sexta-feira, 29 de abril de 2011

Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e as verdades científicas inconvenientes

Meu amigo Finkler se diz frontalmente contra o dito ‘politicamente correto’; segundo ele, sua contrariedade reside, principalmen-te, em que esta nova atitude matou o humor.
“Pense só”, me diz ele, “os Trapalhões, hoje, não conseguiriam aque-las sacadas geniais que nos fizeram felizes nos anos ’70 e ’80, seria um processo atrás do outro”.
Realmente penso que não se faz mais humor como antigamente (talvez eu só esteja ficando velho, lembro de meu avô dizer coisas semelhantes sobre a época dele), mas não sei até que ponto a mesmice e a falta de graça do humor brasileiro dos últimos anos se deve ao politicamente correto e, pra falar a verdade, considero que a perda de programas de humor – por mais que aprecie o humor – é uma perda relativamente pequena se realmente colaborar para um mundo socialmente mais justo, menos preconceituoso, menos agressivo às minorias.
Considero-me um sujeito alinhado com os anseios de meu tempo e, como ateu, não posso aceitar explicações tais como que uma divindade fez a mulher inferior, a partir de uma costela (imagine se tivesse feito do filé...), ou que a atração sexual por pessoas que compartilhem seu par de cromossomos XX ou XY possa ofender a um ser de barbas brancas que fica sentado e julgando cada um de nossos atos. Da mesma forma, não consigo aceitar que adaptações ao clima ou ao habitat tais como a cor da pele, o formato do cabelo e dos lábios ou maior facilidade para adquirir uma camada adiposa (como é meu caso) possam nos tornar seres melhores ou piores, e se o tal politicamente correto realmente colabora com a extinção de todos esses tipos de pré-concepções, então posso considerar que sou adepto de seu patrulhamento ideológico sobre as piadas com estereótipos, embora às vezes me pegue, eu mesmo, contando piadas de teor politicamente incorreto (sabe, por exemplo, aquela do gordo baixinho que... ah, deixa pra lá...).
Tudo muito bem, tudo muito bom... mas há uma face do patrulhamento politicamente correto que me preocupa: o patrulhamento sobre a pesquisa científica.
Talvez eu seja só um romântico, mas às vezes me pego discordando de posicionamentos de autores consagrados, como Roque Moraes, de que é impossível ser neutro, uma vez que:
Todo o questionamento se dá a partir de um olhar teórico já constituído e a pesquisa pretende aperfeiçoar as teorias com que inicia o exame de um fenômeno, mesmo que estas teorias sejam do senso comum.
Quando leio isso, lembro-me logo de Darwin e a Teoria da Evolução. Realmente, Darwin não podia ser considerado neutro; ele estudou teologia, quase se tornou ministro anglicano e seu próprio embarque o Beagle tinha por fim ‘catalogar a criação do Senhor’.
As conclusões a que o naturalista chegou, porém, diferiam tanto de sua pré-concepção, que ele foi obrigado a revê-la e, ao fim da vida, suas pesquisas o tinham afastado definitivamente da fé. Ou seja, ele não mudou o rumo ou as conclusões de sua pesquisa devido à sua visão do mundo, mas sim mudou sua visão do mundo graças às conclusões a que chegou.
Por outro lado, não penso que as conclusões de uma pesquisa, por piores que sejam politicocorretamente falando (tá, o termo não existe, mas dá um desconto, vá!), se forem frutos de uma pesquisa bem estruturada e realizada com rigor científico, no mínimo nos ensinarão estratégias eficientes para combater àquilo que, de outra forma, seria impossível, pois não teríamos conhecimento cientificamente embasado do problema que enfrentamos.
Um exemplo claro, para que possa ser compreendido, é a pesquisa sobre se o estupro, em estágios anteriores de nossa evolução, teve o fim de possibilitar que machos preteridos pelas fêmeas conseguissem procriar ou, em outros casos, que machos pudessem ampliar o leque de distribuição de seus genes ao estuprar fêmeas que não eram suas companheiras ou, ainda, quando sua companheira tinha relações com outros machos (consentidas ou forçadas), a fim de entrar na disputa pela paternidade; segundo tal hipótese, os estupradores modernos teriam em seus genes os mesmos mecanismos que levaram seus ancestrais à violência sexual. Essa análise causa revolta no meio feminista, a ponto de pesquisas na área deixarem de receber verba a partir de protestos.
Ora, nada mais revoltante do que crimes sexuais. Esse tipo de agressão é tão indignante, que até mesmo outros criminosos são propensos a agredir e matar os estupradores; qualquer um que já escutou histórias de cadeia sabe do que estou falando. O crime sexual age sobre aquela que é nossa única propriedade real inconteste: nosso próprio corpo. Compreensível é, pois, a revolta e o rechaço aos agressores sexuais e detalhe algum (roupa provocativa, vida sexual pregressa...) desculpa tais atos.
Mas proibir a pesquisa (embora não uma proibição formal, mas informal pelo corte de verbas e rechaço) parece-me, como definiria Dawkins, ‘atirar no mensageiro’; ou seja, repele-se a pesquisa quando o que deve-se repelir são os criminosos sexuais.
Sun Tzu, estrategista chinês que viveu há mais de 2 mil anos, em seu clássico A Arte da Guerra, ensina-nos: ‘conhece a ti e ao teu inimigo, em mil batalhas não perderás uma’.
No caso desta pesquisa, parece-me que há um certo temor em conhecer o inimigo, em compreender o mecanismo desencadeante da agressão sexual, como se isso amparasse aos agressores, sem ver-se que, ao contrário, conhecendo os fatores desencadeantes de tais atos, pode-se estabelecer estratégias muito mais eficientes de coibição e de proteção a prováveis vítimas.
Outro exemplo é o da pesquisa de células-tronco embrionárias, tão combatido por entidades religiosas.
Argumentam os detratores da pesquisa que uma célula (ou o pequeno grupo de células que forma o embrião) já seria um ser humano.
Ora, se estudarmos um pouco de história, veremos que tal posição ainda se baseia nas primeiras experiências em microscopia, quando Leeuwenhoek observou pela primeira vez o esperma e definiu os espermatozóides como ‘homúnculos’, ou seja, que os gametas sexuais masculinos seriam pequenos seres humanos já prontos, apenas esperando o útero materno que os recebesse e transformasse em um ser humano de tamanho normal.
Deste engano científico vem o rejeite do cristianismo ao aborto e ao uso de embriões humanos em pesquisas, mesmo que estes embriões estejam fadados a nunca se tornarem um ser humano, uma vez que a maioria é descartada, e mesmo que tais pesquisas possam vir a possibilitar que seres humanos já nascidos e com graves problemas possam ter uma vida normal.
Outro rejeite político-correto que me exaspera vem da frontal agressão às teorias de ponta que buscam uma explicação de nossas atitudes sociais e mentais à luz da genética e do darwinismo, sem que haja um real indício de que tais teorias estejam incorretas (muito antes, começam a acumular-se provas que podem levar à sua constatação).
Tal teoria, que tem em seu principal representante Steven Pinker, apregoa que nossa real identidade humana não pode ser compreendida pela cultura ou pela sociedade, mas por nossa estrutura cerebral com uma programação básica inata.
Segundo os detratores da teoria, esta poderia suscitar idéias tais como que o racismo, o sexismo ou a exploração econômica sejam inatos, idéias politicocorretamente inaceitáveis.
Ora, conjeturemos novamente sob a óptica de Sun Tzu:
Se realmente a teoria de Pinker estiver equivocada, a ciência se encarregará de substituí-la, de rejeitá-la através de provas em uma direção contrária; assim aconteceu, por exemplo, com a teoria do Universo Estático, que convencia até mesmo Einstein e que caiu por terra quando se conseguiu provas que a desbancaram.
Mas, e se Pinker estiver certo (ou pelo menos, se estiver na direção certa)? E se realmente o capitalismo, o fato de as mulheres receberem menores salários e a Ku Klux Klan não forem meras invenções sociais, mas sim manifestações de nossa bagagem genética?

Talvez concorde em parte com o Finkler, talvez o dito ‘politicamente correto’ tenha matado o humor, talvez nunca mais tenhamos um quarteto com a qualidade cômica de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, mas é preciso que não permitamos que o politicamente correto mate a pesquisa científica séria, mesmo que suas verdades sejam inconvenientes e choquem nosso ego narcisístico de macacos nus com ilusões divina grandeza.

domingo, 24 de abril de 2011

Pequeno dicionário prisional


Todos os grupos humanos têm uma linguagem própria, seja ela formada de termos técnicos, de gírias ou de ambos.
Por exemplo, é quase impossível ver um médico dizendo que o paciente está com problemas “na buchada”, ou um militar chamando um projétil de ‘bala’, ou um político falando ‘mentira’ ao invés de ‘inverdade’; da mesma forma, você não ouvirá um traficante falando em cocaína, mas em ‘farinha’ ou ‘açúcar’; um marinheiro sempre irá se referir a bombordo e estibordo e não ao lado esquerdo e direito do navio, e um economista geralmente pronunciará  ‘valores monetários’ e não ‘dinheiro’.
O sistema prisional não foge à regra. Temos aqui gírias e termos para muitas coisas, nomes esses totalmente estranhos ao restante da população. Vou aqui expor brevemente esses termos, tanto a título de curiosidade quanto pelo fato de que, para manter o colorido do mundo cinza da carceragem, muitos deles serão usados em meus textos sobre o assunto.
Formado principalmente por uma aglutinação de termos policiais, técnicos e da bandidagem, a linguagem usada é curiosamente semelhante nos dois lados da grade, fruto da convivência diária entre agentes e presos.
Se você for um agente ou um preso, por exemplo, dificilmente dirá que fulano enlouqueceu, pirou ou qualquer outro termo comum, você se referirá, quase certamente, ao termo ‘dezoito’. Oriundo do código de comunicação da Brigada Militar gaúcha, o termo virou verbo (fulano ‘endezoitou’), adjetivo (ciclano é dezoito) e substantivo (o dezoito da cela tal).
Da mesma forma, em geral não se usam os nomes dos crimes, e sim o número do artigo correspondente no Código Penal Brasileiro.
Quando alguém foi preso por roubo, por exemplo, diz-se que beltrano é um-cinco-sete (um-cinco-cinco no caso de furto); assassinos são chamados de cento-e-vinte-e-um. Um caso especial é o de crimes de violência sexual (213 e 214 no Código Penal); nesses casos, diz-se que o preso em questão é ‘duque’, uma herança da linguagem do jogo-do-bicho, onde a centena dois é assim designada. Aliás, se você quiser saber por que determinado elemento está preso, o normal não é perguntar qual o seu artigo, mas qual sua ‘bronca’.
Outros crimes recebem uma designação mais próxima do nome comum. Tráfico, por exemplo, é uma denominação comum, mas também são chamados de ‘tóxicos’ (em boa parte das vezes com a prunúncia ‘tóchicos’).
Já os presos cíveis, recolhidos por débito de pensão alimentícia, muitas vezes recebem o nome de ‘leitinho’, numa alusão ao ‘leite das crianças’ que ele deixou de pagar.
Informantes ou quem denuncia, recebe o epíteto de cagüete, X-9, dedo-duro... pelos agentes são conhecidos como ‘perdigueiros’.
Para a bandidagem, cada uma das forças policiais é chamada por um animal símbolo. Os brigadianos, por exemplo, são os ‘porcos’, os policiais civis federais e estaduais são os ‘ratos’ e os agentes penitenciários são os ‘toupeiras’, numa alusão ao animal que passa a vida emburacado. Já os guardas, comumente, chamam os presos de ‘vagabundo’ ou de ‘cuiudo’.
Os um-cinco-sete, em geral não ‘assaltam’ fulano, eles ‘metem’ fulano e geralmente não andam armados, andam ‘maquinados’.
Faca artesanal (que os presos incrivelmente fazem de qualquer pedaço de metal que lhes caia nas mãos) é chamada de ‘estoque’, mesmo que tenha fio e não sirva somente para estocar.
Corda artesanal, usada com gancho para escalar muros ou paredes em fugas é ‘jibóia’.
Armas-de-fogo artesanais (falarei melhor sobre as armas e instrumentos em outro capítulo) são chamados ‘trabucos’.
Comida, em geral é chamada de ‘bita’, de onde o verbo ‘bitiar’, usado dos dois lados da grade para substituir o verbo ‘comer’.
Como em qualquer lugar onde há um grande grupo de homens (isso inclui exército, times de futebol e oficinas mecânicas), a empulhação é comum, com a diferença que os presos em geral não têm assim, tanto bom humor, podendo mesmo uma brincadeira acabar em muita violência ou até em morte. Assim, qualquer coisa que tenha um formato mesmo que vagamente fálico ou que de alguma forma possa lembrar órgãos sexuais ou a atividade sexual em si têm seu nome suprimido, afinal, ninguém quer passar por homossexual (apelidados de ‘guris’).
Ninguém, por exemplo, fala ovos, mas ‘semente’ (de galinha) ou ‘zoião’. Leite é ‘derivado’; banana é somente ‘semente de macaco’.
Quanto a esta última, inclusive, é comum não comê-la inteira, mas quebrando-a aos pedaços, pois de outra forma isso poderia ser interpretado como um simulacro de sexo oral.
Aliás, sexo oral, por aqui, é chamado de ‘chimarrão’; dei um chimarrão para fulana, por exemplo, significa que a dita fulana me fez uma felação. Assim, ninguém por aqui diz que vai tomar chimarrão quando vai sorver a bebida típica dos gaúchos, mas sim que vai tomar uma ‘cuia’.
Comum entre os presos é não dizer que está ‘farto’ de algo, mas sim ‘legal’. “Bah, seu, já to legal de cadeia”, traduzido significa, aproximadamente, “não agüento mais estar preso”.
Em geral não se diz que alguém está de sacanagem ou desrespeitando-nos, mas sim que está ‘de pegadinha’.
Um termo com mais de um uso é ‘cachorro’, que é usado tanto para designar engodo (passar o cachorro em alguém), quanto para designar um esporro (fulano me cachorreou). No primeiro sentido, usa-se também para designar o cadeado que está na tranca mas não está fechado (está no cachorro). Além disso, cadeado em cadeia não se fecha, se ‘bate’ e não se pede para abrir a porta para sair, pede-se um ‘hábeas’.
Usa-se, ainda, o termo cu-de-cachorro, para designar pessoa de baixa moral, a quem não estimamos ou que seja considerada incompetente; aliás, ‘considerada’ é o contrário, diz-se para uma pessoa que tem nossa estima, nossa admiração (fulano é meu considerado). Termo equivalente é ‘dos meus’ ou, em casos extremos, ‘dos meus confirmados’.
Um termo semelhante ao cu-de-cachorro é ‘chinelo’, que é tanto adjetivo quanto substantivo, além de ter criado adjetivo ‘chinelagem’.
‘Caiu a casa’ os presos usam quando algo não tem mais solução, quando tudo está perdido e ‘tá na mão’ é quando uma coisa está pronta ou disponível (tá na mão o café, seu)
Quando um preso está cadastrado em alguma tarefa dentro da cadeia (cozinha, limpeza, manutenção...) diz-se que o preso está ‘ligado’, semelhante foneticamente, embora com sentido totalmente diferente de ‘tá ligado?’, uma interjeição estremamente usual entre os detentos.
Assumir alguma coisa, puxar para si a responsabilidade, chama-se ‘abraçar’, e quem nada ‘abraça’ é chamado de ‘horácio’, em uma alusão ao simpático dinossauro criado pelo Maurício de Souza, que tem os bracinhos curtos, não podendo abraçar nada. No caso de quem nada abraça, também usa-se a expressão: ‘esse não abraça nem a mãe no aniversário’.
Preso chama juiz é chamado de ‘capa-preta’ e policial de ‘os home’, cumprir pena de ‘puxar cadeia’. Estar no regime fechado, sem saída externa, é estar ‘nas caixas’ ou ‘embretado’.
Exclusivo dos funcionários são os termos que designam o salário: ‘mixaria’, e o vale-alimentação, chamado carinhosamente de ‘vale-fome’, numa alusão bem humorada aos parcos vencimentos.
Embora não seja universal, já que a gíria muda de cadeia para cadeia e, principalmente, de região para região, na rua, embora às vezes algumas tribos urbanas como os hip-hops utilizem vários dos jargões cadeieiros, um ex-presidiário (especialmente se recente) é facilmente identificado por outros presos ou por funcionários pelo seu jeito particular de falar.
Um bom exemplo foi o do Albuquerque, agente penitenciário velho que tinha ido à capital para fazer uma perícia e livrou-se de um assalto quando escutou um rapaz dizer a outro ‘vamos meter esse véio’. Ao contrário de pensar em conotações homoeróticas como talvez faria uma pessoa comum, o Albuquerque foi logo saindo de fininho que facilitar nunca foi coragem.
Outro é o do Vieira, que estava voltando para casa de diária cochilando no ônibus, quando acordou sobressaltado com alguém lhe falando ao ouvido: “Caiu a casa, seu, na cadeia vocês são uns quantos e ‘tão maquinado, aqui é só nóis...”. O Vieira saltou do banco, sentidos todos prontos, um nó na imensa barriga e o arrependimento de ter deixado o 38 na bolsa, quando avistou o Zeca, outro agente penitenciário que se dobrava de rir do susto que pregara no colega. 

Centro do Universo?

Conheça a maior estrela descoberta pelo homem.

sábado, 23 de abril de 2011

Dancem macacos dancem

Vídeo imperdível sobre nossa condição humana.

Homenagem à Páscoa

Galileu Galilei, Marie Curie, J. Robert Oppenheimer, Isaac Newton,
Louis Pasteur, Stephen Hawking, Albert Einstein, Carl Sagan, Thomas Edison,
Aristóteles, Neil deGrasse Tyson, Richard Dawkins e Charles Darwin.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beatriz vai às compras

Luiz Fernando observa cuidadosamente os pisos que por tantas vezes pisara naquela casa, sentindo cada passo seu como mais um dobre do sino da morte, lembrando vagamente de um filme que assistira com Beatriz, onde um cavaleiro decidia sua sorte jogando xadrez com a morte.

“Não deixa de ser irônico”, pensa, enquanto passa para a cozinha, “lembrar disto justamente neste momento”. Enquanto raciocina, nota que o piso de azulejos escuros é o ideal para causar o mínimo estrago: fácil de limpar, certamente não mancharia quando seu sangue por ele escorresse.

Pega uma das cadeiras de madeira, mas, quando vai sentar-se, percebe que ela seria fatalmente danificada, talvez ficando manchada perenemente com seu cérebro, pensamento que lhe causou certa agonia, não pela lembrança de que sua massa cinzenta, dali a pouco, estaria espalhada pelo chão e pela cadeira, mas pelo fato de que pudesse, em seu momento derradeiro, macular àquela cadeira de madeira desenhada pela escola alemã Bohaus na década de 1930, e que tanto lhe agradava por seu design simétrico e moderno.

Não, Luiz Fernando não podia se permitir a mais este pecado; macular a cadeira, naquele momento, pareceu-lhe mais grave do que mesmo do que perder a própria vida. Soltando o revólver cromado sobre a cadeira, buscou nas gavetas da pia os sacos de lixo, encontrando-os na penúltima. Pegando um dos sacos, cobriu com ele o alto encosto da cadeira, enquanto com outro forrou-lhe o assento, atando o saco na parte de baixo para não ter risco de que este, nos estertores da morte que poderiam se seguir ao tiro, escorregasse e permitisse que seu cérebro e seu sangue acabassem no fino estofado. Olhando com paciência e de vários ângulos, concluiu que havia, afinal, ficado um bom trabalho; os sacos não se moveriam do lugar e a cadeira estaria a salvo.

Sentou-se, então, sentindo certo conforto no barulho do saco plástico, e ficou observando o revólver contrabandeado que comprara de um traficante especificamente para esta ocasião e este lhe pareceu, novamente, medíocre para compartilhar com ele seus últimos momentos; em sua confusão, lembrou-se novamente da Glock negra que há tanto era-lhe a mais fiel companheira, sua confidente mais íntima, ‘alguém’ que, em alguns momentos, lhe era mais cara até mesmo que Beatriz. A arma cara e de respeitosa tradição, seria uma companheira muito mais digna para sua derradeira viagem, mas logo se lembrou dos porquês de tê-la preterido por este revólver plebeu: armas usadas em crimes (ou suicídios), fatalmente acabariam nas mãos da polícia a fim de que fossem realizadas perícias, e sua valiosa Glock, acabaria em uma prateleira de delegacia, coberta de pó e de esquecimento, como tantas outras armas que viu em seus anos como policial ou, pior, poderia acabar nas mãos de algum meliante através de algum colega corrupto, como também não era tão incomum.

Abriu novamente o tambor da arma e conferiu os cinco cartuchos intactos que lhe preenchiam as câmaras, os quais comprara novos, apesar de já possuir cartuchos do mesmo calibre pois não queria correr o risco de falhar no derradeiro momento.

Fechou o tambor com cuidado e passou, então, à tarefa de pensar sobre onde colocaria a arma – se na boca ou no ouvido – antes de puxar o gatilho. Após meditar um pouco, do fundo de seu subconsciente lembrou-se de um caso de tentativa de suicídio que atendera, no qual o suicida encostara a arma no ouvido, mas no derradeiro momento o coice da arma fizera com que a bala desviasse e o atingisse somente de raspão; sorrindo, lembra-se, então, de um general – russo, alemão ou americano, não conseguia se lembrar direito – que se matara frente às câmeras de TV colocando a arma na boca, terminando com a própria vida da forma eficiente e rápida que Luiz Fernando tanto prezara por toda sua vida.

Levantando-se e pegando um pano para limpar o cano da arma – já que, naquele momento, não poderia permitir-se por na boca aquele cano sujo, engatilhou o revólver sentindo um leve alívio pelo fim que chegava.

— Lufe!

A inconfundível voz sonora de Beatriz soou às suas costas, chamando-o pelo apelido usado somente pelas pessoas mais íntimas. A voz da mulher com quem dividia a vida há cinco anos poderia ter sido uma alucinação auditiva, quiçá causada pelo estresse de estar tão próximo à morte, mas não só Luiz Fernando nunca antes tivera uma alucinação quanto o fato de a voz da mulher estar misturada ao barulho de coisas caindo não lhe pareciam casar com uma alucinação.

Lentamente, ele tira o revólver da própria boca, o qual sai com um fio de baba que se mantém grudado a seu lábio inferior mesmo enquanto ele se vira e vê Beatriz, em choque, com as duas mãos ao rosto, linda entre as compras de mercado que deixara cair e que agora se espalhavam pelo piso de azulejos escuros.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pesadelo

Telmo sente-se desconfortável no divã, apesar de todo o esforço do jovem médico para deixá-lo à vontade.

— Se você preferir – diz-lhe o psiquiatra – pode sentar na cadeira; o importante é que você se sinta confortável.

— Não, aqui mesmo está bom – responde Telmo, embora sentisse que o corpo doía, como se os sonhos repetitivos que o levaram à consulta estivessem vagarosamente se apossando de seu corpo.

— Mas você me falava de sonhos...

Antes de responder, Telmo passa os olhos castanhos pelo ambiente decorado com bom gosto, detendo o olhar sobre a mesa onde observa, ao lado do busto de Freud, que o médico esquecera de mudar o mês do calendário, o qual ainda está em junho de 1973.

— Sonhos não, doutor – diz, por fim –, pesadelos!

— Pesadelos... Sei... – diz o médico, anotando algo em um caderninho, o que deixa Telmo ainda mais desconfortável – E sobre o que são esses pesadelos?

“O que será que esse sujeito tanto anota?”, pensa o paciente, sempre sentindo o desconforto físico, enquanto as imagens lhe vêm à mente, de maneira tão vívida como se o estivesse vivendo.

***

Telmo sacode a cabeça, tentando tirar dos olhos a água suja que lhe jogaram, enquanto abençoa o fato de suas pernas estarem tão dormentes que mal sentem o pau-de-arara.

— É tão fácil você terminar com esse sofrimento – diz-lhe o policial jovem, com a camisa de mangas dobradas acima do cotovelo – basta que nos diga um nome, um local, qualquer coisa...

Telmo cerra ainda mais a boca, sentindo o gosto do sangue saído dos cortes nos locais onde as bofetadas cortaram a mucosa bucal contra os dentes, enquanto as costelas quebradas doem quase tanto quanto o ânus e a glande queimados pelos fios elétricos horas (ou dias? ou semanas?) antes.

“Eles só querem que fale qualquer coisa”, pensa novamente, “para que comece a falar, e aí nada mais impede que eles tirem a informação que quiserem”.

O policial negro, que estava em um ponto morto de sua visão, apaga um cigarro em sua bochecha, fazendo com que grite não tanto de dor, mas de torturada surpresa.

***

— Senhor! Senhor! – diz-lhe o médico com os olhos preocupados por trás das lentes do óculos, enquanto o sacudia timidamente com uma mão – O senhor se sente bem?

Telmo abre os olhos sobressaltado; senta-se no divã e esconde o rosto nas mãos, por vergonha e desespero.

— Calma, calma meu amigo – diz-lhe o médico, com voz serena, quando vê que o paciente começa a chorar – deixe que saia, relaxe.

— É que são mais do que sonhos, doutor – diz, após um soluço doído, sentindo-se ridículo enquanto tenta se recompor e parar de chorar.

— Sim, sim... O senhor já disse, são pesadelos – diz o médico sorrindo, enquanto consulta suas anotações.

— Não, doutor, são mais do que pesadelos.

— Como assim? – questiona, colocando o dedo sob o queixo, de uma forma que lembrava vagamente O Pensador, de Rodin.

— Doutor – diz-lhe Telmo, com os olhos ensandecidos – eu estou tendo esses sonhos a todo o momento, acordado, agora mesmo acabei de ter um!

— Sei – diz-lhe o médico, novamente anotando algo em seu bloquinho – alucinações... O senhor as tem há muito tempo?

Telmo tenta pensar em quanto tempo faz que tem as ditas alucinações, mas estranhamente o tempo parece não fazer muito sentido para ele.

***

— A mariquinha não agüenta uma queimadurazinha de cigarro, doutor! – diz o policial negro ao homem de terno branco que até então permanecera impassível.

— Tu é um merda mesmo, ein subversivo! Todo comuna é uma bosta de gente, mas tu te superou! – diz o homem, com a face que Telmo tanto teme encontrar, enquanto, com a dor novamente voltando às pernas apertadas pelos braços no pau-de-arara, sentindo em seu íntimo que tudo pelo que passou até agora foi somente para amaciá-lo, o homem que tinha à sua frente, o conhecido e famigerado delegado Sérgio Paranhos Flery, era o indicativo claro de que sua situação piorava.

***

Novamente Telmo senta-se sobressaltado no divã, sob a observação atenta do médico.

— Doutor, eu estou com medo!

— O senhor teve nova alucinação? Não fique com medo, agora o senhor está bem!

— Não doutor! Eu não estou com medo do conteúdo das alucinações (embora quando esteja tendo-as sinta muito medo), mas sim de estar louco! – novas lágrimas brotam-lhe dos olhos.

— Mas afinal, o que exatamente o senhor vê nessas alucinações?

— Elas sempre têm o mesmo teor; eu estou em subterrâneo de um prédio do DOI-CODI, às vezes em uma cela, geralmente em um pau-de-arara, sofrendo torturas. Agora quem apareceu foi o delegado Fleury...

O médico junta as mãos abaixo do queixo, como se estivesse em oração, enquanto faz um muxoxo e leva quase um minuto pensando antes de readirgüir:

— O senhor sabe que a profissão que exerço é quase como um sacerdócio?

— Como assim?

— Bem, é verdade que em geral nos afastamos de Deus (ou pelo menos dessa versão de Deus que o vulgo venera), que não temos sacramentos ou que não oramos aqui, neste consultório, mas a função que exerço é quase como a de um padre em um confessionário; até diria mais: os sacerdotes que escutavam os fiéis e lhes redimiam a culpa são, de certa forma, precursores do trabalho que realizamos!

— Entendo... – diz Telmo, sem entender nada.

— Bem, e assim como no sacerdócio, boa parte do porquê desta técnica médica funcionar está na confiança mútua entre o analista e o analisado.

— O senhor acha que estou lhe ocultando algo? – questiona Telmo, após um breve momento.

— Não, apenas quero afirmar-lhe que o que for discutido nesta sala morrerá nesta sala, o senhor não precisa temer quaisquer represálias sociais ou legais pelo que me relatar de sua vida.

— Sim.

— O senhor não precisa temer expor o que pensa.

— Está bem, eu já entendi.

— Entendeu mesmo? Então me responde uma pergunta.

— Claro, doutor!

***

A dor torna-se insuportável quando um novo chute o atinge nos rins, ele sente o sangue saindo-lhe da boca.

— Por favor – balbucia entre uma golfada do líquido espesso e vermelho – eu não sei nada de terrorismo ou de subversão, sou só um estudante...

— Ah! – diz-lhe Fleury, aproximando a face do único olho aberto de Telmo – então agora o comuna decidiu falar, não é? Vamos! Quero saber o nome do grupo que tu integra, qual o nome pra bosta da célula comuna que vocês puseram agora? MR8? Polop? ALN? VAR-Palmares? PCBR? Fala, caralho! – diz-lhe o delegado, apertando com força o pescoço.

***

— C...Como? – Questiona Telmo, voltando do devaneio.

— Eu perguntei – responde o médico com delicadeza – se o senhor simpatiza com o governo militar...

Telmo sente uma certa apreensão ante a pergunta.

— Que idade você tem? – pergunta o psiquiatra.

— Vinte e cinco.

— Temos quase a mesma idade. Sabe, faz pouco que saí da faculdade...

Telmo começa vagarosamente a seguir a linha de raciocínio que o médico lhe expõe.

— Onde o senhor estudou? – questiona ao doutor.

— UFRJ.

— O senhor estudou no Rio? E o que faz aqui em São Paulo?

— Bem... pode-se dizer que a situação não está muito boa por lá para um estudante que tenha saído na veja em 1968...

— Em um congresso?

O médico limita-se a sorrir.

Telmo recorda vagamente o rosto do outro no congresso da UNE que acabou com todos presos em Ibiúna e sorri.

— Sim, eu acho que lembro de um rapaz bem mais jovem naquela ocasião...

— Pois então! Você sabe como a situação não está fácil para nós que não simpatizamos com o pessoal de verde...

— Ah, isso lá é verdade.

— Você deve estar sob muita, muita pressão!

— Bom, isso também é verdade.

— Muitos amigos desaparecidos, e sobretudo muito medo de que ‘os home’ saibam o que você anda fazendo ou pensando...

— Bom... Não gostaria de comentar sobre isso...

— Eu compreendo, também não gosto de ‘abrir’ para quem não é da mesma organização que eu, mas o importante é que isso explica muita coisa.

— Como assim?

— Bom, há um termo que um psiquiatra americano moldou para o que você está passando, calcado no termo usado na fadiga de estruturas de engenharia; o termo é stress; você já conhece o conceito?

— Não, para falar a verdade nunca ouvi.

— Bem, grosso modo é o desgaste da estrutura emocional por uma constante pressão; é um termo que não é comum mas que, se a sociedade continuar como está vai ser cada vez mais ouvido – profetizou o analista.

— De forma – prossegue – que as alucinações que você está tendo, provavelmente, são uma forma de sua mente lidar com os medos que o senhor está enfrentando, já que o senhor está com uma pressão psicológica equivalente à de uma guerra, provavelmente esteja com uma espécie de trauma de guerra, não me parece que seja esquizofrenia ou algo do gênero, já que o senhor consegue separar o que é realidade do que é alucinação...

— O senhor está dizendo, então, doutor, que eu não estou louco?

— Bem, louco não é um termo que goste de usar e ainda é cedo para um diagnóstico definitivo mas, se o que penso for verdade, o senhor não é mais louco do que eu, e certamente é muito menos louco do que o tempo em que vivemos...

Telmo sorri, pela primeira vez em muito tempo, sentindo-se etéreo, bem e, ao contrário dos últimos dias, sem as dores que lhe atormentam o corpo, embora o rosto do médico esteja cada vez mais desfocado.

***

— Comuna é mesmo tudo frouxo! – diz o policial negro quando o médico de plantão dá o diagnóstico.

— É aquele negócio – diz o policial jovem, tentando parecer durão – se a gente aperta merda ela se desfaz na mão...

— Ah... – diz Flery – Nem liguem, não tem importância. Eu acho que ele não devia pertencer a nenhum grupo importante, deve ser mais um ‘esquerda festiva’ que estava no lugar errado, na hora errada.

— E o que a gente faz com o corpo? – pergunta o policial mais novo.

— Não te preocupa, o Fernandes – responde o delegado, apontando com o queixo para o policial negro – sabe o que fazer.

— Vamos, Souza – diz o policial negro ao policial jovem – esse rapaz tem um bilhete só de ida para o cemitério de Perus...

Sérgio Paranhos Flery observa os outros dois levarem o corpo sem vida do homem que torturara, limpando as mãos em um pano úmido, enquanto medita, sem compreender, sobre o estranho sorriso que o homem estampou no rosto em seus momentos finais.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Daniel San e a sincronicidade

Naquele dia ela chegou atrasada, emoldurada por uma neblina triste, com aparência de fog londrino, linda em sua aura de preocupação com a prova de matemática, enquanto em algum lugar Lulu Santos cantava Apenas Mais Uma de Amor, o que me pareceu estranhamento apropriado, lembrei – mas logo afastei da cabeça – da teoria da sincronicidade de Jung.

“Estudei a tarde inteira”, disse-me com um sorrisinho lindo nos lábios carnudos, que destacou suas covinhas no rosto, apesar da eterna tristeza de seus olhos negros.

“Sei”, disse-lhe eu, “mas acho que não vai ser difícil”.

Começamos uma conversa amena e fomos comprar uma coca, que dividimos usando o mesmo canudo.

Lembrei-me que os colegas logo chegariam e não ficaríamos mais sozinhos, e convidei-a para uma volta pela quadra da escola.

“Somente você”, disse-me ela, “para me convencer a caminhar nesse frio”.

“Preciso do conselho de uma amiga”, disse-lhe.

“Sou toda ouvidos”.

“É que...” e puxei o fôlego, “é que... estou a fim de alguém... alguém muito especial...”

“Ah, seu malandro...” respodeu-me ela, novamente com seu sorriso lindo, mas um pouco tenso, “de quem? Quem é a sortuda?”

“Tu a conheces... bem. O único problema é que tenho receio de dizer para ela, aprecio demais a amizade dela e tenho medo de que ela se afaste de mim, neste caso preferia que ela nunca ficasse sabendo.”

“Ah, vai, fala pra ela, se quiser eu te ajudo. Só se ela for uma débil mental para se ofender. Se tu quiseres eu vou junto e te ajudo.”

“Então”, lasquei, “me ajuda agora...”

“Como assim?”

“Diz pra ti mesmo não ficar brava comigo.”

Ela enrubesceu e baixou os olhos, começando a comentar rapidamente sobre a chuva, a prova, nossa colega inconveniente, o fato da coca-cola estar gelada, até ficar sem fôlego; parecia estar intimamente pensando, decidindo que rumo tomar.

Por fim, não pude mais me conter.

“Seja clara, não rola, né?”

Ela novamente sorriu e meu coração deu um salto.

Beijou-me o rosto e encostou a cabeça em meu ombro.

“Gosto muito de você também”, disse-me, “mas não posso fazer isso com meu noivo”.

Caminhamos juntos, em silêncio, pela neblina em direção ao colégio, pois já estava na hora da aula.

Quando chegamos à porta ela arrematou:

“Mas é muito bom saber que alguém especial gosta da gente”.

Seguimos para a prova e a adrenalina da declaração foi muito bem vinda; fiquei com o cérebro ligadíssimo, quase como na parte boa da fase maníaca e lembrei de toda a matéria, até mesmo a questão que não lembrava por englobar matéria dada em um dia em que estava gripado, mas achava que tinha chutado pro lado certo, grande possibilidade de ter gabaritado a sabatina, mesmo tendo sido o primeiro a entregá-la e sair.

Esperei o ônibus com a certeza de que ela não pegaria o mesmo o que, de certa forma, era bom; não estava preparado para encará-la naquele momento em que um misto de tristeza e euforia me invadia. Chegaram duas colegas, a quem enchi com piadas politicamente incorretas sobre professoras bonitas e colegas inconvenientes, para deleite de ambas, e fui para casa me sentindo mais sozinho do que me sentia em muito tempo.

Comprei uma cerveja, pois naqueles loucos anos 80 menor também bebia, e assisti “Fome Animal” na TV.

Tomei um banho demorado e, por volta das 2h da manhã dormi um sono cheio de sonhos despedaçados.

No dia seguinte, lembrei-me novamente de Carl Gustav Jung ao acordar: Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixo assim ficar / Subentendido / Como uma idéia que existe na cabeça / E não tem a menor obrigação de acontecer, tocava o rádio na cozinha.

Confesso que a melodia aumentou minha solidão.

À tarde fui ao cinema e assisti Karatê Kid, e pensei sobre o fato de Daniel San descobrir, no fim, que podia vencer apesar de todas as chances em contrário; novamente lembrei de Jung.

À noite olhei as estrelas meditando, enquanto racinalizava sobre estar contente comigo mesmo.

Não tinha atingido meu objetivo, não tinha uma namorada mas... era esse mesmo meu objetivo? Ou será que meu objetivo principal era conseguir me declarar, quebrar o bloqueio da timidez, me sentir vivo? Pensei... pensei... e concluí pela segunda opção, já que estava me sentindo muito mais vivo do que melancólico.

“O importante”, conclui, “é que senti que POSSO, que posso superar a timidez, que posso me declarar a uma mulher que me interessa, que tenho ‘culhão’ (com o perdão do termo chulo) para ‘enfrentar’ uma mulher bonita sem gaguejar, sem me atrapalhar com as palavras, sem tremer, e isso era algo que precisava provar para mim mesmo há muito tempo”.

Finalizando, lembrei dos trabalhos de Campbell sobre a influência dos símbolos na psiquê, e assim, fui até a farmácia mais próxima e comprei um pacote de preservativos que pus na mochila: “não sou um ‘macho alfa’ certamente”, pensei com um sorriso, “mas posso erguer o queixo e me encarar o suficiente, quem sabe, para interessar alguém? E se não rolar? Bem, paciência, o importante é que Daniel San não desiste da luta e, no final do filme, até fica com a mocinha!

Mais tarde, dormi tranqüilo e sonhei com covinhas e uma boca carnuda que me beijava.

domingo, 17 de abril de 2011

A importância do Pink Floyd na educação


A bateria de Mason marcava o ritimo, enquanto o teclado de Wright marcava o fundo da música triste; aguitarra de Guilmor, com seus trinados distorcidos emoldurava a voz e o baixo de Waters, que lançava seu brado: No dark sarcasm in the classroom / Teachers leave them kids alone / Hey! Teacher! Leave them kids alone!

Enquanto isso, na tela, crianças marchavam passivamente para o moedor de carne...

A performance do Pink Floyd na ópera-rock The Wall é a mais perfeita representação que vejo de meu tempo escolar.

Não passava de um nerd em luta contra, em minha visão, professor@s mal-preparad@s, intolerantes e autoritári@s.

Hoje rio-me quando lembro que, lá pelos 12 anos, quando meu hobby era entomologia, ao perguntar a uma professora de ciências qual a etimologia da palavra lepdóptero ela me lascou: borboletas! Somente muito tempo depois, quando tive acesso a um livro sobre insetos fiquei sabendo que era ‘asa escamada’.

Ou da vez em que falei sobre Nietzsche com uma professora de filosofia e ela nunca tinha ouvido falar.

Ou quem sabe da vez em que, em uma discussão, troquei propositalmente a palavra parnasiano por parmeggiana e a professora elogiou meu conhecimento.

Mas do que mais me lembro era a eterna ira contra o aluno que ‘queria saber demais’, que ousava discordar de uma afirmação d@ mestre somente por que tinha lido num livro mais atualizado (onde já se viu!) ou do aluno que, desgostoso com o preconceito religioso foi se afastando cada vez mais da escola, até dela desistir.

Em suma, pela opinião que formei nestes anos, penso que tais profissionais podem sim ser chamados de professor@s – eles têm direito a ostentar o título –, mas nunca deverão ser chamados de educador@s.

Ser educador@, para mim, é envelhecer em corpo mas nunca em espírito, é manter sempre acesa a chama da curiosidade infantil, do prazer em aprender, em dividir o conhecimento, é não se acomodar em pedestal de ‘quem tudo sabe’, mas sim ter humildade de dizer: ‘não sei, vou pesquisar e te digo depois’, é orgulhar-se em despertar a curiosidade, é ter prazer em ser superado!

Nesse sentido, quando penso sobre o educar, lembro de um professor de xadrez meu conhecido, aquém nada dá mais prazer do que quando um@ alun@ vence uma partida sem que ele lhe facilite (o que não é tão difícil, pois ele não jogo lá tão bem); ele sente, em suas próprias palavras, o deleite de ter cumprido minha missão, de despertar sua curiosidade, de – mesmo limitado por parco conhecimento –, ter repassado a outro ser humano o pouco que sabe e, acima de tudo, ter lhe mostrado ferramentas com as quais el@ pode, a partir dali, dar seus próprios passos, buscar outr@s mestres mais qualificad@s e, um dia, tornar-se el@ mesmo o mestre.

Por pensar assim, concluo que a eterna formação não deve ser uma opção, mas uma obrigação, um objetivo e, acima de tudo, um prazer para quem realmente quer ser titulad@ como educador@.

Caso contrário, você não passará de um@ professor@ jogando seus alun@s de faces impassíveis no moedor de carne, Ei! Professores! Deixem essas crianças em paz!

O Analfabeto Científico-Tecnológico

O dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht tem um escrito que sintetiza a importância da educação política na formação do cidadão. Diz o texto:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”1.

Apesar das mais de cindo décadas que nos separam da morte do pensador germânico, suas palavras ainda sintetizam magistralmente aquilo que Paulo Freire tão bem definiu como outro tipo de analfabetismo, uma vez que, para o educador, alfabetizar, muito mais do que ler palavras, deve propiciar a “leitura do mundo”2.

Ocorre que em nossos tempos de ‘Revolução Industrial Cibernética’, o texto de Brecht poderia ser adaptado e principiar por “O pior analfabeto é o analfabeto científico-tencológico”.

Tal qual Brecht preceitua, o ‘novo analfabeto’ desconhece a importância do conhecimento científico-tecnológico, sem o qual seu conhecimento de mundo, de estrutura social ou de realidade econômica fica, no mínimo, limitado.

Assim como a alfabetização abre todo um novo mundo de compreensão semiótica através da possibilidade de apreensão do símbolo escrito, a educação científico-tecnológica estende a capacidade de compreensão crítica da realidade social e política e sua consequente transformação em busca da igualdade de oportunidades.

Como, pois, avaliar temáticas atuais e prementes tais como uso sustentável de recursos naturais, poluição, preservação ambiental, biodiversidade, fome, transgênicos, agrotóxicos ou crescimento populacional sem um mínimo de desenvolvimento crítico-reflexivo em CT?

E como haver uma autêntica participação social em temas políticos tais como a privatização de recursos minerais – como o caso da Vale do Rio Doce ou a pretendida venda da Petrobras –, clonagem, células-tronco, liberdade sexual ou direitos e deveres no mundo digital sem, antes, uma educação que possibilite a compreensão básica de tais assuntos?

Mas o dano não para por aí. A própria inclusão social, tão propalada e laborada pelas últimas gestões federais, torna-se inviável sem um mínimo de alfabetização em CT. Conforme palestra proferida pelo frei Sérgio Görgen, em curso da Escola Cristã de Educação Política, em Santa Maria/RS, em 1994: “Fala-se muito e não dar o peixe, mas ensinar a pescar, mas como ensinar a pescar quando o anzol, da noite para o dia, se transforma de um 486 em um Pentium?”

Até mesmo o modelo linear de progresso apresentado por Auler3: Desenvolvimento Científico criando Desenvolvimento Tecnológico que cria Desenvolvimento Econômico que resulta em Desenvolvimento Social, que embora seja um modelo utópico, uma vez que o simples desenvolvimento econômico de uma sociedade não garante seu desenvolvimento social, fica prejudicado graças à nossa falta de educação em CT, parecendo-se mais com o formato: Dependência Científico-Tecnológica que causa Estagnação Econômica, resultando em Desigualdade Social, pois, muito embora nos últimos anos o país tenha se desenvolvido economicamente, a médio e longo prazo creio que não será possível a continuidade de tal desenvolvimento sem um real crescimento tecnológico nacional.

Não podemos nos firmar como nação realmente independente economicamente enquanto nossa economia estiver atrelada à tecnologia de grupos estrangeiros multinacionais. Como afirmar, por exemplo, que detemos uma das mais rentáveis agriculturas do mundo quando nossas sementes de oleaginosas dependem do fornecimento constante de multinacionais? Como, apesar de sermos um dos maiores exportadores, pensar que nossa produção de carne de frango assegurará uma balança comercial estável se as matrizes necessitam ser compradas de empresas que detém a patente da tecnologia genética e a consequente garantia de royalties? Mas, sobretudo, como sair deste círculo vicioso sem um grande, um imenso incentivo à pesquisa científico-tecnológica, e como garantir este incentivo – que depende de pesados investimentos e vontade política – sem uma forte pressão social? E como conseguir esta pressão social quando a imensa parte da população sequer sabe que o problema existe?

Eis, pois, o desafio que se descortina à nossa frente enquanto passamos o futuro às mãos de nossos filhos: Desenvolver as novas gerações de brasileiros em CT, tornar os educandos e educandas em cidadãos e cidadãs com uma visão clara do mundo em que vivem, dos destinos e da realidade, com nítida percepção dos desafios e possibilidades.

É preciso que rompamos o círculo vicioso de pais mal-alfabetizados em CT, que não criam o interesse, professores e professoras mal-remunerados, que se limitam a aplicar o currículo básico e alunos e alunas que fingem aprender apenas para poder chegar a cursar o número mínimo de anos que possibilitem um emprego razoável.

Mas é necessário que a mudança principie em cada um de nós, para que no futuro possamos externá-la e nos tornemos agentes históricos, ao invés de meros objetos, meros peões no xadrez da vida.

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1 – BRECHT, Berthold, http://www.consciencia.net/2004/mes/01/brecht-analfabeto.html

2 – AULER, Décio – “Alfabetização Científico-Tecnológica: Um Novo ‘Paradigma’?” – Pesquisa em Educação em Ciências – Volume 05/Número 01 – Março/2003.

3 – Ibdem.

Tô de volta limpando a casa.


Antes de tudo um 'buenas' a meus poucos leitores.
Foram meses de abandono, o pobre blog estava criando teias de aranha, havia poeira acumulada nos cantos, as janelas estavam sem tinta e caindo e os ratos já tinham tomado conta do prédio...
Mas fazer o quê? É a vida!
Por alguns meses tive uma experiência de 'dona-de-casa', enquanto a patroa fazia um curso, estudei, passei no Enem, ingressei na Universidade (Ciências da Natureza, Unipampa Uruguaiana), li um pouco, assisti uma meia-dúzia de filmes, curti muito rock e blues, fiz duas tatuagens, joguei xadrez, apreciei algumas cervejas, descansei e curti a filharada como nunca tinha podido fazer nessa vida corrida, mas escrever que é bom, nem uma linha...
Neste tempo todo, porém, nunca deixei de pensar com carinho neste espaço (que sequer sei se tem acessos), mas que ainda assim me permite expressar um pouco daquilo que penso e tornar possível que outras pessoas leiam aquilo que escrevo.
Prometo que, daqui para diante, não vou deixar o espaço abandonado e, no mínimo todos os sábados, terei textos novos, comentários, postagens de vídeos e o que mais vier pela frente.
Se você acessou meu blog e gostou (ou não) daquilo que poste, sinta-se à vontade para comentar e para me mandar e-mails (carlos-melo@susepe.rs.gov.br); adoro conversar, trocar idéias e fazer novas amizades, e um dos objetivos deste humilde espaço é justamente conhecer pessoas novas e interessantes.
Até a próxima postagem e um forte 'quebra-costelas', como se diz aqui, neste perdido rincão do Rio Grande do Sul.