terça-feira, 3 de abril de 2012

DESIGN INTELIGENTE: EVOLUCIONISMO ou CRIACIONISMO?

Retirado, sob autorização, do Blog do Mestre Chassot.


Design inteligente (Desenho Inteligenteou Projeto Inteligente, em inglêsIntelligent Design) propõe que "certas características do universo e dos seres vivos são mais bem explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado como a seleção natural"; e que"é possível a inferência inequívoca de projeto sem que se façam necessários conhecimentos sobre o projetista, seus objetivos ou sobre os métodos por esse empregados na execução do projeto" (Wikipédia).

primeira cena: A Criação de Adão é um afresco de 280 cm x 570 cm, pintado por Michelangelo Buonarotti por volta de 1511, que figura no teto da Capela Sistina. Representa um episódio do Livro do Gênesis no qual Deus cria o primeiro homem: Adão. A segunda é uma releitura da primeira, iluminada por proposta da ‘criação como obra de um projetista’;
Em um dia da envolvente semana que passou, recebi a seguinte chamada no Facebook: "Boa noite Attico, gostaria de saber o que opinas sobre este meu postwww.facebook.com/cozzuol/ posts/3588286384509recente. Prezo muito tua opinião. Abraços, Mário
O Mario Alberto Cozzuol, que conheço há cerca de dez anos, é um querido amigo argentino, que viveu há um tempo em São Leopoldo, enquanto eu era professor na Unisinos, quando tive o privilégio de ter sido acolhido em sua casa para bons papos. Ele é Doutor em Ciências Naturais pela Universidad Nacional de La Plata, Argentina, em 1993. É professor da Universidade Federal de Minas Gerais, no Instituto de Ciências Biológicas. Os seus interesses de pesquisa são Paleontologia de Vertebrados do Cenozoico da América do Sul, com ênfase em mamíferos.
No dia seguinte escrevi: Estimado amigo Mário, li e refleti encantado sobre teu texto. Maravilhei-me. Desconhecia o Mario polemista e me sinto privilegiado poder-te chamar de amigo. Adiro a sugestões daqueles que te estimulam publicar este texto. Com emocionados cumprimentos a admiração do achassot
Lateralmente, a meu pedido ele concordou, em partilhar com os leitores deste blogue, seu texto. Assim começo cumprir agora o anunciado ontem. Com a palavra o Mario:

Recentemente participei de uma conversa no Facebook sobre as declarações do Ministro Crivela (Pesca) criticando a Teoria da Evolução biológica e do seu apoio ao criacionismo. Nela ele mostra um profundo desconhecimento do que é e como funciona a ciência, assim como tudo o que com ela tem sido construído. (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9jsceSCCZJA)
Na discussão ao redor das declarações de Crivela sobre a teoria da Evolução, se levantou o nome do Dr. Marcos Eberlin, professor titular da UNICAMP, pesquisador da área de Química. 
O caso do Eberlin é, no meu ver, muito pior que o de Crivela porque ele usa da sua posição na Academia Brasileira de Ciências (ABC), na UNICAMP, de ser pesquisador 1A do CNPq e de outros títulos e prêmios para promover o Design Inteligente (DI). 
De Crivela, ninguém mais espera muito, no fim o descrédito da classe política é grande e ele é declaradamente membro da "bancada evangélica", embora me preocupe a possibilidade de impor ideias desse tipo por força de lei, como tentado no Rio de Janeiro na “era Garotinhos”. Mas o Eberlin tem declarado que muitos dos seus colegas da ABC pensam como ele, mas não se atrevem a falar, e que ele é o porta-voz (mas vejam este link na página oficial da ABC:
http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=1874). 
A especialidade do Eberlin, químico, é Espectrometria de Massa. Nada a ver com Biologia e muito menos com Evolução. Suas credenciais como químico, muito relevantes na sua área, certamente, não o habilitam, de forma alguma, a falar sobre Evolução. No seu currículo não consta nenhum trabalho publicado ou projeto relacionado com o tema. Curiosamente ele também não incluiu no seu Currículo Lattes (o sistema de currículo oficial do CNPq, 
http://lattes.cnpq.br/9866858833240787) seu livro sobre DI (http://www.fomosplanejados.com.br/), talvez porque deseje manter separado esse lado da sua vida do seu perfil profissional. O interessante é que ele sim utiliza sua vida profissional para promover o DI (http://www.marcoseberlin.com.br/index.html).
A estratégia do grupo ao qual Eberlin declara pertencer o Núcleo Brasileiro de DI, é tentar se distanciar do criacionismo clássico (
http://www.comciencia.br/presencadoleitor/artigo15.htm,http://www.entrevistas.criacionismo.com.br/2010/05/professor-da-unicamp-defende-design.html). Mas esta estratégia já mais do que foi desmascarada, no Brasil (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=26339) e no exterior (http://www.msnbc.msn.com/id/10545387/ns/technology_and_science-science/t/judge-rules-against-intelligent-design/#.T2AnkbbAzCc). O Design Inteligente não passa de uma tentativa em restabelecer o criacionismo e a crença religiosa como dominantes, travestindo-o como ciência no sentido de provocar a menor rejeição possível no caminho. 
Mas o mais preocupante é que tanto nas declarações de Crivela como nas de Eberlin, mostra-se o mesmo desconhecimento sobre a forma que o método científico funciona. Se isso já não é aceitável para um ministro de Estado, é absolutamente imperdoável para um cientista.
Eberlin alega que "o sobrenatural é uma explicação óbvia para os fenômenos naturais, é a causa da harmonia dos átomos, dos planetas e do design de todas as formas de vida da natureza", e ainda "a ciência estava muito bem, até que no século 19 passaram a usar a religião do naturalismo filosófico, só admitem causas naturais"... "os biólogos passaram a ficar cegos frente ao design que é óbvio..".
Parece que ele esqueceu completamente o principio que um monge franciscano do século 14, William de Occam (ou Ockham, como alguns preferem) estabeleceu: "pluralitas non est ponenda sine neccesitate" (pluralidades não devem ser postas sem necessidade), ou, em extenso, "as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão". Conhece-se entre nós, hoje, como a "Navalha de Occam", e é a base de toda a ciência moderna. O pesquisador Eberlin parece tê-lo esquecido, o tal vez prefira ignorá-lo.
Parece também desconhecer que o método científico requer que as hipóteses (ou teorias, que nada mais são que sistemas integrados de hipóteses) possam ser testáveis. Por testáveis entende-se que possam ser contrastados com novos fatos, experiências ou observações. No território da ciência nunca uma hipótese pode ser considerara comprovada ou demonstrada. Apenas não foi (ainda) refutada. É o que conhecemos como Método Hipotético-dedutivo, formalizado (mas não “inventado”) por Karl Popper na década de 1930. Juntamente com os desenvolvimentos posteriores de outros epistemólogos, como Thomas Kuhn e Imre Lakatos, dentre muitos, formam o núcleo do método científico moderno.
Assim, o “sobrenatural” não pode fazer parte de uma explicação cientifica. Não tem lugar no método cientifico, o qual não começou, como Eberlin afirma, no século XIX, mas na alta Idade Media, e nada menos que da mão de um monge franciscano. A invocação do sobrenatural para explicar fenômenos naturais viola o principio na Navalha de Occam alem de, obviamente, não ser passível de ser testada. Ou seja, o DI não pode ser visto como Ciência sob qualquer concepção possível da mesma.
Sempre achei admirável que Charles Darwin, em A Origem das Espécies, constantemente apresentava pistas sobre como a hipótese que estava propondo poderia ser refutada. Um nível de honestidade e coragem intelectual difícil de ser encontrado, tanto então como hoje em dia. Não é possível encontrar esse tipo de atitude em qualquer das publicações e propostas do Design Inteligente, possivelmente porque eles sabem bem que não passariam pelo teste. Trata-se de uma crença com fundamentação religiosa, não de ciência.
A admissão de que na ciência nada pode ser provado ou demonstrado (doem meus ouvidos só de lembrar o discurso de Crivela) pode parecer uma fraqueza ou fragilidade aos apressados, desinformados ou mal intencionados. De fato, os proponentes das diversas formas de criacionismo, o DI detre eles, usam esse argumento repetidamente, na absurda pretensão de demonstrar a superioridade da sua própria proposta. Muito pelo contrario, a suposta fragilidade é, na verdade, a própria fortaleza do método, que por sua provisoriedade permite sua constante revisão, correção e permanente aperfeiçoamento. Os “métodos” baseados no sobrenatural não permitem isso. Eles baseiam-se em revelações, ou pressupostos inquestionáveis, imutáveis. Não existe possibilidade de revisão ou discussão, de crescimento. Tudo esta "escrito", mas esta de fato, morto.
Esclareço, enfaticamente, que isto não pretende ser um ataque à religiosidade. Eu não sou religioso hoje, mas já o fui. Católico praticante. Nunca acreditei e ainda não acredito que exista necessariamente conflito entre religiosidade e ciência, menos ainda que um cientista deva ser necessariamente ateu. Eu não sou ateu. Não porque acredite que de fato exista um ser superior, mas apenas porque do mesmo modo que não posso afirmar que tal ser exista, não posso negar a sua existência. Apenas não sei, ponto final. Chamem-me de agnostico, se preferirem. No fundo, para ser ateu é necessária tanta fé como pare ser crente.
Vários cientistas viveram religiosidades ativas. Tal vez o exemplo mais notáveis seja Theodosius Dobzhansky (
http://en.wikipedia.org/wiki/Theodosius_Dobzhansky), católico praticante e um dos mais destacados proponentes da chamada Teoria Sintética da Evolução, e quem cunhou a frase celebre “Nothing in Biology makes sense except in the light of Evolution” (Nada em Biologia tem sentido a não ser à luz da evolução). 
Mas o que vejo no avanço do criacionismo, o Design Inteligente entre suas muitas formas, é um retrocesso brutal, uma tentativa anacrônica e perigosa de controle sobre a liberdade de pensamento necessária não apenas para a ciência, mas ao espírito humano, que tem o dever de questionar abertamente tudo. É a imposição de um tipo de fundamentalismo que pouco difere, em essência, dos que conhecemos no Oriente próximo. Faz parte de um corpo difuso e muito atuante de ameaças de invasões à laicidade do Estado e a liberdade de pensar. 
Um fundamentalismo que nem sempre esta ligado à religião no sentido estrito do termo. É o mesmo tipo de fundamentalismo que ditaduras ideológicas de direita, esquerda o qualquer signo impõem, impedindo o dissenso do qual, normalmente, se utilizaram para aceder ao poder, disfarçando-se de campeões da liberdade, como Khomeini o fez para obter ajuda dos governos ocidentais para tomar o poder no Irã, apenas para fecha-lo depois.
Mas, como, em pleno século XXI, rodeados de todas as evidências de que o processo científico, com todas suas falhas, funciona e quando esses avanços já foram desmascarados até nos tribunais do pais onde se originaram (ver acima), pode isso estar acontecendo?
Pois bem, em grande parte é nossa culpa, entanto que professores e formadores. O que tem permitido este avanço é, no meu entender, a substituição nos currículos escolares do tempo dedicado às práticas que “ensinam a pensar” por disciplinas que despejam conteúdos, sob a justificativa de que a quantidade de conhecimento é muito grande e é necessário leva-lo aos alunos. Isso vale tanto para a escola básica, fundamental tanto como para a universidade, na graduação e na pós-graduação.
Na universidade fazemos de nossos alunos “pesquisadores mecânicos”, que aprendem a operar instrumentos, a conduzir análises, mas que não realmente entendem o que estão fazendo. Parece que a ciência pode ser feita como "andar de bicicleta", sem pensar muito, enquanto você siga os seus “reflexos” e “treinamento”. É claro que isso é falso! Pensar criticamente é condicio sine qua non, não apenas para fazer ciência, mas para ser um cidadão consciente e participativo. 
É necessário trocar um pouco do tempo dedicado ao conteúdo, que por outro lado muda constantemente, a favor de “aprender a pensar”. Isso não se consegue apenas introduzindo disciplinas como filosofia ou epistemologia no currículo, mas com a prática do pensamento crítico, estimulando seu uso em cada aspecto do processo de aprendizado. O que aparentemente pode ser considerado o sacrifício de certos conteúdos, será, a meu ver, um ganho que permitirá o “aprender a pensar”.
Da mais trabalho, é claro. Precisamos nos mesmos, professores, aprender a lidar com o questionamento e com o dissenso dos nossos alunos, que nem sempre será correto e nem justificado, mas mesmo assim parte do seu (e nosso) crescimento. Assim não só contribuiremos com que nossos alunos sejam melhores cientistas, mas, principalmente, melhores pessoas, as que não permitirão que o poder seja usurpado por aqueles que querem apenas seu voto, seu dinheiro e, sobre tudo, sua liberdade.




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