quinta-feira, 28 de agosto de 2014

É a ciência capitalista e machista ou comunista e feminista-gayzista?

Quem me conhece sabe, sou um apaixonado por ciência (ao ponto de, às vezes, me tornar chato por buscar uma explicação científica para tudo, como salientou minha mulher, dia desses), como tal, assim como para minha deficiência em aceitar falácias, é-me doloroso assistir aos ataques desferidos contra a ciência. Não me entenda mal! Não só acho plenamente aceitável como muito saudável ter uma atitude questionadora quanto a qualquer coisa, e isso principalmente com o conhecimento científico, mas dói-me sinceramente quando isso é feito através de falácias ou do pouco conhecimento!
Quer um exemplo? Afinal, a ciência é capitalista ou comunista? Depende... se a ciência lhe contrariar e você for capitalista, ela é obviamente comunista, se ela lhe contrariar e você for comunista, ela é obviamente capitalista...
Se você duvida, basta ver a questão do aquecimento global por emissão de carbono. Nos Estados Unidos, a direita tem constantemente propagandeado que toda a questão do aquecimento global é uma forma que os comunistas encontraram para reduzir a produção industrial e, assim, tirar o direito do povo de consumir; já no Brasil é comum ver-se socialistas clamando que o aquecimento global é uma farsa montada pelo capitalismo para impedir que os países do terceiro mundo consigam se desenvolver e deixem de ser dependentes economicamente.
Mas como diria o esquartejador, vamos por partes.

Ciência de esquerda

Olavo de Carvalho
Na extrema direita, o exemplo mais caricato que conheço é o Olavo de Carvalho, o “filósofo da quarta série”. Em seus pronunciamentos é comum vermos seus duros ataques aos baluartes da ciência, e não pense que somente em temas “polêmicos” (entre aspas por que só é polêmico entre leigos, não para a ciência) como o evolucionismo. O astrólogo católico também ataca temas como heliocentrismo ou mesmo a mecânica newtoniana, para ele fonte de “uma burrice formidável”. Olavo (e boa parte da direita política) não tem dúvidas, a ciência é uma mentira criada por comunistas e feministas-gayzistas para afastar a humanidade do caminho reto, que passa pelo retorno da Inquisição que, segundo ele, não promoveu um atraso no desenvolvimento científico, e pela elevação da astrologia a estudo científico. O mais interessante, porém, é que Olavo pretende derrubar o conhecimento científico usando apenas e tão somente a filosofia.

Entretanto, se é um dos mais caricato, o filósofo-astrólogo e o catolicismo de direita não estão sós nessa jornada! A ciência é comumente atacada por protestantes também, para quem a ciência é uma armação de Satanás, pregando a dissolução das famílias, a filosofia gay, o hedonismo, o satanismo... É comum ver tais afirmações em discursos de pastores evangélicos, tais como Silas Malafaia ou o ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados, pastor Marco Feliciano.


Ciência opressora machista


Pierre Bourdieu
Mas realmente a ciência é comunista e feminista? Essa não é a opinião, por exemplo, de Attico Chassot, para quem a ciência é essencialmente capitalista e machista; Chassot, que é professor e pesquisador da IPA, tem até um livro que se chama “A Ciência é Masculina? É Sim Senhora!”.
Chassot, entretanto, não é exceção, o movimento conhecido como pós-modernismo prega abertamente que a ciência é uma construção humana e social que não apresenta nenhum conhecimento especial, devendo ser posta no mesmo nível de qualquer outra construção social, e isso incluiria aquilo que hoje conhecemos como superstição.

Para os pós-modernos, a ciência é opressora das minorias, fazendo-o tanto de forma velada através de simbologia e da violência simbólica, como quer Pierre Bourdieu (alguns pós-modernistas, por exemplo, afirmam que o tubo de ensaio é um símbolo fálico da dominação masculina no laboratório), quanto da formação de falsas verdades que justificariam a dominação capitalista e machista.

Para esse movimento, a biologia seria um espaço onde as desigualdades entre os sexos (leia-se o machismo) seriam naturalizadas através de pesquisas que demonstram, por exemplo, que o cérebro masculino e feminino são estruturalmente distintos.

Ciência e cientistas

Um martelo não é de direita ou esquerda
“Mas afinal”, talvez você esteja se perguntando, “de que lado você fica nessa luta?”. Eu, caro leitor, cara leitora, fico do lado da ciência.
Explico, a ciência é uma ferramenta para descoberta e desenvolvimento de conhecimento e tecnologia; a ciência é sim um constructo humano, como querem os pós-modernos, mas a ciência em si é neutra; a ciência não é machista, mas tampouco é feminista; a ciência não é capitalista, mas tampouco é socialista! Afirmar que a ciência carrega, em si, uma ideologia é o mesmo que dizer que um martelo usado para reformar Wall Street é capitalista ou que a cadeira onde o Fidel Castro senta é comunista. A ciência é neutra; cientistas, como qualquer outro ser humano, têm paixões!
E mais, há sim cientistas capitalistas, e há cientistas comunistas, assim como cientistas que são anarquistas (um bom exemplo é Greg Graffin, antropólogo e geólogo, além de anarquista e fundador da banda Bad Religion).
Há cientistas ateus sim, assim como há cientistas cristãos, budistas, islâmicos, neopagãos, etc. Sim, uma parte considerável dos cientistas é ateu, mas não por que a ciência pregue o ateísmo (a ciência não “prega” nenhuma doutrina ou filosofia religiosa), e sim por que sendo cientista você naturalmente tende a ser racional (a ciência é baseada em observação e racionalidade), e sendo racionalista você tende a não se enquadrar na maioria das visões metafísicas de mundo, que são baseadas na fé, e não na razão.
Sim, há cientistas machistas, assim como há cientistas feministas, há cientistas gays e lésbicas, há cientistas assexuados...

Panaceia

Panaceia: deusa da cura
O que precisamos compreender, de acordo com minha opinião, é que tais ideias detratoras à ciência são baseadas no poder que a ciência tem em mostrar que argumentos têm ou não fundamento no mundo real.
Pensemos; se você é um religioso fundamentalista deve realmente ser muito doloroso quando pesquisas científicas demonstram que você não está correto quando afirma, por exemplo, que o mundo surgiu em seis dias, que as espécies surgiram todas prontas, que houve um dilúvio universal, que é possível curar possessões demoníacas com medicamentos, etc.
Se você é socialista, deve ser frustrante quando a ciência demonstra que “o bom selvagem” não existe e que talvez exista sim muito de determinismo nas atitudes humanas e na forma como as sociedades se estruturaram, mas por outro lado se você for capitalista talvez fique contrariado quando a ciência demonstra que a natureza não é somente competição, mas muito de colaboração.
Se você for feminista deve ser irritante quando a ciência lhe diz que existem sim diferenças entre homens e mulheres, que homens são estatisticamente mais habilitados a algumas atividades, enquanto mulheres são estatisticamente mais habilitadas a outras, quando pesquisas apontam que a personalidade não depende tanto do ambiente quanto você afirma, relegando uma imensa carga aos genes ou quando demonstra que machos no comando são comuns (embora hajam exceções) em nossos primos primatas. Já se você defende a homofobia ou a superioridade masculina, deve ser frustrante ver pesquisas que demonstram que o homossexualismo é natural (no sentido de que existe na natureza), ou que a ciência não vê como superior a mente masculina ou feminina, embora como distintas.
Com tudo isso, então, a ciência prega que a religião deva acabar, que a homofobia ou o machismo estão certos ou errados ou que o capitalismo ou o socialismo estão corretos? Não! À ciência cabe demonstrar, através de modelos, aproximadamente como o mundo funciona (em uma aproximação que progride a cada nova descoberta), cabe desenvolver novas tecnologias para velhos e novos problemas, não a fazer juízos morais.
Cabe à ciência não cabe dizer, por exemplo, se o aborto é certo ou errado, embora possa demonstrar que fetos sem sistema nervoso central não têm como sentir dor; à ciência não cabe dizer se você deve ser cristão ou ateu, embora possa demonstrar que uma cura miraculosa foi causada por efeito placebo; à ciência não cabe dizer que o correto é o machismo, embora possa demonstrar que homens têm estatisticamente maior inteligência espacial, assim como não pode afirmar que o feminismo está correto, embora possa demonstrar que o cérebro feminino consiga, na média, atentar mais a detalhes e ter maior inteligência interpessoal. Não cabe à ciência dizer que a homofobia é certa ou errada, embora ela possa dizer que homossexualismo tem um forte componente genético... E sobretudo a ciência não pode dizer se você deve consumir ou se deve ser independente dos grandes países, mas com certeza ela pode demonstrar que o mundo está se aquecendo, e que há fortes evidências de que isso está acontecendo por ação antrópica.
Em suma, ciência é sim uma construção humana como qualquer outra, mas em sua tarefa de explicar o mundo físico e desenvolver novas tecnologias é insuperável, em outras palavras, para o fim a que a ciência se destina ela funciona, e de uma forma superior às outras ferramentas desenvolvidas pelo homem; em suma, um martelo pode ser somente uma ferramenta desenvolvida pelo homem, mas ainda assim é a melhor ferramenta que desenvolvemos para pregar.

Isso não significa, entretanto, que a ciência seja uma panaceia, que sozinha possa responder a todos os anseios humanos, que possa dizer qual deva ser sua filosofia de vida, sua visão religiosa ou em quem você deve votar na próxima eleição; para todas essas questões, cientistas têm as mais diversas visões, mas todas baseadas em outras ferramentas construídas pelo homem para esses fins específicos, e não na ciência.

Um comentário:

  1. Excelente txto cara, Não sabia que vc escrevia, ta de parabens..

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