segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Star Wars

Resenha crítica escrita para a disciplina de 
História e Filosofia da Educação, 
2º Semestre da Licenciatura em Ciências da Natureza
Unipampa Uruguaiana.

Campbell, em seu famoso O Herói das Mil Faces (1992), nos fala sobre o monomito, ou seja, sobre os paralelos entre os mitos heróicos e religiosos de todos os tempos e lugares.
Segundo o estudioso, os mitos seguem um padrão estrutural conhecido como “A Jornada do Herói”, que compreende 12 passos, abaixo descritos:
1.      Mundo Comum: O mundo normal do herói antes da história começar.
2.      O Chamado da Aventura: Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.
3.      Reticência do Herói ou Recusa do Chamado: O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
4.      Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural: O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.
5.      Cruzamento do Primeiro Portal: O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.
6.      Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia: O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.
7.      Aproximação: O herói tem êxitos durante as provações
8.      Provação difícil ou traumática: A maior crise da aventura, de vida ou morte.
9.      Recompensa: O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).
10.  O Caminho de Volta: O herói deve voltar para o mundo comum.
11.  Ressurreição do Herói: Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.
12.  Regresso com o Elixir: O herói volta para casa com o "elixir", e o usa para ajudar todos no mundo comum.
Campbell nos aponta que tal estrutura pode ser vista em mitos tão distintos quanto o grego Héracles ou a deusa japonesa Amaretatsu, o saxão Beowulf ou o africano Ogun, o celta Cernunnos ou o romano Júpter, o hindu Sidartha Gautama ou o hebreu Jesus Cristo, ou mesmo Charles Darwin que, segundo Pena (2007),  tem em sua vida a própria materialização o monomito. Tal hipótese nos lembra a teoria do inconsciente coletivo de Jung ou, talvez, como explica o próprio Campbell, esta seja a jornada de cada um de nós, esta é nossa própria vida e, como tal, com ela nos identificamos imediatamente.
Baseado nesta estrutura, em 1977 um jovem cineasta lançou o primeiro filme da primeira trilogia de sua obra mais conhecida: Star Wars (ou, em português, Guerra nas Estrelas).
Episódio IV, Uma Nova Esperança, como é denominada a obra atualmente, foi baseada em um livro do próprio cineasta – chamado George Lucas –, lançada um ano antes.
O conjunto da obra é um dos principais (se não o principal) expoente da cultura pop, sendo facilmente encontrável em inúmeras referências, tanto em filmes, seriados, livros, revistas, camisetas, brinquedos, cadernos, tatuagens ou mesmo no ambiente virtual, pois uma pesquisa na ferramenta de buscas Google nos retornou “aproximadamente 392.000.000” de referências à obra.
Mais do que uma obra literária ou cinematográfica, a narração mudou a própria forma de contar-se histórias, ao criar o chamado blockbuster, ou seja, a obra destinada a ser consumida de imediato, de forma fácil e mesmo alienante; um verdadeiro fast food cultural, cujos estilhaços criaram tanto a atual indústria cinematográfica quanto a ascensão de autores tais como Paulo Coelho.
Entretanto, se a obra de Lucas (1978) é calcada monomito, adaptou-o ao mundo moderno, pois se antes os heróis buscavam as fronteiras ainda desconhecidas de nosso planeta, tais como países distantes ou mesmo montanhas míticas, com a denominada aldeia global e a terra mapeada como um todo, o novo horizonte de mistério fez-se o espaço, a ‘fronteira final’, como define a série Star Treck.
O livro traz-nos a trajetória de Luke Skywalker, adolescente humanóide que mora no planeta-deserto Tatooine, onde vive com os tios uma vida monótona, quebrada pela compra e posterior fuga de dois andróides, chamados R2D2 e C3P-Zero, referências claras à Fortaleza Escondida do cineasta Akira Kurosawa. Os andróides carregam uma informação importante para um grupo rebelde que se opõe ao Império, sistema político que substituiu a República, federação de mundos independentes, agora com o poder centralizado nas mãos do ex-senador Palpatine, também chamado Darth Sidious, e de seu braço direito, Darth Vader, um lorde negro de uma organização guerreira chamada Sith, que se opõe aos quase extintos Jedi, ordem militar que sustentara a República.
Os robôs são procurados pelos soldados comandados por Vader e seu rastro o leva à casa de Luke, onde os tios deste são mortos e o relutante adolescente é levado do planeta por Obi-Wan Kenobi (no livro chamado Velhiban ou Ben Kenobi), em uma nave pilotada por um contrabandista chamado Han Solo e seu braço direito, uma criatura alta, forte e peluda chamada Chewbacca, a fim de resgatar a princesa Lea Organa, ora presa na nave mãe de Vader.
Com vários artifícios a nave de Solo, chamada Millenium Falcon, consegue sair do planeta e da vigilância das tropas do império, e, no caminho, Kenobi passa a instruir Luke nas artes dos Jedi, revelando que o pai deste havia sido um desses cavaleiros.
Alcançando o destróier de Vader, Lea é finalmente libertada, mas não sem perdas, pois Kenobi perece em uma luta de sabres de luz – a mais honrada arma de combate tanto para Jedis quanto Siths – contra Darth Vader, salvando assim a vida dos outros, que conseguem fugir.
Finalmente juntando-se às forças rebeldes, de posse dos planos que estavam escondidos em R2D2, organiza-se o ataque à mais poderosa arma do Império, a Estrela da Morte.
Quando o ataque finalmente é perpetrado, Luke, que comanda um caça, quase perece sob o ataque impiedoso de Vader, mas é salvo no último instante e consegue destruir a Estrela, garantindo um importante passo para a Aliança Rebelde.
Ora, é fácil descobrir-se a estrutura cambelliana na história: mundo comum (casa dos tios de Luke), o chamado da aventura (quando os andróides fogem), recusa do chamado (com a relutância de partir em socorro a Lea), encontro com o mentor (Kenobi), cruzamento do primeiro portal (partida na Millenium Falcon), a barriga da baleia (com o treinamento de Luke por Kenobi), aproximação (com o resgate de Lea), provação traumática (com a quase morte de Luke no destróier imperial e a morte de Kenobi), recompensa (com a chegada à base rebelde e a realização do sonho de Luke de ser piloto), ressurreição do herói (quando no ataque à Estrela da Morte é salvo no último minuto e utiliza finalmente os poderes Jedi ensinados por Kenobi), caminho de volta e regresso com o elixir (quando a Estrela é finalmente destruída e Luke pode retornar à base rebelde onde é condecorado).
Mais do que o monomito, entretanto, Star Wars pode ser vista como uma obra universal por tratar de vários outros temas subentendidos em sua estrutura ‘fast food’, desde a citação a algumas das maiores vertentes do cinema (o nome Jedi, por exemplo, vem de jedai genki, filmes japoneses de temática samurai, e os jedi e seus sabres de luz lembram muito um samurai, ao mesmo tempo em que o vilão Vader tem seu capacete inspirado em um elmo de guerra nipônico); citações à mitologia, como a relação de Zeus com Urano, o deus que devorava os próprios filhos, através da relação de Luke com Vader que, mais adiante na série, descobre-se ser seu pai; com mitos esotéricos através do uso da Força, espécie de poder mental utilizado pelas duas castas guerreiras da obra; além de falar-se da eterna luta do bem contra o mal, pois em uma análise filosófica, poderíamos pensar que, em qualquer questão, para nós, nosso lado sempre parece “o bem”, enquanto o lado de nossos adversários representa “o mal”, o que remete a Kierkegaard ou Nietzsche, filósofos para quem a moral (e portanto o bem e o mal) é relativa.
Outro fator na obra que nos faz pensar é a relação professor-aluno, vivida por Kenobi e Luke.
É Kenobi quem apresenta Luke ao mundo e aos poderes Jedi e é ele quem conduz seu treinamento. Kenobi, entretanto, morre antes de completá-lo (o treinamento deveria durar anos), e deixa uma lacuna que deve ser preenchida pelo próprio estudante. Tal fato é ainda mais revelador quando descobre-se (em outro episódio), que Vader também tinha sido aluno de Kenobi.
Eis, penso eu, uma boa metáfora de toda a relação mestre-discípulo, seja ele o pai-filho, sensei-sempai ou professor-aluno: o mestre mostrará o caminho, guiará por onde ele considera ser o caminho ideal, mas caberá ao discípulo completar seu treinamento e escolher o caminho que quer seguir, às vezes com a anuência do mestre, em outras com o desgosto deste.
Chega, pois, um momento em que o discípulo deve matar o mestre (o que vemos simbolicamente no episódio “O Retorno de Jedi”, onde Luke e Vader se digladiam e este último acaba morto, ou mesmo neste “Uma Nova Esperança”, quando Vader mata Kenobi (seu antigo mestre), em uma clara alusão à teoria do Complexo de Édipo desenvolvida por Freud.
Entretanto, independente do caminho seguido pelo discípulo, os ensinamentos do mestre estarão sempre com ele. Tal é fácil mostrar com uma história hipotética: suponha-se que um dos generais que atuaram na ditadura militar pós 1964 tivesse sido alfabetizado por um(a) professor(a) socialista. Ora, o militar somente chegou onde chegou a partir dos ensinamentos de seu mestre mas, para desgosto deste, assumiu a defesa de um lado totalmente antagônico à ideologia do educador. Ainda assim, o sistema de escrita aprendido seguirá com ele por toda a vida, não importando que destino tenha sido dado a seu mestre, já morto enquanto tal.
Isto, na obra, pode ser identificado na cena final de “O Retorno de Jedi”, quando já mortos, seus mestres Kenobi, Yoda (que surge no segundo filme, “O Império Contra-Ataca”) e Vader (que tentara converter Luke para o lado negro da força, ou seja para a visão Sith de mundo) são vistos no céu por Luke, já um guerreiro formado, em uma indicação de que, mesmo extintos os mestres, os ensinamentos destes continuarão com o jovem pelo resto de sua vida.
Eis uma mensagem que nos faz pensar no peso da responsabilidade daquilo a que nos propomos a repassar às próximas gerações, seja na sala de aula, seja na vida: mesmo que não possamos fazer mais do que indicar o caminho a nossos educandos, tal indicação o marcará e influenciará pelo resto da vida, e é nossa obrigação fazê-lo da melhor forma que pudermos, ainda que isso represente apresentar nossa verdade relativa, buscando, ao menos, formar cidadãos que possam ter consciência ao escolher seu caminho.

Bibliografia:

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1992.
Google. (http://www.google.com.br) . Acessado em 08/12/2011.
LE BLANC, Charles. Kierkegaard. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
LUCAS, George. Star Wars. São Paulo: Editora Record Ltda, 1978.
NIETZSCHE, Frederich. Obras Incompletas, 1ª. edição. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
PENA, Sergio. Darwin: o super-herói. Revista Ciência Hoje Digital. SBPC. (http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/deriva-genetica/darwin-o-super-heroi),2007. Acessado em 15/11/2011.
RICHIE, Donald, Os Filmes de Kurosawa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984.
Wikipedia, a Enciclopédia Livre. (http://wikipedia.org.br) . Acessada em 08/12/2011.

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