo é que busquemos soluções conciliatórias e deixemos o espírito cordial de torcida; creio que isso colaboraria sobremaneira com nossa evolução econômica e social; só não podemos pensar que isso é a solução de todos nossos males, pois de panaceias já estamos lotados!