quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poderia Adão não ter comido a maçã?


Duvido que alguém no ocidente não conheça a história do pecado original, aquela que conta como Jeová, tendo posto o ex-boneco-de-barro Adão e sua ex-costela Eva no paraíso apenas lhes exigiu que não comessem da árvore do conhecimento. Mas a serpente tentou Eva, e esta a Adão, enfurecendo o locatário do Éden que os expulsou sem ao menos dar notificação de despejo ou permitir que consultassem um advogado (apesar de que alguns maldosos dizem que os advogados nessa época, ainda não tinham sido inventados por Lúcifer).
Mas afora o fato de serpentes falarem, da dúvida sobre se os primeiros humanos tinham umbigo e de como o primeiro casal, tendo três filhos varões (Caim, Abel e Sete), conseguiu ter netos, a grande questão que me intriga nesta história toda é se Adão e Eva tiveram escolha ou se o consumo de pomos proibidos fazia parte de sua carga genética.
Em outras palavras, existe mesmo o livre arbítrio? Podemos escolher entre o bem e o mal (supondo-se que o bem e o mal existam e não sejam convenções sociais)? Até que ponto nossa personalidade e nossas ações são frutos do meio e da criação e até que ponto estão prescritas em nosso DNA?
Crescemos educados para acreditar que a escolha é nossa; que somos “fadados à liberdade”, como o quer Sartre, ou que um deus benevolente colocou a livre escolha como forma de nos sacanear e possibilitar que o inferno não feche as portas por falta de clientes.
Entretanto, em primeiro lugar, se eu tenho a liberdade total de opção, quem é esse ‘eu’ que escolhe? Freud nos ensina que esse ‘eu’ é pelo menos uma trindade: o id e o ego (ou nosso ‘anjinho’ e nosso ‘capetinha’), e o superego.
Richard Dawkins, entretanto, vai mais longe, e define nosso ‘eu’ como um conjunto de idéias infectantes chamadas memes, que batalham pela própria reprodução e perpetuação, usando nossa massa cinzenta como máquina de sobrevivência, ou seja, o ‘eu’, como já dizia o príncipe Sidarda, é uma ilusão tão grande quanto comprar uma TV esperando uma programação decente no final de semana.
De toda essa discussão, Steven Pinker afirma não ter dúvidas: o principal componente são os genes; eles é que decidem nossa personalidade, nossas inclinações pessoais, nosso ‘eu’ mais íntimo.
Sou sinceramente cético quanto ao livre-arbítrio. Além de ser um simpatizante das teorias de Dawkins, de Susan Blackmore e de Daniel Dennett, hipóteses que de per si matariam a teoria religiosa do livre arbítrio, estou encontrando muita lenha pro debate no livro Tábula Rasa, de Pinker.
Mas mesmo que eles (e por conseqüência eu) estejam equivocados e que o ambiente seja a principal influência, novamente entramos em um estágio em que o livre-abítrio bíblico vai, no mínimo, para a UTI.
Embora sejamos construídos pelo ambiente, ainda assim somos moldados, pois nesse caso, nossas sinapses se formam, desde a tenra infância, a partir da informação que nos é repassada, e nossas decisões futuras serão baseadas nas ligações neurais já estabelecidas, aprendidas.
Acho dúbia essa hipótese, até mesmo porque Adão e Eva, em princípio, viviam em um lar que era um paraíso, com um pai amoroso e que lhes assegurou boa educação moral. Nem a má companhia poderia ser culpada, pois eles tinham colegas que eram verdadeiros anjos. Tá certo que a falta da mãe pode ter influenciado na destemperança, e que ao menos o pecado de Adão possa ser explicado pelo complexo de édipo, ou de que Eva não estaria preparada para resistir a um símbolo fálico lhe dizendo para comer uma maçã, mas ainda assim me mantenho descrente.
De qualquer forma, pouco importa se o filho de um pai violento terá tendência a ser violento por que herdou os genes de seu pai (como quer Pinker) ou porque o ambiente paterno lhe ensinou a ser assim (como o quer, por exemplo, Craig Venter); o fato é que o sujeito que assim está formado tenderá naturalmente a reagir violentamente contanto que certas circunstâncias desencadeantes se apresentem. Em alguns momentos, talvez seu id consiga bloquear o impulso, em outros, o ego nocauteará o senso social.
Não que tal seja desculpa para uma conduta socialmente imprópria; mesmo que nossos impulsos sejam predeterminados, ainda assim somos primatas sociais e, como tal, sujeitos a regras de conduta no bando, sob pena de ser impossível a vida em sociedade, o que discuto é apenas o nível de decisão consciente que realmente podemos nos atribuir, e considero isso de fundamental importância, não só porque a teoria do pecado original cai por terra, mas também por que baluartes civilizatórios tais como a reeducação social (por exemplo as penitenciárias) deve seguir um rumo ou outro, dependendo de qual teoria está correta.
Mas o assunto é muito complexo, as dúvidas profundas e persistentes, e o espaço de que disponho é exíguo. A única coisa que tenho como certa é que não existe livre-arbítrio no casamento.

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