sábado, 9 de junho de 2012

Referendo e mentiras estatísticas


Um ditado popular diz que existem as mentiras, as grandes mentiras, as mentiras imensas e as estatísticas. É famosa, por exemplo, a anedota que diz que certo sujeito morreu afogado em um lago com profundidade média de 20 cm (só que, na parte em que ele escolheu nadar, o lago tinha 5 metros)...
Existe um plebiscito na internet requerendo um referendo popular para tornar o Brasil, oficialmente, um país cristão. Referendo, para quem não sabe, é um instrumento constitucional, regulamentado pela Lei n.º 9.709/98, como forma da população retificar uma norma.
Se aprovado, o referendo modificaria o Art. 19 da Constituição Federal, em seu Inciso I, que diz que é vedado ao Estado

estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

Ou seja, acabaria com a laicidade do Estado brasileiro, garantindo que, em quaisquer decisões governamentais, além da Constituição deva ser consultada a Bíblia. Até imagino os deputados da bancada evangélica disputando a tapa o direito de integrar a Comissão de Direito Bíblico...
Brincadeiras à parte uma legislação como essa garantiria a perseguição do Estado a minorias religiosas ou que tivessem uma visão de mundo diferente da religiosidade cristã e abriria espaço para um Estado discriminatório, nos mesmos moldes dos Estados teocráticos islâmicos, duramente criticados em páginas cristãs (e com razão) por não permitirem a liberdade religiosa. A única diferença neste caso é que os discriminados não seriam os cristãos, mas as demais visões de mundo.
Não me entenda mal; não é porque a proposta é feita por cristãos que sou contra. Da mesma forma o seria se propusesse que nos tornássemos um país judeu, muçulmano, budista, umbandista ou mesmo ateu. Pelos mesmos motivos, embora não seja religioso, se o Estado propusesse uma lei proibindo o cristianismo ou qualquer outra religião, pode ter certeza de que estaria entre aqueles que protestariam contra o ato, pois acredito na laicidade, ou seja, que o Estado deve deixar as crenças (ou falta delas) como algo pessoal, não devendo tomar partido.
Na justificativa dada pelos proponentes do abaixo-assinado, eles não deixam claro a justificativa do referendo, assim como tampouco deixam claro qual “cristianismo” desejam ver oficializado; se o protestante, pentecostal, católico, espírita ou mesmo esotérico; uma vez que todos esses seguem sua visão do Novo Testamento bíblico e, portanto, são cristãos.
Entretanto, pelo modus operandi da ação proposta, bem como pelas páginas que a apoiam, é fácil concluir que a proposição tem origem evangélica, e requer que seja sua visão de cristianismo a adotada. E em que se baseariam para propor tal, se eles não são maioria, constituindo, atualmente, 20,23% da população. Se fossemos ver pela maioria, então deveríamos ser um país católico, pois apesar da queda de 25,43% da religião romana em nosso país desde o Censo IBGE de 1970, eles ainda são 68,43%. Tampouco os evangélicos podem requerer dizendo que o cristianismo, como um todo, tem crescido no país, pois se analisarmos os dados do IBGE, veremos que o número geral de cristãos decresceu 8,57% nos últimos 40 anos, passando de 96,97% da população em 1970, para 88,66% em 2010.
“Tá espertinho”, já vejo o leitor atento me criticar, “mas você está manipulando os dados; a religião que mais cresce no país é a evangélica”.
Bom, se analisarmos os últimos 40 anos, realmente a religião evangélica cresceu impressionantes 289,03%, passando de reles 5,20% para 20,23% das consciências brasileiras.
Então, é por isso que devemos nos tornar uma “nação cristã”?
Não. Em primeiro lugar porque a democracia não pode ser a ditadura da maioria, ela deve respeitar as minorias e o Estado deve servir a todos seus cidadãos, “sem distinções de qualquer natureza”, como preceitua o caput do Art. 5º da Constituição.
Em segundo lugar, pasmem, porque se é para manipularmos números – fazendo valer a frase com que comecei este texto – e se você ficou assombrado com o crescimento de quase 300% dos evangélicos, então devemos é tornar nosso país um país oficialmente “sem religião”, pois, sempre segundo o IBGE, esta categoria – que inclui ateus e agnósticos – passou de 1% em 1970 para 8% em 2010, tendo um crescimento de 700%, ultrapassando o percentual que os evangélicos atingiam no começo dos 1970 e chegando atualmente a quase metade do percentual que estes ocupam, e tudo isso sem canais de TV, programas de rádio, templos por todo o lado ou missionários batendo de porta em porta.
Como explicar isso? Bom, se é para mentir com números, então não posso deixar de associar esse crescimento vertiginoso à queda do analfabetismo (de 33,6% em 1970 para 9,7% em 2010, representando um decréscimo de 71,13%) e o crescimento do Ensino Superior, que passou de 425.478 vagas oferecidas em 1970 para 3.120.192 vagas em 2010, um crescimento de 633,34%, espantosamente próximo ao crescimento do grupo “sem religião” no mesmo período...

Referências

Governo Federal. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm. Acesso em 09/06/2012.
___________. Lei Nº 9.709, de 18 de novembro de 1998. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9709.htm. Acesso em 09/09/2012.
IBGE. Educação no Brasil. http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/educacao.html. Acesso em 09/06/2012.
NERI, Marcelo Côrtes. Novo mapa das religiões. 2011. Disponível em http://www.cps.fgv.br/cps/bd/rel3/REN_texto_FGV_CPS_Neri.pdf. Acesso em 09/06/2012.
RIGOTTO, Márcia Elisa; Nali de Jesus de SOUZA. Evolução da educação no Brasil, 1970-2003. Análise, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 351-375, ago./dez. 2005. Disponível em http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/face/article/viewFile/278/227. Acesso em 09/06/2012.
PIERUCCI, Antônio Flávio. Bye bye, Brasil: O declínio das religiões tradicionais no Censo 2000. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n52/a03v1852.pdf. Acesso em 09/06/2012.
RIGOTTO, Márcia Elisa; SOUZA, Nali de Jesus de. EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO
Wikipédia, a Enciclopédia Livre. Disponível em http://pt.wikipedia.org. Acesso em 09/06/2012.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Plantas também evoluem?


Tá bom, eu confesso: adoro internet.
Ela é realmente uma fonte inesgotável de conhecimento e de diversão; mas é também uma ótima forma de comunicação. Apenas dessa forma pude, por exemplo, falar com o Leandro Bruck, meu amigão dos tempos do 2º Grau no Elisa Valls e que agora mora na Grande Porto Alegre.
Hoje pela manhã, postei uma imagem do Darwin com os dizeres: “Então você refuta a Teoria da Evolução? Conte-me sobre todos os livros sobre o assunto que você leu, todos os debates que participou, todos os artigos científicos publicados e sobre o “método científico” que você anda usando!”
Tá certo, fui um pouco provocativo, reconheço, mas às vezes não resisto.
Hoje à noite, o Leandro me mandou a seguinte mensagem em resposta:

Completamente a favor, mas acho que ela está incompleta ou foi oculta alguma informação, pois segundo ele, existiria uma evolução continua e ininterrupta, com relação aos seres animais, mas porém, podemos constatar a mesma evolução também nos seres ou mundos minerais, vegetais e sucessivamente, caso esteja errado, e ele tenha algum estudo ref. a estes outros mundos, desconsidere meu comentário e informe-me, um abraço.

Achei a pergunta interessante; confesso que nunca ninguém tinha me interrogado sobre isso, mas é uma dúvida legítima e, acredito, algumas pessoas podem ter o mesmo questionamento, com a diferença que não tiveram oportunidade ou coragem de perguntar.
Assim, além de responder ao Leandro via facebook, decidi também fazê-lo através deste blog para que outros também possam ler.
Em primeiro lugar devo dizer que evolução, enquanto adaptação através da seleção natural, é válida tanto para animais quanto para vegetais, fungos, bactérias, protozoários, algas, vírus... enfim, para todos os reinos que englobam os seres vivos.
De fato, toda a vida conhecida é constituída pelos mesmos elementos básicos, e sua estrutura de replicação e de síntese proteica, o DNA ou o RNA, são constituídos dos mesmos ácidos nucleicos básicos – adenina, citosina, guanina e timina – e a combinação destas diferentes “letras da vida” é que indicam se você é um vírus (que é basicamente RNA envolto em uma capa proteica quando não está ligado ao DNA de um hospedeiro) ou uma célula viva, se tem flagelos ou pseudópodos, se é uni ou pluricelular, se faz fotossíntese ou se tem que adquirir sua energia consumindo outros seres, seja como consumidor primário, secundário ou terciário; enfim, assim como um programa de computador, em que as instruções, em última análise não passam de um conjunto de 1 e 0 organizados de diferentes formas, a expressão dos quatro ácidos nucleicos nos mais diferentes fenótipos constituem toda nossa diversidade de vida.
Como disse Carl Sagan (1980), um carvalho e eu temos um mesmo ancestral comum, diferentes estratégias evolutivas através das eras nos fizeram diferentes; e o mesmo vale para qualquer ser vivo conhecido, se voltarmos o suficiente no tempo, encontraremos um ancestral comum.
Com o carvalho, por exemplo, tivemos um ancestral comum há 36 milhões de anos; o fermento de pão (Saccharomyces cerevisiae) teve um ancestral comum comigo e com você há 34 milhões de anos (DAWKINS, 2010).
Mas e como somos tão diferentes do carvalho ou do Saccharomyces? Algum dia já fomos um carvalho ou um fermento? Não, apenas tivemos um ancestral em comum, que por alguma razão teve descendentes que seguiram rumos evolutivos distintos, resultando em seres tão diferentes quanto uma árvore ou o Tiririca.
Eu já falei um pouco mais sobre isso no texto Homem primata.
Um bom exemplo de como outros seres, não pertencentes ao reino animália evoluem é o HIV, vírus causador da AIDS.
Toda vez que invade uma célula hospedeira o HIV “anexa” seu RNA em uma cópia de DNA, que passa a reproduzi-lo cada vez que se replica. Mas a replicação é propensa a erros, e uma população de HIV desenvolve rapidamente substancial diversidade genética. Algumas variantes genéticas replicam-se depressa, enquanto outras morrem. Consequentemente, a composição da população irá modificar-se no decorrer do tempo, ou seja, a população evoluirá.
Sem um tratamento anti-retroviral eficaz, as populações de HIV também evoluem continuamente para escapar da resposta imune do hospedeiro, um processo que, em última análise, contribui para o colapso do sistema imune e o início da AIDS. Entre os indivíduos infectados, o HIV diversifica-se tão velozmente e a tal ponto que será difícil ou impossível desenvolver uma vacina eficaz de amplo espectro. Por isso nossa maior esperança para reduzir a epidemia mundial de AIDS continua sendo a educação individual voltada para o incentivo da prática de sexo seguro e do uso de agulhas não contaminadas (FREEMAN e HERRON, 2009).
Quanto aos vegetais, acredita-se que foram os primeiros seres vivos pluricelulares a conquistarem a terra seca (RAPINI), e o fizeram adaptando-se a partir de espécies aquáticas, e prosseguiram adaptando-se até alcançarem sua atual diversidade. É bom, entretanto, não esquecer que não pararam de evoluir, e não apenas em tempos geológicos extensos. Weiner (1995), por exemplo, relata sobre cardos das Galápagos que se especiaram (criaram uma nova espécie), a partir de condições climáticas únicas ocorridas no começo dos anos 1980.
E quanto aos minerais? Bem, eles efetivamente se transformam química e fisicamente, mas não seguem padrões darwinistas de adaptação, ou seja, não evoluem no sentido que se dá à palavra em biologia, pelo simples fato de não serem seres vivos.

Referências bibliográficas:

DAWKINS, Richard. A grande história da evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREEMAN, Scott; HERRON, Jon C. Análise evolutiva. Porto Alegre: Artmed, 2009.
RAPINI, Alessandro. Evolução Vegetal: da origem das plantas à conquista do ambiente terrestre. Disponível em http://www.freewebs.com/rapinibot/encobio/aula2.htm. Acesso em 04/06/2012.
SAGAN, Carl. Cosmos. São Paulo: Atibaia, 1980.
WEINER, Jonathan. O bico do tentilhão: uma história da evolução no nosso tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.