quarta-feira, 4 de março de 2015

Panaceias, ou seu direito acaba onde começa o meu

Panaceia, filha de Asclépio
Na mitologia grega Panaceia, filha de Asclépio, era a deusa da cura; seu próprio nome deriva de pan (tudo) e akos (remédio), indicando que a deusa era capaz de curar todas as enfermidades. Em tempos modernos, onde o número dos que ainda acreditam nas divindades gregas é bem restrito, o termo passou a designar uma cura, um remédio que cure todos os males.
E daí? Questiona o atento leitor; e daí que o conceito de panaceia, na minha opinião, é um dos grandes males que assolam nossa pátria amada.
Veja, por exemplo, a questão do livre mercado. Tenho um amigo que estuda filosofia para quem não há solução para o Brasil se não existir livre mercado total; a liberação total do mercado e sua autorregulação são, segundo ele, a solução para todos nossos males, da miséria à corrupção. Mas o interessante é que tenho outro amigo, sindicalista, para quem o mercado deve ser totalmente atrelado ao Estado; “nossos males”, nos explica ele, “derivam da liberdade de mercado”. Deu para entender? Ambos têm uma visão diametralmente oposta do tema, mas ambos propõem uma panaceia.
Mas nem só de mercado vive essa neta de Apolo. Nas recentes discussões que acompanhei, de onívoros versus veganos, não foram poucas as vezes em que vi a proposição de panaceias. Os veganos afirmam que bastaria que deixássemos de comer carne e não mais adoeceríamos, não teríamos mas problemas ambientais e viveríamos em um mundo de paz e amor, enquanto vários dos onívoros praticantes (por que onívoro fisiologicamente todo o ser humano é) afirmavam que era impossível ter uma boa saúde sem o consumo de carne.
Nas últimas eleições, tivemos um grande embate panaceico, onde um lado afirmava que se não vencesse o PT, o Brasil estaria perdido, enquanto o outro afirmava categoricamente que vencendo o PT o Brasil estaria perdido.
Agora, passadas as eleições, mas não arrefecidos os ânimos das duas torcidas pró e contra PT, temos aqueles que admitem que o Brasil tem corrupção, mas que o PT é o único partido inocente, e temos outros que propõem a derrubada do PT do poder por que o PT é o responsável por toda a corrupção nestes 500 anos de Brasil.
E quanto à Petrobras? A solução, é lógico, é privatiza-la por completo e, de quebra, todas as outras estatais, ou talvez seja fecha-la ainda mais ao capital especulativo? Existe as duas vertentes, ambas consideram sua posição a única capaz de salvar a estatal.

To funk or not to funk

Mesmo na religião o conceito é bem comum, e não é volta ao culto grego não! Veja, por
Dois lados da mesma moeda...
exemplo, o número de cristãos que afirmam que a única solução para os males do mundo é que, adivinhe... todos se tornem cristãos! Mas eles não são únicos, já vi diversos ateus pregando a extinção de todas as religiões como a única forma de termos um mundo decente.
Ainda em política, chega a ser engraçado ver o embate entre os eleitores do Jair Bolsonaro, que pregam a extinção dos partidos de esquerda e um estado policialesco contra os eleitores do Jean Wyllys, que pregam a extinção dos partidos de direita e um estado policialesco. Já vi eleitor do Bolsonaro afirmar, por exemplo, que estamos em uma ditadura comunista (embora não expliquem onde estão os presos políticos, o partido único ou a censura prévia) e defenderem a ditadura militar de 1964; enquanto vejo eleitores do Wyllys afirmarem que estamos em um governo de direita e preguem a ditadura do proletariado (trazendo presos políticos, o partido único e censura prévia).
Ah, tem também a panaceia sexual! Não são poucos os que vejo afirmar que homossexualismo é “uma pouca vergonha”, que gay se cura na porrada ou que querem proibir a adoção por casais homossexuais ou a união estável; por outro lado, já fui em palestra em que um homossexual pregava que todo o homem deveria ter, pelo menos, uma experiência homossexual passiva na vida.
Tem ainda a questão do politicamente correto; há quem queira o abolir por completo! Piadas racistas, sexistas ou homofóbicas em horário nobre? Qual o problema? Já há outros que querem proibir por completo o humor, a não ser que o humor seja engajado pois, dizem eles, quando você faz uma piada você quer afirmar aquilo que conta como humor.
Mas não para por aí, temos também o funk! De um lado temos os funkeiros em transporte público, sem fones de ouvidos, em uma atitude fascista de que “se eu gosto desse tipo de música você tem que escutar”; e temos aqueles que querem proibir o funk por que funk não é cultura (como se consumíssemos somente coisas cultas, seja musicalmente ou não).

Cordiais

Em suma, o Brasil confirma a hipótese sociológica de Sérgio Buarque de Holanda (vide imagem abaixo), para quem somos um povo cordial. Esta cordialidade, entretanto, é diferente do que muitos pensam ao ouvir o termo, ela não se refere ao fato de sermos bons anfitriões (olha a mitologia grega aí de novo...), ou de expressarmos carinho, afeto, amizade... Ela significa, isto sim, que pensamos não usando a racionalidade, mas sim de pensarmos emocionalmente e de buscarmos soluções “com o coração” e não com a razão; em outras palavras, somos cordiais por que temos este espírito de torcida, de que meu time está sempre certo e o time adversário sempre errado, mesmo que meu time esteja errado e o outro correto.
Quando analisamos mais profundamente e paramos para pensar (com a razão e não com a emoção) vemos o quanto os fundamentalistas liberais e socialistas, veganos e onívoros, petistas e antipetistas, privativistas e antiprivativistas, cristãos e ateus, bolsonaristas e wyllystas, homofóbicos e homofílicos, politicamente corretos e politicamente incorretos, funkeiros e antifunkeiros são parecidos; muito mais do que antagônicos, eles são simplesmente dois lados de uma mesma moeda de pensamento apaixonado e muito pouco lógico.
Talvez uma das saídas fosse adotar uma nova mitologia; ao invés dos gregos, ficar com os orientais e cultuar um pouco da doutrina budista do caminho do meio, ou seja, um ponto equidistante entre os extremos; você dá um passo em minha direção e eu dou um passo na sua. Compreender que o mercado precisa de certa regulação, mas que muita regulação sufoca a liberdade; que pessoas têm liberdade para consumir carne, ainda que isso não seja legal para você, mas que também o consumo excessivo de carne não faz mal só para a saúde como também para o ambiente; que há sim corruptos no PT, mas que buscar somente um cristo é favorecer que os corruptos de outros partidos se safem; compreender que você pode sim seguir sua religião (ou a falta dela), mas que isso não lhe dá direito de querer proibir que outros tenham as deles; compreender que você pode sim se identificar com um político, mas que outrem tem igual direito de se identificar com outro; compreender que o fato de você ser heterossexual não significa que todos precisem se-lo, ou que se você é homossexual outros têm direito de não querer experimentar; compreender que o humor pode sim machucar outras pessoas, mas que você não pode querer permitir somente aquilo que concorda com sua ideologia; compreender que você pode sim ter um gosto musical, mas que outros podem ter os deles, e que ambos merecem respeito.

Em suma, o que me parece mais acertado nisso tudo é que busquemos soluções conciliatórias e deixemos o espírito cordial de torcida; creio que isso colaboraria sobremaneira com nossa evolução econômica e social; só não podemos pensar que isso é a solução de todos nossos males, pois de panaceias já estamos lotados!

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