domingo, 24 de abril de 2011

Pequeno dicionário prisional


Todos os grupos humanos têm uma linguagem própria, seja ela formada de termos técnicos, de gírias ou de ambos.
Por exemplo, é quase impossível ver um médico dizendo que o paciente está com problemas “na buchada”, ou um militar chamando um projétil de ‘bala’, ou um político falando ‘mentira’ ao invés de ‘inverdade’; da mesma forma, você não ouvirá um traficante falando em cocaína, mas em ‘farinha’ ou ‘açúcar’; um marinheiro sempre irá se referir a bombordo e estibordo e não ao lado esquerdo e direito do navio, e um economista geralmente pronunciará  ‘valores monetários’ e não ‘dinheiro’.
O sistema prisional não foge à regra. Temos aqui gírias e termos para muitas coisas, nomes esses totalmente estranhos ao restante da população. Vou aqui expor brevemente esses termos, tanto a título de curiosidade quanto pelo fato de que, para manter o colorido do mundo cinza da carceragem, muitos deles serão usados em meus textos sobre o assunto.
Formado principalmente por uma aglutinação de termos policiais, técnicos e da bandidagem, a linguagem usada é curiosamente semelhante nos dois lados da grade, fruto da convivência diária entre agentes e presos.
Se você for um agente ou um preso, por exemplo, dificilmente dirá que fulano enlouqueceu, pirou ou qualquer outro termo comum, você se referirá, quase certamente, ao termo ‘dezoito’. Oriundo do código de comunicação da Brigada Militar gaúcha, o termo virou verbo (fulano ‘endezoitou’), adjetivo (ciclano é dezoito) e substantivo (o dezoito da cela tal).
Da mesma forma, em geral não se usam os nomes dos crimes, e sim o número do artigo correspondente no Código Penal Brasileiro.
Quando alguém foi preso por roubo, por exemplo, diz-se que beltrano é um-cinco-sete (um-cinco-cinco no caso de furto); assassinos são chamados de cento-e-vinte-e-um. Um caso especial é o de crimes de violência sexual (213 e 214 no Código Penal); nesses casos, diz-se que o preso em questão é ‘duque’, uma herança da linguagem do jogo-do-bicho, onde a centena dois é assim designada. Aliás, se você quiser saber por que determinado elemento está preso, o normal não é perguntar qual o seu artigo, mas qual sua ‘bronca’.
Outros crimes recebem uma designação mais próxima do nome comum. Tráfico, por exemplo, é uma denominação comum, mas também são chamados de ‘tóxicos’ (em boa parte das vezes com a prunúncia ‘tóchicos’).
Já os presos cíveis, recolhidos por débito de pensão alimentícia, muitas vezes recebem o nome de ‘leitinho’, numa alusão ao ‘leite das crianças’ que ele deixou de pagar.
Informantes ou quem denuncia, recebe o epíteto de cagüete, X-9, dedo-duro... pelos agentes são conhecidos como ‘perdigueiros’.
Para a bandidagem, cada uma das forças policiais é chamada por um animal símbolo. Os brigadianos, por exemplo, são os ‘porcos’, os policiais civis federais e estaduais são os ‘ratos’ e os agentes penitenciários são os ‘toupeiras’, numa alusão ao animal que passa a vida emburacado. Já os guardas, comumente, chamam os presos de ‘vagabundo’ ou de ‘cuiudo’.
Os um-cinco-sete, em geral não ‘assaltam’ fulano, eles ‘metem’ fulano e geralmente não andam armados, andam ‘maquinados’.
Faca artesanal (que os presos incrivelmente fazem de qualquer pedaço de metal que lhes caia nas mãos) é chamada de ‘estoque’, mesmo que tenha fio e não sirva somente para estocar.
Corda artesanal, usada com gancho para escalar muros ou paredes em fugas é ‘jibóia’.
Armas-de-fogo artesanais (falarei melhor sobre as armas e instrumentos em outro capítulo) são chamados ‘trabucos’.
Comida, em geral é chamada de ‘bita’, de onde o verbo ‘bitiar’, usado dos dois lados da grade para substituir o verbo ‘comer’.
Como em qualquer lugar onde há um grande grupo de homens (isso inclui exército, times de futebol e oficinas mecânicas), a empulhação é comum, com a diferença que os presos em geral não têm assim, tanto bom humor, podendo mesmo uma brincadeira acabar em muita violência ou até em morte. Assim, qualquer coisa que tenha um formato mesmo que vagamente fálico ou que de alguma forma possa lembrar órgãos sexuais ou a atividade sexual em si têm seu nome suprimido, afinal, ninguém quer passar por homossexual (apelidados de ‘guris’).
Ninguém, por exemplo, fala ovos, mas ‘semente’ (de galinha) ou ‘zoião’. Leite é ‘derivado’; banana é somente ‘semente de macaco’.
Quanto a esta última, inclusive, é comum não comê-la inteira, mas quebrando-a aos pedaços, pois de outra forma isso poderia ser interpretado como um simulacro de sexo oral.
Aliás, sexo oral, por aqui, é chamado de ‘chimarrão’; dei um chimarrão para fulana, por exemplo, significa que a dita fulana me fez uma felação. Assim, ninguém por aqui diz que vai tomar chimarrão quando vai sorver a bebida típica dos gaúchos, mas sim que vai tomar uma ‘cuia’.
Comum entre os presos é não dizer que está ‘farto’ de algo, mas sim ‘legal’. “Bah, seu, já to legal de cadeia”, traduzido significa, aproximadamente, “não agüento mais estar preso”.
Em geral não se diz que alguém está de sacanagem ou desrespeitando-nos, mas sim que está ‘de pegadinha’.
Um termo com mais de um uso é ‘cachorro’, que é usado tanto para designar engodo (passar o cachorro em alguém), quanto para designar um esporro (fulano me cachorreou). No primeiro sentido, usa-se também para designar o cadeado que está na tranca mas não está fechado (está no cachorro). Além disso, cadeado em cadeia não se fecha, se ‘bate’ e não se pede para abrir a porta para sair, pede-se um ‘hábeas’.
Usa-se, ainda, o termo cu-de-cachorro, para designar pessoa de baixa moral, a quem não estimamos ou que seja considerada incompetente; aliás, ‘considerada’ é o contrário, diz-se para uma pessoa que tem nossa estima, nossa admiração (fulano é meu considerado). Termo equivalente é ‘dos meus’ ou, em casos extremos, ‘dos meus confirmados’.
Um termo semelhante ao cu-de-cachorro é ‘chinelo’, que é tanto adjetivo quanto substantivo, além de ter criado adjetivo ‘chinelagem’.
‘Caiu a casa’ os presos usam quando algo não tem mais solução, quando tudo está perdido e ‘tá na mão’ é quando uma coisa está pronta ou disponível (tá na mão o café, seu)
Quando um preso está cadastrado em alguma tarefa dentro da cadeia (cozinha, limpeza, manutenção...) diz-se que o preso está ‘ligado’, semelhante foneticamente, embora com sentido totalmente diferente de ‘tá ligado?’, uma interjeição estremamente usual entre os detentos.
Assumir alguma coisa, puxar para si a responsabilidade, chama-se ‘abraçar’, e quem nada ‘abraça’ é chamado de ‘horácio’, em uma alusão ao simpático dinossauro criado pelo Maurício de Souza, que tem os bracinhos curtos, não podendo abraçar nada. No caso de quem nada abraça, também usa-se a expressão: ‘esse não abraça nem a mãe no aniversário’.
Preso chama juiz é chamado de ‘capa-preta’ e policial de ‘os home’, cumprir pena de ‘puxar cadeia’. Estar no regime fechado, sem saída externa, é estar ‘nas caixas’ ou ‘embretado’.
Exclusivo dos funcionários são os termos que designam o salário: ‘mixaria’, e o vale-alimentação, chamado carinhosamente de ‘vale-fome’, numa alusão bem humorada aos parcos vencimentos.
Embora não seja universal, já que a gíria muda de cadeia para cadeia e, principalmente, de região para região, na rua, embora às vezes algumas tribos urbanas como os hip-hops utilizem vários dos jargões cadeieiros, um ex-presidiário (especialmente se recente) é facilmente identificado por outros presos ou por funcionários pelo seu jeito particular de falar.
Um bom exemplo foi o do Albuquerque, agente penitenciário velho que tinha ido à capital para fazer uma perícia e livrou-se de um assalto quando escutou um rapaz dizer a outro ‘vamos meter esse véio’. Ao contrário de pensar em conotações homoeróticas como talvez faria uma pessoa comum, o Albuquerque foi logo saindo de fininho que facilitar nunca foi coragem.
Outro é o do Vieira, que estava voltando para casa de diária cochilando no ônibus, quando acordou sobressaltado com alguém lhe falando ao ouvido: “Caiu a casa, seu, na cadeia vocês são uns quantos e ‘tão maquinado, aqui é só nóis...”. O Vieira saltou do banco, sentidos todos prontos, um nó na imensa barriga e o arrependimento de ter deixado o 38 na bolsa, quando avistou o Zeca, outro agente penitenciário que se dobrava de rir do susto que pregara no colega. 

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