Lição de tolerância

Quando a professora chegou à aula naquele dia estávamos em ebulição. Bulling, embora não tivesse esse nome naquela época, era um fato muito mais corriqueiro do que agora, uma vez que tinha a aceitação do fato consumado, de “o mundo é assim mesmo”.
Ela nos olhou contraindo o cenho, indicando que não estava para brincadeiras, colocando-nos em nosso lugar de aluno, seres inferiores a serem conduzidos como tropa pela professora que não permitia contestação, mormente naqueles tempos de ditadura militar.
Olhei-a nos olhos sem desafio, tentando compreender o que ela queria nos passar com aquele semblante carregado, ela me olhou como se não me enxergasse e explicou-nos:
— Como a professora de vocês está doente, de laudo, eu sou a nova professora de religião.
A turma ficou em suspenso. A antiga professora, pelo menos, demonstrava-se simpática em seus ensinamentos inúteis sobre céu e inferno; a nova, apresentava-se como Tomás de Torquemada pronto para a guerra pela fé.
— Sobre o que vocês falavam? – questionou-nos, querendo saber onde a antiga professora tinha parado.
— Na última aula – informou um colega – a professora falava sobre a bondade de Deus.
— Bom. – aprovou sinteticamente a nova docente, passando então a discorrer sobre o mesmo tema de como Deus é bom, como é justo e essas coisas de professora de religião. Em dado momento, logo após ter comentado sobre as maravilhas do céu, perguntou-nos se todos eram católicos, pedindo para que os que fossem levantassem a mão. Mais de dois terços da aula o fizeram.
Ela, então, passou a explicar-nos que não importava se éramos católicos ou não, pois Deus é um só, podendo ser adorado das mais diversas formas.
Então a Samira, minha colega de origem árabe, decidiu se manifestar:
— Mas professora, se Deus é um só e pode ser adorado de diferentes formas, por que é que eu tenho que agüentar a gozação dos colegas por ser muçulmana?
— O quê? – quis saber a mestra indignada, passando novamente seu olhar de inquisidor-mor pela turma – Vocês estão criticando alguém por não ter a mesma fé de vocês? Vocês sabem como se chama isso? Não? Se chama discriminação, preconceito, algo muito, muito feio; algo que deveria envergonhar vocês! Sabiam que Deus tem um lugar especial no inferno pra pessoas que discriminam?
Apesar da incoerência lógica de Deus-é-o-melhor-cara-do-mundo x Deus-tem-um-cantinho-no-inferno-pra-você, a professora subiu consideravelmente em meu conceito, afinal, ela estava se manifestando contra o preconceito religioso! Quanto tempo já fazia que eu, então com 15 anos, batia contra isso? Uns dois anos talvez.
Com a mais pura inocência da juventude disse-me: “ah, que se lixe, ela pode ser religiosa mas parece ser uma pessoa acima dessas questões de posicionamento filosófico”. Ergui a mão para falar (no meu tempo se fazia isso, não se atropelava quem estava falando ou, como diziam-nos, “quando um burrinho fala o outro escuta”).
Ela virou para mim os olhos de inquisidora, ainda irritada com o preconceito contra a Samira:
— Professora – disse-lhe, quando me autorizou – também tenho esse problema, os colegas pegam no meu pé por não ser da religião deles.
Vi seu olhar se abrandar, até mesmo um fundo de pena por essa pobre alma atormentada que, embora não seguisse a mesma religião que ela, ainda tinha esperança de salvação:
— E qual a religião que você pratica, meu filho?
— Sou ateu.
O olhar de Torquemada voltou com força, parecendo querer furar meus olhos e, desta vez, acompanhado do avermelhamento do pescoço onde uma artéria começou a latejar:
— Ateu? Somente alguém muito burro, muito estúpido não acredita em Deus! Sabia, turma, que no inferno tem um caldeirão especial pros ateus?
A risada e o escárnio da turma foi geral. Sim, eu tinha me enganado, a tolerância dela tinha limite e esse limite era a descrença.
Um tempo depois, analisando o episódio, aprendi uma dura lição que levei pro resto da vida: nunca posso esperar que alguém que crê, não importando sua religião ou o quanto é esclarecido, vá defender meu direito ao livre pensamento, devo eu mesmo fazê-lo.
Naquele momento, porém, tive somente uma certeza: aquele seria um loooongo ano...

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