sábado, 14 de maio de 2011

Meu credo

(Produção textual “Concepções Pessoais sobre Origem e Evolução da Vida na Terra”, da cadeira Universo em Evolução e Evolução da Vida na Terra, Curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, Unipampa, Campus Uruguaiana)



Minha professora de Universo em Evolução e Evolução da Vida na Terra, Diana Salomão de Freitas, em uma aula citou-nos o livro “Escrever é Preciso”, um alfarrábio aparentemente interessante (ainda não o li), que tem seu título parodiado de uma famosa frase de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, dando-nos (a professora) sua acepção sobre a frase famosa, de que o ‘preciso’ teria o sentido de exatidão, e não de necessidade.
Bom, a frase, que nos remete aos Luzíadas, cabe bem em minha concepção sobre a vida na terra, apenas pensando no ‘preciso’ enquanto ‘necessário’ mesmo: Somos um barco carregando genes, que são os reais comandantes, e como tal, é forçoso que naveguemos pela vida, cumprindo nossa faina de nascer, crescer e passar adiante os ditos genes. Quanto ao viver? Não é biologicamente mais necessário do que o ato de repassar nossa carga genética adiante.
Experiências com mais de 50 anos conseguiram reproduzir em laboratório, a partir dos gases que teoricamente compunham nossa atmosfera primitiva e descargas elétricas, pequenas cadeias de aminoácidos, o que pode indicar uma real possibilidade de que a origem das primeiras cadeias de moléculas biológicas ter-se dado de uma forma semelhante, a partir de reações químicas precipitadas por descargas de raios em nossa atmosfera ainda jovem e isenta de oxigênio (já que ainda não existiam plantas para liberá-lo), o que teria oxidado os ditos aminoácidos. Segundo Dawkins (1976)[1], sob a influência posterior de energia, como a luz ultravioleta do Sol, elas se combinaram em moléculas maiores. Em algum momento nessa formação aleatória de moléculas, formou-se uma molécula notável que auto-replicou-se, passando às suas cópias a mesma capacidade.  
Em minha concepção, tais moléculas já são vida. Seguindo esta linha de raciocínio, inclusive, Stephen Hawking afirma que a primeira forma de vida criada inteiramente por seres humanos são os vírus de computador, que possuem as características acima descritas[2].
A partir daí, se seguirmos o raciocínio darwinista (baseado principalmente em Malthus) amplamente aceito pela ciência, vemos cadeias auto-replicantes que pouco a pouco invadem a terra a ponto de, em algum momento, faltar o alimento para todos, e enquanto milhares destas cadeias voltam a seu estado de estruturas químicas originais, alguma delas tiveram um pequeno erro em sua cópia, que lhe possibilitou, por alguma razão, ter vantagens na hora de conseguir alimento e, assim, prevalecendo sobre as demais.
Eis nossa história: somos frutos basicamente de erros sucessivos das cópias, através de bilhões de anos, destas cadeias genéticas que, com o tempo, se aglomeraram, viraram células e depois organismos cada vez mais complexificados, sempre prevalecendo a lei da sobrevivência do genótipo que possibilita um fenótipo mais adaptado ao meio, não necessariamente o mais forte ou mesmo ‘sofisticado’ como o pensa o senso comum, uma vez que as bactérias, com seus bilhões de anos sem grandes transformações fenotípicas, por exemplo, podem ser consideradas, evolutivamente, um sucesso muito maior do que as poucas centenas de milhares de anos dos homnídeos.
Como nossa própria estrutura geológica é instável, com constantes mudanças climáticas e espaciais, e como os erros de cópia de aminoácidos são constantes, gerando os mais diversos efeitos fenotípicos – a grande maioria desvantajosa, mas em alguns casos vantajosa –, os seres seguem se adaptando e readaptando, sendo que uma mesma característica pode ser positiva ou negativa, dependendo do caso.
Um bom exemplo disso é a anemia falciforme, característica de algumas populações africanas, que causa grandes problemas de fraqueza física, sendo teoricamente uma desvantagem mas que, na suposição de uma infestação mundial de malária, se nossa ciência médica não fosse desenvolvida o suficiente, poderia ser a única população humana a sobreviver, uma vez que a malária não consegue fixar-se nas hemácias com forma de foice, característica fenotípica que define o mal.
E assim prosseguimos em nossa faina de meras máquinas de replicação de genes, em um continuum que, creio, durará enquanto durar a vida nesse nosso pequeno e perdido planeta à borda de uma galáxia solta em uma imensidão cósmica.
Desta forma, embora alguns tentem derrubar a Teoria da Seleção Natural das Espécies, de Darwin, está é, em sua base, amplamente aceita no meio científico, e se hoje há embates entre cientistas que baseiam suas concepções em evidências, estes embates são mais sobre detalhes do que propriamente sobre a Teoria da Evolução, são ‘sub-ramos’ ou ‘sub-classes’ desta, revendo principalmente fatos aos quais era impossível chegar-se com a tecnologia da Era Vitoriana em que viveu o naturalista inglês.
Ao contrário de derrubá-la, as mais recentes pesquisas em genética – ponta-de-lança da modernidade científica – têm corroborado as principais conclusões de Darwin e fortalecido, ainda mais, este que, a meu ver, foi um dos maiores passos na história do conhecimento humano.
Quanto ao criacionismo, vertente principal de oposição ao darwinismo, não passa de uma tentativa desesperada de manter a fé religiosa frente à avalanche de descobertas científicas que, se não provam a inexistência de Deus (algo desnecessário, uma vez que, segundo uma das regras da lógica, o ônus da prova recai sobre quem faz a afirmação), ao menos tiram a necessidade de sua existência para explicar a vida. O darwinismo é, com certeza, uma das maiores ameaças à fé, não é à toa que a esmagadora maioria dos biólogos, em pesquisa recente citada por Dawkins[3], se declararam ateus.
Ora, a concepção científica sobre a origem da vida aponta uma explicação – se não definitiva, até pela natureza da ciência em si – ao menos satisfatória para o problema da origem da vida.
A visão religiosa, ao contrário, se não é propriamente algo negativo em si – especialmente em sua origem, já que, com os meios de que a humanidade dispunha então para sua pesquisa, era uma forma satisfatória de explicar, de ver e de buscar compreender o mundo que nos cerca –, não faz mais sentido no mundo atual, pois não resiste ao impacto de uma pesquisa científica bem estruturada, bem como não consegue passar pelo crivo da lógica.
Apesar do respeito que devemos ter para com quem crê em tais teorias (contanto que também sejamos respeitados), não podemos levá-las a sério cientificamente falando e, apesar de toda a carga moral com que as histórias religiosas possam nos agraciar, elas não são mais do que um conjunto de lendas, por vezes belos, mas totalmente mitológicos, especialmente no que tange a origem da vida, a ponto de vários dos maiores líderes religiosos do mundo, hoje, aceitarem amplamente a teoria evolucionista, apenas ressalvando o ‘dedo de Deus’ no processo. 
Assim, se não vejo a religião como mal em si, compreendendo que cada um deve ser livre para cultuar a sua, não vejo como positivo quando esta tenta se imiscuir ou vetar, tanto a pesquisa, quanto a divulgação de fatos ou teorias científicas, ao mesmo tempo em que não sou contrário a linhas de pesquisa científica que possam embasar as teorias religiosas, desde que estas se baseiem em fatos, não em textos religiosos ou, como a charge abaixo bem aponta:




[1] DAWKINS, Richard, O Gene Egoísta, tradução de Rejane Rubino, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[2] A frase de Hawking foi: “Acho que vírus de computador deve contar como vida. Creio que dizem algo sobre a natureza humana que a única forma de vida que criamos até agora é puramente destrutiva. Nós criamos vida à nossa própria imagem.”
[3] http://ateus.net/videos/ateismo/sobre-o-ateismo-militante/

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