Deus fez só XX e XY?


Grato ao professor de ciências Ronan Franco, tanto pela sugestão, quanto por parte da referência e pelas sugestões no texto.

Não importa o que você pensa sobre a existência ou não de uma divindade ou sobre que divindade é essa, para efeito de argumentação, neste texto vamos usar a hipótese de que Deus existe, e mais, ele é o deus descrito na bíblia cristã, responsável pela criação do universo, da terra, da natureza e do homem e da mulher (Gênesis 1:1-28), o criador da luz, das trevas, da paz, do mal (Isaías 45:7), enfim, o ser que nos criou da forma que somos e à vontade do qual devemos obedecer (João 6:38), lembrando sempre que a vontade de deus é superior à nossa.
Com isso em mente, como biólogo devo analisar a natureza e compreende-la como deus criou, não como eu quero que ela seja, assim, causa-me estranheza quando alguns cristãos afirmam “Deus criou somente XX e XY”, se referindo aos cromossomos sexuais, a exemplo do deputado carioca Eduardo Bolsonaro (na foto de abertura do texto, segurando o cartaz); ok, talvez seja apenas desconhecimento, e não má vontade para com a Criação de Deus, assim sendo, vamos falar um pouco do que a biologia já sabe sobre tal criação.
Como quem frequentou uma escola sabe, nossas características físicas estão contidas no DNA, que é uma “receita” de nossa estrutura corpórea; o DNA é uma molécula extremamente longa, composta pela repetição de quatro nucleotídeos (adenina, timina, guanina e citosina) que se alternam. Nos eucariontes (seres com núcleo celular delimitado por carioteca), o DNA encontra-se numa forma semi-ordenada dentro do núcleo, enrolado em proteínas estruturais chamadas histonas, formando pequenos blocos chamados cromossomos. Os seres humanos, em geral, possuem 23 pares de cromossomos (veja imagem abaixo), sendo que os dois últimos são os chamados “cromossomos sexuais” ou “par XY”, que não possuem apenas os genes ligados a características sexuais (genes ligados à visão e à coagulação sanguínea, por exemplo, também se encontram nesses cromossomos), embora em geral nos seres humanos codifiquem também a definição do sexo biológico (XX para mulheres, XY para homens).
Conjunto dos 23 pares de cromossomos humanos
Sobre a definição do sexo, entretanto, o par XX/XY não vale para todo o reino animal, mas é comum em muitas espécies dioicas (ou seja, espécie em que os sexos estão separados em indivíduos diferentes), sendo a regra as fêmeas apresentarem dois cromossomos sexuais X (XX) e machos apresentarem um cromossomo X e um Y (XY); nos mamíferos em geral a condição default é a feminina, sendo que a determinação do sexo masculino depende de um gene específico localizado no cromossomo Y, o chamado gene SRY (Sex-Determining Region Y)1. Outras espécies animais, entretanto, não existe o cromossomo Y; nestas, os machos possuem um cromossomo X, enquanto as fêmeas possuem XX1. Outras espécies animais apresentam o que se chama “sistema ZW”, onde machos e fêmeas diferem assim como os mamíferos, porém são as fêmeas (ZW) que possuem dois cromossomos distintos, e não os machos (ZZ) 1. Mas ok, eu sei que tais pessoas, quando falam que deus criou somente XX e XY estão se referindo a seres humanos, e não ao resto da criação, assim, no resto do texto vamos nos ater ao sistema XY dos humanos.
Estatisticamente, a maioria dos seres humanos apresenta o par XX ou XY, implicando nascer com órgãos sexuais masculinos ou femininos, mas mesmo este par pode apresentar anomalias as quais, conforme vimos no primeiro parágrafo, são fruto da vontade de Deus e como tal devem ser respeitadas. A primeira delas é o hermafroditismo, sendo este dividido em hermafroditismo verdadeiro (quando a criança nasce com os dois órgãos sexuais bem formados), pseudo-hermafroditismo feminino (mulheres com tecido ovariano normal, porém com genitália externa ambígua ou masculina) e pseudo-hermafroditismo masculino (homem com genitália externa feminina ou incompletamente masculinizada), sendo que, nestes três casos, muitas vezes, está presente o par XY embora o fenótipo sexual não seja o estatisticamente padronizado2.
Mas Deus não quis apenas criar hermafroditas com pares XX/XY, Deus resolveu experimentar mais e criou toda uma gama de possibilidades com os dois cromossomos sexuais, a tal ponto que uma estimativa diz que uma em cada mil pessoas tem algum tipo de alteração destas2. Dentre as alterações criadas por Deus, temos o X0, conhecido como Síndrome de Turner, onde a pessoa tem apenas um cromossomo X (estimativa de 1 em cada 2.500 nascimentos9)3, temos ainda a Síndrome de Klinefelter, onde os pares podem variar entre XXY, XXYY, XXXY, XXXYY, XXXXY (estimativa de 1 em cada 500 nascimentos de meninos e de 1 em cada 50.000 nascimentos de meninas)4; a Síndrome de Jacobs, onde o par é na verdade um trio XYY5 (estimativa de 1 em cada 1.000 nascimentos); a síndrome do triplo X, onde há trissomia ou polissomia do cromossomo X (XXX ou XXXX) (estimativa de 1 a cada 1.000 nascimentos)6; a Síndrome de Morris, que consiste de mulheres que nascem com o par XY (estimativa de 1 em cada 25.000 nascimentos)7; e a Sindrome De La Chapelle, que consiste de homens que nascem com o par XX (estimativa de 1 em cada 20.000 nascimentos)8 (veja infográfico abaixo).


Ou seja, Deus não apenas fez bem mais do que XX e XY determinando homens e mulheres como também determinou que pelo menos uma em cada mil mulheres e um em cada 500 homens nasça com algo diferente disto; se Deus criou assim, quem somos nós para criticar, não é mesmo? Além disso tudo, está cada vez mais claro que há influência genética (não confundir influência com determinação genética) ou epigenética (herança epigenética é a transmissão de experiências ocorridas com os pais para os filhos e que não ocorre através do DNA) na orientação sexual10, ou seja, embora conheçamos ainda um “gene gay” (embora a região XQ28, situada na ponta do cromossomo X, que contém diversos genes, seja uma forte candidata17, com indicações de que todo mundo teria um ‘gene gay’ mas ele só se manifestaria se um grupo metil se ligasse a regiões específicas do DNA19) interações entre diversos genes e o ambiente (por ambiente não se deve entender ‘criação dos pais’ ou ‘brincar com bonecas’, mas sim interações químicas)18 podem fazer prevalecer a tendência a determinada orientação sexual, a qual não é escolha do indivíduo, assim como não o é a cor dos olhos, a altura ou a pré-disposição a doenças cardíacas. Por que Deus decidiu fazer assim? Bom, talvez não nos coubesse explicar, afinal, misteriosos são os desígnios de Deus, mas a ciência já sabe que entre 2% e 6% da população humana é naturalmente homossexual, e pesquisas recentes20 sobre a causa de a homossexualidade prevalecer mesmo que (nas palavras de um político brasileiro cristão em um debate à presidência) “órgão excretor não reproduza”. As pesquisas indicam que, mesmo não reproduzindo, homossexuais seriam importantes na manutenção dos filhos de heterossexuais na família, o que não traria uma vantagem evolutiva para o indivíduo, mas para a espécie, da mesma forma que em comunidades de ratos-toupeira pelados nem todos se reproduzem, o que é benéfico para o grupo. Do mesmo modo, a transgenia e a transexualidade não são fatores meramente sociais, que podem ser redefinidos à força ou por escolha pessoal, a ciência tem mostrado que essas pessoas muito provavelmente já nasceram assim, e que a cultura serviu-lhes apenas no modo como se identificam11. “Ok”, talvez você afirme, “mas Deus proíbe a homossexualidade, está na Bíblia!” Sim, é verdade, Deus proibiu isso, por exemplo, em Levítico, 18:22, mas no mesmo capítulo Deus proíbe o sexo com mulher no período menstrual e não vejo grandes manifestações contra quem o faz; além disso, no capítulo seguinte (19:13), Deus manda não oprimir teu próximo. O fato é que os tempos mudam, e talvez os planos de Deus para nós não sejam os mesmos que tinham para os filhos de Israel, 3 mil anos atrás...
Retomando, falei sobre como os cromossomos XY não são exatamente como pensávamos em relação à espécie humana; com tudo isso estou querendo dizer que não existem diferenças fisiológicas entre homens e mulheres? Claro que não afirmando tal coisa! Existem sim muitas diferenças neurobiológicas e físicas entre homens e mulheres, tais como diferenças no cuidado parental, diferenças psicológicas, agressividade, desenvolvimento e funcionamento cerebral, força física, dominância, dentre outras12, que não são meras construções sociais, ou seja, tanto a definição de sexo e suas características, quanto a identidade sexual não foram determinados pela sociedade, mas a sociedade em grande parte foi determinada por estes12. O caso é que todas as diferenças são médias, por exemplo, é claro que existem mulheres mais fortes fisicamente, mais altas ou mais agressivas que alguns homens, mas na média os homens são mais fortes, altos e agressivos que as mulheres. Aliás, este é um ponto em que, por estranho que pareça, a direita cristã conservadora e os pós-modernos de esquerda estão juntos no ataque à ciência: para ambos os grupos não existem pré-aptidões biológicas, em um claro exemplo da teoria da ferradura, proposta por Faye13, segundo a qual os extremos do espectro político não são distantes como em uma linha reta, mas se aproximam como as pontas de uma ferradura (para saber mais, recomendo o ótimo vídeo de Alysson Augusto14).
O fato é que tanto a determinação sexual quanto a identidade sexual e a orientação sexual são muito mais complexos do que parecem em um primeiro olhar15, e ainda que a maioria de nós sejamos homens e mulheres com cromossomos XY e XX, respectivamente, o fato é que há muito mais diversidade do que isso quando se considera a humanidade como um todo, e áreas cinzas em que não se pode definir facilmente uma pessoa nessa estrutura binária; ainda assim, poucos sistemas legais abarcam algo além do binário quando prevê direitos legais e status social15. Aliás, o estudo de Ainsworth publicado na Nature15 é algo interessantíssimo de ser lido, pois junta as descobertas científicas recentes com teorias de disciplinas de humanidades16.
Com todo o apresentado, como biólogo e como ser humano que aprecia a Criação e busca compreende-la, submeto-me à vontade de Deus sobre a diversidade humana, e considero que aqueles que lutam contra estão confundindo a própria vontade e os próprios preconceitos com a vontade divina.

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1 - MARCEL, G. Sistema de determinação do sexo: XY, X0 e ZW. In: Eu quero biologia, 18 ago 2014. Disponível em [http://www.euquerobiologia.com.br/2014/08/sistema-de-determinacao-do-sexo-xy-x0-e.html]; acesso em 09 ago 2017.
2 – MIRANDA, D. Os distúrbios dos cromossomos sexuais: provocam infertilidade ou desenvolvimento anormal Síndrome de Klinefelter: 47,xxy Síndrome de Turner: 45,x. Disponível em [http://slideplayer.com.br/slide/4293054/]; acesso em 09 ago 2017.
3 – SKUSE, D.H.; JAMES, R.S.; BISHOP D.V.; COPPIN B.; DALTON P.; AAMODT-LEEPER G.; BACARESE-HAMILTON M.; CRESWELL C.; MCGURK R.; JACOBS P.A. Evidence from Turner's syndrome of an imprinted X-linked locus affecting cognitive function. In: Nature, 12 jun 1997. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9192895]; acesso em 09 ago 2017.
4 – KLINEFELTER Syndrome. In: Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Healt and Human Development. Disponível em [https://www.nichd.nih.gov/health/topics/klinefelter/Pages/default.aspx]; acesso em 09 ago 2017.
5 – 47,XYY Syndrome. In: Genetics Home Reference. Disponível em [https://ghr.nlm.nih.gov/condition/47xyy-syndrome]; acesso em 09 ago 2017.
6 – Triple X syndrome. In: Mayo Clinic. Disponível em [http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/triple-x-syndrome/home/ovc-20164620]; acesso em 09 ago 2017.
7 – GALANI, A.; KITSIOU-TZELI S.; SOFOKLEOUS C.; KANAVAKIS E.; KALPINI-MAVROU A. Androgen insensitivity syndrome: clinical features and molecular defects. Hormones, 2008, jul-sep; 7(3): 217-29.
8 – EMMANUÈLE, C.; DÉLOT; VILAIN, E. Nonsyndromic 46,XX Testicular Disorders of Sex Development. In: PAGON R.A.; ADAM M.P.; ARDINGER H.H., et al., editors. Gene Reviews. Seattle: University of Washington, 1993.
9 – As estimativas de prevalência por nascimento foram todas tiradas do site Genetics Home Reference [https://ghr.nlm.nih.gov/], em 09 ago 2017.
10 - NGUN, ; W. GUO, T. C.; GHAHRAMANI, N. M.; PURKAYASTHA, K.; CONN, D.; SANCHEZ, F. J.; BOCKLANDT, S.; ZHANG, M.; RAMIREZ, C. M.; PELLEGRINI, M.; VILAIN, E. PgmNr 95: A novel predictive model of sexual orientation using epigenetic markers. Disponível em: [https://ep70.eventpilotadmin.com/web/page.php?page=IntHtml&project=ASHG15&id=150123267]; acesso em 09 ago 2017.
11 – WU, K.J. Between the (Gender) Lines: the Science of Transgender Identity. In: Harvard University. Disponível em [http://sitn.hms.harvard.edu/flash/2016/gender-lines-science-transgender-identity/]; acesso em 09 ago 2017.
12 – COELHO, M. Diferenças genéticas, neurobiológicas e físicas entre homens e mulheres e suas explicações naturais. In: Universo Racionalista, 6 ago 2017. Disponível em [https://universoracionalista.org/diferencas-geneticas-neurobiologicas-e-fisicas-entre-homens-e-mulheres-e-suas-explicacoes-naturais/]; acesso em 09 ago 2017.
13 – FAYE, J.P. O século das ideologias. Lisboa: Instituto Piaget: 1998.
14 – AUGUSTO, A. Teoria da Ferradura: quando esquerda e direita se aproximam. In: Youtube, 01 mai 2017. Disponível em [https://www.youtube.com/watch?v=BY_aQG7xJIA]; acesso em 09 ago 2017.
15 – Ainsworth, C. Sex redefined. In: Nature, 18 fev 2015. Disponível em [http://www.nature.com/news/sex-redefined-1.16943]; acesso em 08 ago 2017.
16 – Prefiro o termo “humanidades”, conforme utilizado nas universidades americanas a ciências sociais, como é utilizado no Brasil, não por não considerar as humanidades importantes, mas por concordar com a demarcação de ciência proposta por Popper.
17 – HAMER, D.; HU, S; MAGNUSON, V.; HU, N; PATTATUCCI, A. (1993). "A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation". Science. 261 (5119): 321–7.
18 – KNAPTON, S. Homosexuality ‘may be triggered by environment after birth'. In: The Telegraph, 8 out 2015. Disponível em: [http://www.telegraph.co.uk/science/2016/03/15/homosexuality-may-be-triggered-by-environment-after-birth/]; acesso em 10 ago 2017.
19 – BALTER, M. Homosexuality may be caused by chemical modifications to DNA. In: Science, 8 out 2015. Disponível em [http://www.sciencemag.org/news/2015/10/homosexuality-may-be-caused-chemical-modifications-dna/]; acesso em 10 ago 2017.
20 – KREMER, W. The evolutionary puzzle of homosexuality. In: BBC News, 18 fev 2014. Disponíel em: [http://www.bbc.com/news/magazine-26089486]; acesso em 10 ago 2017.

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