A Vingança dos Nerds

Quero começar este texto sobre o Dia do Orgulho Nerd com uma afirmação: Eu não sou nerd. Entretanto, como tenho vários amigos que o são, hoje vou falar um pouco desta data.
Em 25 de maio de 1977 estreou nos cinemas americanos Guerra nas Estrelas, primeiro filme de uma franquia que é um dos símbolos da cultura nerd e que rendeu bilhões para o igualmente CDF (como se chamava no meu tempo) George Lucas. Tive o privilégio de assistir à fita em 1977, com sete anos, junto com meu pai, no Cine Avenida, em Uruguaiana.
Em um outro canto da galáxia, uns anos depois, o inglês nerd e ateu Douglas Adams lançava O Guia do Mochileiro das Galáxias, série de cinco livros que trata com muito bom humor questões filosóficas profundas (embora às vezes não pareça na primeira leitura). O guia que dá título à série seria um manual para os viajantes interestelares, e um de seus conselhos é o de que sempre se deve portar uma toalha, pois esta seria imprescindível para o mochileiro nas mais diversas situações. Aliás esta é, seguramente uma de minhas séries de livros favoritos.
Da união da data com a toalha de dois dos maiores fenômenos pops nasceu o Dia do Orgulho Nerd, ou Dia da Toalha, data em que nerds de todo o mundo usam uma toalha (das mais diversas e criativas formas), simbolizando a afirmação de sua nerdice e seu orgulho por esta situação.
Situação bem diferente de quando eu era criança e os nerds eram aqueles sujeitos isolados socialmente, com poucos amigos, que dificilmente conseguiam uma namorada, que liam avidamente, que colecionavam quadrinhos, selos, insetos, figurinhas e o que mais viesse pela frente, que eram fãs de Isaac Asimov, que eram alvo de chacota e (às vezes) de surras dos outros colegas, situações todas muito minhas conhecidas na época, o que me levou às artes marciais (somente para defesa, Daniel-san, como diria o senhor Miyagi).
Mas o que mudou foram os nerds ou a sociedade? Segundo entrevista concedida pela especialista em comunicação e cultura Lia Amancio ao G1:
“O nerd não mudou. Ele continua sendo aquele cara completamente ligado e entendido sobre certos assuntos, como tecnologia e quadrinhos. O que mudou foi a cultural atual, que valoriza isso. Os nerds querem ser nerds e as pessoas querem ter nerds por perto”.
Ainda segundo a matéria, tal mudança teria vindo no rastro do sucesso de nerds notórios tais como Bill Gates e Steve Jobs, o que criou o lema “trate bem o nerd hoje, você pode estar trabalhando para ele amanhã”.
Brincadeiras à parte, a cultura desta tribo se espalhou e hoje é fácil ver Homem de Ferro, Thor, Homem Aranha, O Senhor dos Anéis ou a série The Big Bang Theory sendo citadas até mesmo por quem nunca foi tão CDF assim. Eu particularmente já gostava dos quadrinhos e adoro a obra de Tolkien, além de ser fã incondicional de Leonard, Sheldon, Raj e Wolowitz e achar a Penny um tezão. Não esqueçamos também da excelente e pouco conhecida (no Brasil) The IT Crowd, sobre nerds que trabalham no setor de Tecnologia da Informação de uma empresa, série da qual também sou fã.
Ser nerd virou “chic”, virou fenômeno de mídia, o que tem, pelo menos levado a uma maior socialização deste povo. Hoje eles têm seus blogs, seus programas na TV (vide o caso de PC Siqueira), estão na política e até mesmo já governaram a potência mais poderosa do mundo (Bill Clinton é nerd de carteirinha).
Outro fator que contribuiu sobremaneira para a ascensão social dos nerds foi a popularização dos microcomputadores, que antigamente eram coisas de CDFs, com basic, cobol, DOS, assembly (coisas com as quais eu me divertia nos anos ’80), e que hoje, graças a interfaces mais amigáveis, são acessados pela maioria das pessoas; entretanto, o ‘povo esquisito’ se tornou cada vez mais disputado para tarefas tais como instalação ou configuração, ou mesmo para aquele conselho amigo no novo software (às vezes até mesmo para compreender a diferença entre software e hardware). Sei destas coisas por que trabalhei como programador e em assistência técnica de hardware e software nos anos ’80 e ’90, além de auxiliar um amigo necessitado vez ou outra.
Entretanto, creio que o melhor subproduto desta aceitação seja, usando um termo mais darwinista, o favorecimento na seleção sexual; pois se antes os nerds eram motivo de piada, hoje são vistos como os ‘gatinhos’ da vez (o nerd de hoje é o  bom marido de amanhã, diz a banda nerd Seminovos), além de hoje ser bem mais comum ver-se garotas adotando o estilo e afirmando-se nerd.
Parabéns, pois, à tribo dos nerds por sua data comemorativa, recebam o abraço virtual deste vosso amigo e admirador, ainda que não pertencente ao ‘povo esquisito’.
Mas...
Espere um pouco... 
Fã de Star Wars, quadrinhos, Senhor dos Anéis, The Big Bang Theory, The IT Crowd... Colecionador de selos, quadrinhos e insetos... esquisito que era rejeitado e apanhava dos colegas na aula... Aquele que nunca soube jogar futebol... Ex-programador e viciado em computadores (desde o CP 400)... Leitor inveterado de Bernard Cornwell, de história, de ciências, de filosofia e até de bula de remédio... Blogueiro... Aspirante a escritor... Alguém que senta na frente da aula da faculdade e que ama estudar... Santo Darwin! Eu sou nerd! Rápido, alguém tem uma toalha pra me emprestar?

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