Macaquinhos muito bem remunerados

Ilustração: Mauro Souza e Chris Borges
Quem nunca pagou um mico na vida aí que levante a mão!
Situações embaraçosas acontecem com todo mundo. Sabe aquele lance de ver uma mulher que não avistava há tempos, constatar que ela está com uma barriga grande, perguntar se ela está grávida e ela responder que não, mas que vai fazer regime? Pois é, desse tipo de coisa que falo.
Mas se a situação, vez ou outra, acontece com todos, ela parece ter certa preferência por algumas pessoas, e uma destas pessoas é, certamente, minha mulher, a ponto de, nas reuniões de família, seus ‘micos’ serem pauta à exaustão.
Tem uma famosa vez, por exemplo, há muitos anos, quando nosso primeiro filho, hoje com 17 anos, ainda era bebê de colo e fomos a um casamento. Puseram-nos em uma mesa junto a outro casal (desconhecido) e minha mãe. A outra mulher, que também tinha um rebento no colo, passou a tagarelar com a minha e logo descobriram algo em comum: o nome das duas crianças era Gustavo.
Minha mulher ficou feliz, afinal, fora ela quem escolhera o nome (não consegui convencer de jeito nenhum a colocar Charles, em homenagem a Darwin, ou Carl, por causa do Sagan), e então lascou, tentando elogiar a própria prole e, por extensão, a prole da outra:
— Os Gustavos são todos uns gatinhos.
A mulher, ao contrário de sorrir, contraiu o cenho e lascou:
— Os meus são.
Encerrando o assunto, enquanto minha mãe, que já conversara com o marido da outra mulher, cochichou ao ouvido da minha: “Leila, o marido dela também é Gustavo”. Dali para frente foi uma noite tensa, em que a outra mulher não tornou a sorrir.
Tenho que reconhecer, minha mulher até que não é muito de falar, mas quando o faz é muito espontânea, sem pensar bem no que diz; às vezes eu opino a ela que ela pensa com a boca. Por isso, especialmente na rua, sempre cuido em volta para ver se não estamos entrando em uma situação embaraçosa.
Teve a vez, por exemplo, que andávamos na rua com meu filho do meio, o Arthur (deste fui eu quem escolheu o nome, pois recém tinha lido Cornwell); ele tinha uns três anos e recém tinha tomado uma coca, de cujos gases rapidamente lhe subiram à boca, emitindo um sonoro arroto.
— Porco! – exclamou minha mulher, para corrigi-lo, ensinar-lhe boas maneiras, olhando em seguida para a frente e dando de cara com um brigadiano lhe olhando atravessado, tentando avaliar se aquele ‘porco’ não era alguma alusão mal-intencionada a ele.
Outra vez, vínhamos com minha filha menor, a Grainné, e esta viu um objeto brilhante no chão, se abaixando, com sua curiosidade infantil, para pegá-lo. Nova reprimenda:
— Menina, só porco mexe no lixo!
Tive certeza antes de olhar; pouquinho atrás vinha uma família de catadores, e novamente tive que sorrir sem graça ante olhares desaprovadores.
Noutra vez, estávamos em uma confraternização de dia das crianças num salão. Meu sobrinho, que devia ter uns sete anos, criava um vira-latas que era grudadíssimo com ele; onde ele ia o tal cachorro ia atrás, a ponto de esperá-lo na frente da sala de aula.
Neste dia, com a festinha correndo solta, o cachorro toda hora entrava no salão e toda hora ela o corria, começando a ficar enfezada com o bicho.
Lá pelas tantas, ela correu o cachorro e viu um homem sentado, no saguão que dava acesso ao salão onde estavam as crianças.
— Moço – diz ela – tenha dó, só eu corro esse bicho, da próxima vez que ele entrar, vê se faz o favor de levantar e botar ele pra correr.
O tal moço a olhou sem dizer nada e ela voltou para o salão um pouco contrariada. Pouco depois, saiu novamente para correr o cachorro e qual não foi sua surpresa ao constatar que o rapaz com quem falara estava sendo colocado em uma cadeira de rodas; ele fazia pouco tinha se operado da coluna e não conseguia mexer nada além da cabeça...
Há dezenas de outros exemplos, tantos que poderia escrever um livro, não uma crônica, mas um dos meus preferidos foi uma vez que tínhamos assistido a um filme trash, onde o cara tinha um filho monstruoso. Vínhamos pela rua empolgados, comentando o tal filme e, quando passávamos pela frente de uma casa, onde uma menininha de uns três anos brincava, minha mulher lascou sobre o filme:
— Mas que criança feia!
Uma senhora idosa, possivelmente avó da criança que brincava, tendo pegado somente a frase solta se ofendeu muitíssimo e saiu xingando:
— Feia é tua bunda, f.d.p. – e outros impropérios que não me atrevo a reproduzir aqui...
Ainda assim, mesmo depois de 18 anos vivendo com esta pagadora de micos inveterada, ainda não me arrependi de estar casado com ela; talvez porque eu também não me escape e, de vez em quando, também tenha meus deslizes em micagens. O fato mais significativo ocorreu quando ainda era solteiro, uma vez que meus pais viajaram (eu devia ter uns 17 anos) e fiquei sozinho em casa.
Convidei uma garota da escola para ir lá em casa olhar um filme (naquela época nem todo mundo tinha vídeo-cassete), e a desculpa colou!
Fui então à locadora e me demorei uns bons 45 minutos escolhendo o filme, até optar por uma comédia romântica açucarada (teria levado algo no estilo O Exterminador do Futuro, mas achei que ela não iria gostar, e a intenção, afinal, era agradá-la). Em seguida, na maior das “más intenções”, fui ao setor de filmes adultos para escolher algo caso conseguisse o clima que desejava.
“Filme pornô é tudo igual”, foi o que pensei na hora, e peguei o primeiro da prateleira.
Sucesso! A noite começou romântica, bebemos um tinto chileno e assistimos a tal comédia romântica sentados no sofá, começando por pegar da mão e terminando em um beijo tórrido. Ao final do filme disse-lhe marotamente: “Agora vou colocar algo más caliente”; ela me respondeu com um sorriso de aprovação.
Pus então o filme no vídeo e, para minha surpresa, ele sequer tinha letreiros de introdução, já começava em uma academia com um cara sarado dando o maior amasso em uma guria que já estava com os seios de fora. “Começou bem”, pensei eu, já sentindo que a noite prometia.
O cara do filme, então, foi descendo com a boca, descendo, descendo, e tirou a calcinha da menina; surpresa!!! O pênis da ‘moça’ caiu próximo ao joelho, estragando de uma só tacada minha noite e minha reputação.
Mas o pior foi no outro dia, quando fui devolver o filme, uber-super-ultra-mega-constrangido e entreguei-o ao dono da locadora, um senhor de uns 50 anos que pegou a fita com um olhar sacana.
— Peguei o filme errado – tentei explicar.
— Sei – comentou ele, com um sorriso condescendente – muita gente leva este filme enganado...

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