O Egoísmo de Dawkins I

Richard Dawkins




A partir de hoje, “estarei postando” (com gerundismo, como faria o pessoal do telemarketing) artigos objetivando explicar a teoria evolucionista do Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Como o assunto é muito extenso, não a farei em um único post.

Para começo de conversa, hoje, falaremos sobre o que são genes.

Vivemos em uma era de informação. Neste momento, por exemplo, você está acessando informação na tela de seu micro. A informação que você vê, entretanto, é uma tradução do que está circulando nos chips de sua máquina, que não passam de sinais de ligado e desligado (ou 1 e 0, respectivamente). Toda a imensa diversidade de informações – jogos, homepages, vídeos, fotos, arquivos de texto, vírus...) não passam de combinações destes sinais interpretados pelo processador.
Como é possível? Bom. Analise o primeiro parágrafo do presente texto. Quantos sinais diferentes temos no excerto destacado? 22 (abcdefghijklmnoprstuvx) se contarmos somente as letras (ignorando pontuação, espaçamento e acentuação).
Agora experimente pegar todos os textos deste blog e conte novamente o número de sinais, descontando outra vez os sinais gráficos que não as letras. Quanto você achou? No máximo 26.
Mas espere; usei 22 sinais gráficos para escrever um único parágrafo e 26 para escrever todos os textos do blog? Exatamente! A combinação e recombinação destes sinais, a quem previamente foi associado um valor semiótico permite que sua variabilidade seja praticamente infinita.
No caso do computador, peguemos a primeira letra deste texto.
Nos primórdios da informática, os sinais de ligado e desligado foram reunidos em grupos de oito, possibilitando 256 combinações diferentes indo de 00000000 (0 em numeração decimal) a 11111111 (255). Cada sinal de ligado e desligado é denominado bit. Um grupo de oito sinais é denominado byte. Os caracteres associados aos 256 bytes possíveis estão relacionados em uma tabela chamada código ASCII.
No caso da primeira letra do presente texto (um A maiúsculo), em texto puro, recebe a numeração ASCII 65, ou seja, 01000001. Caso estivesse escrevendo este artigo em um processador de texto como o ‘bloco de notas’ do windows, seria este valor que o ‘cérebro’ do computador interpretaria para me dar um A (como estou usando um processador de texto com formatação, ele também usa outros sinais para indicar o tipo de fonte, tamanho, cor, posição...). As primeiras duas palavras do texto (incluindo o espaço) em ASCII ficariam: 065 032 112 097 114 116 105 114, ou 01000001 00100000 01110000 01100001 01110010 01110100 01101001 01110010 em binários.
“Tudo bem”, pensa o leitor, “mas não íamos falar de genes”? Eis aqui o fator surpreendente: assim como na informática, a vida também é baseada em informação! E mais ainda, também aí de poucos ‘sinais’, obtém-se a complexidade.
Você já ouviu falar em DNA, certo? É aquela longa molécula – longa mesmo, o DNA de uma célula individual humana contém em torno de 3x109 (o número três seguido de nove zeros) unidades nucleotídicas (RIDLEY, 2001) – formada por fosfatos, pentoses e bases nitrogenadas ligadas por pontes de hidrogênio. As bases nitrogenadas do DNA são de quatro tipos: adenina, timina, citosina e guanina, sendo que os dois primeiros sempre estão ligados entre si, assim como os dois segundos, não sendo possível a ligação adenina-citosina ou adenina-guanina, bem como a ligação timina-citosina ou timina-guanina. Das combinações destas quatro ‘letras da vida’ (ATCG), sai toda a combinação do ‘livro de receitas’ da vida. Quanto à questão da comparação com a informática, que exemplifiquei principalmente para mostrar como a complexidade pode vir de algo simples, você poderia pensar nos bits como os átomos que formam a molécula e nos bytes como cada base nitrogenada.
Mas e o gene? Bom, se o DNA é o ‘livro de receitas’ para formar você, e cada base nitrogenada é uma ‘letra’ deste livro, então cada gene poderia ser entendido como uma ‘frase’, uma frase mínima para existir compreensão, tal como “cabelos castanho escuros” ou “cabelo liso” ou ainda “calvice precoce”.
Entretanto, para compreender-se uma frase nem todas as palavras utilizadas nela são necessárias.
O parágrafo anterior, por exemplo, poderia ser simplificado para: “Para entender uma frase, nem todas as palavras são necessárias”, sem que com isso se perdesse o sentido original.
Da mesma forma, cada gene tem partes codificantes, chamadas éxons e partes não codificantes, chamadas íntrons, sendo que o tamanho dos íntrons geralmente supera em muito o dos éxons:
© Fabiana Santos Gonçalves
Para a síntese das proteínas, as partes codificantes são transcritas para uma molécula chamada mRNA (ácido ribonucléico mensageiro), em um processo chamado transcrição. O RNA é, ao contrário do DNA, uma fita simples e, também diferente do DNA, utiliza uma base chamada uracila em vez de timina. A transcrição ocorre no núcleo celular. Depois a molécula de mRNA deixa o núcleo e viaja até uma das estruturas do citoplasma chamadas de ribossomos que são formadas por outro tipo de RNA, o RNA ribossômico (rRNA). É aí que a seqüência de aminoácidos é lida a partir da seqüência de mRNA e as proteínas são montadas, em um processo chamado de tradução. Na realidade, a tradução é feita por um outro tipo de RNA, o RNA de transferência (tRNA) (RIDLEY, 2004). As proteínas assim formadas são os reguladores da expressão dos fenótipos.
PÁRA!!! O QUE QUER DIZER TUDO ISSO?
Quer dizer, grosso modo, que cada molécula de DNA se abre e é copiada de forma negativa (em cada adenina é adicionada uma uracila, em cada citosina uma guanina e vice versa), molécula esta chamada mRNA, que por sua vez é copiada por uma molécula chamada rRNA, a partir da qual são sintetizadas as proteínas, os ‘tijolos’ de que você é feito; pode-se dizer que nossos corpos são construídos, regulados, mantidos e defendidos por proteínas.
© Mark Ridley

No vídeo abaixo você tem uma explicação animada do processo:
 Quando ocorre alguma mutação em um gene, o seu produto polipeptídico pode ser alterado ou até mesmo não ser produzido, modificando seu papel no organismo. Mas isso é assunto para outra semana.
Se você gostou do assunto, nada melhor do que se aprofundar e, para isso, recomendo a bibliografia que usei.

Bibliografia:
DAWKINS, Richard, O Gene Egoísta, São Paulo : Companhia das Letras, 2004.
FILHO, Dorival, DNA-Estrutura – Vídeo - .
GONÇALVES, Fabiana Santos, Gene, .
LIMA, Cleiva Aguiar de / SALOMÃO DE FREITAS, Diana Paula, Do Bolo a Fabricação de Proteínas: relato de experiência de oficina realizada por professoras em formação permanente.
RIDLEY, Mark, Evolução, Porto Alegre : Artmed, 2004.
RIDLEY, Mark, Evolution, .
SALOMÃO DE FREITAS, Diana Paula, Replicação do DNA e Síntese Protéica, Slides para aula, Universidade Federal do Pampa - Unipampa, Agosto 2010.

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