Chico Xavier e os tupinambás

Sabe, é interessante conseguir definir uma palavra, conseguir compreendê-la realmente.
Neste final de semana consegui, depois de 40 anos falando, compreender em toda sua extensão o sentido da palavra Tédio (com um T bem grande pra você, como diria o Renato Russo).
Bom, começo a história com um ditado que diz que o casamento é uma instituição onde um dos dois está sempre com a razão e o outro é o marido...
Olha, não sei se é bem assim, mas o fato de minha mulher ter me convencido a assistir “As Mães de Chico Xavier” no cinema, somente para levá-la, me fez, no mínimo, cético quanto à existência do livre arbítrio marital; some-se a isto o fato de ela estar toda emotiva com o dia das mães e temos a receita explosiva para que o ato de negar-se ir a um evento desses possa resultar em uma noite dormindo no sofá (com toda a dor nas costas que tal repreensão possa representar prum gordinho como eu).
Tá certo que eu arrastei ela para assistir “Os Mercenários” e “Criação”, mas vamos concordar: os dois, pelo menos, dentro de seus respectivos públicos-alvo, eram filmes bem feitos.
Olha, não é preconceito não. Eu assisti o trailer de “Chico Xavier” e conversei com quem assistiu (inclusive meu amigo Finkler, que é agnóstico e não simpatiza tanto assim com o maior médium brasileiro, mas é doente por cinema nacional) e, pelo que parece, é um filme bem feito, bem montado, com um roteiro razoável e atuações boas, além de ter ficado muito interessante a caracterização de Nelson Xavier como o personagem título.
Claro, para mim ainda assim seria chatíssimo assisti-lo, creio que o tempo passaria mais veloz em um tratamento de canal sem anestesia, mas tenho que admitir que, para seu target, o filme parece ser bom.
E quanto a este? Bom, eu o detesto, em primeiro lugar, por tê-lo assistido, e o fiz junto a uma platéia que, embevecida, enchia os olhos d’água com a pieguice do roteiro fraquíssimo.
Em segundo, mesmo para seu público, só com muita boa vontade (ou muita fé) ele pode passar de um filme passável (com o perdão do trocadilho).
O filme tem um roteiro arrastado, no melhor (ou pior, vá lá) estilo romance espírita (como leitor compulsivo, leio até bula de remédio). As atuações podem ser classificadas, usando de muito boa vontade, como sofríveis, algumas beirando o “Prêmio Cigano Igor de Atuação” (quem não lembra da fantástica atuação de Ricardo Macchi repetindo ‘Dara... Dara...’ que levante a mão). Até mesmo a atuação do Lampião, ops, quer dizer, do Nelson Xavier não passou de razoável.
Mas o que melhor define o filme, fora a sentimentalidade excessiva exalando de cada fotograma, é a trilha musical de Flávio Venturini, uma mistura de MPB com música clássica tocada com chatíssimos ‘bom-bom-bom-bom-borom-bom-bom’ vocais, que conseguiram estragar até mesmo Bach (e olha que eu gosto de MPB, música clássica e especialmente de Bach).
Em suma, se você não for espírita ou, como bom brasileiro, ‘chegado’ num sincretismo (o que, certamente, deve garantir uma bilheteria recorde para o abacaxi), desaconselho a película (como se meu conselho valesse alguma coisa), excluindo-se, é claro, os seguintes casos:
  • Insônia,
  • Desejo de, como eu, ter a experiência de conhecer a fundo o significado da palavra tédio,
  • Inveja da minha desgraça,
  • Ser tupinambá e, portanto, chegado num ‘programa de índio’, ou
  • Ter uma esposa espírita que te bota no sofá se você não lhe fizer um agrado.

Comentários

  1. kkkkkkk... Adorei a descrição do filme e os comentários feitos, pude sentir teu tédio, Criação é muito bom, infelizmente não vi Os Mercenários ainda, poxa, não vi estes filme, nem tenho muita vontade de ver, mas acho que devo ver só pra descer a lenha...rs... embora qualquer filme da sessão da tarde juvenil deva ser melhor. Lembrei do Cigano Igor...putz, pior ator que ja vi...rs

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