sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Palhaços


Ele era realmente, com o perdão da palavra, um pentelho. Pense em um cara chato, daqueles bem chatos; pensou? Bem, agora multiplique esse seu chato por cinco e você, talvez, tenha uma pálida idéia deste meu conhecido.
Ele é aquele tipo de cara que não pede, implora, que não conversa, discursa, que não dialoga, monologa, que quando você pergunta “e daí, como vai?”, explica como vai e acrescenta, ainda, como vai a família...
Pra te dar uma idéia, seu pai, que é maçom, consegue que ele entrasse para a Ordem DeMolay. No primeiro desfile, em um 7 de setembro, como não podia falar para chatear alguém, raspou a cabeça e ficou a noite inteira acordado bebendo para, no desfile, com a capa preta da Ordem, ficar a cara do Nosferatu.
Com tanta chatice, até hoje é um mistério, tanto para mim quanto para meus amigos, como ele podia estar sempre no grupo, conversando, bebendo, chateando, chateando, chateando...
Foi numa dessas oportunidades, em que estávamos numa sorveteria, junto com algumas meninas, que ele resolveu dar em cima da Glorinha.
Ah, a Glorinha... Uma finura de pessoa, alguém de quem todos gostávamos e com quem, a maioria de nós, sonhava em namorar (mas tudo se resumia a sonhos, ela não dava bola pra ninguém do grupo).
Pois estávamos nós sentados na sorveteria, um grupo tão grande que foi preciso juntar várias mesas; eu fiquei em uma das cabeceiras, junto a um latão de lixo em forma de palhaço. No outro extremo, a Glorinha, musa de meus sonhos molhados, junto àquele chato de quem vos falei. E o chato chateava, e falava, e monopolizava a Glorinha, que agüentava estoicamente enquanto nós, do grupo, sentíamos compaixão por tudo que ela estava agüentando.
Tanto foi, tanto fez, que a Glorinha decidiu agir:
— Querem ver eu, daqui, acertar a boca do palhaço?
Olhei para a lixeira ao meu lado, deveria estar a uns cinco metros dela, e ela pretendia atirar um guardanapo amassado, que não tem a mínima estabilidade... ah, essa eu precisava ver, além disso, não poderia deixar de aparecer pra Glorinha:
— Pago tudo que consumistes hoje se acertares.
Ela, então, mirou, mirou e atirou a bolinha de papel na boca do chato!
Todos rimos com gosto e maldade, afinal, nos considerávamos vingados; ela não só tinha desmascarado o palhaço como, ainda, lavou nossa alma por ele ter ousado dar em cima de nossa musa.
Ele, por sua vez, baixou a crista, riu amarelo e se manteve, pela primeira vez desde que me lembro, em silêncio. Então, foi a vez dela começar a falar-lhe, em voz baixa mas gesticulando muito.
O final da história? A Glorinha e o chato acabaram trocando um beijo daqueles cinematográficos e estão juntos até hoje; ela diz que são muito apaixonados e que ele, quando não está falando ou chateando, é um cara sensacional.
Quanto a mim, paguei a conta da Glorinha naquele dia, até hoje tendo entender as mulheres e a única certeza que tenho é que o palhaço, naquele dia, era eu...

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