segunda-feira, 23 de julho de 2012

O uso do podcast na construção e divulgação do conhecimento


Trabalho apresentado no XI Encontro sobre Investigação na Escola, Bagé/RS, dias 13 e 14 de julho de 2012


1 CONTEXTO DO RELATO
O sociólogo e filósofo Frei Betto nos diz que uma das principais razões do capitalismo ter vencido a queda de braço contra o chamado socialismo real está no fato de que este último sempre se preocupou em matar a fome de pão, enquanto o sistema capitalista busca, mesmo mantendo a fome de pão, saciar nossa fome de beleza. Betto prega que o ideal seria um sistema que unisse o melhor dos dois mundos: que matasse a fome de pão e ao mesmo tempo saciasse a fome de beleza.
Freire (1970), nos diz que a educação contribui para o aprimoramento da vocação ontológica dos seres humanos. Meditando sobre a aplicabilidade do conceito em educação, principalmente face às cada vez mais onipresentes tecnologias da informação e comunicação (TICs), foi que desenvolveu-se o presente relato. A fim de repensar o uso das TICs, mais especificamente sobre a divulgação e construção de informações, através do uso de podcasts, aproveitando o atrativo da tecnologia para “matar” a fome de beleza, enquanto seu uso nos auxilia a saciar a fome pelo pão do conhecimento. Vivemos num contexto em que tudo  precisa ser aprendido com muita rapidez, pois com a mesma intensidade mudam as informações. A denominada Geração Z, que nasceu em meio a esta revolução, vê-a com naturalidade, ao contrário da geração de seus pais e educadores, o que torna, por vezes, os aprendentes menos suscetíveis ao respeito pela autoridade, enquanto os professores se espantam com os padrões educacionais que se deterioram. Nesse mundo em transição, tanto os estudantes quanto os professores precisam ensinar a si mesmos uma habilidade essencial – precisam aprender a aprender (SAGAN, 2006).

2 DETALHAMENTO DAS ATIVIDADES
Há mais de 25 anos sou usuário de informática. Utilizo a ferramenta no dia-a-dia para muitas tarefas, incluindo o lazer. Neste sentido, semanalmente, ouço diversos podcasts, termo que, segundo Barros (2007), vem do laço criado entre Ipod – aparelho produzido pela Apple que reproduz arquivos eletrônicos de audio – e broadcast (transmissão), podendo defini-lo como sendo um programa de rádio personalizado, gravado em formatos digitais e disponibilizados na Internet.
Bottentuit Júnior (2007) salienta a importância dessa mídia afirmando que entre suas vantagens para a educação encontram-se: o maior interesse na aprendizagem dos conteúdos, devido a uma nova modalidade de ensino introduzida na sala de aula; o fato de ser um recurso que ajuda nos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos, visto que os mesmos podem escutar inúmeras vezes um mesmo episódio a fim de melhor compreenderem o conteúdo abordado; e a possibilidade da aprendizagem tanto dentro como fora da escola.
Ocorre que, a partir do estudo de alguns dos programas que escuto com regularidade, chamou minha atenção à disparidade na quantidade de downloads em programas que tratam do mesmo tema. Para este caso de estudo, utilizarei como exemplo programas sobre evolucionismo divulgado por três sites diferentes: o NerdCast[1], realizado pelos empresários David Pazos e Alexandre Ottoni, e os podcasts institucionais  Rock com Ciência[2] , realizado pelo Departamento de Biologia da Universidade Federal de Viçosa-MG, e Fronteiras da Ciência[3], concretizado pelo Departamento de Física da Ufrgs.
Os três programas, lançados com pouco mais de um ano de diferença, trazem especialistas na área, discutem evolução, em minha opinião, de forma competente, que permite ao ouvinte, se não tornar-se um especialista – até porque não é o intuito de nenhum dos podcasts –, ao menos aguçarem a curiosidade para o tema, ao final indicando possibilidades de aprofundamento do mesmo. A única diferença está na quantidade de acessos, pois enquanto o primeiro teve mais de 200 mil downloads, o segundo ficou com aproximadamente 2 mil e o terceiro com pouco mais de 2,4 mil.

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DO RELATO
De onde nasce esta disparidade nos acessos se a qualidade informativa dos três programas é tão próxima? Em minha opinião, nasce da ideia proposta por Frei Betto, pois dos três, somente o primeiro “mata” a fome de beleza, além da fome de conhecimento.
Basicamente, o Fronteiras da Ciência e o Rock com Ciência, realizados por professores universitários, são aulas virtuais sobre o tema, apresentando-o de forma competentíssima, mas – na opinião deste autor– pouco atrativa para o público leigo, especialmente para a chamada ‘geração Z’, que cresceu em um mundo de informação fácil e superficial, desabituada da leitura e do acompanhamento de documentários ou programas educativos.
O Nerdcast, por outro lado, apresenta o tema em meio a brincadeiras, com uma conversa descontraída, no estilo ‘papo de bar’, que atrai o público leigo, possibilitando levar a informação a um público que, de outra forma, não se interessaria, mas que, a partir da audição do programa pode, ao menos, ter o conhecimento mais básico, podendo desta forma vir a se interessar pelo tema.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concordamos com Shitsuka (2007), para quem o uso das tecnologias na área educacional possibilitará cada vez mais o acesso a múltiplas fontes de informação, propiciando um enriquecimento no processo formativo dos envolvidos. Pensamos, porém, que tal somente se dará se as ditas tecnologias forem utilizadas de forma a gerar interesse, além de disponibilizar boa informação, pois a concorrência pela atenção na dita blogsfera é imensa, sendo que a maioria dos sites não tem qualquer intencionalidade educacional. Caso as ferramentas educacionais não se adaptem para a competição, pensamos que estarão fadadas a perder o espaço para quem “matar” a fome de beleza, ainda que não a de conhecimento, o que seria realmente lamentável tendo em vista as possibilidades que as TICs abrem para a divulgação e construção de conhecimento a um público amplo, tanto dentro quanto fora da sala de aula.
Tal opinião baseio tanto no conhecimento que adquiri pela escuta semanal dos programas supracitados (além de outros), como pelo uso que já fizemos dos mesmos na Universidade; pois em diversas ocasiões, por sugestão minha, professores usaram programas, sobre temas como biologia, geologia, evolucionismo (inclusive os aqui apresentados), genética, microbiologia e outros, tendo estes boa aceitação por parte dos demais aprendentes, sendo que alguns passaram, igualmente, a acessar os casts semanalmente.

5 REFERÊNCIAS
BARROS, Gílian C; MENTA, Eziquiel. Podcast: produções de áudio para educação de forma crítica, criativa e cidadã. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación, vol. IX, n. 1, ene. – abr. /2007
BETTO, Frei. Fome de Pão e de Beleza. São Paulo: Editora Siciliano, [199--?]
BOTTENTUIT JUNIOR, João Batista; COUTINHO Clara Pereira. Podcast em educação: um contributo para o estado da arte. Disponível em . Acesso em 16 de junho de 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
MORAN, José Manuel. As mídias na educação. Disponível em . Acesso em 16 de junho de 2011.
SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios. São Paulo: Companha das Letras, 2006.
SHITSUKA, Ricardo, et al. Tecnologia de informação em educação. Revista científica FAMEC/FAAC/FMI/FABRASP. Ano 6 - Número 06, páginas 112-121, 2007.


[1] http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast
[2] http://www.rockcomciencia.com.br
[3] http://frontdaciencia.ufrgs.br

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Inquisição, os jabutis e os nazistas: Memes seguem padrões de Rainha Vermelha?


A descrição da cena, ocorrida em 17 de fevereiro de 1600, é atormentadora:
“Vestido em trapos, amarrado com força a uma estaca, o homem espera. Sua língua está atravessada por um prego e presa a uma estrutura de mental para que grite uma última ofensa à Santa Igreja. Sob seus pés, a pilha de lenha começa a arder. A cena terrível contrasta com o lugar de nome poético – Praça das Flores, no centro de Roma.” (SUPERINTERESSANTE, 01/2000, pg 43)
O homem condenado pela Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal ao tormento máximo é Giordano Bruno, padre e herege que ousou desafiar a doutrina da igreja, afirmando não só que era a terra que girava em torno do sol – e não ao contrário –, mas ainda ousou dizer que o sol era somente mais uma estrela, em um universo infinito com um número infinito de outras estrelas, cada qual com seus próprios mundos, muitos deles – afirmava o clérigo executado – com vida.
Fevereiro de 2012. A Igreja é comandada pelo papa Bento XVI – ex cardeal Joseph Alois Ratzinger – que foi prefeito da Congregatio pro Doctrina Fidei, a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão que substituiu a Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal – entre os anos de 1981 a 2005.
Apesar de ser considerado membro de uma das alas mais conservadoras da Igreja – que dentre outras coisas condena o homossexualismo, o uso de preservativos e pesquisas com células tronco –, Bento XVI não só não nega como não vê contradições entre os ensinamentos católicos e a possibilidade de o Universo ser infinito, de ter surgido há 13,9 bilhões de anos ou de que o surgimento das espécies tenha se dado seguido os padrões propostos por Charles Darwin (2004).
Mas então, o que mudou nestes últimos 412 anos? Mudou a fé ou as verdades da Igreja – embora sejam apresentadas como infalíveis e imutáveis – são relativas a tempo e espaço? O que pode explicar tamanha mudança havida entre o julgamento de Bruno e a chegada de Ratzinger ao pontificado?
Para buscarmos compreender esta verdadeira revolução de ideias, vamos primeiro analisar o mundo das ideias em si – sem, entretanto, qualquer conotação platônica.

Memes

O que são, afinal, as ideias? O que são estes fragmentos de cultura que aprendemos e passamos adiante?
Dawkins, em seu clássico O Gene Egoísta (2010, pg 325), afirma que “A transmissão cultural é análoga à transmissão genética, no sentido de que, apesar de ser essencialmente conservadora, pode dar origem a uma forma de evolução”.
“Se o gene é uma unidade de informação biológica, precisaríamos de uma unidade equivalente no campo cultural. Dawkins propôs a palavra ‘meme’ para designar essa nova entidade. O termo vem do grego mimeme (imitação), reduzido a duas sílabas para que soasse parecido com ‘gene’ ”. (SUPERINTERESSANTE, 2003, pg 69)
Mas o que seriam estas ideias que seguiriam padrões darwinistas de transmissão? Seria quaisquer ideias que pudéssemos engendrar? Conforme Blackmore (2000) não, não são quaisquer idéias. Experiências subjetivas, tais como as emoções, não figurariam como memes. De fato, no artigo a psicóloga apresenta o quadro reproduzido abaixo, com exemplos do que seriam ou não memes (tradução do autor):

Memes e complexos de memes
Histórias, lendas urbanas, mitos, roupas, penteados, piercing, cozinha, tabagismo, aplausos, idioma, acentos, bordões, canções, músicas, danças
A crença em OVNIs, fantasmas, Papai Noel, slogans racistas, piadas sexistas, religiões, invenções, as teorias da ciência, os sistemas judiciais, a democracia, história de Proust do bolo Madeleine

Não memes
Experiências subjetivas, complexo emocional, percepções sensoriais, comer, respirar, ter relações sexuais, comportamentos inatos, mesmo que contagiosos: bocejar, tossir, rir
Respostas condicionadas: o medo do som de uma broca de dentista, os mapas cognitivos: Conhecer as formas em torno do seu bairro, associações com sons e cheiros

Nota: Muitos comportamentos humanos são misturas complexas de congenitudes, aprendizagem e imitação, por exemplo, andar de bicicleta.

Ainda conforme a hipótese de Dawkins (2010), os memes teriam maior ou menor capacidade de replicar-se conforme sua adaptação à mente humana, tal qual os genes têm maior ou menor capacidade de replicação conforme a adaptação do fenótipo que o mesmo expressa.
O importante na analogia é a replicação comum a genes e memes, a replicação mais perfeita possível. Neste sentido, Dawkins faz uma analogia entre a cópia dos aminoácidos à função de um escriba que copia um texto, embora:
“A idéia de que copiar repetidamente retém a exatidão total é apenas teórica. Na prática, os escribas são falíveis e não são imunes a desvirtuar sua cópia para fazê-la dizer coisas que eles (sem dúvida sinceramente) pensam que o documento original deveria ter dito. O mais célebre exemplo disso, meticulosamente documentado por teólogos alemães do século XIX, é a adulteração da história do Novo Testamento para adequá-la a profecias do Antigo Testamento” (DAWKINS, 2004)
Desta forma, a cópia tanto de éxons e introns quanto de memes está sujeita a erros de cópias, denominados mutações, que em geral (principalmente nos genes) é desvantajosa mas que, em alguns casos, se mostra vantajosa e possibilita uma maior adaptação ao meio, uma vantagem evolutiva que pode ser decisiva para sua sobrevivência frente a outros organismos da mesma espécie, o que Darwin (2004) denominou seleção natural. Segundo a teoria de Dawkins (2010), os memes seguiriam os mesmos padrões de adaptação para continuar a serem replicados.
Conforme Blackmore (2000):
“A natureza humana pode ser explicada pela teoria evolucionista, mas apenas quando consideramos a evolução dos memes evolução bem como dos genes. É tentador considerar como memes simplesmente "idéias", mas mais propriamente memes são uma forma de informação. Genes, também, são informações: instruções, escrito em DNA, para construir proteínas.”
Embora controversa, a hipótese tem ganhado muitos adeptos em ramos tão distintos quanto a biologia, a neurociência e a tecnologia da informação.

Memeplexos

O conceito de que a Terra é o centro do Universo, que se adapta bem ao pregado na Bíblia, um livro escrito na Idade do Bronze, uma vez que permite ‘espaço’ suficiente para situar-se o paraíso e o inferno fora da esfera de estrelas que circularia o universo geocêntrico. E eis aí outro ponto importante da teoria memética: o de que memes independentes podem se unir e formar complexos de memes (denominados memeplexos) que atuam em conjunto, da mesma forma que acontece com os genes. Os genes que determinam, por exemplo, que devemos ter duas pernas não teriam sentido sem o gene que define a coluna vertebral.
Da mesma forma, os memeplexos, embora formado por ideias que, em princípio são independentes, operam em conjunto para fortalecer sua possibilidade de transmissão.
Assim, no exemplo citado, no modelo astronômico defendido pela Inquisição no Século XVII, a noção de que a Terra era o centro do Universo era um meme, a de que o universo era envolvido por uma esfera de cristal bordada de estrelas era outro, e o conceito de que o Paraíso e o Inferno estavam além desta esfera uma terceira ideia; três memes isolados. Entretanto, ao mesmo tempo, eram ideias que agiam em conjunto, fortalecendo e auxiliando uma à outra, como se fossem os dedos de uma mão (uma mão de três dedos no caso).
Da mesma forma, se analisarmos os escritos de Saulo de Tarsos, também conhecido como São Paulo, veremos que o mesmo não se refere ao nascimento de uma virgem, da chegada triunfal de Jesus a Jerusalém, da traição de Judas e de muitas outras passagens conhecidíssimas da Paixão de Cristo. A inexistência de citações de passagens dos evangélicos nas Epístolas é vista, por alguns estudiosos, como prova de que a história que envolve a vida de Cristo teria sido criada a posteriori pelos evangelistas, baseando-se em mitos mais antigos. O fato é que embora possa haver até mesmo uma certa discrepância entre o Cristo apresentado por Saulo e o Cristo dos quatro evangélicos canônicos, o ‘conjunto da obra’ forma um memeplexo poderoso, que tem mantido a fé, o poder e mesmo tem guiado decisões científicas e políticas nos últimos 2 mil anos.
Ocorre, porém, que por mais poder que a Igreja tenha tido para manter o meme geocêntrico, que formava um memeplexo poderoso com o conceito de localização física dos espaços de castigo e recompensa eternas, o surgimento de outros memes concorrentes através dos escritos de Kepler, Copérnico, Bruno, Galileu e outros tantos, apresentando um modelo mais próximo do que pode ser empiricamente verificado com análises criteriosas.
Mas se memeplexo geocêntrico não é o cerne da doutrina cristã, ele ainda assim foi importante na fixação do memeplexo cristão, pois se o Universo é infinito, como queria o herege Bruno, onde situar o Éden ou o Sheol?
Estaria aí o fim do memeplexo conhecido como cristianismo?
Aí entra o questionamento que deu origem a este artigo.

Rainha Vermelha

"É preciso correr o máximo possível, para permanecermos no mesmo local.", diz a Rainha Vermelha a Alice, quando esta constata – na obra de Lewis Carroll Alice no País do Espelho – que apesar do muito que correram, não parecem ter se movido.
Por analogia, o termo Rainha Vermelha (ou Rainha de Copas) foi dado pelo biólogo van Valen "para um sistema evolutivo, é preciso haver um desenvolvimento contínuo para manter a aptidão relativamente aos sistemas com o qual estão a co-evoluir." (HEYLIGHEN, 2000).
Embora possa também explicar as vantagens da reprodução sexuada, o componente que nos interessa analisar aqui é o que explica a ‘corrida armamentista’ entre espécies que competem por nichos ou que têm relações de predador-presa ou de parasita-hospedeiro.
A hipótese surgiu para tentar explicar por que a probabilidade de extinção de uma espécie não é reduzida com o passar do tempo, como seria de se esperar, uma vez que a mesma estaria, teoricamente, cada vez mais adaptada ao nicho que ocupa. A conclusão de Van Valen é que:
“já que cada melhoria em uma espécie resulta em uma vantagem seletiva para ela, a variação irá resultar no aumento do valor adaptativo na espécie. Entretanto, já que em geral, diferentes espécies estão co-evoluindo, melhorias em uma espécie representam vantagem competitiva em relação às demais. Isso significa que o aumento do valor adaptativo em um sistema evolutivo, deve promover a diminuição do valor adaptativo em outro. A única forma de uma espécie sujeita a competição por recursos manter sua aptidão em relação a espécies competidoras é pelo aumento da aptidão da espécie” (HEYLIGHEN, 2000)
Exemplos deste tipo de evolução podem ser facilmente encontrados até mesmo em Darwin (2004), e têm muito a ver com a própria Seleção Natural, com o adendo de que não é apenas uma espécie que está se adaptando ao nicho, mas sim que está competindo pelo nicho com outra, seus interesses se chocam e, para quem nenhuma das duas acabe sendo extinta, é necessário que co-evoluam.
Dawkins (2009, pg 249) nos cita um exemplo das Galápagos que pode ilustrar o conceito:
“Os jabutis (...) adquirem pela evolução diferentes formas de carapaça nas diferentes ilhas. As espécies das ilhas maiores têm carapaças mais altas. As das ilhas menores têm carapaças em forma de sela, com uma abertura dianteira dotada de uma dobra alta para a cabeça. A razão disso parece ser que as ilhas maiores são úmidas o suficiente para que nelas cresça grama, da qual se alimentam os jabutis que lá habitam. As ilhas menores são em geral demasiado secas para ter grama, e nelas os jabutis comem cactos. A carapaça com a dobra alta permite que o pescoço se erga e alcance os cactos, os quais, em uma corrida armamentista evolucionária, crescem cada vez mais alto para livrar-se dos jabutis devoradores.”
Ora, a hipótese memética nos diz que a evolução e a replicação dos memes segue o mesmo algoritmo da replicação genética. Então cabe a pergunta: a hipótese da Rainha de Copas caberia também na co-evolução de memes e memeplexos em competição?
Em minha opinião a resposta é SIM.
Analisando o caso do geocentrismo, que condenou Bruno à pena capital em praça pública e forçou Galileu a abjurar – embora, segundo a lenda, tenha dito baixinho: eppur si muove – e cumprir prisão domiciliar perpétua, vimos que estes eram os últimos estertores do apoio do geocentrismo a uma noção de um deus pessoal que pune e mandou seu filho unigênito para purgar os pecados humanos.
Como no caso dos cactos das Galápagos, o cristianismo precisava se adaptar, crescer para não ser devorado pelas novas ideias. Desta forma, foi vagarosamente permitindo que a nova teoria heliocentrista fosse considerada; a posteriori, adaptou-se às novas concepções surgidas do conhecimento empírico científico acumulado.
Primeiro buscaram-se outros possíveis lugares onde situar céu e inferno; hoje, muitos teóricos católicos admitem que as mensagens bíblicas são metafóricas, não podem ser levadas ao pé da letra.
Se antes o Vaticano negava veementemente o big-bang, hoje Ratzinger afirma que Deus foi o gatilho deste; se antes se negava que as espécies evoluíam, hoje o pontificado diz que tal ocorreu pela vontade do Criador. Ou seja, cada vez mais a Santa Sé busca demonstrar que religião e ciência não são incompatíveis, pois Deus estará sempre no invisível e na força geradora do cosmos.
Mas e o fundamentalismo religioso? Eles seguem negando as evidências científicas da evolução e a corrente da Terra Jovem afirma que o Universo tem pouco menos de 10 mil anos; estaria aí um ponto contrário à hipótese adaptativa aqui apresentada?
Penso que não, mas que, ao contrário, mais uma vez temos aí a adaptação na ‘corrida armamentista evolucionária’ dos memeplexos.
Novamente pensando nos cactos x jabutis, uma outra estratégia que poderia ter sido selecionada nos cactos poderiam ter adotado seria uma maior espinificação, ou tornar sua casca mais grossa, ou ainda ter desenvolvido uma toxina, a ponto de ser impossível para os jabutis deles se alimentarem sem uma nova co-adaptação.
O fundamentalismo religioso é o cacto seguindo uma via alternativa de corrida armamentista: não provar que ciência e religião podem conviver, mas sim tentando se apropriar da ciência, criando pseudociências – quando usamos como delimitador o amplamente aceito falseamento de Popper (2008) – que tentam provar que homens e dinossauros conviveram, que as espécies são imutáveis e que as extinções em massa foram, na verdade, animais que não conseguiram chegar à Arca de Noé quando do Dilúvio, que datações radioativas são equivocadas...
Mas mais importante, o meme que tem sustentado o memeplexo do fundamentalismo cristão é o de que é errado duvidar, que a fé no que diz um livro da idade do bronze é a maior virtude de um bom cristão, e que qualquer dúvida racional foi plantada pelo demônio como forma de conduzir a alma à perdição, sem dúvida um meme poderoso na mente que infecta, pois elimina qualquer possibilidade de contágio por memes concorrentes.
Tal meme não é, entretanto, exclusividade cristã. Fundamentalismos mundo afora o utilizam como suporte a seus memeplexos.
A mesma base do “não racionalizar é santo” pode ser vista nos islâmicos que atiraram aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ou em judeus que invadem terras palestinas pois são “terras a eles dadas por Deus”, ou mesmo em neonazistas que se recusam a ver judeus, negros e homossexuais (ou nordestinos, como no caso brasileiro) como integrantes da mesma espécie a que pertencem.
Neste último caso, é interessante notar que os neonazistas brasileiros, em sua maioria, são miscigenados de europeus, nativo-americanos e mesmo africanos e judeus convertidos no período inquisitorial, e não ‘arianos’ como apregoados pelos fundadores da doutrina, em um novo exemplo de memeplexo que se co adaptou para seguir atuando fora do ambiente no qual inicialmente surgira (a Alemanha do período inter guerras), seguindo a corrida armamentista na disputa de nichos cerebrais com memeplexos contrários aos seus.
Mas é interessante notar que os memes e memeplexos mais modernos têm uma capacidade infecciosa maior do que suas versões mais antigas.
Tentar, por exemplo, mobilizar grandes massas com o cristianismo primitivo provavelmente não será bem sucedido (poucos são os dispostos a largar tudo e viver em uma comunidade isolada do mundo como os primeiros cristãos). Muito melhor sucedido você será se tentar o neopentecostalismo e seu meme de que riqueza, ao contrário de ser pecado. Neste sentido, há até uma explicação alternativa para o ensinamento de que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu”, que teria sido proferidas por Jesus, segundo Lucas 18, 24-27, de que:
“Essa corda grossa, (chamada) camelo, vinha utilizada principalmente nos tempos de guerra, onde através desse buraco (na muralha), chamado de agulha, podia-se fazer o transporte de armas e comida. Essas agulhas são muito presentes ainda hoje nas muralhas da cidade antiga de Jerusalém” (COELHO)
Ou seja, adaptando em palavras modernas, é mais fácil passar uma corda por um buraco feito especialmente para ela do que um rico entrar no reino dos céus.
Da mesma forma, se você apresentar a teoria ‘nem-lá-nem-cá’ apresentada pelo Vaticano nos dias de hoje conquistará fiéis, se tentar através do método de provar que a Terra é imóvel e fica no centro do Universo, a coisa ficará bem mais difícil.
Tudo isso me faz recordar novamente a Rainha Vermelha e os resultados de um experimento relatado por van Valen (1973, apud IAMARINO), sobre um crustáceo de água doce chamado Daphnia magna, ou pulga-de-água. Segundo o relato:
Ellen Decaester e colaboradores em um artigo da Nature, coletaram amostras de sedimento no fundo de um lago onde se encontravam várias camadas de deposição, cada camada correspondendo a um intervalo de tempo, totalizando 24cm de sedimento e 39 anos de registro. Nas camadas de sedimento se encontravam ovos de Daphnia e esporos de um parasita que a ataca, a bactéria Pasteuria ramosa. A ideia, muito elegante por sinal, foi expor a pulga-de-água de cada ano a bactérias de todos os anos, passados, presente e futuros, para determinar o sucesso de infecção da bactéria. Eis o resultado: bactérias do passado (da camada anterior de sedimento), não infectam tão bem quanto bactérias do presente (da mesma camada de sedimento), pois a geração de Daphnia presente já foi selecionada para resistir à infecção, e as bactérias do futuro (da camada seguinte de sedimento) também não infectam tão bem, pois já foram selecionadas para infectar as futuras pulgas-de-água. No total, a taxa de infecção das bactérias do presente se manteve constante, em torno de 60%, ou seja, ambos parasita e hospedeiro, mudaram a cada camada de sedimento para permanecer no mesmo lugar.”
Seguindo a mesma linha de pensamento, se você afirmar para um jovem brasileiro a quem queira converter em skinhead que a Alemanha deve ser a líder das nações da Terra e que mestiços como ele são raças inferiores, terá imensamente menos chances de obter sucesso do que se apresentar a versão nova do memeplexo, onde a raça inferior é o nordestino (ainda que este tenha mais ‘sangue’ ariano) que vem e conquista sua vaga de trabalho, em um claro exemplo de que estamos mais resistentes à cepa antiga do memeplexo, mas que a sua infecciosidade permanece graças ao desenvolvimento contínuo para manter a aptidão relativamente aos sistemas com o qual estão a co-evoluir ou, em outras palavras, graças ao memeplexo ter corrido o máximo possível e, assim, ter conseguido permanecer no mesmo lugar.

Bibliografia

AQUINO, Felipe. Papa Bento XVI aceita a teoria da evolução. Disponível em <http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2007/07/27/papa-bento-xvi-aceita-a-teoria-da-evolucao/>. Acessado em 19/02/2012.

_____________. Propósito na Evolução?. Disponível em <http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/?s=big+bang>. Acessado em 19/02/2012.
BLACKMORE, Susan. The Power of Memes. Scientific American Magazine. Outubro 2000.
BURGIERMAN, Denis Russo, WINTER, Silvia Giuliatti e WINTER, Othon. Profeta de Outros Mundos. Revista Superinteressante, n. 148, janeiro de 2000, pág. 42 a 46. São Paulo: Editora Abril SA.
DARWIN, Charles. A Origem das Espécies. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda, 2004.
DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
_____________. O Maior Espetáculo da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
_____________. O Gene Egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HEYLIGHEN, F. The Red Queen Principle. Postado em 2000. Disponível em <http://pespmc1.vub.ac.be/REDQUEEN.html>. Acessado em 19/02/2012.
IAMARINO, Atila. Por que Rainha Vermelha? Disponível em <http://scienceblogs.com.br/rainha/sobre/>. Acessado em 19/02/2012.
POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Editora-Pensamento Cultrix, 2008.
TEIXEIRA, Jerônimo. O DNA das Idéias. Revista Superinteressante, n. 192, setembro de 2003, pág. 67 a 71. São Paulo: Editora Abril SA.