sexta-feira, 29 de abril de 2011

Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e as verdades científicas inconvenientes

Meu amigo Finkler se diz frontalmente contra o dito ‘politicamente correto’; segundo ele, sua contrariedade reside, principalmen-te, em que esta nova atitude matou o humor.
“Pense só”, me diz ele, “os Trapalhões, hoje, não conseguiriam aque-las sacadas geniais que nos fizeram felizes nos anos ’70 e ’80, seria um processo atrás do outro”.
Realmente penso que não se faz mais humor como antigamente (talvez eu só esteja ficando velho, lembro de meu avô dizer coisas semelhantes sobre a época dele), mas não sei até que ponto a mesmice e a falta de graça do humor brasileiro dos últimos anos se deve ao politicamente correto e, pra falar a verdade, considero que a perda de programas de humor – por mais que aprecie o humor – é uma perda relativamente pequena se realmente colaborar para um mundo socialmente mais justo, menos preconceituoso, menos agressivo às minorias.
Considero-me um sujeito alinhado com os anseios de meu tempo e, como ateu, não posso aceitar explicações tais como que uma divindade fez a mulher inferior, a partir de uma costela (imagine se tivesse feito do filé...), ou que a atração sexual por pessoas que compartilhem seu par de cromossomos XX ou XY possa ofender a um ser de barbas brancas que fica sentado e julgando cada um de nossos atos. Da mesma forma, não consigo aceitar que adaptações ao clima ou ao habitat tais como a cor da pele, o formato do cabelo e dos lábios ou maior facilidade para adquirir uma camada adiposa (como é meu caso) possam nos tornar seres melhores ou piores, e se o tal politicamente correto realmente colabora com a extinção de todos esses tipos de pré-concepções, então posso considerar que sou adepto de seu patrulhamento ideológico sobre as piadas com estereótipos, embora às vezes me pegue, eu mesmo, contando piadas de teor politicamente incorreto (sabe, por exemplo, aquela do gordo baixinho que... ah, deixa pra lá...).
Tudo muito bem, tudo muito bom... mas há uma face do patrulhamento politicamente correto que me preocupa: o patrulhamento sobre a pesquisa científica.
Talvez eu seja só um romântico, mas às vezes me pego discordando de posicionamentos de autores consagrados, como Roque Moraes, de que é impossível ser neutro, uma vez que:
Todo o questionamento se dá a partir de um olhar teórico já constituído e a pesquisa pretende aperfeiçoar as teorias com que inicia o exame de um fenômeno, mesmo que estas teorias sejam do senso comum.
Quando leio isso, lembro-me logo de Darwin e a Teoria da Evolução. Realmente, Darwin não podia ser considerado neutro; ele estudou teologia, quase se tornou ministro anglicano e seu próprio embarque o Beagle tinha por fim ‘catalogar a criação do Senhor’.
As conclusões a que o naturalista chegou, porém, diferiam tanto de sua pré-concepção, que ele foi obrigado a revê-la e, ao fim da vida, suas pesquisas o tinham afastado definitivamente da fé. Ou seja, ele não mudou o rumo ou as conclusões de sua pesquisa devido à sua visão do mundo, mas sim mudou sua visão do mundo graças às conclusões a que chegou.
Por outro lado, não penso que as conclusões de uma pesquisa, por piores que sejam politicocorretamente falando (tá, o termo não existe, mas dá um desconto, vá!), se forem frutos de uma pesquisa bem estruturada e realizada com rigor científico, no mínimo nos ensinarão estratégias eficientes para combater àquilo que, de outra forma, seria impossível, pois não teríamos conhecimento cientificamente embasado do problema que enfrentamos.
Um exemplo claro, para que possa ser compreendido, é a pesquisa sobre se o estupro, em estágios anteriores de nossa evolução, teve o fim de possibilitar que machos preteridos pelas fêmeas conseguissem procriar ou, em outros casos, que machos pudessem ampliar o leque de distribuição de seus genes ao estuprar fêmeas que não eram suas companheiras ou, ainda, quando sua companheira tinha relações com outros machos (consentidas ou forçadas), a fim de entrar na disputa pela paternidade; segundo tal hipótese, os estupradores modernos teriam em seus genes os mesmos mecanismos que levaram seus ancestrais à violência sexual. Essa análise causa revolta no meio feminista, a ponto de pesquisas na área deixarem de receber verba a partir de protestos.
Ora, nada mais revoltante do que crimes sexuais. Esse tipo de agressão é tão indignante, que até mesmo outros criminosos são propensos a agredir e matar os estupradores; qualquer um que já escutou histórias de cadeia sabe do que estou falando. O crime sexual age sobre aquela que é nossa única propriedade real inconteste: nosso próprio corpo. Compreensível é, pois, a revolta e o rechaço aos agressores sexuais e detalhe algum (roupa provocativa, vida sexual pregressa...) desculpa tais atos.
Mas proibir a pesquisa (embora não uma proibição formal, mas informal pelo corte de verbas e rechaço) parece-me, como definiria Dawkins, ‘atirar no mensageiro’; ou seja, repele-se a pesquisa quando o que deve-se repelir são os criminosos sexuais.
Sun Tzu, estrategista chinês que viveu há mais de 2 mil anos, em seu clássico A Arte da Guerra, ensina-nos: ‘conhece a ti e ao teu inimigo, em mil batalhas não perderás uma’.
No caso desta pesquisa, parece-me que há um certo temor em conhecer o inimigo, em compreender o mecanismo desencadeante da agressão sexual, como se isso amparasse aos agressores, sem ver-se que, ao contrário, conhecendo os fatores desencadeantes de tais atos, pode-se estabelecer estratégias muito mais eficientes de coibição e de proteção a prováveis vítimas.
Outro exemplo é o da pesquisa de células-tronco embrionárias, tão combatido por entidades religiosas.
Argumentam os detratores da pesquisa que uma célula (ou o pequeno grupo de células que forma o embrião) já seria um ser humano.
Ora, se estudarmos um pouco de história, veremos que tal posição ainda se baseia nas primeiras experiências em microscopia, quando Leeuwenhoek observou pela primeira vez o esperma e definiu os espermatozóides como ‘homúnculos’, ou seja, que os gametas sexuais masculinos seriam pequenos seres humanos já prontos, apenas esperando o útero materno que os recebesse e transformasse em um ser humano de tamanho normal.
Deste engano científico vem o rejeite do cristianismo ao aborto e ao uso de embriões humanos em pesquisas, mesmo que estes embriões estejam fadados a nunca se tornarem um ser humano, uma vez que a maioria é descartada, e mesmo que tais pesquisas possam vir a possibilitar que seres humanos já nascidos e com graves problemas possam ter uma vida normal.
Outro rejeite político-correto que me exaspera vem da frontal agressão às teorias de ponta que buscam uma explicação de nossas atitudes sociais e mentais à luz da genética e do darwinismo, sem que haja um real indício de que tais teorias estejam incorretas (muito antes, começam a acumular-se provas que podem levar à sua constatação).
Tal teoria, que tem em seu principal representante Steven Pinker, apregoa que nossa real identidade humana não pode ser compreendida pela cultura ou pela sociedade, mas por nossa estrutura cerebral com uma programação básica inata.
Segundo os detratores da teoria, esta poderia suscitar idéias tais como que o racismo, o sexismo ou a exploração econômica sejam inatos, idéias politicocorretamente inaceitáveis.
Ora, conjeturemos novamente sob a óptica de Sun Tzu:
Se realmente a teoria de Pinker estiver equivocada, a ciência se encarregará de substituí-la, de rejeitá-la através de provas em uma direção contrária; assim aconteceu, por exemplo, com a teoria do Universo Estático, que convencia até mesmo Einstein e que caiu por terra quando se conseguiu provas que a desbancaram.
Mas, e se Pinker estiver certo (ou pelo menos, se estiver na direção certa)? E se realmente o capitalismo, o fato de as mulheres receberem menores salários e a Ku Klux Klan não forem meras invenções sociais, mas sim manifestações de nossa bagagem genética?

Talvez concorde em parte com o Finkler, talvez o dito ‘politicamente correto’ tenha matado o humor, talvez nunca mais tenhamos um quarteto com a qualidade cômica de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, mas é preciso que não permitamos que o politicamente correto mate a pesquisa científica séria, mesmo que suas verdades sejam inconvenientes e choquem nosso ego narcisístico de macacos nus com ilusões divina grandeza.

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