sexta-feira, 27 de abril de 2012

Homem primata

Na segunda passada (23/4), em conclusão à aula da qual participei como monitor da disciplina Universo em Evolução e Evolução da Vida na Terra no dia 9/4 (aqui relatada), assisti junto à turma do 1º semestre de Ciências da Natureza ao vídeo “O Que Darwin Não Sabia”, da BBC.
 Após o vídeo, uma colega me fez um questionamento sobre a evolução humana. Não foi a primeira vez que ouvi a pergunta e, desta forma, explico aqui, resumidamente, o que sei sobre o assunto, visando explica-la a outros que também a tenham e quem sabe dar minha modesta colaboração para o entendimento desta tão pouco compreendida – mas mesmo assim tão debatida – Teoria da Evolução.
A indagação é, nas palavras de minha colega: Se evoluímos do macaco, então por que nós paramos de evoluir? O macaco um dia vai se transformar em ser humano?
Em primeiro lugar, se você não sabe o que é, basicamente, a Teoria da Evolução, sugiro que comece por O Capelão do Diabo e as moscas sem asas, neste blog.
Mas prossigamos, dividindo a pergunta em partes.
O homem descende do macaco?
Não, ao menos se você pensar nos macacos modernos. Somos primatas, parentes próximos dos chimpanzés e bonobos, com os quais tivemos um ancestral comum há uns 6 milhões de anos. Mas somos parentes também dos outros primatas – nos separamos do ramo que deu origem ao gorila há uns 7 milhões de anos, do ramo que deu origem aos orangotangos há 14 milhões– e macacos – nosso ancestral comum com o gibão viveu há 18 milhões de anos, com os macacos do velho mundo há 25 milhões de anos e com os macacos do novo mundo há 40 milhões de anos (dawkins, 2010).
Mas não se surpreenda, da mesma forma somos aparentados com o bacalhau, com quem tivemos um ancestral comum há 440 milhões de anos. Na verdade, se você recuar tempo o suficiente, encontrará um ancestral em comum com todas as espécies vivas conhecidas (op. cit.).
Por que paramos de evoluir?
Na verdade não paramos. Mutações ocorrem a toda hora. Eu, por exemplo, não tenho uma mutação presente na maioria dos caucasianos: a tolerância à lactose. Conhecem a Síndrome de Down? Pois é uma mutação genética, a trissomia do cromossomo 21 (nossos cromossomos são diploides, ou seja, pareados; temos 23 pares ou 46 cromossomos; nessa mutação o cromossomo 21, ao contrário do par de cromossomos, tem um trio). Quase toda a mutação é desvantajosa mas, em nossa sociedade, essas desvantagens, na maior parte das vezes, não são fatais, ou seja, a seleção natural não age sobre nós graças ao avanço de ciências como a medicina, a higiene ou ao aumento da disponibilidade alimentar.
Pense, porém, hipoteticamente, que o vírus da Aids desenvolvesse uma nova estratégia de infecção: ao invés de contato com fluídos, como atualmente, que ele se replicasse como a gripe. Em pouquíssimo tempo a humanidade estaria infectada, estaríamos fadados a morrer (vamos esquecer por um momento que a ciência criou drogas como o AZT).
Mas espere! Nem tudo está perdido, há seres humanos imunes ao HIV! Esses Homo sapiens sapiens são tão humanos quanto eu ou você (há uma possibilidade, ainda que remota, que um de nós seja um deles), que tem a mutação de faltar parte do DNA presente no gene CCR5; essa mutação, que vem sendo estudada como possibilidade de criação de uma vacina ou de medicamentos mais eficientes, causa uma má formação no receptor por onde o vírus penetra na célula (freeman e herron, 2009).
No caso da Aids-gripal, talvez 99% dos seres humanos fossem extintos. Os portadores da mutação no CCR5, entretanto, sobreviveriam e passariam essa característica a seus descendentes. Isso é seleção natural; dela vem a evolução, ou seja, a adaptação ao meio.
O macaco um dia vai se transformar em ser humano?
Não. Tivemos uma evolução em separado, pelo menos, nos últimos 6 milhões de anos. Houve o que se chama em biologia evolutiva de especiação, ou seja, a divisão de uma espécie em duas. A partir desse momento, quando as espécies não podem mais produzir descendência viável e fértil, seus caminhos evolutivos tornam-se totalmente distintos. Talvez (e aqui entro no ramo da especulação pura, mas a possibilidade evolutiva, ainda que pequena, existe), um dia, alguma espécie de primata pudesse desenvolver inteligência similar à nossa.
Talvez ele perdesse o pelo por outra adaptação, passasse a andar ereto, achatasse a face, diminuísse a dentição, passasse a usar ferramentas complexas (primatas superiores usam ferramentas simples), desenvolvesse uma cultura, enterrasse seus mortos, construísse pirâmides e computadores. Ainda assim, eles não seriam Homo sapiens sapiens.
Talvez fossem Pan sapiens sapiens, se descendessem diretamente de chimpanzés ou bonobos, talvez fossem Gorilla sapiens sapiens. Entretanto, por mais similares que fossemos, ainda assim seríamos espécies distintas; não poderíamos produzir descendência e, portanto, o macaco não teria se tornado humano, embora estivéssemos dividindo o mundo com outra criatura inteligente, como já dividimos com outros hominídeos tais como nosso primo Homo sapiens neanderthalensis, extinto há quase 30 mil anos (foley, 1993).
Finalizando, deixo minha satisfação em ter podido, ainda que dentro de minhas limitações, ter respondido à pergunta, ao mesmo tempo em que teço aqui um elogio a quem a proferiu (não citarei o nome por não ter pedido sua autorização), em minha opinião, ela agiu como um verdadeiro cientista: com curiosidade, ceticismo, sem preconceito e sem medo de fazer os questionamentos, ainda que a resposta possa lhe ser desconfortável.

Referências bibliográficas:

DAWKINS, Richard. A grande história da evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FOLEY, Robert. Apenas mais uma espécie única. São Paulo: Edusp, 1993.
FREEMAN, Scott e HERRON, Jon C. Análise Evolutiva. 4ª Edição. Porto Alegre: Artmed: 2009.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Em defesa de Richard e dos alunos discriminados

Professor Attico Chassot, ministrando a Aula
Magina, na Unipampa Uruguaiana
Quinta-feira da semana passada (19/4), tive o privilégio de ouvir duas falas do professor Attico Chassot, uma no Rodas de Conversa Intercampi, outra na Aula Magna.
Um dos mais importantes educadores do país, Chassot é formado em Química, mestre e doutor em Educação, tem mais de 60 artigos e 15 livros publicados. Mas além de ouvi-lo falar, ainda tive o prazer de conversar com o professor, e constatar sua grandiosidade ao aceitar ouvir os argumentos desse ‘aluno impertinente’, que ousou discordar de um monstro sagrado como ele.
Ele me ouviu com toda sua calma e simpatia, lembrando um avô que ouve pacientemente as razões do neto antes de apresentar as suas e, quando as mostra, o faz sem ranço ou desprazer, mas com sabedoria (que o Mestre Chassot tem de sobra) e argumentos muito bem embasados.
Sobre o que versava nossa conversa? Sobre a militância ateísta de Richard Dawkins e suas constantes afrontas às religiões, tema sobre o qual ele se manifestou em suas falas.
Ouvi-o e pensei muito no que me disse; entretanto acho que o espírito do ‘aluno impertinente’ é muito forte em mim. Sigo discordando do mestre nesse e em alguns outros pontos. Como falei para uma professora minha: Chassot e eu queremos o mesmo mundo, um mundo justo, sem guerras, sem fome, sem discriminações; apenas discordamos sobre os caminhos para chegar lá.
Tá, talvez tal discordância nasça do fato de Chassot ser claramente kuhniano, enquanto eu sou popperiano; ele pensa que a Ciência progride pela tradição intelectual representada pelo paradigma, que é um modelo e visão de mundo comunicada por uma teoria ou sistema científico. Eu sou adepto das teorias postas à prova, ou seja, do princípio da refutabilidade (ou falseação).
Para o professor, o ateísmo militante é problemático, ainda mais que ele prega em suas falas seu sonho de que “à Ciência estaria reservado o papel de explicar e transformar o mundo; às religiões estaria destinado garantir que essas transformações sejam para melhor”. Não consigo compartilhar de seu sonho em primeiro lugar por uma razão: não há como haver consenso quanto ao que é o melhor se usarmos religiões.
O que defender? Que Jesus odeia homossexuais, como querem alguns grupos cristãos? Ou que eles devem ser aceitos, como querem outros? Que pesquisa com células tronco são abominações, embora salvem e transformem vidas ou que isso é bom? Ou se uma pesquisa indica que carne de porco faz bem à saúde, devemos nos render a grupos islâmicos, judeus, ou mesmo alguns cristãos que abominam seu consumo ou devemos consumi-la, como tantos cristãos que a consomem no Natal? Note-se que, quando falo destes temas, não os estou usando como exemplos de absurdos religiosos, mas sim de um outro fato: nenhum desses temas é consenso entre aqueles que creem!
Mas a principal razão de minha discordância reside em um dos maiores triunfos do Estado moderno: a laicidade, ou seja, o fato de o Estado não poder ser guiado por esta ou aquela religião, ou mesmo pelo ateísmo.
Quando se fala em laicidade, muitos religiosos se declaram contra, sem se darem conta de que sua própria liberdade religiosa nasce desse conceito. O laicismo assegura, por exemplo, que evangélicos ou espíritas tenham os mesmos direitos frente a um país ainda majoritariamente formado por católicos; ou a liberdade para as religiões afro-brasileiros; ou para o espiritismo kardecista; ou mesmo para a descrença total. O laicismo assegura, até mesmo, que católicos tenham diferentes orientações, que vão da Teologia da Libertação à TFP. Todos, por esse conceito, têm os mesmos direitos e deveres frente ao Estado.
Quando defendo Dawkins, não afirmo que concordo com todas suas atitudes. Talvez ele realmente tenha exagerado ao afirmar que prenderia Bento XVI por acobertar padres pedófilos (embora o papa realmente o tenha feito); ou que suas frases em ônibus possam ter mais de uma interpretação, podendo parecer pregação do hedonismo (embora, para mim, não tenhamos qualquer direito em censurar hedonistas). O que aprecio em Dawkins foi algo que ele, junto com outros pensadores como Daniel Dennett, Christopher Hitchens, Sam Harris, José Saramago, Dráuzio Varella ou Friedrich Nietzsche trouxeram ao ateísmo: a eliminação da vergonha de se declarar ateu.
Eu próprio já passei por isso (leia a crônica Lição de Tolerância, neste blog), e mesmo no começo de meu curso de licenciatura, tive que enfrentar diversos colegas indignados por minhas posições ateias, isso que faço um curso de Ciências da Natureza. E foi Dawkins quem me ensinou o caminho para vencer o preconceito: não baixar a cabeça, impor que suas ideias, embora não aceitas, sejam respeitadas, e dar aos outros o mesmo respeito que se recebe. Hoje sou plenamente respeitado e respeito a todas as visões religiosas em nossas salas de aula. Podemos até brincar, mas quando o fazemos, há sempre um limite de respeito, e acredito que todos ganhamos com isso.
“Coisas do passado”, ouço alguns leitores incrédulos dizerem. Não, meu caro leitor, minha cara leitora, infelizmente isso não é fato superado. Enquanto existirem professores em escolas públicas que discriminem alunos por sua falta de crença (leia “Aluno é retirado de sala de aula após se negar a participar de oração no PR”), não podemos dizer que isso são águas passadas. Enquanto pessoas são preteridas em empregos por sua orientação religiosa (ou antirreligiosa), enquanto houver os datenas da vida, dizendo que o crime é coisa de quem não tem deus, essa luta não foi superada.
Quando defendo, pois, a militância de Dawkins, defendo antes de tudo seu direito de resposta frente às constantes agressões religiosas; ao riso de escárnio; aos que dizem que, por não crermos, somos o mal; aos que nos veem como representantes do demônio, mesmo que, para nós, o demônio seja tão imaginário quanto qualquer deus.
O que defendo, enfim, é a legitimidade de que todos tenham direito de crer ou não crer como, aliás, nos assegura a Constituição.
        Sinto muito, professor Chassot, respeito sua inteligência, sua experiência, sua imensa cultura, pretendo ler todos seus livros (os quais só não adquiri por estar desempregado) mas, apesar de sonharmos com o mesmo mundo, ainda seguimos caminhos diferentes para chegar até ele.

domingo, 22 de abril de 2012

Documentário sobre darwinismo

Pessoal, para quem quer saber mais sobre a evolução da Teoria da Evolução (peço perdão pela repetição, "bis repetita non placet"), mas é isso mesmo; como Darwin chegou à teoria, como ela era vista, como quase foi abandonada pelo meio científico, e como a síntese lhe deu nova vida e permitiu chegar ao Século XXI como uma das mais fortes (devido a seu embasamento em evidências) teorias da ciência em todos os tempos. O nome do documentário é "O que Darwin não sabia" (What Darwin Didn't Know), é da BBC e está legendado em português europeu.
Por ser muito extenso (1h28min), o documentário foi dividido em nove partes.

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5


Parte 6


Parte 7


Parte 8


Parte 9 (final)


quarta-feira, 11 de abril de 2012

É preciso evolução!

Desde há muito tenho acompanhado o embate criacionistas x evolucionistas na nação mais rica do mundo. Lá, o lobby dos grupos fundamentalistas religiosos se confunde com a direita política, que tem voto de boa parte da população, especialmente entre a fatia denominada WASP (White, Anglo-Saxan and Protestant, ou branco, anglo-saxão e protestante em bom português). “Coisa de grigo”, sempre pensei, desdenhoso, maravilhado com meu Brasil, onde impera o sincretismo que, se não incentiva, ao menos não fica no caminho da boa ciência, mormente depois da redemocratização ocorrida em 1985 (antes, ou você era cristão ou um pária na escola).
Recentes fatos, dentre os quais o assustador crescimento do fundamentalismo religioso tem mudado essa cena. A exemplo dos protestantes estadunidenses, os nossos têm mostrado suas garras elegendo deputados com o único fim de defender interesses religiosos na Câmara, chegando ao cúmulo de promover cultos no plenário, jogando no lixo os artigos 5º, Inc. VI e 19, Inc I da Constituição, que asseguram o laicismo do Estado.
Mas não é, infelizmente, apenas no Legislativo que cresce o radicalismo das visões antagônicas à ciência.
Meus filhos sempre estudaram em escolas públicas que, por lei, devem ser neutras em assuntos religiosos. Infelizmente dois deles já sofreram discriminação religiosa por se declararem não cristãos, sendo que a professora de ciências de um deles chegou a criticá-lo por ele ter se declarado evolucionista!
Na última segunda-feira (09/04/12), auxiliei à professora Giselle Pezzaro, bióloga e mestre em Genética, em uma aula na qual substituía à professora Diana Freitas, bióloga e mestre em Educação, em uma aula para o 1º Semestre (eu estou no 3º), na qual se discutia o surgimento da vida e a evolução. Também presente na aula, a título de colaborador, o professor Euclides, mestre em Filosofia.
O surgimento de controvérsia na discussão não foi novidade; ele sempre surge e considero a discussão saudável. Um fato, porém, me surpreendeu. Uma professora de ciências, que provavelmente ingressou na Universidade pela Plataforma Freire a fim de se ‘reciclar’ foi categórica: “Eu até explico por cima essa bobagem pros meus alunos por que sou obrigada, mas me recuso a falar essa besteira de que viemos dos macaquinhos; por que então eles continuaram macaquinhos?”
Depois de ter recolhido o queixo do chão e o cérebro do teto (minha cabeça explodiu com a declaração), fiquei não apenas chocado, mas triste com a continuidade de sua ação, pois ela prosseguiu o resto da aula não discutindo as ideias ou mesmo apresentando argumentos pseudocientíficos, limitou-se a ficar ‘largando charadinha’, dizendo como que para si mesma frases como: “e eles acham mais fácil acreditar nesses absurdos do que em deus”.
Confesso-me, pois, ainda mais chocado com a atitude da professora do que com seu pouco conhecimento (como, por exemplo, de desconhecer que não viemos dos ‘macaquinhos’, mas que eles e nós temos um ancestral comum, ou um ‘concestral’, como chamaria Dawkins; afora o fato de ter confundido hipótese com teoria, algo aceitável para um leigo mas, em minha opinião, imperdoável para um professor de ciências).
Sua atitude de intolerância levou-me a considerar, antes de tudo, na qualidade do que ela, como educadora, está passando para seus alunos, e não apenas cientificamente falando, mas também como exemplo de respeito às opiniões alheias, de tolerância filosófico-religiosa ou do velho ensinamento (já era velho na época em que eu era criança, mas continua valendo até hoje) de que “quando um burrinho fala o outro escuta”.
Sua barafunda quase conseguiu o intento: calar as vozes contrárias à sua visão religiosa; por sorte tínhamos na aula dois professores bem preparados, não apenas em seus argumentos, mas também em manter o controle da aula. O professor Euclides teceu comentários sobre a necessidade da separação das esferas religiosa e científica, não desmerecendo esta ou aquela, mas mostrando que não devem ser confundidas, enquanto a professora Giselle argumentou que, afinal de contas, a aula era de ciências, e não de religião. O argumento convenceu a alguns dos outros alunos, que permaneciam calados, oprimidos demais para se manifestar, e as primeiras vozes pró-ciência começaram a pulular.
Por fim, após o intervalo, a aula teve que ser interrompida, pois um temporal chegava a Uruguaiana acabando com a luz da Universidade, e o 2º episódio da série Cosmos, de Carl Sagan, que tinha exibição prevista, foi transferido para o próximo encontro.
Mas o que fiquei sabendo um dia depois me deixou ainda mais estarrecido, quase arrasado: a Universidade chegou a cogitar a retirada do ensino do evolucionismo de seu currículo!
Pessoal, parem o mundo que eu quero descer! Em um curso de Ciências da Natureza, chegar sequer a cogitar a retirada de uma matéria científica com largo referencial de evidências, a base de sustentação de toda a biologia moderna (segundo Dobzhansky, nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução), usando-se como fator principal a controvérsia que ela suscita é demais para mim.
É como em química parar de ensinar a nomenclatura Iupac por ser complicada, ou em física não ensinar as Leis de Newton porque foram criadas por um alquimista.
Senhores educadores: Evolução é ciência, é teoria embasada em evidências (ou então seria hipótese) e não “só mais uma teoria” como alguns querem fazer crer, apresentando como contraponto escritos com 2 mil anos, com tanto embasamento biológico que chamam morcego de ave (Levítico 11:13 a 19).
Senhores professores de ciências: estudem, reciclem-se, e não esqueçam que ciência é o binômio curiosidade-ceticismo, ou então mudem de matéria para alguma mais adequada às suas crenças pessoais e deixem, assim, de prejudicar nossas crianças, que precisarão dos conhecimentos que vocês se recusam a passar mais adiante, quando enfrentarem o Enem ou o Vestibular.
Senhores fundamentalistas: Vocês já evoluíram de formas mais ‘primitivas’ de vida (não vamos entrar aqui na discussão de que nenhuma forma de vida é realmente mais ou menos primitiva, apenas diferentemente adaptada), agora só falta evoluírem em suas concepções. Não estou pedindo para que mudem sua religião ou filosofia de vida, mas que permitam que os outros tenham as deles, ainda que vão de encontro às suas. Aprender o sentido das palavras religião e filosofia pessoal e suas diferenças da palavra ciência já é um bom começo, mas o que lhes falta evoluir, realmente, é o significado da palavra respeito, que vocês tanto exigem (experimente largar uma piada de cunho religioso perto de um fundamentalista...) mas que se recusam a compreender que também deve ser aplicado às outras visões de mundo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

DESIGN INTELIGENTE: EVOLUCIONISMO ou CRIACIONISMO?

Retirado, sob autorização, do Blog do Mestre Chassot.


Design inteligente (Desenho Inteligenteou Projeto Inteligente, em inglêsIntelligent Design) propõe que "certas características do universo e dos seres vivos são mais bem explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado como a seleção natural"; e que"é possível a inferência inequívoca de projeto sem que se façam necessários conhecimentos sobre o projetista, seus objetivos ou sobre os métodos por esse empregados na execução do projeto" (Wikipédia).

primeira cena: A Criação de Adão é um afresco de 280 cm x 570 cm, pintado por Michelangelo Buonarotti por volta de 1511, que figura no teto da Capela Sistina. Representa um episódio do Livro do Gênesis no qual Deus cria o primeiro homem: Adão. A segunda é uma releitura da primeira, iluminada por proposta da ‘criação como obra de um projetista’;
Em um dia da envolvente semana que passou, recebi a seguinte chamada no Facebook: "Boa noite Attico, gostaria de saber o que opinas sobre este meu postwww.facebook.com/cozzuol/ posts/3588286384509recente. Prezo muito tua opinião. Abraços, Mário
O Mario Alberto Cozzuol, que conheço há cerca de dez anos, é um querido amigo argentino, que viveu há um tempo em São Leopoldo, enquanto eu era professor na Unisinos, quando tive o privilégio de ter sido acolhido em sua casa para bons papos. Ele é Doutor em Ciências Naturais pela Universidad Nacional de La Plata, Argentina, em 1993. É professor da Universidade Federal de Minas Gerais, no Instituto de Ciências Biológicas. Os seus interesses de pesquisa são Paleontologia de Vertebrados do Cenozoico da América do Sul, com ênfase em mamíferos.
No dia seguinte escrevi: Estimado amigo Mário, li e refleti encantado sobre teu texto. Maravilhei-me. Desconhecia o Mario polemista e me sinto privilegiado poder-te chamar de amigo. Adiro a sugestões daqueles que te estimulam publicar este texto. Com emocionados cumprimentos a admiração do achassot
Lateralmente, a meu pedido ele concordou, em partilhar com os leitores deste blogue, seu texto. Assim começo cumprir agora o anunciado ontem. Com a palavra o Mario:

Recentemente participei de uma conversa no Facebook sobre as declarações do Ministro Crivela (Pesca) criticando a Teoria da Evolução biológica e do seu apoio ao criacionismo. Nela ele mostra um profundo desconhecimento do que é e como funciona a ciência, assim como tudo o que com ela tem sido construído. (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9jsceSCCZJA)
Na discussão ao redor das declarações de Crivela sobre a teoria da Evolução, se levantou o nome do Dr. Marcos Eberlin, professor titular da UNICAMP, pesquisador da área de Química. 
O caso do Eberlin é, no meu ver, muito pior que o de Crivela porque ele usa da sua posição na Academia Brasileira de Ciências (ABC), na UNICAMP, de ser pesquisador 1A do CNPq e de outros títulos e prêmios para promover o Design Inteligente (DI). 
De Crivela, ninguém mais espera muito, no fim o descrédito da classe política é grande e ele é declaradamente membro da "bancada evangélica", embora me preocupe a possibilidade de impor ideias desse tipo por força de lei, como tentado no Rio de Janeiro na “era Garotinhos”. Mas o Eberlin tem declarado que muitos dos seus colegas da ABC pensam como ele, mas não se atrevem a falar, e que ele é o porta-voz (mas vejam este link na página oficial da ABC:
http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=1874). 
A especialidade do Eberlin, químico, é Espectrometria de Massa. Nada a ver com Biologia e muito menos com Evolução. Suas credenciais como químico, muito relevantes na sua área, certamente, não o habilitam, de forma alguma, a falar sobre Evolução. No seu currículo não consta nenhum trabalho publicado ou projeto relacionado com o tema. Curiosamente ele também não incluiu no seu Currículo Lattes (o sistema de currículo oficial do CNPq, 
http://lattes.cnpq.br/9866858833240787) seu livro sobre DI (http://www.fomosplanejados.com.br/), talvez porque deseje manter separado esse lado da sua vida do seu perfil profissional. O interessante é que ele sim utiliza sua vida profissional para promover o DI (http://www.marcoseberlin.com.br/index.html).
A estratégia do grupo ao qual Eberlin declara pertencer o Núcleo Brasileiro de DI, é tentar se distanciar do criacionismo clássico (
http://www.comciencia.br/presencadoleitor/artigo15.htm,http://www.entrevistas.criacionismo.com.br/2010/05/professor-da-unicamp-defende-design.html). Mas esta estratégia já mais do que foi desmascarada, no Brasil (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=26339) e no exterior (http://www.msnbc.msn.com/id/10545387/ns/technology_and_science-science/t/judge-rules-against-intelligent-design/#.T2AnkbbAzCc). O Design Inteligente não passa de uma tentativa em restabelecer o criacionismo e a crença religiosa como dominantes, travestindo-o como ciência no sentido de provocar a menor rejeição possível no caminho. 
Mas o mais preocupante é que tanto nas declarações de Crivela como nas de Eberlin, mostra-se o mesmo desconhecimento sobre a forma que o método científico funciona. Se isso já não é aceitável para um ministro de Estado, é absolutamente imperdoável para um cientista.
Eberlin alega que "o sobrenatural é uma explicação óbvia para os fenômenos naturais, é a causa da harmonia dos átomos, dos planetas e do design de todas as formas de vida da natureza", e ainda "a ciência estava muito bem, até que no século 19 passaram a usar a religião do naturalismo filosófico, só admitem causas naturais"... "os biólogos passaram a ficar cegos frente ao design que é óbvio..".
Parece que ele esqueceu completamente o principio que um monge franciscano do século 14, William de Occam (ou Ockham, como alguns preferem) estabeleceu: "pluralitas non est ponenda sine neccesitate" (pluralidades não devem ser postas sem necessidade), ou, em extenso, "as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão". Conhece-se entre nós, hoje, como a "Navalha de Occam", e é a base de toda a ciência moderna. O pesquisador Eberlin parece tê-lo esquecido, o tal vez prefira ignorá-lo.
Parece também desconhecer que o método científico requer que as hipóteses (ou teorias, que nada mais são que sistemas integrados de hipóteses) possam ser testáveis. Por testáveis entende-se que possam ser contrastados com novos fatos, experiências ou observações. No território da ciência nunca uma hipótese pode ser considerara comprovada ou demonstrada. Apenas não foi (ainda) refutada. É o que conhecemos como Método Hipotético-dedutivo, formalizado (mas não “inventado”) por Karl Popper na década de 1930. Juntamente com os desenvolvimentos posteriores de outros epistemólogos, como Thomas Kuhn e Imre Lakatos, dentre muitos, formam o núcleo do método científico moderno.
Assim, o “sobrenatural” não pode fazer parte de uma explicação cientifica. Não tem lugar no método cientifico, o qual não começou, como Eberlin afirma, no século XIX, mas na alta Idade Media, e nada menos que da mão de um monge franciscano. A invocação do sobrenatural para explicar fenômenos naturais viola o principio na Navalha de Occam alem de, obviamente, não ser passível de ser testada. Ou seja, o DI não pode ser visto como Ciência sob qualquer concepção possível da mesma.
Sempre achei admirável que Charles Darwin, em A Origem das Espécies, constantemente apresentava pistas sobre como a hipótese que estava propondo poderia ser refutada. Um nível de honestidade e coragem intelectual difícil de ser encontrado, tanto então como hoje em dia. Não é possível encontrar esse tipo de atitude em qualquer das publicações e propostas do Design Inteligente, possivelmente porque eles sabem bem que não passariam pelo teste. Trata-se de uma crença com fundamentação religiosa, não de ciência.
A admissão de que na ciência nada pode ser provado ou demonstrado (doem meus ouvidos só de lembrar o discurso de Crivela) pode parecer uma fraqueza ou fragilidade aos apressados, desinformados ou mal intencionados. De fato, os proponentes das diversas formas de criacionismo, o DI detre eles, usam esse argumento repetidamente, na absurda pretensão de demonstrar a superioridade da sua própria proposta. Muito pelo contrario, a suposta fragilidade é, na verdade, a própria fortaleza do método, que por sua provisoriedade permite sua constante revisão, correção e permanente aperfeiçoamento. Os “métodos” baseados no sobrenatural não permitem isso. Eles baseiam-se em revelações, ou pressupostos inquestionáveis, imutáveis. Não existe possibilidade de revisão ou discussão, de crescimento. Tudo esta "escrito", mas esta de fato, morto.
Esclareço, enfaticamente, que isto não pretende ser um ataque à religiosidade. Eu não sou religioso hoje, mas já o fui. Católico praticante. Nunca acreditei e ainda não acredito que exista necessariamente conflito entre religiosidade e ciência, menos ainda que um cientista deva ser necessariamente ateu. Eu não sou ateu. Não porque acredite que de fato exista um ser superior, mas apenas porque do mesmo modo que não posso afirmar que tal ser exista, não posso negar a sua existência. Apenas não sei, ponto final. Chamem-me de agnostico, se preferirem. No fundo, para ser ateu é necessária tanta fé como pare ser crente.
Vários cientistas viveram religiosidades ativas. Tal vez o exemplo mais notáveis seja Theodosius Dobzhansky (
http://en.wikipedia.org/wiki/Theodosius_Dobzhansky), católico praticante e um dos mais destacados proponentes da chamada Teoria Sintética da Evolução, e quem cunhou a frase celebre “Nothing in Biology makes sense except in the light of Evolution” (Nada em Biologia tem sentido a não ser à luz da evolução). 
Mas o que vejo no avanço do criacionismo, o Design Inteligente entre suas muitas formas, é um retrocesso brutal, uma tentativa anacrônica e perigosa de controle sobre a liberdade de pensamento necessária não apenas para a ciência, mas ao espírito humano, que tem o dever de questionar abertamente tudo. É a imposição de um tipo de fundamentalismo que pouco difere, em essência, dos que conhecemos no Oriente próximo. Faz parte de um corpo difuso e muito atuante de ameaças de invasões à laicidade do Estado e a liberdade de pensar. 
Um fundamentalismo que nem sempre esta ligado à religião no sentido estrito do termo. É o mesmo tipo de fundamentalismo que ditaduras ideológicas de direita, esquerda o qualquer signo impõem, impedindo o dissenso do qual, normalmente, se utilizaram para aceder ao poder, disfarçando-se de campeões da liberdade, como Khomeini o fez para obter ajuda dos governos ocidentais para tomar o poder no Irã, apenas para fecha-lo depois.
Mas, como, em pleno século XXI, rodeados de todas as evidências de que o processo científico, com todas suas falhas, funciona e quando esses avanços já foram desmascarados até nos tribunais do pais onde se originaram (ver acima), pode isso estar acontecendo?
Pois bem, em grande parte é nossa culpa, entanto que professores e formadores. O que tem permitido este avanço é, no meu entender, a substituição nos currículos escolares do tempo dedicado às práticas que “ensinam a pensar” por disciplinas que despejam conteúdos, sob a justificativa de que a quantidade de conhecimento é muito grande e é necessário leva-lo aos alunos. Isso vale tanto para a escola básica, fundamental tanto como para a universidade, na graduação e na pós-graduação.
Na universidade fazemos de nossos alunos “pesquisadores mecânicos”, que aprendem a operar instrumentos, a conduzir análises, mas que não realmente entendem o que estão fazendo. Parece que a ciência pode ser feita como "andar de bicicleta", sem pensar muito, enquanto você siga os seus “reflexos” e “treinamento”. É claro que isso é falso! Pensar criticamente é condicio sine qua non, não apenas para fazer ciência, mas para ser um cidadão consciente e participativo. 
É necessário trocar um pouco do tempo dedicado ao conteúdo, que por outro lado muda constantemente, a favor de “aprender a pensar”. Isso não se consegue apenas introduzindo disciplinas como filosofia ou epistemologia no currículo, mas com a prática do pensamento crítico, estimulando seu uso em cada aspecto do processo de aprendizado. O que aparentemente pode ser considerado o sacrifício de certos conteúdos, será, a meu ver, um ganho que permitirá o “aprender a pensar”.
Da mais trabalho, é claro. Precisamos nos mesmos, professores, aprender a lidar com o questionamento e com o dissenso dos nossos alunos, que nem sempre será correto e nem justificado, mas mesmo assim parte do seu (e nosso) crescimento. Assim não só contribuiremos com que nossos alunos sejam melhores cientistas, mas, principalmente, melhores pessoas, as que não permitirão que o poder seja usurpado por aqueles que querem apenas seu voto, seu dinheiro e, sobre tudo, sua liberdade.